(_Variante de Lisboa_)
--Eu vinha do mar de Hamburgo
N’uma linda Caravella;
Cativaram-nos os mouros
Entre la paz e la guerra.
Para vender me levaram
A Salé, que é sua terra,
Não houve mouro, nem moira
Que por mim nem blanca dera;
Só houve um perro judio
Que alí comprar-me quizera.
Dava-me uma negra vida,
Dava-me uma vida perra:
De dia pisar esparto,
De noite moêr canella,
E uma mordaça na bocca
Para lhe não comer d’ella.
Mas foi a minha fortuna
Dar com uma patrôa bella,
Que me dava do pão alvo,
Do pão que comia ella.
Dava-me do que eu queria,
E mais do que eu não quizera,
Que nos braços da judia
Chorava, que não por ella.
Dizia-me então: «Não chores,
Christão, vae á tua terra.
--Como me heide eu ir, senhora,
Se me falta la moeda?
Se fôra por um cavallo
Eu uma egua te dera,
Se fosse por um navio
Dar-te-hia uma galera.
--Não fôra por um cavallo,
Não fôra, senhora bella,
Que está longe Mazagão,
Ceuta tem voz de Castella.
Nem por navio não fôra,
Que eu fugir não quizera,
Que era roubar a teu pae
Dinheiro que por mim dera.
«Toma esta bolsa, christão,
Feita de seda amarella;
Minha mãe quando morreu
Me deixou senhora d’ella.
Vae-te, paga o teu resgate,
E ás damas da tua terra.
Dirás o amor da judia
Quanto vale mais que o d’ellas.
Palavras não era ditas
O patrão que era chegado:
--Venhaes embora, patrão,
E vinde com Deos louvado,
Que agora recado tenho
De que chega o meu resgate.
--«Christão, christão, que disseste!
Olha que é muito cruzado!
Quem te deu tanto dinheiro
Para seres resgatado?
--Duas irmãs m’o ganharam,
Outra m’o tinha guardado;
E um anjo do céo m’o trouxe,
Um anjo por Deos mandado.
--«Dize-me, oh christão, dize
Se queres ser renegado?
Que te heide fazer mouro,
Senhor de todo o meu estado.
--Eu não quero ser judio,
E nem turco arrenegado,
E não quero ser senhor
De todo esse teu estado,
Porque trago no meu peito
A Jesus crucificado.
--«Anda cá, oh filha Angelica,
Dize-me cá, filha amada,
Se é pelo christão maldicto
Que ficaste desgraçada?
«Meu pae, deixe o christão, deixe
Que elle não me deve nada;
Deve-me a flor de meu corpo,
Mas de vontade foi dada.
Mandou fazer uma torre
De pedraria lavrada;
Que não dissessem os mouros:
A judia é deshonrada.
«Viola, minha viola,
Fica-te aqui pendurada;
Que os amores da Judia
Vão por essa agua salgada.