A CHRISTO

Precisamos Jesus, se não te sentes velho,

Que cinjas novamente o resplendor de luz

E venhas explicar a letra do evangelho

A muitos que hoje vês prostrados ante a cruz!

Ainda não cessou, de todo, essa contenda

Que um dia, ha muito já, tentaste debellar:

E aquelles que são bons e adoram tua lenda

Desejavam tambem ouvir-te hoje falar.

Apenas resoasse o teu verbo indignado,

O latego febril das grandes corrupções,

Iria atraz de ti um mundo revoltado

Que sente na consciencia a luz das redempções.

E embora não houvesse, aqui, outra alma gemea

Da tua, e tão ungida em balsamos dos céos,

Havias d'encontrar essa alma de bohemia

Que sonha uma justiça e sente em si um Deus!

Mas não, não voltes cá: teu corpo combalido

Não póde supportar os gelos da manhã.

Precisavas de pão, d'abrigo e de vestido

E a vida aqui é cara e longo o macadam!

Terias d'encontrar, de certo, mil estorvos

No mundo revolvido, e escuta-me Jesus:

Se não fosses, em fim, comido pelos corvos

Talvez te fuzilasse um cura Santa-Cruz!

Serias apontado a dêdo, muitas vezes,

Como um simples bandido, um agitador feroz,

E haviam de esconder seus ouros os burguezes

Apenas resoasse, ao longe, a tua voz!

Depois vinhas achar a par do proletario,

Ao pé do que se innunda em bagas de suor,

Aquelle velho Pedro, agora millionario,

E triste por pensar que já esteve melhor!

E perto do ocio vil á sombra do qual medra

O egoismo feroz que extingue o coração,

Lutando todo o dia o britador de pedra

A quem á noite espera, em casa, um negro pão;

E uns pequenos sem côr; talvez cheios de fome,

Com pouca luz no olhar; atrophiados, nús;

Abrindo os olhos muito á codea que elle come

E indo-se deitar sem roupas e sem luz!

Assim deixa-te estar. O teu cadaver triste

Recende uma fragrancia etherea e divinal,

Emquanto o mundo segue e vae de lança em riste

Sem treguas combatendo as legiões do Mal!

Tu foste o paladino, o trovador sagrado,

Que falaste do amor, da paz e do perdão,

E o ferro que varou teu corpo lado a lado

Comtudo inda reluz altivo em muita mão!

Nós, hoje, quando em luta erguemos sobre a liça

O gladio vingador das oppressões crueis,

Soltamos, n'um sorriso, o nome da Justiça,

E ha quem saiba morrer sem bençãos nem laureis!

Descansa pois Jesus! Bem basta que tu sintas,

N'esse velho sepulchro, o immenso vozear

Dos mineiros sem luz, das legiões famintas,

Que nunca, um dia só, deixaram de lutar,

Mas que hão de em fim vencer, porque a suprema essencia

A jorros cae do céo nas mãos dos Prometheus,

E tanto vae subindo a vaga da consciencia

Que um dia ha de abismar-se em nós o proprio Deus

A Alma Nova · 第 33 / 89 题