CAPITULO XXXIV

_Como El-Rei D. Affonso Anriques ordenou de ir cercar Lisboa, e a tomou,

e das gentes Estrangeiras que para esso houve em sua ajuda_.

Depois de tomado Santarem se foi El-Rei D. Affonso para Coimbra como se

disse, e não para descançar, nem repousar seu coração, que nunca cessava

de buscar afrontas, e louvadas impresas, em que Deos fosse servido, mas

para o melhor ordenar, como em fresco, se milhor aproveitasse do

vencimento, e tomada de Santarem, sabendo que nas guerras fama de uma

vitoria aproveitada com tempo dá azo a muitas, pelo qual ajuntou logo

seu poder para conquistar os lugares que ficavam na Estremadura de

Santarem até o mar, em especial a Cidade de Lisboa, a qual tomou no modo

que se segue.

Chegando El-Rei a terra onde Lisboa está situada, pareceo-lhe milhor

guerrear, e tomar as fortalezas ao redor della ante de cercar a Cidade

por tal que quando viesse o cerco tivessem os seus menos trabalho nas

forragens, e se podessem os seus mais ligeiramente sem outras guardas

estender pela terra, e alli tomou logo o Castello de Mafora, e deu-o a

D. Fernão Monteiro, o primeiro Mestre de Aviz que houve em Portugal, e

apoz esto foi logo cercar Sintra, e tomou-a, mas se foi por força, se

por preitesia não o achamos escrito, e sendo assi tomada, appareceo no

mar uma frota de cento e oitenta velas, de gentes, que naquelle tempo

moveram de Alemanha, e de Inglaterra, e de França, para guerrear os

infieis por serviço de Deos, e vindo assi todos de mar em fóra demandar

terra á rocha de Sintra.

Estava El-Rei D. Affonso em cima do Castello, e seus principaes que com

elle eram, e maravilhando-se do ajuntamento, e navegação de tão grande

frota, mandou logo quatro Cavalleiros, a saber que gentes eram, e a

causa de sua vinda, os quaes chegando a Cascaes já a frota toda pousava,

vieram então a fallar, e preguntar-lhes que gentes eram? Elles

responderam, que eram Christãos partidos de suas terras para virem

guerrear por serviço de Deos os Mouros imigos de sua santa Fé. Nesta

frota vinham muitos Condes, e outros grandes Senhores, mas a escritura

não falla de seus nomes, mais que de quatro, um por nome Mossem Guilhem

de longa espada, Conde de Lincoll de que se diz ser em seu tempo havido

pelo milhor Cavalleiro, que sabiam em toda a Inglaterra, nem França, ao

outro chamavam Childe Rolym, ao outro D. Liberche, ao outro D. Ligel.

Sabendo El-Rei pelos que lá mandára como eram Christãos, e da tenção que

traziam para servir a Deos, foi desso mui ledo, e bem se lhe poz no

sentido que Deos fizera mover aquella gente, e aportar em sua terra, por

lhe fazer tanta mercê, que a Cidade de Lisboa fosse tomada, e deu-lhe

por ello em seu coração muitos louvores, pelo qual lhes enviou

mensageiros, porque lhes mandou dizer como elle soubera os bons

movimentos, e tenção de suas boas vontades, que traziam para servir a

Deos, e que fossem bem certos que não sem misterio seu, e vontade, elles

eram alli aportados trazendo-os N. Senhor a tal logar, onde o bem podiam

servir, e comprir seus desejos, e devação, e não menos accrescentar suas

honras para esse mundo, porque de alli donde elles estavam pouzados não

mais de cinco leguas, estava uma cidade de Mouros mui guerreira das

principaes de Espanha, de que por mar, e por terra se fazia muita

guerra, e dano aos Christãos, a qual tinha mui fermoso porto, em que

suas Náos, e muitas mais podiam mui seguramente estar ancoradas, e elles

haver muitos mantimentos em abastança, e pois ao Senhor Deos aprouvera

sem irem trabalhar mais longe, traze-los tão perto de tamanho azo, e

oportunidade para o que vinham buscar, não leixassem esta empresa por

Deos tão querida, e mostrada por outra nhuma creatura, e que elle como

Rei que era da terra os ajudaria a esso com todas suas forças, como

elles bem veriam.

Andaram assim estes recados de uma parte, e da outra, até que vieram

concertar de irem juntamente todos cercar a Cidade, á condição que sendo

tomada, ametade fosse del-Rei, e a outra metade dos Estrangeiros, e

assim logo El-Rei por terra, e a frota por mar foram poer cerco a

Lisboa; El-Rei acentou seu arrayal da parte do Oriente, onde agora está

o Moesteiro de S. Vicente de Fóra, e os Inglezes, e outras gentes

tomaram a parte do Ponente, onde ora são os Martyres. Durou o cerco

perto de cinco mezes, por a Cidade ser mui forte, de sitio, e cerca, e

estarem dentro muitos Mouros, que a mui bem defendiam; fizeram-se neste

cerco grandes escaramuças, e fortes combates, em que se matavam muitos

Cavalleiros de uma parte, e da outra. Cada um arrayal dos Christãos,

edeficou sua Egreja em que enterrassem os que alli morriam, e El-Rei D.

Affonso fez a sua, onde depois foi edeficado o Moesteiro de S. Vicente á

honra do Martyre S. Vicente, e os Estrangeiros edeficaram outra que ora

é chamada Santa Maria dos Martyres. Estas Egrejas estão agora dentro dos

muros da Cidade, desque a cercou El-Rei D. Fernando o noveno Rei de

Portugal, como se adiante dirá, porque quando Lisboa esta vez foi tomada

a Mouros, não era sua cerca maior, que quanto se ora vê, e chama cerca

velha.

Quando veio em dia dos Martyres S. Chrispino, e Chrispiniano, que é aos

vinte e cinco dias do mez de Outubro, andando a era do Senhor em mil

cento quorenta e sete annos, (1147) foi a Cidade mui rijamente, e com

grande determinação combatida, dando o Senhor Deos tanta graça aos

Christãos, que seu esforço, e gram devação de peleijar por seu serviço,

passava pelas muitas feridas, e mortes, e todas outras grandes

difficuldades, e perigos do combate, havendo elles todo por menos, pelo

grande pezar que tinham em lhe parecer que todo seu trabalho seria

debalde, e Deos não servido, se a Cidade se não tomasse, e assi com este

fervor, e mui animosa determinação, poendo em fim o que os seus devotos

corações tanto desejavam, entraram a Cidade por força.

Entrou-se principalmente por a porta que ora chamam de Alfama, e de hi

pelas outras portas, e depois de entrada foi dentro a peleija muito mais

fera, que janda soe antre irados vencedores, e vencidos, desesperados,

peleijando já os Mouros com estremada desesperação, e vontade de querer

antes morrer antre as mortes de suas molheres, e perdimento de filhos,

paes, parentes, e amigos, e assi os Christãos não com menos indinação

por infieis entrados, e vencidos querendo ainda mais deter, e daninficar

seu vencimento, nem se querendo dar por vencidos, por tanto foi tão

grande a mortindade delles, e sobejo o conto dos que foram mortos, e

trazidos a ferro, que é escuzado cuidar quão poucos ficáram.

Chronica de el-rei D. Affonso Henriques · 第 69 / 113 题