CAPITULO XXXVII

_Como o Cavalleiro Anrique appareceo em sonhos a um homem bom,

mandando-lhe que soterrasse um seu Escudeiro apar delle, que na entrada

de Lisboa muito ferido morrera_.

Logo a poucos dias que esto aconteceo veio a morrer um Escudeiro deste

Cavalleiro Anrique de grandes feridas, que tambem houve na entrada da

Cidade, e enterraram-no na mesma Egreja donde jazia seu senhor, e sendo

alli soterrado, appareceo de noite o Cavalleiro Anrique a um homem muito

velho, que servia aquella Egreja e havia nome Anrique como elle,

dizendo-lhe: «Levanta-te, e vai ao lugar onde os Christãos enterraram o

meu Escudeiro alongado de mim, toma o seu corpo, e vem enterra-lo aqui

junto comigo, porque quem me seguio, e se ajuntou comigo na morte, não

deve ser apartado na sepultura». Do que aquelle homem bom nada curou, e

vindo-lhe outro tal segundo aparecimento, e amoestação tão pouco curou

desso, como da primeira, então lhe appareceo a terceira vez o Cavalleiro

Anrique mui irado, e com sembrante bravo, e queixoso ameaçando-o com

palavras de grande medo, se logo não fosse comprir o que por tantas

vezes lhe dissera, pelo qual aquelle bom velho cheio de temor se

levantou logo de noite, e foi com candeias á sepultura onde jazia o

Escudeiro, e desenterrou-o trazendo-o elle por si só e lhe fez uma cova

a milhor que pode apar do Cavalleiro Anrique onde o enterrou, e quando

veio pela menhã, achou-se o velho tão são, e sem cançasso do trabalho da

noite passado, sendo impossivel por sua cançada idade pode-lo fazer,

como se jouvera em sua cama folgando sem fazer nada, e contando ao outro

dia todo assi como lhe acontecera, aos Prelados, e a todo o povo deram

todos muitos louvores a N. Senhor.

Chronica de el-rei D. Affonso Henriques · 第 72 / 113 题