(_Lição manuscripta do seculo XVII_)
--Mi madre era de Hamburgo,
Mi padre de l’Antequera,
No hubo perro, ni mouro
Que por mim ni blanca dera;
Si no um perro Judio
Que alcançar-me não debera.
Daba-me una vida mala,
Daba-me una vida perra,
De dia a moêr esparto,
De noche a pizar canella,
Com uma mordaça na bocca
Para lhe não comer d’ella.
Quiz Deos e Santa Maria
Dar-me uma Ama tam bella;
Quando perro ia a caçar
Cataba-me na cabeza.
Daba-me a comer pan blanco
Del que El-Rey Moro comia,
Daba-me a beber bon vino
Del que El-Rey Moro bebia.
Muitas vezes me decia:
«Christiano, vae p’ra tu tierra.
--Como me heide ir, mi señora,
Dexar una Ama tam bella!
«Mais vale tu liberdade,
Que amores em terra alheia.
--Como me heide ir, mi señora,
Se me falta la moneda?
«Mete a mão en tu faltriquera,
Docientos dobrões te dera,
Cento para teu resgate,
Cento para tua terra.
--«Vem ali, oh Christiano,
Quem te dió tanta moneda?
--Fue un vecino mio
Venido de minha tierra.
--«Queres tu, oh Christiano,
Seres Mouro arrenegado?
Dera-te os mais lindos olhos
Que em Argel foram criados.
--Como me tornarei Mouro,
E Mouro arrenegado,
Se eu já tenho em mi pecho
A Jesus crucificado?
--«Se eu soubera, Christiano,
Que eras assim avisado,
Em dias de tua vida
Nunca fôras resgatado.
«Oh, mi padre, oh mi padre,
Dexe ir el Christiano,
Que el no me deve nada,
Debe-me a flor de mi bocca,
Dou-lh’a por bem empregada.
42