_Como El-Rei D. Affonso tomou Cezimbra, e Palmela, e peleijou, e venceo
El Rei Mouro de Badalhouse com muita Mourama_.
Sempre despois deste cazamento El-Rei D. Affonso esteve, e andou por
aquelles lugares, que ganhára aos Mouros, provendo-os das couzas, que
lhe compriam para sua defenção, como fossem governados em justiça, e
estando assi em Alcacer na era do Senhor de mil e cento e sessenta e
cinco annos (1165) havendo já El-Rei setenta e um de sua idade, veio
recado como Cezimbra estava mingoada de gente, que a tomaria se fosse
sobre ella. A esta nova partio logo El-Rei de Alcacer com toda sua
gente, e foi-a combater com tanta affronta, que ainda que a Villa, e
Castello eram mui fórtes, filhou-a por força, e desque teve a Villa
socegada, e posto nella quem a guardasse, determinou de ir ver Palmella,
e o acento, e fortaleza della, levando consigo, sessenta bons
Cavalleiros, e alguma gente de pé, e besteiros, e chegando a Palmella, e
estando vendo-a, asomou El-Rei de Badalhouse com muita Mourama das
frontarias daredor, em que havia quatro mil homens de cavallo, e
sessenta mil de pé, e vinham ao longo sem ordem a gram pressa para
soccorrer Cezimbra, descuidados de verem, nem acharem alli Christãos.
Teve-se El-Rei traz um cabeço, e vendo os que eram com elle tanta gente,
começáram de haver grande receio, e todos aconselhavam El-Rei que se
acolhesse a seu araial o milhor que podesse, e delles diziam, que se
puzesse em uma alta serra, que por hi vai, que se chama a serra
Dazeitão, e tomassem em ella algum lugar fórte para se deffenderem, até
ir recado aos do arraial.
El-Rei com quanto vio o medo, e receio dos seus pela grande multidão dos
Mouros; porém esforçando-se no poderio de Deos ser maior que o dos
homens, no qual elle sempre esperando se achava vencedor, fallou aos
seus em esta maneira: «Que esmaio é este amigos, ou que nova
desconfiança do Senhor Deos, nem que vedes vós agora de novo, para tanta
torvação; estes muitos, que vedes são os que vós muito menos, dos que
ora soes, sempre vencestes, para esso ganhamos nós peleijando, e
vencendo, á cincoenta annos, tanto merecimento, e honra ante Deos, e o
Mundo, para todo em uma só hora, fugindo perdermos, certo que
ouvindo-vos, o que ouço, se vos a todos não conhecera, podera mal
cuidar, serdes os que comigo vencestes muitos mais, que estes imigos no
campo Dourique, e em outros lugares, não ponhaes ante vós meus amigos,
quantos mais são, que nós, mas quanto no poder, e querer de Deos, por
quem peleijamos, são muito menos que nós; o medo, em que os Deos já poz
para nós maiormente se dermos nelles de sobresalto, fará que lhes
pareçamos muitos mais do que somos, e elles assi mesmos, menos muito, do
que são, e tendo-nos Deos tantas vezes mostrado esta verdade, podeis
ainda cuidar em nos devermos de retraher, nem fugir, Deos por nós sempre
contra elles em honra, e vencimento, e nos queremos ora poer em
deshonra, e nossos imigos em gloria, e esforço contra nós. Ora havei
Cavalleiros, que mingua de fé, mingua de crença, nos encurta o esforço,
mal concorda no coração de Christão esmaio com ardideza, mal no Christão
desconfiança com fé, que inda que poucos sejamos, tambem de muitos,
poucos são os que peleijam, não tem hoje estes nossos imigos em seus
corações, cousa mais certa que topando-se no campo convosco, e comigo,
haverem-se logo por vencidos, tanto que nos virem não ficará destroço,
nem mortos, nem vencimentos passados, quantos contra elles houvemos, que
como prezentes ante si não ponham, este de agora, que com a graça de
Deos haveremos. Pelo qual meus bons Cavalleiros, não vos venham por
sentido medos, de que nosso Senhor Deos sempre livrou, e mostrou o
contrario, e pois por tantas, e tão milagrosas vitorias, que sobre nosso
poder, por sua piedade nos deu, temos tão sabido nada ser a elle
impossivel, não devemos nada temer, vamos logo com sua graça, que nos
sempre acompanha ferir nos imigos. Eu quero hoje ser vosso pendão, e ver
se me quereis seguir, e guardar como sempre fizestes, que pois Deus
ordenou para mostrar mais seu gram poder, com tão poucos me aqui
acertasse, eu determino por seu serviço, hoje neste dia, de vencedor, ou
de morto me não partir do campo».
Desque El-Rei acabou de fallar, vendo os seus em elle tão grande
confiança, e determinação, todos mui esforçados com suas palavras, e
esforço, disseram, que por muito mais dezigual que o cazo fosse, delles
aos Mouros, pois elle seu corpo determinava poer a tal feito, elles lhes
não faleceriam, e o seguiriam como sempre fizeram, dizendo que dessem
logo nelles. Vinham já pelo infesto acima, a cerca, e não haviam mais
que tardar. Abalou então El-Rei á pressa com grande coração, e esforço,
e todos com elle, em se mostrando fez dar ás trombetas, e foram ferir
nos primeiros tão rijamente, que logo muitos delles foram derribados,
antre mortos, e feridos. Os Mouros achando-se salteados, e conhecendo,
que aquelle era El-Rei D. Affonso, que tanto temiam, figurando-se-lhe,
que seria muita mais gente, foi o medo em elles tão grande, que
começaram logo a fugir, parecendo aos trazeiros, que os seus mesmos, que
voltavam fugindo, eram imigos, como soi a fazer gente de medo cortada, e
assi correndo o desmaio por elles, se puzeram todos em desbarate. Alguns
contam, que se guardou El-Rei para de madrugada dar nelles, onde foram
vistos pouzar, por ser ora, e tempo azado, para mais desmaio, e
desbarato dos Mouros, e assi o fez, e os desbaratou. Como quer, que
fosse feito, foi em que entrou saber de Cavallaria, com grande coração,
e esforço ajudado por nosso Senhor, por cujo serviço se aventurava.
Seguio El-Rei apoz os Mouros matando, e ferindo, e cativando muitos no
alcance tomando-lhes a carriagem, e despojos grandes, de quanto traziam.
Tanto que o desbarato foi acabado, mandou El-Rei dous Cavalleiros a
grande pressa a Cezimbra a suas gentes, que lá ficaram, que logo fossem
todos com elle, e foram ao outro dia todos e juntos, muito ledos, pela
boa andança, que Deos dera a El-Rei, e não menos tristes, por se não
acertarem com elle na batalha. Tanto que os de Palmella viram o
desbarato dos seus Mouros, e os Christãos juntos contra si, tendo
perdida a esperança do soccorro, preitejaram se com El-Rei, que os
leixasse sahir em salvo, e lhes dariam a Villa, e a El Rei aprouve
dello, e assi houve a Villa de Palmella.