_Da palmeira que naceo na cova do Cavalleiro Anrique, e dos milagres que
Deos por elle fazia_.
Querendo ainda o Senhor Deos segundo a grande avondança de sua infinda
benificencia, mostrar por mais maravilhas quanto lhe tinha aprazido, o
serviço deste Cavalleiro Anrique, appareceo á cabeceira de sua sepultura
uma palma semelhante áquella que trazem os Romeiros de Jerusalem em suas
mãos; assi começou em verdecer, e deitar folhas, e crecer sobre a terra,
em sua altura juxta. El-Rei, e todos vendo tão grande, e famoso milagre,
louvaram muito a Deos, e quantos enfermos alli vinham tomar palma, e
deitavam ao colo logo eram sãos a essa hora, de qualquer infermidade que
tivessem, e outros a tomavam, e tostavam, e depois de moida bebiam della
aquelle pó, e assi mesmo se achavam logo sãos das dores que tinham, e
tanta foi a continuação da muita gente que vinha tomar daquella palma,
que a pouco tempo não ficou nada della sobre a terra, até por não porem
boa guarda nella, vieram alguns de noite, e a arrancaram de todo,
levando o que ficava sobre a terra. Por estes milagres, e outros que N.
Senhor aprouve de fazer pelos seus Santos Martyres, que alli morreram,
tinha El-Rei nelles mui grande devação, que se sentia em si algum
abalamento de doença deitava-se em oração sobre seus jazigos, e
achava-se logo remediado.