--P'ra quê?--resmungou Julião impaciente.
Mas D. Felicidade declarou que tinha escrupulos, que era um peccado
mortal; e chamando Jorge para o vão da janella, toda tremula:
--Jorge, não se assuste, mas seria bom pensar nos sacramentos...
Elle murmurava como assombrado:
--Os sacramentos!
Julião chegou-se bruscamente, e quasi zangado:
--Nada de tolices! Qual sacramentos! P'ra quê? Ella nem ouve, nem
comprehende, nem sente. É necessario deitar-lhe outro caustico, talvez
ventosas, e é o que é! Isso é que são os sacramentos!
Mas D. Felicidade escandalisada, muito abalada, começou a chorar.
Esqueciam Deus, e em Deus é que está o remedio!--dizia, assoando-se com
estrondo.
--Pelo que Deus faz por mim...--exclamou Jorge, sahindo do seu torpôr.
E batendo as mãos, como revoltado por uma injustiça:--Porque realmente,
que fiz eu p'ra isto? Que fiz eu!...
Julião ordenára outro caustico. Havia agora na casa um movimento
allucinado. Joanna entrava de repente com um caldo inutil que ninguem
pedira, os olhos muito vermelhos de chorar. Marianna soluçava pelos
cantos. D. Felicidade ia, vinha pelo quarto, refugiando-se na sala para
rezar, fazendo promessas, lembrando que se chamasse o doutor Barbosa, o
doutor Barral.
E Luiza no entanto estava immovel; uma côr macilenta ia-lhe dando ás
faces tons cavados e rigidos.
Julião extenuado pediu um calix de vinho, uma fatia de pão.
Lembraram-se então que desde a vespera não tinham comido, e foram á
sala de jantar onde Joanna, sempre lavada em lagrimas, serviu uma sopa,
e ovos. Mas não achava os colheres, nem os guardanapos; murmurava
rezas, pedia desculpa; em quanto Jorge, com os olhos inchados, fitos na
borda da mesa, a face contrahida, fazia dobras na toalha.
Depois d'um momento pousou devagarinho a colhér, desceu ao quarto.
Marianna estava sentada aos pés do leito: Jorge disse-lhe que fosse
servir os senhores: e apenas ella sahiu, deixou-se cahir de joelhos,
tomou uma das mãos de Luiza, chamou-a baixo; depois mais forte:
--Escuta-me. Ouve, pelo amor de Deus. Não estejas assim, faze por
melhorar. Não me deixes n'este mundo, não tenho mais ninguem!
Perdôa-me. Dize que sim. Faze signal que sim ao menos. Não me ouve, meu
Deus!
E olhava-a anciosamente. Ella não se movia.
Ergueu então os braços ao ar n'uma desesperação allucinada.
--Sabes que creio em ti, meu Deus. Salva-a! Salva-a!--E arremessava a
sua alma para as alturas:--Ouve, meu Deus! Escuta-me! Sê bom!
Olhava em roda, esperando um movimento, uma voz, um acaso, um milagre!
Mas tudo lhe pareceu mais immovel. A face livida cavava-se; o lenço que
lhe envolvia a cabeça desarranjára-se, via-se o craneo rapado, d'uma
côr ligeiramente amarellada. Pôz-lhe então a mão na testa, hesitando,
com medo; pareceu-lhe que estava fria! Abafou um grito, correu para
fóra do quarto, e deu com o doutor Caminha que entrava, tirando
pausadamente as luvas.
--Doutor! Está morta! Veja. Não falla, está fria...
--Então! Então!--disse elle--Nada de barulho, nada de barulho!
Tomou o pulso de Luiza, sentiu-o fugir sob os dedos, como a vibração
expirante d'uma corda.
Julião veio logo. E concordou com o doutor Caminha que as ventosas eram
inuteis.
--Já as não sente--disse o doutor, sacudindo o tabaco dos dedos.
--Se se lhe désse um copo de cognac?...--lembrou de repente Julião. E
vendo o olhar espantado do doutor:--Ás vezes estes symptomas de coma
não querem dizer que o cerebro esteja desorganisado: podem ser apenas
a inacção da força nervosa exhausta. Se a morte é irremediavel não
se perde nada; se é apenas uma depressão do systema nervoso, póde-se
salvar...
O doutor Caminha, com o beiço descahido, oscillava incredulamente a
cabeça:
--Theorias!--murmurou.
--Nos hospitaes inglezes...--começou Julião.
O doutor Caminha encolheu os hombros com desprezo.
--Mas se o doutor lêsse...--insistiu Julião.
--Não leio nada!--disse o doutor Caminha com força--tenho lido de mais!
Os livros são os doentes...--E curvando-se, com ironia:--Mas se o meu
talentoso collega quer fazer a experiencia...
--Um copo de cognac ou d'aguardente!--pediu Julião á porta.
E o doutor Caminha sentou-se commodamente «para gozar o fracasso do
talentoso collega».
Levantaram Luiza; Julião fez-lhe engulir o cognac; quando a deitaram
ficou na mesma immobilidade comatosa: o doutor Caminha tirou o
relogio, viu as horas, esperou: havia um silencio ancioso: emfim o
doutor ergueu-se, tomou-lhe o pulso, apalpou a frialdade crescente das
extremidades; e indo buscar silenciosamente o chapéo começou a calçar
as luvas.
Jorge foi com elle até á porta:
--Então, doutor?--disse, agarrando com uma força desvairada o braço.
--Fez-se o que se pôde--disse o velho, encolhendo os hombros.
Jorge ficou estupido no patamar, vendo-o descer. As suas passadas
vagarosas nos degraus cahiam-lhe com uma percussão medonha no coração.
Debruçou-se no corrimão, chamou-o baixo. O doutor parou, levantou os
olhos; Jorge pôz as mãos para elle, com uma anciedade humilde:
--Então não é possivel mais nada?
O doutor fez um gesto vago, indicou o céo.
Jorge voltou para o quarto, encostando-se ás paredes. Entrou na alcova,
atirou-se de joelhos aos pés da cama, e alli ficou com a cabeça entre
as mãos n'um soluçar baixo e continuo.
Luiza morria: os seus braços tão bonitos, que ella costumava acariciar
diante do espelho, estavam já paralysados; os seus olhos, a que a
paixão dera chammas e a voluptuosidade lagrimas, embaciavam-se como sob
a camada ligeira d'uma pulverisação muito fina.
D. Felicidade e Marianna tinham accendido uma lamparina a uma gravura
de Nossa Senhora das Dôres, e de joelhos rezavam.
O crepusculo triste descia, parecia trazer um silencio funerario.
A campainha, então, tocou discretamente; e d'ahi a momentos appareceu a
figura do Conselheiro Accacio. D. Felicidade ergueu-se logo; e vendo as
suas lagrimas, o Conselheiro disse lugubremente:
--Venho cumprir o meu dever, ajudar-lhes a passar este transe!
Explicou «que encontrára por acaso o bom doutor Caminha, que lhe
contára a fatal occorrencia»! Mas muito discretamente não quiz
entrar na alcova. Sentou-se n'uma cadeira, collocou melancolicamente
o cotovêlo sobre o joelho, a testa sobre a mão, dizendo baixo a D.
Felicidade:
--Continue as suas orações. Deus é imperscrutavel em seus decretos.
Na alcova, Julião estivera tomando o pulso de Luiza; olhou então
Sebastião, fez-lhe o gesto d'alguma cousa que vôa e desapparece...
Aproximaram-se de Jorge, que não se movia, de joelhos, com a face
enterrada no leito:
--Jorge--disse baixinho Sebastião.
Elle levantou o rosto desfigurado, envelhecido, os cabellos nos olhos,
as olheiras escuras.
--Vá, vem--disse Julião. E vendo o espanto do seu olhar:--Não, não está
morta, está n'aquella somnolencia... Mas vem.
Elle ergueu-se, dizendo com mansidão:
--Pois sim, eu vou. Estou bem... Obrigado.
Sahiu da alcova.
O Conselheiro levantou-se, foi abraçal-o com solemnidade:
--Aqui estou, meu Jorge!
--Obrigado, Conselheiro, obrigado.
Deu alguns passos pelo quarto; os seus olhos pareciam preoccupar-se
com um embrulho que estava sobre a mesa; foi apalpal-o; desapertou as
pontas, e viu os cabellos de Luiza. Ficou a olhal-os, erguendo-os,
passando-os d'uma das mãos para outra, e disse com os beiços a tremer:
--Fazia tanto gosto n'elles, coitadinha!
Tornou a entrar na alcova. Mas Julião tomou-lhe o braço, queria-o
afastar do leito. Elle debatia-se dôcemente; e, como uma vela ardia
sobre a mesinha ao pé da cabeceira, disse, mostrando-a:
--Talvez a incommode a luz...
Julião respondeu commovido:
--Já não a vê, Jorge!
Elle soltou-se da mão de Julião, foi debruçar-se sobre ella; tomou-lhe
a cabeça entre as mãos com cuidado para a não magoar, esteve a olhal-a
um momento; depois pousou-lhe sobre os labios frios um beijo, outro,
outro, e murmurava:
--Adeus! Adeus!
Endireitou-se, abriu os braços, cahiu no chão.
Todos correram. Levaram-no para a _chaise-longue_.
E em quanto D. Felicidade n'um pranto afflicto fechava os olhos de
Luiza, o Conselheiro, com o chapéo sempre na mão, cruzava os braços, e
oscillando a sua calva respeitavel, dizia a Sebastião:
--Que profundo desgosto de familia!