CAPITULO XLVIII

_Como o Corpo de S. Vicente foi posto na Sé de Lisboa_.

Elles chegados ao porto da Cidade de Lisboa, não quizeram logo tirar

fóra o Corpo do glorioso Martyr, com receo de lho tomarem por força, e

aguardando a noite levaram-no escondidamente á Egreja de Santa Justa, o

qual sendo logo sabido ao outro dia pela menhã, segundo Deos não quer

sua gloria escondida, toda a Cidade corria para alli, e uns diziam que

era bem de o poerem em S. Vicente de Fòra, e outros, que mais rezão era

estar na Sé, e neste debate D. Gonçalo Viegas Adiantado mór de

Cavallaria del-Rei, que era presente, vendo quão errada cousa era,

arguir-se mal e arroido sobre cousa tão santa e devota, que mais com

rezão deviam tolhe-lo, fez cessar o alvoroço da gente, e que esperassem

até que o El-Rei soubesse, e mandasse o que sua mercê fosse nesso. D.

Roberto Daião da Sé homem onesto, e de boa vida, foi o mais onesta e

escuzamente que pode a D. Moniz Prior da Egreja de Santa Justa, e

rogou-lhe mui afincadamente, que por honrar, e obrigar a Sé, que era a

principal e mais dina Egreja da Cidade em que aquelle Santo Corpo mais

honradamente, que em outra parte podia estar, lho quizesse dar, e a elle

aprouve dar lho, e então os da Sé, com toda outra Clerezia mui ledos,

foram por elle, e o levaram mui honradamente em procissão, acompanhado

de toda a gente da Cidade dando todos muitas graças, e louvores a N.

Senhor, e assi foi trazido, e posto na Sé, onde ora jaz. Os Conegos de

S. Vicente vieram logo hi a pedir que lhe dessem das Reliquias daquelle

santo Corpo, mas não lhe foram dadas.

Quando El-Rei D. Affonso Anriques soube esto, segundo era devoto, chorou

com prazer, louvando muito ao Senhor Deos, por querer em seus dias

honrar seu Reino com tão preciosas Reliquias, mandando outra vez áquelle

lugar donde o Corpo fora trazido, que vissem, e catassem bem, se ficara

ainda lá alguma cousa delle. Foram lá, e feita toda diligencia, acharam

ainda um pedaço do testo da cabeça, e pedaços pequenos desatandados do

Ataude, o que todo trazido sem nada ficar, pozeram com o Corpo. E conta

a Estoria, que depois que este santo Corpo alli foi na Sé, o Corvo o

qual, segundo já dissemos, que foi visto guarda-lo quando foi deitado ás

aves, e animalias veio sempre na barca com elle, e o acompanhou, e

depois de posto na Sé, o viram muitas vezes sobre o seu Moimento, como

quem o não queria desemparar, e outras oras se punha sobre o Altar mór,

e assi andava voando pela Egreja, e aconteceo, que um moço chamado

Joane, que servia na Egreja deu com uma pedra a este Corvo, e foi cousa

milagrosa, que logo a essa hora foi tolheito, de todos seus membros, e

então seu pai do moço quando vio tamanho pezar ao moço seu filho,

lançou-se em oração de noite muito devotamente ante o Corpo de S.

Vicente, e foi logo o moço são de todo, como dantes era; e da li nunca

mais ninguem ouzou de fazer nojo áquelle Corvo, o qual foi hi visto por

muitos tempos. El-Rei mandou escrever o dia, e era em que o Corpo deste

glorioso Martyr veio a Lisboa, e foi aos quinze dias do mez de Setembro

da sobredita era de mil e cento e setenta e tres annos (1173).

Chronica de el-rei D. Affonso Henriques · 第 83 / 113 题