_Como El-Rei D. Affonso Anriques ordenou de ir cercar Lisboa, e a tomou,
e das gentes Estrangeiras que para esso houve em sua ajuda_.
Depois de tomado Santarem se foi El-Rei D. Affonso para Coimbra como se
disse, e não para descançar, nem repousar seu coração, que nunca cessava
de buscar afrontas, e louvadas impresas, em que Deos fosse servido, mas
para o melhor ordenar, como em fresco, se milhor aproveitasse do
vencimento, e tomada de Santarem, sabendo que nas guerras fama de uma
vitoria aproveitada com tempo dá azo a muitas, pelo qual ajuntou logo
seu poder para conquistar os lugares que ficavam na Estremadura de
Santarem até o mar, em especial a Cidade de Lisboa, a qual tomou no modo
que se segue.
Chegando El-Rei a terra onde Lisboa está situada, pareceo-lhe milhor
guerrear, e tomar as fortalezas ao redor della ante de cercar a Cidade
por tal que quando viesse o cerco tivessem os seus menos trabalho nas
forragens, e se podessem os seus mais ligeiramente sem outras guardas
estender pela terra, e alli tomou logo o Castello de Mafora, e deu-o a
D. Fernão Monteiro, o primeiro Mestre de Aviz que houve em Portugal, e
apoz esto foi logo cercar Sintra, e tomou-a, mas se foi por força, se
por preitesia não o achamos escrito, e sendo assi tomada, appareceo no
mar uma frota de cento e oitenta velas, de gentes, que naquelle tempo
moveram de Alemanha, e de Inglaterra, e de França, para guerrear os
infieis por serviço de Deos, e vindo assi todos de mar em fóra demandar
terra á rocha de Sintra.
Estava El-Rei D. Affonso em cima do Castello, e seus principaes que com
elle eram, e maravilhando-se do ajuntamento, e navegação de tão grande
frota, mandou logo quatro Cavalleiros, a saber que gentes eram, e a
causa de sua vinda, os quaes chegando a Cascaes já a frota toda pousava,
vieram então a fallar, e preguntar-lhes que gentes eram? Elles
responderam, que eram Christãos partidos de suas terras para virem
guerrear por serviço de Deos os Mouros imigos de sua santa Fé. Nesta
frota vinham muitos Condes, e outros grandes Senhores, mas a escritura
não falla de seus nomes, mais que de quatro, um por nome Mossem Guilhem
de longa espada, Conde de Lincoll de que se diz ser em seu tempo havido
pelo milhor Cavalleiro, que sabiam em toda a Inglaterra, nem França, ao
outro chamavam Childe Rolym, ao outro D. Liberche, ao outro D. Ligel.
Sabendo El-Rei pelos que lá mandára como eram Christãos, e da tenção que
traziam para servir a Deos, foi desso mui ledo, e bem se lhe poz no
sentido que Deos fizera mover aquella gente, e aportar em sua terra, por
lhe fazer tanta mercê, que a Cidade de Lisboa fosse tomada, e deu-lhe
por ello em seu coração muitos louvores, pelo qual lhes enviou
mensageiros, porque lhes mandou dizer como elle soubera os bons
movimentos, e tenção de suas boas vontades, que traziam para servir a
Deos, e que fossem bem certos que não sem misterio seu, e vontade, elles
eram alli aportados trazendo-os N. Senhor a tal logar, onde o bem podiam
servir, e comprir seus desejos, e devação, e não menos accrescentar suas
honras para esse mundo, porque de alli donde elles estavam pouzados não
mais de cinco leguas, estava uma cidade de Mouros mui guerreira das
principaes de Espanha, de que por mar, e por terra se fazia muita
guerra, e dano aos Christãos, a qual tinha mui fermoso porto, em que
suas Náos, e muitas mais podiam mui seguramente estar ancoradas, e elles
haver muitos mantimentos em abastança, e pois ao Senhor Deos aprouvera
sem irem trabalhar mais longe, traze-los tão perto de tamanho azo, e
oportunidade para o que vinham buscar, não leixassem esta empresa por
Deos tão querida, e mostrada por outra nhuma creatura, e que elle como
Rei que era da terra os ajudaria a esso com todas suas forças, como
elles bem veriam.
Andaram assim estes recados de uma parte, e da outra, até que vieram
concertar de irem juntamente todos cercar a Cidade, á condição que sendo
tomada, ametade fosse del-Rei, e a outra metade dos Estrangeiros, e
assim logo El-Rei por terra, e a frota por mar foram poer cerco a
Lisboa; El-Rei acentou seu arrayal da parte do Oriente, onde agora está
o Moesteiro de S. Vicente de Fóra, e os Inglezes, e outras gentes
tomaram a parte do Ponente, onde ora são os Martyres. Durou o cerco
perto de cinco mezes, por a Cidade ser mui forte, de sitio, e cerca, e
estarem dentro muitos Mouros, que a mui bem defendiam; fizeram-se neste
cerco grandes escaramuças, e fortes combates, em que se matavam muitos
Cavalleiros de uma parte, e da outra. Cada um arrayal dos Christãos,
edeficou sua Egreja em que enterrassem os que alli morriam, e El-Rei D.
Affonso fez a sua, onde depois foi edeficado o Moesteiro de S. Vicente á
honra do Martyre S. Vicente, e os Estrangeiros edeficaram outra que ora
é chamada Santa Maria dos Martyres. Estas Egrejas estão agora dentro dos
muros da Cidade, desque a cercou El-Rei D. Fernando o noveno Rei de
Portugal, como se adiante dirá, porque quando Lisboa esta vez foi tomada
a Mouros, não era sua cerca maior, que quanto se ora vê, e chama cerca
velha.
Quando veio em dia dos Martyres S. Chrispino, e Chrispiniano, que é aos
vinte e cinco dias do mez de Outubro, andando a era do Senhor em mil
cento quorenta e sete annos, (1147) foi a Cidade mui rijamente, e com
grande determinação combatida, dando o Senhor Deos tanta graça aos
Christãos, que seu esforço, e gram devação de peleijar por seu serviço,
passava pelas muitas feridas, e mortes, e todas outras grandes
difficuldades, e perigos do combate, havendo elles todo por menos, pelo
grande pezar que tinham em lhe parecer que todo seu trabalho seria
debalde, e Deos não servido, se a Cidade se não tomasse, e assi com este
fervor, e mui animosa determinação, poendo em fim o que os seus devotos
corações tanto desejavam, entraram a Cidade por força.
Entrou-se principalmente por a porta que ora chamam de Alfama, e de hi
pelas outras portas, e depois de entrada foi dentro a peleija muito mais
fera, que janda soe antre irados vencedores, e vencidos, desesperados,
peleijando já os Mouros com estremada desesperação, e vontade de querer
antes morrer antre as mortes de suas molheres, e perdimento de filhos,
paes, parentes, e amigos, e assi os Christãos não com menos indinação
por infieis entrados, e vencidos querendo ainda mais deter, e daninficar
seu vencimento, nem se querendo dar por vencidos, por tanto foi tão
grande a mortindade delles, e sobejo o conto dos que foram mortos, e
trazidos a ferro, que é escuzado cuidar quão poucos ficáram.