XIX

Eu tive um sonho estranho: ouvi que vou dizel-o.

Era em praia dezerta, em frente a um longo mar:

Nos céos havia a nevoa, a mãe do Pezadêlo,

E o vago, o incerto, o informe em tudo a oscillar!

De subito surgiu, na praia, uma criança

D'olhar profundo e bom, d'angelica expressão,

E o mar contemplou com tanta confiança

Que nem que visse n'elle o berço d'um irmão!

Mas a vaga subindo, em cada extremo arranco

Levando ia comsigo aquella flôr dos céos!

E em breve só boiava um tenue vulto branco

No mar onde fluctua o espirito de Deus!

Mais tarde á beira-mar chegava a pura imagem

Da mais casta mulher que em vida pude ver.

Detinha-se distante:--a espuma da voragem

Só meia extenuada aos pés lhe ia morrer!--

O immenso mar, porém, crescia a cada instante

Mais turvo e mais veloz! depois... Não quiz vêr mais.

Ergui-me e caminhei de val em val errante

Pensando tristemente em coisas ideaes!--

Ao longe, muito além, na serra desviada

De subito encontrei--ó estranha apparição--!

Uma pobre velhita enferma e desolada

Trazendo já no olhar a grande cerração!

Que idéa me assaltou não sei dizel-o agora.

Aonde iria o espectro, aquella sombra vãa?

Iria aonde vae o que hontem foi aurora

E aonde irão tambem as rosas d'ámanhãa?...

Dos meus instantes bons, ó lucida chimera,

Bem vês que os sonhos maus são faceis d'esquecer!

Que importa a grande noite em plena primavera,

Que importa o que tu foste, o que és, e o que has de ser!!

A Alma Nova · 第 34 / 89 题