IX

Povo, hoje és tu quem impera, e absoluto é o teu poder; porque te dizes

unica fonte delle.

Toma, pois, em tuas mãos a vara do magistrado, e assenta-te uma vez mais

no teu throno, amassado com sangue e pó.

Vem assentar-te, e julga-nos, a nós, que tu maldizes, e aos tribunos,

aos instigadores de tumultos, que cobres de amor e de bençãos.

Porque isto diz o Senhor Deus: se a plebe julgar com justiça, a plebe

ainda será salva.

Desça o terror da tua vingança sobre o coração do que te houver

offendido; volvam-se no pó as frontes onde tu achares estampado o

ferrete do crime.

Recorre as acções da nossa vida, recorre as obras passadas das vidas dos

teus tribunos, e por preço do perdão de Deus, julga-nos com justiça.

Quando tu jazias na servidão, e os grilhões, encarnando-se-te nos pés e

nos pulsos, te roçavam pelos ossos, peleijavamos nós por te salvar;

derramavamos o nosso sangue por ti.

Por ti viamos o irmão e o amigo morder o pó dos campos de batalha, e

calavamos; sentiamo-nos descahir de fome, e não soltavamos um queixume.

Porque guardavamos os ais para o silencio das trevas. Soldados da

patria, ousariamos acaso queixar-nos diante da luz do sol?

E elles, que faziam, emquanto as nossas noites eram veladas debaixo de

um céu de ferro e de fogo, emquanto os nossos dias se consumiam entre o

sibilar dos pelouros?

Elles? Nos lupanares e tabernas de paizes extranhos, folgavam nos

banquetes da embriaguez; reclinavam-se no leito da prostituição.

Elles? Cubriam-nos de insultos, chamavam loucura e vaidade á nossa nobre

ousadia, e riam-se do juramento que faziamos de morrer ou dar a

liberdade a nossos irmãos.

Elles? Buscavam por todas as vias semeiar a zizania e os odios, damnar a

nossa causa sancta, e fazer-nos perecer debaixo das ruinas de uma cidade

illustre.

Eis o que elles fizeram em proveito da patria. No meio do foro, diante

de teu tribunal terrivel, descubra quem o ousar o peito, e mostre e

conte as cicatrizes das feridas que recebeu pela salvação da republica.

Um só delles as mostrará; porque esse foi valente e amigo da virtude.

Anjo de luz, porque te despenhaste no abysmo?

A historia escrevia o teu nome na pagina das bênçãos: tu mesmo o

riscaste e o foste escrever na pagina das maldicções...................

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X

Porém, debalde invocariamos justiça perante o tribunal popular; porque o

povo é abastado de injustiça e ingratidão.

Os que estão cubertos de cicatrizes, os que foram longamente saciados de

angustias por salvá-lo seriam condemnados, e os tribunos, os

concitadores da anarchia, cujas obras unicas tem sido conduzir a patria

ao abysmo da perdição, seriam absolvidos, seriam abençoados.

Embora: a nossa consciencia está tranquilla, e no grande dia é Deus quem

a todos nos julgará.

Houve um propheta outrora em Israel, e chamava-se o Filho do Homem.

E este propheta amava os humildes e os pobres, e reprehendia os

poderosos.

E condemnava os hypocritas da religião, e por isso era abominado pelos

grandes e pelos sacerdotes.

Mas respeitava as leis, e ensinava a obediencia: mandava que se pagasse

o tributo das duas drachmas do templo, e o tributo de Cesar.

E affeiava aos populares os seus vicios e abominações; e por isso era

tambem malquisto da gentalha.

E, condemnado á morte pelos poderosos, o povo, a quem tinha trazido a

luz e a vida eterna, o povo, que elle tanto amava, cubria-o de

opprobrios.

E podendo salvá-lo do supplicio, antepunha-lhe um grande criminoso, e

clamava aos algozes:--Pregae-o na cruz, e cáia o seu sangue sobre a

nossa cabeça e sobre a cabeça de nossos filhos.

E este propheta era o Messias, era o redemptor do genero humano, era o

filho de Deus.

Consolem-se, pois, aquelles que sobre os hombros tomaram o odio dos

tyrannos por amor do povo, e a quem o povo paga com injurias e pragas.

Como Jesu-Christo, os hypocritas e os oppressores das nações

abominam-nos: como a Jesu-Christo, o vulgacho cobre-nos de affrontas, e

pede para nós aos seus tribunos a condemnação e o supplicio.

E que nos cumpre fazer para seguirmos em tudo o exemplo do Justo

assassinado, do Deus que nos deixou na terra o consolo e a esperança?

Pedir morrendo ao Eterno Pae o perdão de nossos perseguidores e, como o

divino Mestre, lançar á conta da ignorancia as culpas de corações

corruptos.

Imitando o Salvador na cruz, seja um pensamento de benção o nosso

pensamento extremo; porque o derradeiro suspiro do christão deve ser um

murmurio de affecto grande para os que o amaram, mas ainda maior para os

que o odeiaram e perseguiram.

Opúsculos por Alexandre Herculano - Tomo 01 · 第 43 / 87 题