Ego Aldefonsus Rex Portugaliae

_I. Colimb. Episcop.--I. Bracharens. Metropol.--T. Prior.--Ferdinandus

Petri Curiae Dapif.--Petrus Pelag. Curiae Signifer.--Velascus

Sancij.--Alfonsus Menen. praef. Ulis.--Gondisalvus de Sousa procur.

Imn.--Pelagius Menen. procur. Visen.--Suer. Martin. procurar.

Colimb.--Menendus Petri, pro Magistro Alberto Regis Cancellario_.

_Cuja significação em Portuguez é a seguinte_

Eu Affonso Rei de Portugal, filho do Conde Henrique, e neto do grande

Rei D. Affonso, diante de vós Bispo de Braga, e Bispo de Coimbra, e

Theotonio, e de todos os mais Vassallos de meu Reino, juro em esta Cruz

de metal, e neste livro dos Santos Evangelhos, em que ponho minhas mãos,

que eu miseravel peccador vi com estes olhos indignos a nosso Senhor

JESU Christo estendido na Cruz, no modo seguinte. Eu estava com meu

exercito nas terras de Alentejo, no Campo de Ourique, para dar batalha a

Ismael, e outros quatro Reis Mouros, que tinham consigo infinitos

milhares de homens, e minha gente temerosa de sua multidão, estava

atribulada, e triste sobremaneira, em tanto que publicamente diziam

alguns ser temeridade acommetter tal jornada. E eu enfadado do que

ouvia, comecei a cuidar comigo, que faria; e como tivesse na minha tenda

um livro em que estava escripto o Testamento Velho, e o de Jesu Christo,

abri-o, e li nelle a vitoria de Gedeão, e disse entre mim mesmo. Mui bem

sabeis vós, Senhor JESU Christo, que por amor vosso tomei sobre mim esta

guerra contra vossos adversarios, em vossa mão está dar a mim, e aos

meus fortaleza para vencer estes blasfemadores de vosso nome. Ditas

estas palavras adormeci sobre o livro, e comecei a sonhar, que via um

homem velho vir para onde eu estava, e que me dizia: Affonso, tem

confiança, porque vencerás, e destruirás estes Reis infieis, e desfarás

sua potencia, e o Senhor se te mostrará. Estando nesta visão, chegou

João Fernandes de Sousa meu Camareiro dizendo-me: Acordai, senhor meu,

porque está aqui um homem velho, que vos quer fallar. Entre (lhe

respondi) se é Catholico: e tanto que entrou, conheci ser aquelle, que

no sonho vira; o qual me disse: Senhor tende bom coração, vencereis, e

não sereis vencido; sois amado do Senhor, porque sem duvida poz sobre

vós, e sobre vossa geração depois de vossos dias os olhos de sua

misericordia, até a decima sexta decendencia, na qual se diminuiria a

successão, mas nella assim diminuida elle tornará a pôr os olhos e verá.

Elle me manda dizer-vos, que quando na seguinte noite ouvirdes a

campainha de minha Ermida, na qual vivo ha sessenta e seis annos,

guardado no meio dos infieis, com o favor do mui Alto, saias fóra do

Real sem nenhuns creados, porque vos quer mostrar sua grande piedade.

Obedeci, e prostrado em terra com muita reverencia, venerei o

Embaixador, e quem o mandava; e como posto em oração aguardasse o som,

na segunda vela da noite ouvi a campainha, e armado com espada e rodela

sahi fóra dos Reais, e subitamente vi a parte direita contra o Nacente,

um raio resplandecente; e indo-se pouco, e pouco clarificando, cada hora

se fazia maior; e pondo de proposito os olhos para aquella parte, vi de

repente no proprio raio o sinal da Cruz, mais resplandecente que o Sol,

e Jesu Christo Crucificado nella, e de uma e de outra parte, uma copia

grande de mancebos resplandecentes, os quaes creio, que seriam os Santos

Anjos. Vendo pois esta visão, pondo á parte o Escudo, e espada, e

lançando em terra as roupas, e calçado me lancei de bruços, e desfeito

em lagrimas comecei a rogar pela consolação de meus vassallos, e disse

sem nenhum temor. A que fim me apareceis Senhor? Quereis por ventura

accrescentar fé a quem tem tanta? Melhor é por certo que vos vejam os

inimigos, e cream em vós, que eu, que desde a fonte do Baptismo vos

conheci por Deos verdadeiro, Filho da Virgem, e do Padre Eterno, e assim

vos conheço agora. A Cruz era de maravilhosa grandeza, levantada da

terra quasi dez covados. O Senhor com um tom de voz suave, que minhas

orelhas indignas ouviram, me disse. Não te apareci deste modo para

accrescentar tua fé, mas para fortalecer teu coração neste conflito, e

fundar os principios de teu Reino sobre pedra firme. Confia Affonso,

porque não só vencerás esta batalha, mas todas as outras em que

pelejares contra os inimigos de minha Cruz. Acharás tua gente alegre, e

esforçada para a peleja, e te pedirá que entres na batalha com titulo de

Rei. Não ponhas duvida, mas tudo quanto te pedirem lhe concede

facilmente. Eu sou o fundador, e destruidor dos Reinos, e Imperios, e

quero em ti, e teus decendentes fundar para mim um Imperio, por cujo

meio seja meu nome publicado entre as Nações mais estranhas. E para que

teus decendentes conheçam quem lhe dá o Reino, comporás o Escudo de tuas

Armas do preço com que eu remi o genero humano, e daquelle porque fui

comprado dos judeos, e ser-me-ha Reino santificado, puro na fé, e amado

por minha piedade. Eu tanto que ouvi estas cousas, prostrado em terra o

adorei dizendo: Porque meritos, Senhor, me mostrais tão grande

misericordia? Ponde pois vossos benignos olhos nos successores que me

prometeis, e guardai salva a gente Portugueza. E se acontecer, que

tenhais contra ella algum castigo apparelhado, executai-o antes em mim,

e em meus descendentes, e livrai este povo, que amo como a unico filho.

Consentindo nisto o Senhor, disse: Não se apartará delles, nem de ti

nunca minha misericordia, porque por sua via tenho apparelhadas grandes

searas, e a elles escolhidos por meus segadores em terras mui remotas.

Ditas estas palavras dezapareceu, e eu cheio de confiança, e suavidade

me tornei para o Real. E que isto passasse na verdade, juro eu D.

Affonso pelos Santos Evangelhos de JESU Christo tocados com estas mãos.

E por tanto mando a meus decendentes, que para sempre succederem, que em

honra da Cruz e cinco Chagas de JESU Christo tragam em seu Escudo cinco

Escudos partidos em Cruz, e em cada um delles os trinta dinheiros, e por

timbre a Serpente de Moysés, por ser figura de Christo, e este seja o

tropheo de nossa geração. E se alguem intentar o contrario, seja maldito

do Senhor, e atormentado no Inferno com Judas o treidor. Foi feita a

presenta carta em Coimbra aos vinte e nove de Outubro, era de mil e

cento e cincoenta e dous.

Eu El-Rei D. Affonso.

_João Metropolitano Bracharense.--João Bispo de Coimbra.--Theotonio

Prior.--Fernão Peres Vedor da Casa.--Vasco Sanches.--Affonso Mendes

Governador de Lisboa.--Gonçalo de Sousa Procurador de entre Douro e

Minho.--Payo Mendes Procurador de Viseu.--Sueiro Martins Procurador de

Coimbra.--Mem Peres o escreveu por Mestre Alberto Cancellario del-Rei_.

Chronica de el-rei D. Affonso Henriques · 第 101 / 113 题