XVII

Ao outro dia Jorge foi ao ministerio, onde não tinha apparecido nos

ultimos tempos. Mas demorou-se pouco. A rua, a presença dos conhecidos

ou dos estranhos torturava-o; parecia-lhe que _todo o mundo sabia_; nos

olhares mais naturaes via uma intenção maligna, e nos apertos de mão

mais sinceros uma ironica pressão de pezames; as carruagens mesmo que

passavam davam-lhe a suspeita de a terem conduzido ao _rendez-vous_,

e todas as casas lhe pareciam a fachada infame do _Paraiso_. Voltou

mais sombrio, infeliz, sentindo a vida estragada. E logo do corredor ao

entrar ouviu Luiza cantarolando, como outr'ora, a _Mandolinata_!

Estava-se a vestir.

--Como estás tu?--perguntou, pondo a um canto a sua bengala.

--Estou boa. Hoje estou muito melhor. Um bocado fraca ainda...

Jorge deu alguns passos pelo quarto, taciturno.

--E tu?--perguntou-lhe ella.

--P'ra aqui ando--disse tão desconsoladamente que Luiza pousou o pente,

e com os cabellos soltos veio pôr-lhe as mãos nos hombros, muito

carinhosa:

--Que tens tu? Tu tens alguma cousa. Estranho-te tanto ha dias! Não és

o mesmo! Ás vezes estás com uma cara de réo... Que é? Dize.

E os seus olhos procuravam os d'elle, que se desviavam perturbados.

Abraçou-o. Insistia, queria que dissesse tudo á «sua mulherzinha».

--Dize. Que tens?

Elle olhou-a muito, e de repente, com uma resolução violenta:

--Pois bem, digo-te. Tu agora estás boa, pódes ouvir... Luiza! vivo

n'um inferno ha duas semanas. Não posso mais... Tu estás boa, não é

verdade? Pois bem, que quer dizer isto? Dize a verdade!

E estendeu-lhe a carta de Bazilio.

--O que é?--fez ella muito branca. E o papel dobrado tremia-lhe na mão.

Abriu-a devagar, viu a letra de Bazilio, n'um relance adivinhou-a.

Fixou Jorge um momento d'um modo desvairado, estendeu os braços sem

poder fallar, levou as mãos á cabeça com um gesto ancioso como se se

sentisse ferida, e oscillando, com um grito rouco, cahiu sobre os

joelhos, ficou estirada no tapete.

Jorge gritou. As criadas acudiram. Estenderam-na na cama. Elle quiz que

Joanna corresse a chamar Sebastião; e ficou, como petrificado, junto

ao leito, olhando-a, em quanto Marianna toda tremula desatacava os

espartilhos da senhora.

Sebastião veio logo. Felizmente havia ether, fizeram-lh'o respirar;

apenas abriu lentamente os olhos, Jorge precipitou-se sobre ella:

--Luiza, ouve, falla! Não, não tem duvida. Mas falla. Dize, que tens?

Ao ouvir a voz d'elle desmaiou outra vez. Movimentos convulsivos

sacudiam-lhe o corpo. Sebastião correu a buscar Julião.

Luiza parecia adormecida agora, immovel, branca como cera, as mãos

pousadas sobre a colcha; e duas lagrimas corriam-lhe devagar pelas

faces.

Um trem parou. Julião appareceu esbaforido.

--Achou-se mal de repente... Vê, Julião. Está muito mal!--disse Jorge.

Fizeram-lhe respirar mais ether; despertou outra vez. Julião

fallou-lhe, tomando-lhe o pulso.

--Não, não, ninguem!--murmurou ella, retirando a mão. Repetiu com

impaciencia:--Não, vão-se, não quero...--As suas lagrimas redobravam.

E como elles sahiam da alcova para a não excitar contrariando-a,

ouviram-na chamar:--Jorge!

Elle ajoelhou-se ao pé da cama, e fallando-lhe junto do rosto:

--Que tens tu? Não se falla mais em tal. Acabou-se. Não estejas doente.

Juro-te, amo-te... Fosse o que fosse, não me importa. Não quero saber,

não.

E como ella ia fallar, elle pousou-lhe a mão na bocca:

--Não, não quero ouvir. Quero que estejas boa, que não soffras! Dize

que estás boa! Que tens? Vamos ámanhã para o campo, e esquece-se tudo.

Foi uma cousa que passou...

Ella disse apenas com a voz sumida:

--Oh! Jorge! Jorge!

--Bem sei... Mas agora vaes ser feliz outra vez... Dize, que sentes?

--Aqui--disse ella, e levava as mãos á cabeça.--Dóe-me!

Elle ergueu-se para chamar Julião, mas ella reteve-o, attrahiu-o; e

devorando-o com olhos onde a febre se accendia, adiantando o rosto,

estendia-lhe os labios. Elle deu-lhe um beijo inteiro, sincero, cheio

de perdão.

--Oh! minha pobre cabeça!--gritou ella.

As fontes latejavam-lhe, e uma côr ardente, sêcca, esbrazeava-lhe o

rosto.

Como era habituada a enxaquecas, Julião traquillisou-os; recommendou um

socego immovel e sinapismos de mostarda aos pés,--até que elle voltasse.

Jorge ficou junto do leito, taciturno, cortado de presentimentos, de

sustos, suspirando ás vezes.

Eram então quatro horas; cahia uma chuva miudinha, ennevoada; a alcova

tinha uma luz lugubre.

--Não ha-de ser nada...--dizia Sebastião.

Luiza agitava-se no leito, apertando as mãos na cabeça, torturada pela

dôr crescente, cheia de sêde.

Marianna acabava d'arrumar em pontas de pés, vagamente assombrada

d'aquella casa, onde só vira desgosto e doença: mas só o pousar subtil

dos seus passos fazia soffrer Luiza, como se fossem martelladas sobre o

craneo.

Julião não tardou; logo da porta do quarto, o aspecto d'ella

inquietou-o. Accendeu um phosphoro, aproximou-lh'o do rosto; e aquella

luz fez-lhe dar um grito como se um ferro frio lhe trespassasse a

cabeça.

Os olhos dilatados tinham um reluzir metallico. Conservava-se muito

quieta, porque o gesto mais lento lhe dava na nuca dôres penetrantes

que a dilaceravam. Só de vez em quando sorria para Jorge com uma

expressão d'afflicção serena e muda.

Julião fez logo pôr tres travesseiros, para lhe conservar a cabeça

alta. Fóra cahia o crepusculo humido. Andavam em bicos de pés, com

cuidado; e mesmo tiraram o relogio da parede para afastar o _tic-tac_

monotono. Ella começava agora a murmurar sons cançados, e a voltar-se

com movimentos bruscos que lhe arrancavam gritos; ou immovel gemia d'um

modo continuo e angustioso. Tinham-lhe envolvido as pernas n'um longo

sinapismo; mas não o sentia. Pelas nove horas começou a delirar; a

lingua tornára-se-lhe branca e dura, como de gesso sujo.

Julião fez logo applicar na cabeça compressas d'agua fria. Mas o

delirio exacerbava-se.

Ora tinha um murmurio espesso, um vago rosnar modorrento--onde os nomes

de Leopoldina, de Jorge, de Bazilio voltavam incessantemente: depois

debatia-se, esgaçava a camisa com as mãos; e, arqueando-se, os seus

olhos rolavam, como largos bugalhos prateados onde a pupilla se sumia.

Socegava mais; dava risadinhas d'uma doçura idiota; tinha gestos

lentos sobre o lençol, que aconchegavam e acariciavam, como n'um

gozo tepido: depois começava a respirar anciosamente, vinham-lhe

expressões torturadas de terror, queria enterrar-se nos travesseiros e

nos colxões, fugindo a aspectos pavorosos: punha-se então a apertar a

cabeça phreneticamente, pedia que lh'a abrissem, que a tinha cheia de

pedras, que tivessem piedade d'ella!--e fios de lagrimas corriam-lhe

pelo rosto. Não sentia os sinapismos; expunham-lhe agora os pés nús

ao vapor d'agua a ferver, carregada de mostarda; um cheiro acre

adstringia o ar do quarto. Jorge fallava-lhe com toda a sorte de

palavras consoladoras e supplicantes: pedia-lhe que socegasse, que o

conhecesse; mas de repente ella desesperava-se, gritava pela carta,

maldizia Juliana--ou então dizia palavras d'amor, enumerava sommas de

dinheiro... Jorge temia que aquelle delirio revelasse tudo a Julião,

ás criadas: tinha um suor á raiz dos cabellos--e quando ella, um

momento, julgando-se no _Paraiso_ e nas exaltações do adulterio, chamou

Bazilio, pediu _champagne_, teve palavras libertinas, Jorge fugiu da

alcova allucinado, foi para a sala ás escuras, atirou-se para o divan a

soluçar, arrepellou-se, blasphemou.

--Está em perigo?--perguntou Sebastião.

--Está--disse Julião.--Se sentisse os sinapismos, ao menos! Mas estas

malditas febres cerebraes...

Calaram-se vendo Jorge entrar na alcova, com o rosto manchado,

esguedelhado.

E Julião tomando-o pelo braço, levando-o para fóra:

--Ouve lá, é necessario cortar-lhe o cabello, e rapar-lhe a cabeça.

Jorge olhou-o com um ar estupido:

--O cabello?--E agarrando-lhe os braços:--Não, Julião, não, hein?

Póde-se fazer outra cousa. Tu deves saber. O cabello não! Não! Isso

não, pelo amor de Deus! Ella não está em perigo. P'ra quê?

Mas aquella massa de cabello era o diabo, impedia a acção da agua!

--Ámanhã, se fôr necessario. Ámanhã! Espera até ámanhã... Obrigado,

Julião, obrigado!

Julião consentiu, contrariado. Fazia então humedecer constantemente

as compressas da cabeça, e como Marianna tremula, desgeitosa, molhava

muito o travesseiro, foi Sebastião que se collocou á cabeceira da cama,

toda a noite, espremendo sem cessar uma esponja, d'onde a agua gotejava

lentamente; tinham jarros fóra da varanda, na sala, para dar á agua uma

frialdade gelada. O delirio alta noite acalmára um pouco. Mas o seu

olhar injectado tinha um aspecto selvagem: as pupillas pareciam apenas

um ponto negro.

Jorge, sentado aos pés da cama, com a cabeça entre as mãos, olhava

para ella: lembravam-lhe vagamente outras noites de doença assim,

quando ella tivera a pneumonia: e melhorára! Até ficára mais linda,

com tons de pallidez que lhe adoçavam a expressão! Iriam para o campo

quando ella convalescesse: alugaria uma casinha: voltaria á noite no

omnibus, e vêl-a-hia de longe na estrada vindo ao seu encontro, com um

vestido claro, na tarde suave!... Mas ella gemia, elle erguia os olhos

sobresaltado: e não lhe parecia a mesma: afigurava-se-lhe que se ia

dissipando, desapparecendo n'aquelle ar de febre que enchia a alcova,

no silencio morbido da noite, e no cheiro da mostarda. Um soluço

sacudia-o, e recahia na sua immobilidade.

Joanna, em cima, rezava. As velas, com uma chamma alta e direita,

extinguiam-se.

Emfim uma vaga claridade desenhou nos transparentes brancos os

caixilhos da vidraça. Amanhecia. Jorge ergueu-se, foi olhar para a rua.

Não chovia; a calçada seccava. O ar tinha uma vaga côr d'aço. Tudo

dormia: e uma toalha, esquecida á janella das Azevedos, agitava-se ao

vento frio, silenciosamente.

Quando entrou na alcova Luiza fallava com uma voz extincta: sentia

muito vagamente os sinapismos, mas a dôr de cabeça não cessava.

Começou a agitar-se--e o delirio d'ahi a pouco voltou. Julião, então,

determinou que se lhe rapasse o cabello.

Sebastião foi acordar um barbeiro na rua da Escóla--que veio logo, com

um ar transido, a gola do casaco levantada; e batendo o queixo começou

a tirar immediatamente d'um sacco de couro as navalhas, as tesouras,

devagar, com as mãos molles da gordura das pomadas.

Jorge foi refugiar-se na sala: parecia-lhe que grandes pedaços

mutilados da sua felicidade cahiam com aquellas lindas tranças,

destruidas ás tesouradas; e com a cabeça nas mãos recordava certos

penteados que ella usava, noites em que os seus cabellos se tinham

desmanchado nas alegrias da paixão, tons com que brilhavam á luz...

Voltou ao quarto, attrahido irresistivelmente; sentiu na alcova o

ruido secco e metallico das tesouras; sobre a mesa, n'uma caixa de

sabão, estava um velho pincel de barba, entre flocos d'espuma... Chamou

Sebastião baixo:

--Dize-lhe que se avie! Estão-me a matar a fogo lento! É de mais. Que

ande depressa!

Foi á sala de jantar, errou pela casa: a manhã fria clareava;

erguera-se vento, que ia levando, aos pedaços, nuvens d'um tom alvadio.

Quando tornou a entrar no quarto, o barbeiro guardava as navalhas com a

mesma lentidão molle; e tomando o seu chapéo desabado, sahiu em bicos

de pés, murmurando n'um tom funerario:

--Estimo as melhoras. Deus ha-de permittir que não seja nada...

O delirio com effeito d'ahi a uma hora acalmou:--e Luiza cahiu n'uma

somnolencia prostrada com gemidos fracos, que sahiam de seus labios

como a lamentação interior da vida vencida.

Jorge tinha então dito a Sebastião que desejava chamar o doutor

Caminha. Era um medico velho que tratára sua mãi, e que curára Luiza da

pneumonia, no segundo anno de casada. Jorge conservára uma admiração

agradecida por aquella reputação antiquada; e agora a sua esperança

voltava-se sofregamente para elle, anciando pela sua presença como pela

apparição d'um santo.

Julião condescendeu logo. Até estimava! E Sebastião desceu correndo,

para ir a casa do dr. Caminha.

Luiza, que sahira um momento do seu torpôr, sentiu-os fallar baixo. A

sua voz extincta chamou Jorge:

--Cortaram-me o cabello...--murmurou tristemente.

--É para te fazer bem--disse-lhe Jorge, quasi tão agonisante como

ella.--Cresce logo. Até te vem melhor...

Ella não respondeu; duas lagrimas silenciosas correram-lhe pelos cantos

dos olhos.

Devia ser a sua ultima sensação: a prostração comatosa ia-a

immobilisando, apenas a sua cabeça rolava n'um movimento dôce e

vagaroso sobre o travesseiro, gemendo sempre com um cansaço triste;

a pelle empallidecia como um vidro de janella, por traz do qual

lentamente uma luz se apaga; e mesmo os ruidos da rua que começavam não

a impressionavam, como se fossem muito distantes e abafados em algodão.

Ao meio dia D. Felicidade appareceu. Ficou petrificada quando a viu

tão mal: e ella que a vinha buscar para irem á Encarnação, talvez ás

lojas! Tirou logo o chapéo, installou-se; fez arranjar a alcova, tirar

as bacias, os velhos sinapismos que arrastavam, compôr a cama--«porque

não havia peor p'ra um doente que desarranjo no quarto»: e muito

corajosamente animava Jorge.

Uma carruagem parou á porta. Era o doutor Caminha, emfim!... Entrou

atabafado no seu cachenez de quadrados verdes e pretos, queixando-se

muito do frio;--e tirando devagar as grossas luvas de casimira, que

pôz dentro do chapéo methodicamente, adiantou-se para a alcova com um

passo cadenciado, acamando com a mão as suas repas grisalhas já muito

colladas ao craneo pela escova.

Julião e elle ficaram sós na alcova.

No quarto os outros esperavam calados, ao pé de Jorge, pallido como

cêra, com os olhos vermelhos como carvões.

--Vai-se-lhe pôr um caustico na nuca--veio dizer Julião.

Jorge devorava com o olhar ancioso o doutor Caminha, que se pozera a

calçar tranquillamente as suas luvas de casimira, dizendo:

--Vamos a vêr com o caustico. Não está bem... Mas ha ainda peor. E eu

volto, meu amigo, eu volto.

O caustico foi inutil. Não o sentia, immovel e branca, com as feições

crispadas; e tremuras passaram-lhe de repente nos nervos da face como

vibrações fugitivas.

--Está perdida--disse Julião baixo a Sebastião.

O Primo Bazilio: Episodio Domestico · 第 41 / 48 题