CAPITULO LIII

_Como os Mouros foram cercar Beja, e o Ifante D. Sancho o soube, e foi

sobre elles a soccorre-la, e da batalha que com elles houve sobre ella_.

Acha-se escrito, que ficando assi Beja falecida de gente para sua

defenção, pela muita que della se fora com o Ifante D. Sancho mais que

de outro nhum Lugar Dalentejo como acima dissemos, e ainda de esses que

nella ficaram alguns com medo de a não poderem defender, se partiram

della para outros lugares de Christãos, e os Mouros sabendo certo como a

Villa estava para ligeiramente se poder tomar, pela mingua de gente que

não tinha, ajuntaram-se dous mui principaes antre elles chamados um

Alboacamesim, e outro Albouzil, e muitos Mouros que os seguiram, e

chegaram a pôr cerco sobre ella. Os poucos Christãos que dentro estavam,

corregeram a Villa o milhor que poderam, e poseram se a defende-la, e

aprouve a N. Senhor, que com quanto os Mouros logo em chegando a

combateram, e afrontaram mui rijamente, os nossos a defenderam com tanto

esforço, que os imigos a não poderam tomar tão de ligeiro, como traziam

por certo, e assi por sua multidão, e os defensores da Villa serem

poucos, como por o Ifante ser com a outra gente mui alongado, para os

haver de soccorrer, detreminaram toda via sentar arraial sobre a Villa,

fazendo conta, que ainda que a não tomassem, logo em chegando a

tomariam, em alguns poucos dias, que para esso teriam despaço, e

começaram trazer, e fazer engenhos, e arteficios, que para tal cazo

cumpria.

Quando os de dentro da Villa viram a determinação, e assento dos Mouros,

tomaram acordo de o fazerem saber ao Ifante, e mandaram um Escudeiro dos

que na Villa estavam sabedor mui bem da terra, cavalgado em um especial

cavallo, o qual como foi noite saio-se fóra da Villa com tal tento, e

avizo, que não houve sentimento, nem torvação dos do arrayal, e a carta

que levava era que os da Villa se encomendavam em sua mercê, e lhe

pediam que lhes acorresse em tão grande fadiga e trabalho em que

estavam; no qual entre tanto elles fariam quanto em si fosse, por toda

via guardarem o que lhes encomendara. Passando assi estas cousas depois

de vencida a batalha de Sevilha, o Ifante partio da li contra a terra,

que ora em Castella chamam Algarve, fazendo muita destruição nos Mouros

por toda aquella terra, e estando sobre Niebla, chegou o recado dos

Cavalleiros de Beja, como aquelles Mouros a tinham cercada. O Ifante

vista a carta chamou logo os do seu Concelho, e amostrou-lha, dizendo:

_Amigos que vos parece desto, ou que devemos fazer_. E todos acordaram

que para andarem correndo a terra, não era bem perder-se tal Villa, como

era Beja. Então pareceo ser bem, que o Ifante tomasse de sua gente até

mil e quatro centos de cavallo dos melhores emcavalgados para logo

partirem com elle, e que toda a outra oste o seguisse, e tirassem de pôs

elle o milhor que podessem direito a Beja.

Esto assi detreminado, disse o Ifante a D. Pero Paes Alferes, que

tomasse carrego dos que haviam de ficar e elle lhe respondeo: «Que cousa

Senhor será irdes vós em algum lugar poer em a ventura a vosso corpo, em

que me eu não ache a ter vossa bandeira, como ora em esta batalha, que

vencestes de Sevilha, e outras muitas com vosso pai, até agora me sempre

achei.» O Ifante lhe tornou a dizer, que elle fora desso mais ledo, mas

pois seu cargo era guardar a oste, e rege-la, e governa-la, e nelle

tanto confiava toda via quizesse ficar com ella. Então ficou D. Pero

Paes com a gente, e deu de sua mão a bandeira a um seu sobrinho, por

nome Sueiro Paes, mui bom Cavalleiro. Logo ao outro dia cedo, sem mais

tardar partio o Ifante com aquelles mil e quatro centos de cavallo, a

mais andar, e os Adais e Guias que comsigo levava, o levaram por tais

Lugares, e caminhos, que os Mouro não poderam haver novas delles, e

passaram pelo váo de Mertola, onde chamam as Asenhas. Os Mouros de

Mertola, tinham escuitas no váo, e vieram dar novas á Villa, e porque o

Ifante passava ao Serão, e a Villa era mui forte, não temeram os Mouros

de Mertola, que aquella gente vinha sobre elles, mas que iam soccorrer a

Beja, pelo qual mandaram logo a gram pressa homens de pé, e de cavallo

fazer saber a Alboacamezim, e Albouzil, como pelo váo das Asenhas

passara aquella noite muita gente, e que haviam por certo não ser outrem

se não o Ifante D. Sancho.

Havido este recado, foi muito grande alvoroço no arraial dos Mouros, e

uns diziam que era bem que se fossem, e outros que era milhor

aguardarem, e peleijarem com os Christãos. O Ifante tanto que veio aos

chãos do Campo Dourique, disse aos seus, que se não trigassem a andar

por chegarem mais folgados aos imigos, porque o caminho fora grande, e

mao, e vinham trabalhados, e por causa desso não poderam chegar á vista

dos imigos se não a ora de Terça. Tinham os Capitães dos arraiaes,

especiais espias, e tanto que houveram avizo de Mertola, mandáram logo

essa noite corredores a saber que gente era a que vinha, e se vinham

para alli, se para outra parte. Os corredores dos Mouros amanheceram

acerca de alguns do Ifante, que vinham adiantados, e prenderam um

Escudeiro, que lhes contou todo como era, e tornáram logo á pressa com

elle a seus Capitães, e sabida a verdade por elle, esses milhores do

arraial, por escuzarem vergonha de não esperar, mostraram grande

esforço, e tenção de quererem em todo cazo peleijar com os nossos, como

quer que al tivessem na vontade, outros mostravam o contrario, pelo

grande receio que tinham ao Ifante, e aos outros que vinham com elle,

havendo que seriam assinados Cavalleiros, dobrava-lhes este medo o

fresco desbarato, e mortindade de Sevilha, segundo, que a corações

encontrados em receios, sempre se lhes agoura, e apresenta o peor. Este

incerto alvoroço dos Mouros deu espaço para o Ifante poder chegar sem

elles poderem al fazer, se não esperar, e sair-se fóra do arraial, tão

acerca viam já o pó da gente dos Christãos.

Quando o Ifante chegou estavam já os Mouros com suas azes prestes, e sem

mais aguardar, disse logo o Ifante a Sueiro Paes, que abalasse rijo com

a bandeira, e assi foram rijo ferir nos Mouros, e a peleija, esse espaço

que durou, foi fortemente peleijada dambas as partes, e com mostra de

haver mais de durar, mas aprouve a N. Senhor, que os Mouros não poderam

sofrer o grande esforço, e combate dos nossos, e começáram a fugir, e

foram delles muitos cativos, e mortos, antre os quais morreram hi os

dous Capitães Alboacamezim, e Albouzil. O Ifante com o seu, e assi os da

Villa houveram grandes prezas em aquelle desbarato, e o Ifante assentou

seu arraial fóra da Villa, sem querer entrar nella, até que chegasse a

outra gente sua, que elle mandára que o seguisse. Os da Villa sairam

fóra, e trouxeram-lhe serviços desso que podiam. O Ifante os recebeo com

muito prazer e agradecimento louvando-os muito do grande esforço, e

bondade que tiveram em defender a Villa, sendo tão poucos.

Foi esta peleija, e vencimento do cerco de Beja, em dia Dascenção de N.

Senhor dezoito dias de Maio, do Nascimento de N. Senhor de mil cento e

setenta e nove annos (1179). A cabo de tres dias, do desbarato dos

Mouros, chegou D. Pero Paes com toda a oste que lhe ficou encarregada, e

depois de chegados, foi o Ifante com certos Cavalleiros ver a Villa, e

entrando pela porta vio ainda em cima estar as Armas de Almançor,

mandou-as logo tirar, e poer as del-Rei seu pai. Mas ora deixará a

Estoria de falar do Ifante D. Sancho, que ficou em Beja mui temido dos

Mouros de toda aquella terra, e contará de uma entrada que El-Rei Guami

Mouro, e um seu irmão fizeram em Portugal, e como foi desbaratado, e

prezo em Porto de Mós, por um Cavalleiro, que havia nome D. Fuas

Roupinho.

Chronica de el-rei D. Affonso Henriques · 第 88 / 113 题