_Como o Corpo de S. Vicente foi posto na Sé de Lisboa_.
Elles chegados ao porto da Cidade de Lisboa, não quizeram logo tirar
fóra o Corpo do glorioso Martyr, com receo de lho tomarem por força, e
aguardando a noite levaram-no escondidamente á Egreja de Santa Justa, o
qual sendo logo sabido ao outro dia pela menhã, segundo Deos não quer
sua gloria escondida, toda a Cidade corria para alli, e uns diziam que
era bem de o poerem em S. Vicente de Fòra, e outros, que mais rezão era
estar na Sé, e neste debate D. Gonçalo Viegas Adiantado mór de
Cavallaria del-Rei, que era presente, vendo quão errada cousa era,
arguir-se mal e arroido sobre cousa tão santa e devota, que mais com
rezão deviam tolhe-lo, fez cessar o alvoroço da gente, e que esperassem
até que o El-Rei soubesse, e mandasse o que sua mercê fosse nesso. D.
Roberto Daião da Sé homem onesto, e de boa vida, foi o mais onesta e
escuzamente que pode a D. Moniz Prior da Egreja de Santa Justa, e
rogou-lhe mui afincadamente, que por honrar, e obrigar a Sé, que era a
principal e mais dina Egreja da Cidade em que aquelle Santo Corpo mais
honradamente, que em outra parte podia estar, lho quizesse dar, e a elle
aprouve dar lho, e então os da Sé, com toda outra Clerezia mui ledos,
foram por elle, e o levaram mui honradamente em procissão, acompanhado
de toda a gente da Cidade dando todos muitas graças, e louvores a N.
Senhor, e assi foi trazido, e posto na Sé, onde ora jaz. Os Conegos de
S. Vicente vieram logo hi a pedir que lhe dessem das Reliquias daquelle
santo Corpo, mas não lhe foram dadas.
Quando El-Rei D. Affonso Anriques soube esto, segundo era devoto, chorou
com prazer, louvando muito ao Senhor Deos, por querer em seus dias
honrar seu Reino com tão preciosas Reliquias, mandando outra vez áquelle
lugar donde o Corpo fora trazido, que vissem, e catassem bem, se ficara
ainda lá alguma cousa delle. Foram lá, e feita toda diligencia, acharam
ainda um pedaço do testo da cabeça, e pedaços pequenos desatandados do
Ataude, o que todo trazido sem nada ficar, pozeram com o Corpo. E conta
a Estoria, que depois que este santo Corpo alli foi na Sé, o Corvo o
qual, segundo já dissemos, que foi visto guarda-lo quando foi deitado ás
aves, e animalias veio sempre na barca com elle, e o acompanhou, e
depois de posto na Sé, o viram muitas vezes sobre o seu Moimento, como
quem o não queria desemparar, e outras oras se punha sobre o Altar mór,
e assi andava voando pela Egreja, e aconteceo, que um moço chamado
Joane, que servia na Egreja deu com uma pedra a este Corvo, e foi cousa
milagrosa, que logo a essa hora foi tolheito, de todos seus membros, e
então seu pai do moço quando vio tamanho pezar ao moço seu filho,
lançou-se em oração de noite muito devotamente ante o Corpo de S.
Vicente, e foi logo o moço são de todo, como dantes era; e da li nunca
mais ninguem ouzou de fazer nojo áquelle Corvo, o qual foi hi visto por
muitos tempos. El-Rei mandou escrever o dia, e era em que o Corpo deste
glorioso Martyr veio a Lisboa, e foi aos quinze dias do mez de Setembro
da sobredita era de mil e cento e setenta e tres annos (1173).