CAPITULO XLIX

_Como El-Rei D. Affonso Anriques ordenou de mandar o Ifante D. Sancho

seu filho a Alentejo a guerrear os Mouros, e das rezões que lhe sobre

ello disse_.

Depois que os cinco annos das tregoas que El-Rei D. Affonso fez com

El-Rei Albojaque, como acima dissemos, foram acabados, que foi na era do

Senhor de mil cento e setenta e oito annos, (1178) estando El-Rei D.

Affonso Anriques em Coimbra, vendo que em toda sua terra era guerra

cessada sem ter receo, salvo dantre Tejo, e Odiana, que pelo acabamento

da tregoa cumpria ser bem defeza, e guardada, e que álem desto seria

cousa honroza, se com a defenção della, se assás se ganharem mais alguns

Lugares a Mouros, chamou seu filho o Ifante D. Sancho, e perante alguns

do seu Concelho lhe disse assi: «Filho tu sabes bem quanto trabalho

tenho passado na guerra com os Mouros, e pela tregoa que tinha com

El-Rei Albojaque já ser acabada, hei por certo que os Mouros, não

estarão quedos, e guerrearão esses Lugares que delles ganhei em

Alentejo, donde recebem, e esperam de receber muito dano, e já me foi

falado e requerido que entendesse na defensão delles, pelo qual eu

cuidando como se esto milhor podia fazer de quantas cousas me vieram por

sentido me pareceo, e parece milhor que tudo, que eu te mande lá em

pessoa, e esto por duas rezões, a primeira, porque sabes que está meu

cazo de não poder cavalgar em besta por não ir ás Cortes del-Rei D.

Fernando, o que eu não fora por cousa que no mundo houvesse, que fazendo

traria a ti, e a mim grande perda, e a todos os do Reino de Portugal; a

segunda porque prazendo ao Senhor Deos depois de meus dias, tu hás de

ter o carrego de reger, e defender este Reino, e pois te deu Deos

entender, e corpo, e manhas para o poderes fazer, é bem que já agora

commeces, e o faças.»

Quando o Ifante ouvio esto a seu pai foi muito ledo, e beijou-lhe as

mãos, dizendo: «Senhor, eu vos tenho em mui grande mercê esto, que me

encarregais, e espero em a graça do Senhor Deos com os bons Senhores e

Cavalleiros, de vosso Reino trabalhar como seu serviço, e vossa vontade,

e mandado seja comprido; e pois Senhor se esta cousa ha de fazer seja

vossa mercê querer que se faça logo; porque quanto mais cedo for tanto

porei a terra em milhor estado, e defensão.» El-Rei respondeo que lhe

prazia, que assi o mandava poer em obra, e ordenando logo quais, e

quantos daquem do Tejo contra o Porto fossem chamados para haver de ir

com o Ifante escrevendo que todos se ajuntassem em Coimbra a certo dia;

esso mesmo fizeram ordenanças, e Regimentos que o Ifante havia de ter no

feito da guerra, que havia de começar.

Chronica de el-rei D. Affonso Henriques · 第 84 / 113 题