_Como D. Egas Moniz criou a D. Affonso filho do Conde D. Anrique, que
foi são por milagre de N. Senhora da aleijão com que naceo_.
Depois que o Conde D. Anrique foi cazado com a Rainha D. Tareja, filha
del-Rei de Castella como dito é, vindo ella a emprenhar, D. Egas Moniz
mui esforçado e nobre Fidalgo, grande seu privado, que com elle viera da
sua terra, e a quem tinha feito muita mercê, chegou ao Conde pedindo-lhe
que qualquer filho, ou filha, que a Rainha parisse lho quizesse dar para
o elle criar, e o Conde lho outrogou. Veio a Rainha a parir um filho
grande, e fermoso, que não podia mais ser uma creatura, salvo, que naceo
com as pernas tão encolheitas, que a parecer de Mestres, todos julgavam
que nunca poderia ser são dellas. O seu nacimento foi no anno de nosso
Senhor de mil noventa e quatro.
Tanto que D. Egas Moniz soube que a Rainha parira, cavalgou á pressa, e
veio-se a Guimarães onde o Conde estava, e pedio-lhe por mercê que lhe
desse o filho que lhe nacera para o haver de criar, como lhe tinha
prometido. O Conde lhe respondeo que não quizesse tomar tal carrego;
porque o filho, que lhe Deos dera, nacera por seus peccados tolheito de
modo, que todos tinham, que nunca guareceria, nem seria para homem. D.
Egas quando esto ouvio pesou-lhe muito, e disse: «Senhor, antes cuido eu
que por meus peccados aconteceo; mas pois a Deos aprouve de tal ser
minha ventura, dai-me todavia vosso filho, quejando quer que seja»: E o
Conde posto que tivesse grande pejo polo bem que a D. Egas Moniz queria,
de o encarregar em semelhante criação, por causa da aleijão da criança,
com tudo lha deu por lhe comprazer, e quando D. Egas vio a criança tão
fermosa, e com tal aleijão, houve mui grão dó della, e confiando em
Deos, que lhe poderia dar saude, a tomou, e fez criar, não com menos
amor, e cuidado como se fora são.
E jazendo D. Egas uma noite dormindo, sendo já o Menino de cinco annos,
lhe appareceo nossa Senhora, e disse: «D. Egas dormes». Elle a esta voz,
e visão acordando respondeo. «Senhora quem soes vós». Ella disse: «Eu
sou a Virgem Maria, que te mando que vás a um tal lugar,», dando-lhe
logo os sinaes delle, «e faze hi cavar, e acharás hi uma Egreja que em
outro tempo foi começada em meu nome, e uma Imagem minha; faze correger
a Imagem e a Igreja feita á minha honra; esto feito farás hi vigilia
poendo o Menino que crias sobre o Altar, e sabe que guarecerá, e será
são de todo, e não menos te trabalha da hiavante de o bem guardar, e
criar como fazes; porque meu filho quer por elle destruir muitos imigos
da Fé».
Desaparecida esta vizão ficou mui consolado D. Egas Moniz, e alegre,
como vassallo que com são, e verdadeiro amor amava seu Senhor, e suas
cousas, e tanto que foi manhã levantou-se logo, e foi-se com gente
áquelle lugar, que lhe fora dito, e mandando hi cavar achou aquela
Egreja, e Imagem pondo em obra todas as cousas que lhe N. Senhora
mandára. Á qual aprouve pela sua santa piedade, tanto que o Menino foi
posto sobre o seu Altar, ser logo guarecido, e são das pernas de toda
aleijão, como se nunca tivera nada della.
Vendo D. Egas este tão grande milagre, foi muito o seu prazer, deu
muitas graças, e louvores a Deos, e a Nossa Senhora sua Madre, criando,
e guardando dahi avante com muito maior cuidado o Menino, cujo Aio foi
sempre, até que seu pai morreo em Estorgua, sendo elle já de tal idade,
que nas guerras, e fadigas supria os carregos de seu pai. E por causa
deste milagre foi depois feito em esta Egreja com muita devação o
Mosteiro de Carquare; e como quer que alguns contem seu nacimento ser
ultra mar, e bautizado no Rio do Jordão, porém por mais verdade achei
ser seu nacimento como disse.