_Como o Conde D. Anrique adoeceo á morte, e das palavras que disse a seu
filho ante que falecesse_.
Era este Conde D. Anrique mui nobre, e esforçado cavaleiro, muito amador
da Justiça, e a temor de Deos mui chegado, e elle com grande devação fez
a Sé de Coimbra, e de Braga, e do Porto, e de Vizeu, e Lamego, e pôz em
ellas Bispos, que as houvessem de reger por mandado, e licença do Santo
Padre. Em este tempo andando a era de Nosso Senhor de mil cento e trez,
(1103) foi este Conde D. Anrique a ultra mar á Caza Santa de Jerusalem,
conquistada havia quatro annos de Christãos, novamente pelo Duque
Gudufre de Bulhão, quatro centos e noventa annos depois que em tempo de
Mafamede, e do Araclio Emperador foi tomada a Christãos, e possuida de
Mouros, e quando de lá veio trouxe este Conde muitas reliquias de
Santos, entre as quaes foi um braço de S. Lucas Evangelista, que por
filho del-Rei Dungria, e fama de sua grande bondade, e cavalarias lhe
foi dado em Constantinopla, e a rogo de S. Giraldo que então era Bispo
de Braga, deu parte delle á Sé da dita Cidade, o qual elle recebeo em
mui grande dom, e o pôz com outras Reliquias da Egreja, e depois que
assi o Conde D. Anrique veio de Jerusalem não lhe cessaram guerras com
os Lionezes, e ganhou-lhes muita terra até chegar a Estorgua, a qual
tendo tomada, e metida sob seu senhorio, dali os guerreou fazendo
continuamente muitas cavalgadas pela terra estragando-lhes pães, e
vinhas, matando, e prendendo muita gente delles, com que os pôz em tanto
aperto, que se lhe não podiam defender, e lhes foi forçado
preitejarem-se por esta guiza, que se El-Rei D. Affonso de Castella seu
primo chamado Emperador, lhes não soccorresse até quatro mezes, elles
lhe entregassem a Cidade de Lião com todas as rendas, e senhorio que
El-Rei nella tinha. E tendo-a assi preitejada veio o Conde a doecer de
modo, que bem conheceo não haver nelle vida. Pelo qual vendo-se elle em
tal ponto chamou seu filho D. Affonso Anriques, e lhe fez uma falla
muito de Cavaleiro entendido, e esforçado em esta maneira.
«Filho esta hora derradeira que me Deos ordena para te haver de leixar
com a vida deste mundo me faz, que te veja, e fale com dobrado amor, e
sentido do nosso apartamento, e por esso assenta em teu coração minhas
palavras como de pai a quem após estas já não has douvir outras. Deves
filho de saber, que o poderio que o Senhor Deos neste mundo ordenou de
alguns Princepes sobre outros sometidos a elles foi por tal, que os máos
sejam constrangidos, e os bons vivam entre elles em paz, e assocego,
porque conservação é dos bons, e pungimento dos máos, pelo qual filho
more sempre em teu coração vontade de fazer justiça, virtude é que dura
para sempre na vontade, e corações dos justos, e dá igualmente seu
direito, que é o maior louvor, e merecimento que os Principes em seu
regimento podem alcançar, que todo o governo, e bem commum consiste
principalmente em duas cousas, a saber: em premio, e em pena; e assi
como os bons pela justiça se fazem milhores recebendo premio, e galardão
de suas boas obras, assi os máos vem a ser bons, ou a menos cessam de
seus males com receo da pena, e por tanto faze filho sempre como hajam
todos direito assi grandes como pequenos, e nunca por rogo, nem cobiça,
nem outra nhuma afeição leixes de fazer justiça, que o dia que um só
palmo a leixares de fazer logo no outro se arredará de teu coração uma
braçada.
«Trabalha-te muito de saber se os que tem teu carrego fazem justiça, e
direito compridamente, e se a fizerem, faze-lhe compridamente bem, e
mercê, e se o contrario, dá-lhe pena segundo seu merecimento, por os
outros tomarem castigo, não consintas em modo algum, que os teus sejam
soberbos, nem atrevidos em mal fazer, que perderás teu preço, e
estimação se taes cousas não vedares; mas segue todavia justiça temendo,
e amando muito a Deos, para que sejas dos teus amado, e temido, tendo
Deos em tua ajuda, terás as gentes para teu serviço, e sem ella não ha
poder, nem saber que te aproveite, de sua mão somos isso que somos, e o
que temos não teriamos, se da sua mão, e bondade o não tivessemos, e
portanto trabalha-te por conservar em seu serviço. O que tiveres, e de
toda esta terra que te eu leixo Destorgua até Lião não percas della um
palmo que eu a ganhei com grande fadiga e trabalho. Toma filho do meu
coração um pouco; porque sejas esforçado, e sem medo: aos fidalgos sê
companheiro, e dá-lhe dos teus dinheiros, e aos Conselhos faze
gazalhado, e trata bem, e chama agora estes Destorgua, e mandarás que te
façam logo menagem da Villa, e des que me levarem a enterrar logo te
torna, e não a percas, e daqui conquistarás toda a outra terra adiante,
ou manda-me com alguns meus vassalos, e teus que me vão enterrar a Santa
Maria de Braga, que eu povoei. Tudo esto filho faze assi com a minha
benção; porque sejas como filho de benção a serviço de Deos com muita
honra prosperada».