_Como o Cavalleiro Anrique appareceo em sonhos a um homem bom,
mandando-lhe que soterrasse um seu Escudeiro apar delle, que na entrada
de Lisboa muito ferido morrera_.
Logo a poucos dias que esto aconteceo veio a morrer um Escudeiro deste
Cavalleiro Anrique de grandes feridas, que tambem houve na entrada da
Cidade, e enterraram-no na mesma Egreja donde jazia seu senhor, e sendo
alli soterrado, appareceo de noite o Cavalleiro Anrique a um homem muito
velho, que servia aquella Egreja e havia nome Anrique como elle,
dizendo-lhe: «Levanta-te, e vai ao lugar onde os Christãos enterraram o
meu Escudeiro alongado de mim, toma o seu corpo, e vem enterra-lo aqui
junto comigo, porque quem me seguio, e se ajuntou comigo na morte, não
deve ser apartado na sepultura». Do que aquelle homem bom nada curou, e
vindo-lhe outro tal segundo aparecimento, e amoestação tão pouco curou
desso, como da primeira, então lhe appareceo a terceira vez o Cavalleiro
Anrique mui irado, e com sembrante bravo, e queixoso ameaçando-o com
palavras de grande medo, se logo não fosse comprir o que por tantas
vezes lhe dissera, pelo qual aquelle bom velho cheio de temor se
levantou logo de noite, e foi com candeias á sepultura onde jazia o
Escudeiro, e desenterrou-o trazendo-o elle por si só e lhe fez uma cova
a milhor que pode apar do Cavalleiro Anrique onde o enterrou, e quando
veio pela menhã, achou-se o velho tão são, e sem cançasso do trabalho da
noite passado, sendo impossivel por sua cançada idade pode-lo fazer,
como se jouvera em sua cama folgando sem fazer nada, e contando ao outro
dia todo assi como lhe acontecera, aos Prelados, e a todo o povo deram
todos muitos louvores a N. Senhor.