_Como os Mouros cercaram Porto de Mós, e foram desbaratados por D. Fuas
Roupinho Alcaide do Castello_.
Sabendo os Mouros de cima do Tejo, como o Ifante D. Sancho era em Beja,
de socego, parecendo-lhes que com a occupação que lá teria, elles podiam
a seu salvo fazer entrada em Portugal, um Rei daquella terra onde ora é
Caceres, e Valença, que chamavam Guami, e um seu irmão com soma de gente
das terras a redor, passou o Tejo, e correo toda a terra de Christãos,
até chegar a Porto de Mós. Em aquelle tempo tinha o Lugar um Cavalleiro,
que chamavam D. Fuas Roupinho, o qual quando soube que vinha aquelle
Mouro sobre elle, saio-se do Castello, leixando em elle gente que o
podesse defender, encomendando-lhes muito, que assi o fizessem, que elle
se não saia se não para logo lhes soccorrer com mais gente. Saido elle
meteo-se em cima da Serra, que chamam Amendiga, da parte donde nace o
roio de Porto de Mós, fazendo esconder os seus, mandou logo a gram
pressa a Alcaneide, e Santarem fazendo saber a vinda daquelles Mouros, e
que lhe enviassem gente, porque com a ajuda de Deos esperava que havia
haver delles honra, e vencimento. Acodiu-lhe logo bom quinhão de gente,
e no dia que elles chegaram aonde estava D. Fuas Roupinho, chegou o
mesmo Rei Guami com todas suas gentes sobre Porto de Mós, e vendo o
Castello tão pequeno, fazendo conta que ligeiramente o tomaria, foram
logo todos em chegando a combate-lo mui rijamente. Foi o combate tão
profiado, que dureu até noite, dos Mouros foram muitos mortos, e
feridos, e assi da parte dos Christãos houve danno assás, e durando o
combate os que estavam na Serra com D. Fuas Roupinho, debatiam-se todos
por ir soccorrer aos seus, e elle lhes disse.
* * * * *
«Amigos posto que nós aqui sejamos muitos, porém eu vos rogo, que vos
rejais hoje neste cazo por mim, que segundo cuido, e espero prazerá a
Deos que vossos desejos, e meus, eu vo-los darei compridos com muito
prazer, e honra, antes que estes Mouros daqui vão, e vós sede certos,
que os que eu leixei no Castello são taes, que se defenderão bem, ainda
que creio que os Mouros de os ter em pouco, não cessarão do combate até
que a noite os desparta, e esso é o que eu mais desejo, porque então do
caminho e combate mais cançados se lançarão a repouzar, e dormir, e nós
ante menhã daremos nelles, e os desbarataremos.»
E assi lhes saio em todo, porque de madrugada deram nos Mouros entregues
ao sono, e não menos em descuido de lhes tal acontecer, e porque o lugar
onde os Mouros estavam ante o Rio e o Castello ser mui estreito, deu
ainda mais azo para sendo assi cometidos se embaraçarem antre si, e
desbaratarem, e serem mortos, e feridos muitos mais, sem se poderem
remediar. Foi ahi prezo El Rei Guami, e seu irmão com elle, e outros
muitos, os quais com cincoenta dos melhores D. Fuas Roupinho levou a
El-Rei D. Affonso Anriques a Coimbra. El-Rei o recebeo com muito prazer
e gazalhado, e mandou meter em prizão a El-Rei Guami, e todos os que com
elle foram levados, e a D. Fuas, e aos que com elle iam, e foram na
batalha fez grandes mercês, como cabe aos Principes fazer por serviços,
e merecimentos, assinados como aquelle. Foi esta batalha de D. Fuas
Roupinho, e El-Rei Guami, em Porto de Mós aos vinte dias do mez de Maio,
era de mil cento e oitenta annos (1180).