IX

Cinco annos em nome do Evangelho uma parte do povo perseguiu seus

irmãos, e cobriu-os de opprobrio.

Em nome do Evangelho pregoou-se o odio, a vingança, e o perjurio: em

nome do Crucificado pregoou-se o incendio, o roubo, o sangue e o

exterminio.

Mas o dia da punição chegou, porque as lagrymas da innocencia orvalharam

o seio de Deus.

Elle estendeu o seu braço, suscitou os ousados, e conduziu-os de milagre

em milagre. Então os impios dobraram a cerviz altiva.

As nossas victorias foram de homens fortes; mas a robustez de animo

vinha-nos daquelle que é fonte e origem de toda a humana virtude.

Vestia-se então a maldade dos trajos puros da religião para perpetrar

impunemente crimes: hoje abriga-se á sombra da arvore sancta da

liberdade para assolar a terra da nossa infancia.

Ai dos maus, porque os olhos do Todo-poderoso lhes vêem nus os corações

em toda a hediondez da sua perversidade!

A justiça celeste nunca dorme, como na alma do criminoso nunca se cala o

remorso.

E a hora da tribulação e das angustias chegará para os malvados; e elles

amaldicçoarão o ventre materno e os peitos que os amamentaram.

X

Povo! os que hoje saudas como numes, ámanhã fa-los-has em pedaços, e

arrastarás pelas ruas os seus cadaveres cobertos de feridas e pisaduras.

Porque, bem que tarde, conhecerás que elles te hão enganado.

Prometteram-te abundancia, e achar-te-has faminto; prometteram-te

liberdade, e achar-te-has servo.

A licença mata a liberdade; porque se livremente opprimes, livremente

podes ser oppresso; se o assassinio é teu direito, direito será para os

outros assassinar-te.

Se a força, e não a moral, é a lei popular, quando os tyrannos tiverem

mais força, legitimamente podem pôr no collo do povo um jugo de ferro.

Ministros da tyrannia são os que suscitaram a lucta das facções, os que

deram o primeiro grito da revolta, os que accenderam a guerra civil;

Porque a nação se dilacerará, e enfraquecida passará das mãos da plebe

para as mãos d'algum despota que a devore.

Lembrae-vos da Serpente, que enganou nossos primeiros paes: foi com

palavras sonoras, com promessas de gloria e de ventura que ella perdeu a

ambos.

Dado que para vós não houvesse liberdade e elles vo-la offerecessem á

custa de perpetuo damno, devieis tê-los por vossos destruidores.

Porque a liberdade não é tanto um fim como um meio: quer-se a liberdade

não tanto para as nações serem livres, como para serem felizes.

Que importa o respeito de propriedade ao que nada possue? Que vale a

liberdade da palavra para o que só tem de proferir maldicções e

queixumes? Que monta que os vossos pares vos julguem, se o odio das

facções nos fez inimigos uns dos outros?

Sem concordia, inevitavel é que o edifício social desabe: e porventura

nascerá a concordia do meio das sedições?

Opúsculos por Alexandre Herculano - Tomo 01 · 第 19 / 87 题