Romance da Noiva roubada

(_Versão de Almeida_)

--Deos vos salve minha tia,

Na vossa roca a fiar!

«Venha embora o cavalleiro

Tam cortez no seu falar.

--Má hora se elle foi, tia,

Ma hora torna a voltar!

Que já ninguem o conhece

De mudado que hade estar.

Por lá o matassem mouros,

Se assim tinha de tornar.

«Ai sobrinho de minha alma,

Que és tu pelo teu falar!

Não vês estes olhos, filho,

Que cegaram de chorar?

--E meu pai e minha mãi,

Tia que os quero abraçar?

«Teu pai é morto, sobrinho,

Tua mãi foi a enterrar.

--Que é da minha armada, tia,

Que eu aqui mandei estar?

«A tua armada, sobrinho,

Mandou-a o fronteiro ao mar.

--Que é do meu cavallo, tia,

Que eu aqui deixei ficar?

«O teu cavallo, sobrinho,

El-rei o mandou tomar!

--Que é da minha dama, tia,

Que aqui ficou a chorar?

«Tua dama faz hoje a boda,

Amanhã se vae casar.

--Dizei-me onde é minha tia,

Que me quero lá chegar.

«Sobrinho não digo, não,

Que te podem lá matar.

--Não me matam, minha tia,

Cortezia eu sei uzar.

E onde faltar cortezia

Esta espada hade chegar.

--Salve Deos, oh la da boda,

Em bem seja o seu folgar!

--«Venha embora o cavalleiro,

E que se chegue ao jantar.

--Eu não pertendo da boda,

Nem tam pouco do jantar;

Pretendo falar á noiva,

Que é minha prima carnal.

Vindo ella lá de dentro

Toda lavada em chorar,

Mal que viu o cavalleiro,

Quiz morrer, quiz desmaiar.

--Se tu choras por me veres,

Já me quero retirar;

Se é os teus gastos que choras,

Aqui estou para os pagar.

«--Pagar devia com a vida

Quem me queria enganar,

Quando te deram por morto

Nessas terras d’alem-mar.

Mas que fiquem com a boda,

E bem lhes preste o jantar,

Que os meus primeiros amores

Ninguem m’os hade quitar.

--Venha juiz de Castella,

Alcaide de Portugal;

Que, se aqui não ha justiça

Co’ esta espada a heide tomar.

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Romanceiro geral · 第 17 / 84 题