Lá estava tambem o monumento da nossa patria.
E nelle repousavam os cadaveres de muitos seculos.
E a historia de cada um destes lia-se na face da pedra, escripta pela
mão do archanjo que velava o sepulchro e que forcejava por suster a
campa, que já pendia, como para os encubrir á luz.
E esta era a lenda sepulchral:
Deus escolheu para si a nação do extremo occidente, e a benção do
Altissimo desceu sobre o berço della.
E passou glorioso o primeiro seculo da sua existência, rico de combates
e victorias: elle herdou ao seguinte a cruz plantada nos coruchéus dos
alcorões, e uma raça valente e virtuosa, que defendesse a terra
conquistada.
«De incremento e prosperidade foi o segundo seculo; e posto que ahi
houvesse dias de turbação, o povo cresceu; porque o Senhor o abençoava.
E na terceira era soou em paiz extranho uma voz que falava de servidão.
O povo português lançou mão da espada e da lança, e em vinte combates
provou a sua independencia, e que o Deus dos exercitos fora o Deus de
seus paes.
E na quarta era chegou a idade viril da republica: a sua estatura
assemelhava-se á de um gigante, os seus braços aos de um athleta.
E na quinta ella estendeu a mão para o oriente, e aferrando centenares
de povos, metteu-os debaixo dos pés.
Então commetteram-se crimes, a corrupção estendeu-se, e a face do Senhor
turbou-se.
Aqui na inscripção seguia apenas um nome de poeta, o depois uma longa
beta negra. Esta significava que de infamia e servidão fora a sexta
idade da republica.
E a lenda tumular proseguia:
Surgiu um dia o povo, e quebrando os grilhões que tyrannos estranhos lhe
haviam lançado, açacalou de novo a sua espada esquecida, e combateu
quasi um seculo.
E recobrou a independencia, senão a liberdade.
D'aqui ávante, falava o letreiro de existencias e de largos annos; mas
de existencias sem gloria, e de annos semelhantes apenas á decrepitude
de homem que foi robusto.
E havia ahi guerras e victorias e leis: mas as victorias coroavam o
general e não o soldado, porque o soldado era servo: as leis eram talvez
justas, mas desciam do throno dos reis sem a sancção popular, e o povo
dobrava o joelho.
E isto era impio. O servo que acceita sê-lo é só meio-christão. Do
evangelho deriva a liberdade, como condição impreterivel do homem,
responsavel por seus actos perante Deus. A liberdade póde rasgar-se do
evangelho; não separar-se delle.
Depois lia-se o nome de um rei; e este nome era grande e honrado, como
os dos antigos reis portugueses, e a sua historia estava escripta no
monumento da eternidade. Após esta, seguiam-se algumas palavras de
esperança.
E d'alli por diante a pedra estava em branco; porque a oitava era da
republica ainda não tinha adormecido juncto do umbral do passado.