XV

O anjo das predicções mudou então na minha alma a scena do porvir.

Á mesma hora, á mesma luz da lua, estava eu no logar onde vira o povo

quebrar as portas do sanctuario; onde vira os homens dissolutos transpor

a ultima barreira que os separava dos tigres, e lançar de si o ultimo

signal que os distinguia dos espiritos das trevas.

Dos fustes truncados das columnas do templo pendiam hervas bravias, e

nos muros semi-rotos enlaçava-se a héra.

Nos campanarios afumados pelo incendio haviam as aves nocturnas

construído os seus ninhos: ao cahir das trevas, em vez dos sons

religiosos dos sinos, despenhavam-se lá dos cimos das torres os pios

melancholicos da poupa solitaria.

E no meio do terreiro surgia o que quer que era negro e que não se

assemelhava a nenhuma obra da natureza, a nenhuma obra das mãos do homem

feita para o uso da vida.

Approximei-me. Era o patibulo.

Um vulto humano pendia do alto delle e volteiava para um e outro lado á

mercê da brisa da noite.

E tinha as faces disformes e os olhos espantados, e da bôca meia aberta

gotejava-lhe a espaços o sangue.

Eu estava com os olhos cravados nelle, e não os podia despregar do homem

do patibulo.

E involuntariamente cahi de joelhos: as preces pelo morto íam-me a

romper dos labios. Sentia ardente a fronte e batia-me o pulso rapido e

com força.

Á primeira palavra de oração que proferi, um estremeção agitou o cadaver

do justiçado.

E sem mecher os beiços murmurou sons inarticulados: depois proferiu

algumas palavras: a sua voz era a de um ventriloquo.

Cala-te!--disse o cadaver.--A eternidade é já minha. Deus riscou-me do

livro da vida: maldicto seja o seu nome!

Fartei-me de crimes na terra: por isso fui condemnado.

A minha existencia foi como um halito de pulmoens ralados: a minha voz

nunca ensinou senão a destruição.

Hypocrita da liberdade, pregoei a anarchia e a licença, como os

hypocritas da religião pregoam a intolerancia e o exterminio.

Fui eu o que nas trevas preparei a discordia dos homens livres; que

suscitei o primeiro dia de furor popular.

Colloquei em frente dos amotinados alguns mancebos, em cujo seio havia

fragmentos de virtude, mas cuja ambição era cega.

Porque bem sabia eu que a plebe immoral anniquilaria todos os que não

fossem tão dissolutos como ella.

Deixei na arena dos bandos civis todos os meus émulos, e abandonei o

paiz que de futuro devia ser minha prêa.

Quando voltei, o povo tinha feito pedaços os seus idolos de um dia, e

havia-os sumido debaixo dos pés das turbas.

Era então que começava o meu imperio. Ai dos que eu tinha arrolado no

livro da morte! Nenhum ficou sobre a terra.

Milhares deixaram a cabeça debaixo do cutelo do algoz: milhares

volteiaram no cadafalso por noites de luar, como agora eu volteio.

E este baraço que ora me sobreleva do chão ainda o achei aquecido do

collo da minha ultima victima.

Fartei a sede de vingança e de sangue que mirrava o meu coração, e morri

seguro de que deixava atraz de mim a campa cerrada em cima de todos os

virtuosos.

O tyranno do céu folgue embora em me ver no inferno: ao menos pude

apagar o seu nome na terra que me deu o berço.

Um brado meu desmoronou os templos: o sacerdocio desappareceu; a oração

calou para todo o sempre.

Agora tambem eu passei; porque na senda do crime o povo com uma passada

vence o caminho de um seculo, e eu era apenas um homem.

Os que empolgaram o poder, que me foi arrancado, não os tinha ainda

conhecido, porque se arrastavam hontem em regiões obscuras; aliás

ter-me-hiam precedido em descer aos abysmos.

Aqui, dando um longo gemido, o suppliciado calou; os olhos

fecharam-se-lhe, e a cabeça pendeu-lhe para o peito.

Emquanto falara, bem conheci quem era; mas o Senhor me ordenou não

revelasse o seu nome.

Opúsculos por Alexandre Herculano - Tomo 01 · 第 24 / 87 题