O anjo das predicções mudou então na minha alma a scena do porvir.
Á mesma hora, á mesma luz da lua, estava eu no logar onde vira o povo
quebrar as portas do sanctuario; onde vira os homens dissolutos transpor
a ultima barreira que os separava dos tigres, e lançar de si o ultimo
signal que os distinguia dos espiritos das trevas.
Dos fustes truncados das columnas do templo pendiam hervas bravias, e
nos muros semi-rotos enlaçava-se a héra.
Nos campanarios afumados pelo incendio haviam as aves nocturnas
construído os seus ninhos: ao cahir das trevas, em vez dos sons
religiosos dos sinos, despenhavam-se lá dos cimos das torres os pios
melancholicos da poupa solitaria.
E no meio do terreiro surgia o que quer que era negro e que não se
assemelhava a nenhuma obra da natureza, a nenhuma obra das mãos do homem
feita para o uso da vida.
Approximei-me. Era o patibulo.
Um vulto humano pendia do alto delle e volteiava para um e outro lado á
mercê da brisa da noite.
E tinha as faces disformes e os olhos espantados, e da bôca meia aberta
gotejava-lhe a espaços o sangue.
Eu estava com os olhos cravados nelle, e não os podia despregar do homem
do patibulo.
E involuntariamente cahi de joelhos: as preces pelo morto íam-me a
romper dos labios. Sentia ardente a fronte e batia-me o pulso rapido e
com força.
Á primeira palavra de oração que proferi, um estremeção agitou o cadaver
do justiçado.
E sem mecher os beiços murmurou sons inarticulados: depois proferiu
algumas palavras: a sua voz era a de um ventriloquo.
Cala-te!--disse o cadaver.--A eternidade é já minha. Deus riscou-me do
livro da vida: maldicto seja o seu nome!
Fartei-me de crimes na terra: por isso fui condemnado.
A minha existencia foi como um halito de pulmoens ralados: a minha voz
nunca ensinou senão a destruição.
Hypocrita da liberdade, pregoei a anarchia e a licença, como os
hypocritas da religião pregoam a intolerancia e o exterminio.
Fui eu o que nas trevas preparei a discordia dos homens livres; que
suscitei o primeiro dia de furor popular.
Colloquei em frente dos amotinados alguns mancebos, em cujo seio havia
fragmentos de virtude, mas cuja ambição era cega.
Porque bem sabia eu que a plebe immoral anniquilaria todos os que não
fossem tão dissolutos como ella.
Deixei na arena dos bandos civis todos os meus émulos, e abandonei o
paiz que de futuro devia ser minha prêa.
Quando voltei, o povo tinha feito pedaços os seus idolos de um dia, e
havia-os sumido debaixo dos pés das turbas.
Era então que começava o meu imperio. Ai dos que eu tinha arrolado no
livro da morte! Nenhum ficou sobre a terra.
Milhares deixaram a cabeça debaixo do cutelo do algoz: milhares
volteiaram no cadafalso por noites de luar, como agora eu volteio.
E este baraço que ora me sobreleva do chão ainda o achei aquecido do
collo da minha ultima victima.
Fartei a sede de vingança e de sangue que mirrava o meu coração, e morri
seguro de que deixava atraz de mim a campa cerrada em cima de todos os
virtuosos.
O tyranno do céu folgue embora em me ver no inferno: ao menos pude
apagar o seu nome na terra que me deu o berço.
Um brado meu desmoronou os templos: o sacerdocio desappareceu; a oração
calou para todo o sempre.
Agora tambem eu passei; porque na senda do crime o povo com uma passada
vence o caminho de um seculo, e eu era apenas um homem.
Os que empolgaram o poder, que me foi arrancado, não os tinha ainda
conhecido, porque se arrastavam hontem em regiões obscuras; aliás
ter-me-hiam precedido em descer aos abysmos.
Aqui, dando um longo gemido, o suppliciado calou; os olhos
fecharam-se-lhe, e a cabeça pendeu-lhe para o peito.
Emquanto falara, bem conheci quem era; mas o Senhor me ordenou não
revelasse o seu nome.