_Como os Mouros foram cercar Beja, e o Ifante D. Sancho o soube, e foi
sobre elles a soccorre-la, e da batalha que com elles houve sobre ella_.
Acha-se escrito, que ficando assi Beja falecida de gente para sua
defenção, pela muita que della se fora com o Ifante D. Sancho mais que
de outro nhum Lugar Dalentejo como acima dissemos, e ainda de esses que
nella ficaram alguns com medo de a não poderem defender, se partiram
della para outros lugares de Christãos, e os Mouros sabendo certo como a
Villa estava para ligeiramente se poder tomar, pela mingua de gente que
não tinha, ajuntaram-se dous mui principaes antre elles chamados um
Alboacamesim, e outro Albouzil, e muitos Mouros que os seguiram, e
chegaram a pôr cerco sobre ella. Os poucos Christãos que dentro estavam,
corregeram a Villa o milhor que poderam, e poseram se a defende-la, e
aprouve a N. Senhor, que com quanto os Mouros logo em chegando a
combateram, e afrontaram mui rijamente, os nossos a defenderam com tanto
esforço, que os imigos a não poderam tomar tão de ligeiro, como traziam
por certo, e assi por sua multidão, e os defensores da Villa serem
poucos, como por o Ifante ser com a outra gente mui alongado, para os
haver de soccorrer, detreminaram toda via sentar arraial sobre a Villa,
fazendo conta, que ainda que a não tomassem, logo em chegando a
tomariam, em alguns poucos dias, que para esso teriam despaço, e
começaram trazer, e fazer engenhos, e arteficios, que para tal cazo
cumpria.
Quando os de dentro da Villa viram a determinação, e assento dos Mouros,
tomaram acordo de o fazerem saber ao Ifante, e mandaram um Escudeiro dos
que na Villa estavam sabedor mui bem da terra, cavalgado em um especial
cavallo, o qual como foi noite saio-se fóra da Villa com tal tento, e
avizo, que não houve sentimento, nem torvação dos do arrayal, e a carta
que levava era que os da Villa se encomendavam em sua mercê, e lhe
pediam que lhes acorresse em tão grande fadiga e trabalho em que
estavam; no qual entre tanto elles fariam quanto em si fosse, por toda
via guardarem o que lhes encomendara. Passando assi estas cousas depois
de vencida a batalha de Sevilha, o Ifante partio da li contra a terra,
que ora em Castella chamam Algarve, fazendo muita destruição nos Mouros
por toda aquella terra, e estando sobre Niebla, chegou o recado dos
Cavalleiros de Beja, como aquelles Mouros a tinham cercada. O Ifante
vista a carta chamou logo os do seu Concelho, e amostrou-lha, dizendo:
_Amigos que vos parece desto, ou que devemos fazer_. E todos acordaram
que para andarem correndo a terra, não era bem perder-se tal Villa, como
era Beja. Então pareceo ser bem, que o Ifante tomasse de sua gente até
mil e quatro centos de cavallo dos melhores emcavalgados para logo
partirem com elle, e que toda a outra oste o seguisse, e tirassem de pôs
elle o milhor que podessem direito a Beja.
Esto assi detreminado, disse o Ifante a D. Pero Paes Alferes, que
tomasse carrego dos que haviam de ficar e elle lhe respondeo: «Que cousa
Senhor será irdes vós em algum lugar poer em a ventura a vosso corpo, em
que me eu não ache a ter vossa bandeira, como ora em esta batalha, que
vencestes de Sevilha, e outras muitas com vosso pai, até agora me sempre
achei.» O Ifante lhe tornou a dizer, que elle fora desso mais ledo, mas
pois seu cargo era guardar a oste, e rege-la, e governa-la, e nelle
tanto confiava toda via quizesse ficar com ella. Então ficou D. Pero
Paes com a gente, e deu de sua mão a bandeira a um seu sobrinho, por
nome Sueiro Paes, mui bom Cavalleiro. Logo ao outro dia cedo, sem mais
tardar partio o Ifante com aquelles mil e quatro centos de cavallo, a
mais andar, e os Adais e Guias que comsigo levava, o levaram por tais
Lugares, e caminhos, que os Mouro não poderam haver novas delles, e
passaram pelo váo de Mertola, onde chamam as Asenhas. Os Mouros de
Mertola, tinham escuitas no váo, e vieram dar novas á Villa, e porque o
Ifante passava ao Serão, e a Villa era mui forte, não temeram os Mouros
de Mertola, que aquella gente vinha sobre elles, mas que iam soccorrer a
Beja, pelo qual mandaram logo a gram pressa homens de pé, e de cavallo
fazer saber a Alboacamezim, e Albouzil, como pelo váo das Asenhas
passara aquella noite muita gente, e que haviam por certo não ser outrem
se não o Ifante D. Sancho.
Havido este recado, foi muito grande alvoroço no arraial dos Mouros, e
uns diziam que era bem que se fossem, e outros que era milhor
aguardarem, e peleijarem com os Christãos. O Ifante tanto que veio aos
chãos do Campo Dourique, disse aos seus, que se não trigassem a andar
por chegarem mais folgados aos imigos, porque o caminho fora grande, e
mao, e vinham trabalhados, e por causa desso não poderam chegar á vista
dos imigos se não a ora de Terça. Tinham os Capitães dos arraiaes,
especiais espias, e tanto que houveram avizo de Mertola, mandáram logo
essa noite corredores a saber que gente era a que vinha, e se vinham
para alli, se para outra parte. Os corredores dos Mouros amanheceram
acerca de alguns do Ifante, que vinham adiantados, e prenderam um
Escudeiro, que lhes contou todo como era, e tornáram logo á pressa com
elle a seus Capitães, e sabida a verdade por elle, esses milhores do
arraial, por escuzarem vergonha de não esperar, mostraram grande
esforço, e tenção de quererem em todo cazo peleijar com os nossos, como
quer que al tivessem na vontade, outros mostravam o contrario, pelo
grande receio que tinham ao Ifante, e aos outros que vinham com elle,
havendo que seriam assinados Cavalleiros, dobrava-lhes este medo o
fresco desbarato, e mortindade de Sevilha, segundo, que a corações
encontrados em receios, sempre se lhes agoura, e apresenta o peor. Este
incerto alvoroço dos Mouros deu espaço para o Ifante poder chegar sem
elles poderem al fazer, se não esperar, e sair-se fóra do arraial, tão
acerca viam já o pó da gente dos Christãos.
Quando o Ifante chegou estavam já os Mouros com suas azes prestes, e sem
mais aguardar, disse logo o Ifante a Sueiro Paes, que abalasse rijo com
a bandeira, e assi foram rijo ferir nos Mouros, e a peleija, esse espaço
que durou, foi fortemente peleijada dambas as partes, e com mostra de
haver mais de durar, mas aprouve a N. Senhor, que os Mouros não poderam
sofrer o grande esforço, e combate dos nossos, e começáram a fugir, e
foram delles muitos cativos, e mortos, antre os quais morreram hi os
dous Capitães Alboacamezim, e Albouzil. O Ifante com o seu, e assi os da
Villa houveram grandes prezas em aquelle desbarato, e o Ifante assentou
seu arraial fóra da Villa, sem querer entrar nella, até que chegasse a
outra gente sua, que elle mandára que o seguisse. Os da Villa sairam
fóra, e trouxeram-lhe serviços desso que podiam. O Ifante os recebeo com
muito prazer e agradecimento louvando-os muito do grande esforço, e
bondade que tiveram em defender a Villa, sendo tão poucos.
Foi esta peleija, e vencimento do cerco de Beja, em dia Dascenção de N.
Senhor dezoito dias de Maio, do Nascimento de N. Senhor de mil cento e
setenta e nove annos (1179). A cabo de tres dias, do desbarato dos
Mouros, chegou D. Pero Paes com toda a oste que lhe ficou encarregada, e
depois de chegados, foi o Ifante com certos Cavalleiros ver a Villa, e
entrando pela porta vio ainda em cima estar as Armas de Almançor,
mandou-as logo tirar, e poer as del-Rei seu pai. Mas ora deixará a
Estoria de falar do Ifante D. Sancho, que ficou em Beja mui temido dos
Mouros de toda aquella terra, e contará de uma entrada que El-Rei Guami
Mouro, e um seu irmão fizeram em Portugal, e como foi desbaratado, e
prezo em Porto de Mós, por um Cavalleiro, que havia nome D. Fuas
Roupinho.