_Do que El Rei D. Affonso Anriques fez depois de entrada a Cidade de
Lisboa, e tomada, e do que falou, e passou com as gentes Estrangeiras_.
Oesque a Cidade de Lisboa assi foi tomada por El-Rei D. Affonso
Anriques, e aquelles Estrangeiros, com elle ajuntou logo El-Rei todos, e
com grande procissão se foram á Mesquita onde ora está a Sé edeficada, e
depois de limpa, e mundificada das abominaveis ceremonias que hi eram
feitas da seita de Mafamede, os Clerigos, e Bispos revestidos, segundo
sua ordem, com _Te Deum laudamus_, entraram nella, e assi foi
consagrada, e instituida á honra e louvor da Virgem Maria, celebrando
logo em ella os officios Divinos, nomeando-a por Sé Cathedral, se ao
Santo Padre aprouvesse. Feito esto mandou El-Rei logo chamar Mossem
Guilhem de longa espada, Childe Rolim, e D. Liberche, e D. Ligell, e
outros Capitães, grandes, que eram na companhia dos Estrangeiros, e
disse-lhes. «Amigos bem sabeis como concertámos se nos Deos desse a
Cidade que a partissemos por meio, e pois a elle por sua piedade aprouve
de a tomarmos, muitos louvores, e graças lhe sejam dadas, vós escolhei,
e tomai Cavalleiros, e eu darei outros que vão partir a Cidade, e assi
todalas cousas que dentro, e fóra della houver, e forem achadas.»
Vendo esto aquelles Capitães, e gentes Estrangeiras tiveram a grande bem
o que El Rei dizia, e responderam-lhe que haveriam sobre ello concelho,
e lhe tornariam reposta. O concelho, e determinação delles foi, que pois
partiram de suas terras, e foram alli vindos, só com tenção de servir a
Deos, nem fora outro nenhum seu proposito, e vontade, não queriam haver
Cidades, nem terras, nem outras riquezas, quanto mais não lhes parecendo
cousa conveniente que tal Cidade fosse partida, nem manteuda com El Rei
de por meio em sua terra, que abastava para elles leixarem-na em poder
de Christãos como fora seu dezejo, e assi se foram a El-Rei, e lho
disseram mui francamente, o que lhes elle muito agradeceo,
offerecendo-se, que se alguns delles, e de suas gentes quizessem ficar
em sua terra, elle lhe daria lugares para povoarem, e viverem em elles
izentamente, e ás suas vontades. Depois desto partio El-Rei grandemente
com os Capitães, e gentes que quizeram tornar para suas terras, e assi
se espediram delle com muita sua graça, e os que ficáram para morarem na
terra escolheram para sua povoração vivenda a Atouguia, e Lourinhã, e
Arruda, e Villa-verde, e Villa-franca, que primeiro foi chamada
Cornagoa, porque aquelles que a povoaram eram Ingrezes de Cornualha, e
chamaram-na do nome de sua terra, e povoaram tambem a Azambuja, e
pozeram-lhe este nome, porque estava alli um grande Azambujeiro, e os
Ingrezes por em sua lingoa fazerem do mascolino, femenino, chamaram-lhe
Azambuja. E segundo memoria dos edeficadores daquelle lugar, o senhor
daquelles que a povoaram havia nome Rolim, não que por esso fosse Childe
Rolim, o que em cima dissemos ser um dos grandes Senhores que naquella
frota vinha, o qual não é de cuidar que ficasse em Portugal para povoar
terra de novo, havendo tantas Villas, e lugares povoados, de que mais
com rezão se devera partir com elle ficando na terra, mas é bem de crer,
que fosse outro algum Capitão Fidalgo seu parente, com que folgassem de
ficar, e seguir alguma daquella gente, segundo que desentão, e hoje em
dia seus sucessores, bem mostráram sua cavallaria, e fidalguia com muita
honra, e serviços feitos aos Reis, e Reino de Portugal, e outros alguns
destas gentes povoaram Almada, e pela nomeação deste nome se mostra que
foram muitos a povoa-la, e faze-la, ou por trabalho de suas pessoas, ou
por contribuirem dinheiros para esso, porque o proprio nome seu em
linguagem Ingreza é, vimadel, que quer dizer em Portuguez: _todos a
fazemos_, e depois por tempo, que todalas cousas muda, corrompendo-se o
nome, lhe chamáram Almadam, o que ainda vae ter a Almadee, que soa em
Ingrez, todo feito, mas leixaremos aqui um pouco de proseguir a Estoria
por contarmos de alguns milagres, que a N. Senhor aprouve de fazer por
alguns Martyres, que no cerco, e entrada de Lisboa morreram, em especial
de um Cavalleiro Alemão por nome Anrique, sendo muita razão, que os
Justos sejam como diz a sagrada Escritura em memoria eterna, e de sua
gloria por Deos manifestada, se faça louvada menção, pois se faz de seus
temporaes feitos, cujos merecimentos por muito que neste mundo
mereçamos, não chega á gloria, e louvor do premio, que no outro ante
Deos se alcança.