Cinco annos em nome do Evangelho uma parte do povo perseguiu seus
irmãos, e cobriu-os de opprobrio.
Em nome do Evangelho pregoou-se o odio, a vingança, e o perjurio: em
nome do Crucificado pregoou-se o incendio, o roubo, o sangue e o
exterminio.
Mas o dia da punição chegou, porque as lagrymas da innocencia orvalharam
o seio de Deus.
Elle estendeu o seu braço, suscitou os ousados, e conduziu-os de milagre
em milagre. Então os impios dobraram a cerviz altiva.
As nossas victorias foram de homens fortes; mas a robustez de animo
vinha-nos daquelle que é fonte e origem de toda a humana virtude.
Vestia-se então a maldade dos trajos puros da religião para perpetrar
impunemente crimes: hoje abriga-se á sombra da arvore sancta da
liberdade para assolar a terra da nossa infancia.
Ai dos maus, porque os olhos do Todo-poderoso lhes vêem nus os corações
em toda a hediondez da sua perversidade!
A justiça celeste nunca dorme, como na alma do criminoso nunca se cala o
remorso.
E a hora da tribulação e das angustias chegará para os malvados; e elles
amaldicçoarão o ventre materno e os peitos que os amamentaram.
X
Povo! os que hoje saudas como numes, ámanhã fa-los-has em pedaços, e
arrastarás pelas ruas os seus cadaveres cobertos de feridas e pisaduras.
Porque, bem que tarde, conhecerás que elles te hão enganado.
Prometteram-te abundancia, e achar-te-has faminto; prometteram-te
liberdade, e achar-te-has servo.
A licença mata a liberdade; porque se livremente opprimes, livremente
podes ser oppresso; se o assassinio é teu direito, direito será para os
outros assassinar-te.
Se a força, e não a moral, é a lei popular, quando os tyrannos tiverem
mais força, legitimamente podem pôr no collo do povo um jugo de ferro.
Ministros da tyrannia são os que suscitaram a lucta das facções, os que
deram o primeiro grito da revolta, os que accenderam a guerra civil;
Porque a nação se dilacerará, e enfraquecida passará das mãos da plebe
para as mãos d'algum despota que a devore.
Lembrae-vos da Serpente, que enganou nossos primeiros paes: foi com
palavras sonoras, com promessas de gloria e de ventura que ella perdeu a
ambos.
Dado que para vós não houvesse liberdade e elles vo-la offerecessem á
custa de perpetuo damno, devieis tê-los por vossos destruidores.
Porque a liberdade não é tanto um fim como um meio: quer-se a liberdade
não tanto para as nações serem livres, como para serem felizes.
Que importa o respeito de propriedade ao que nada possue? Que vale a
liberdade da palavra para o que só tem de proferir maldicções e
queixumes? Que monta que os vossos pares vos julguem, se o odio das
facções nos fez inimigos uns dos outros?
Sem concordia, inevitavel é que o edifício social desabe: e porventura
nascerá a concordia do meio das sedições?