VIII

Povo! Onde estão os teus sabios, os teus generaes, os teus nobres, os

teus abastados, os teus homens virtuosos!

Os timidos escondem-se diante da tua sanha: os valentes, não podendo

combater com as turbas, erram no oceano á mercê das tempestades.

E é a segunda vez que se affrontam com ellas por amor da liberdade e da

lei.

Deus proverá os foragidos, como provê de sustento os animaes que

vagueiam na terra e as aves que cruzam os ares.

E os timidos que, ouvindo o rugido da plebe, se embrenham por antros de

serranias, por profundezas de bosques, confiem tambem no Senhor.

Porque delle vem a salvação para os bons no dia da cólera e do castigo.

Que os perseguidos se consolem lembrando-se dos proprios erros, porque

ninguem se isenta da culpa, e antes remi-la neste valle do desterro, do

que além da sepultura.

O que padece não deve queixar-se, nem rebellar-se contra a Providencia:

porque essa queixa inspira-a a soberba.

Que é um homem em comparação de uma cidade; uma cidade em comparação de

um povo: um povo em comparação do genero humano; o genero humano em

comparação do Universo?

E que intelligencia é capaz de medir a distancia que vai do primeiro ao

ultimo?

Milhões de milhões de vezes menos importa a existencia de um individuo

na somma das existencias, do que na pyramide de Cheops o mais miudo grão

de argamassa importa á solidez do monumento.

Emquanto vive na terra, o homem é um atomo na immensidade: grande será

depois da morte no reino do céu; grande ainda entre os bramidos do

inferno.

Porque para elle existe a eternidade só então: só então comprehende a

omnipotencia de Deus.

Opúsculos por Alexandre Herculano - Tomo 01 · 第 18 / 87 题