VIII

Quando os reis se assentavam em thronos de ferro; quando a lisonja os

rodeiava de prestigios, e o terror estava assentado ás portas dos seus

palacios, era bello e generoso affrontar-se o homem com a tyrannia e

menoscabar as dores dos supplicios.

Então era ousado o propheta, quando, nos paços de Balthasar, lia nos

muros, escriptas pela mão de Deus, palavras de condemnação.

Eram sublimes os martyres, quando perante os cesares davam testemunho do

evangelho, e escarnecendo dos apparelhos de morte, se deitavam

tranquillamente sobre a cruz da agonia.

Era bello ouvir o poeta de Florença trovejar contra a prostituta Roma,

denunciar ao mundo a corrupção e os crimes dos pontifices do Tibre, e

comer no desterro um pão eivado de lagrymas e esmolado por estranhos.

Era bello, quando nós, assentados sobre os gelos do Norte, saudavamos do

desterro a terra que nos deu o berço, e vinhamos, fracos pelo numero,

mas fortes de coração, lançar as nossas baionetas na balança da

Providencia, onde a tyrannia tinha tambem lançado as suas.

Tudo isto era bello e generoso; porque então os pequenos gemiam

oppressos debaixo dos pés dos grandes, e ao homem justo incumbia fazer

resoar na terra a voz da eterna justiça, o grito da liberdade.

Mas hoje que a plebe reina e, como ampla voragem, ameaça tragar a

virtude, a liberdade, a justiça e todas as recordações sanctas do

passado, para o homem de boa consciencia sê-lo-ha, tambem, o morrer.

Sê-lo-ha o bradar no meio das turbas, e derramar sobre ellas a

condemnação, que Deus confiou em todos os seculos aos labios do

innocente e virtuoso.

Sê-lo-ha chegar aos tribunos populares, apontar-lhes para o céu, e

apresentar a cabeça ao cutello dos lictores.

Opúsculos por Alexandre Herculano - Tomo 01 · 第 42 / 87 题