XVI

E eu meditava em silencio, e o meditar era amargo para o meu coração.

Subito senti um ruido remoto, semelhante ao ruido de bosque sacudido

pelo vento e granizo.

E divisei por entre os cyprestes um vulto, que se approximava da

clareira onde estava a sepultura, e as suas passadas, posto que

apressadas, soavam como se fossem de pés de bronze.

E chegou. Fitando os olhos no vulto, descortinei uma figura humana de

desmesurada altura.

A sua cabeça tinha muitas faces e muitos olhos: do tronco saía-lhe uma

grande multidão de braços.

E com todas as suas linguas proferia palavras immundas e blasphemas, e

maldizia a religião e a justiça.

E vinha salpicado de sangue.

E parou diante do monumento.

Ficou immovel por algum tempo; depois, como excitado por um accesso de

raiva infernal, procurava aluir o sepulchro.

Mas a immutabilidade do passado era a immutabilidade delle. Tinha-o

posto alli a mão de Deus.

Então o vulto começou a raspar a inscripção, mas as letras cada vez mais

se avivavam. Lá do intimo soou um longo gemido.

E o vulto soltou uma praga tremenda, e transpoz a borda do sepulchro; e

estava em pé dentro delle.

E começou a afundar-se nas trevas; e estendendo os braços, os braços lhe

ficavam hirtos.

E nos olhos, que até alli chammejavam furor, já fluctuavam lagrymas de

homem que morre.

E descia, e descia!

E quando a fronte lhe topetava com a borda, a campa escapou das mãos do

anjo, que trabalhava por sustê-la, e cahiu dando um som profundo.

E a face do sepulchro, abaixo da inscripção, tingiu-se de negro até o

rez da terra.

E as ultimas palavras, palavras de esperança, converteram-se em outras

tão horríveis, que a minha lingua não ousa proferi-las.

E a visão desappareceu.

Opúsculos por Alexandre Herculano - Tomo 01 · 第 49 / 87 题