XVI

O anjo das predicções mudou o espirito dos meus sonhos.

Era por noite fria de inverno: n'uma quadra desadornada de palacio meio

arruinado jazia um homem em pobrissima enxerga.

No seu rosto estava pintada a doença e a fome, as bagas do suor da morte

transudavam-lhe da fronte, e dos olhos fugia-lhe a lagryma extrema do

moribundo.

Os farrapos que vestia não o resguardavam do frio; e o homem tremia, e

os dentes batiam-lhe uns contra os outros.

E no seu delirio o misero soltava palavras cortadas.--Agua!

agua!--dizia; porque a sede lhe roía as entranhas. E não havia quem lhe

desse um pucaro de agua.

Tribunos da plebe, dae-me um pouco de pão. Ah! bem negro que seja! que

tambem eu sou do povo.--E lançava os olhos para os seus farrapos.

Fui nobre e rico; mas esquecei-vos disso! Perdoae-me, porque nada me

resta: tão pobre sou como o mais humilde mendigo, que d'antes estendia a

mão para o ultimo dos meus servos.

E o homem sorria, e o seu riso significava a desesperação da sua alma.

Depois olhou para um crucifixo que estava encostado á parede, e estendeu

para lá os braços.

Mas não havia quem lhe unisse ao peito a imagem do Salvador: não havia

um sacerdote que lhe desse o extremo _vale_.

Então deixou descahir os braços, fechou os olhos, e morreu. Sobre o

cadaver ir-lhe-ha amontoando o tempo as ruinas dos paços que lhe

herdaram seus paes.

E será esta a campa republicana do homem que foi nobre e abastado.

Opúsculos por Alexandre Herculano - Tomo 01 · 第 25 / 87 题