--Quantas scenas não terá tido assim, maganão!
O Conselheiro fitou-a, indignado:
--O quê, minha senhora! levar a deshonra ao seio d'uma familia!
Luiza fez-lhe _chut_, sorrindo. Interessava-se agora. Tinha escurecido;
uma facha de luz electrica enchia o jardim d'um vago luar azulado, onde
os maciços arredondados se recortavam em pastas escuras; e Fausto e
Margarida enlaçados, quasi desfallecidos, soltavam d'um modo expirante
o seu duetto: uma sensualidade delicada e moderna, com elances
d'um requinte devoto, arrastava-se na orchestra gemente; o tenor
esforçava-se, agarrando o peito, com um geito morbido dos quadris, o
olhar anuviado: e desprendendo-se da languida arcada dos violoncellos,
o canto subia para as estrellas...
Al pallido chiarore
Dei astri d'oro.
Mas o coração de Luiza batia precipitadamente; vira-se de repente
sentada no divan, na sua sala, ainda tomada dos soluços do adulterio,
e Bazilio, com o charuto ao canto da bocca, batia distrahido no piano
aquella aria--_Al pallido chiarore dei astri d'oro_. D'essa noite tinha
vindo toda a sua miseria!--e subitamente, como longos véos funebres
que descem e abafam, as recordações de Juliana, da casa, de Sebastião,
vieram escurecer-lhe a alma.
Olhou o relogio. Eram dez horas. Que se passaria?
--Estás incommodada?--perguntou-lhe Jorge.
--Um pouco.
Margarida apoiava-se, expirante de voluptuosidade, ao rebordo da sua
janellinha. Fausto corre. Enlaçam-se. E entre as gargalhadas do Diabo e
o roncar dos rebecões--o pano desceu, pondo uma reticencia pudica...
D. Felicidade, abrazada, quiz agua. Jorge apressou-se: queria bolos?
neve? A excellente senhora hesitou; o _chic_ da neve attrahia-a, mas
cohibiu-se com terror da colica. Veio sentar-se ao fundo ao pé de
Luiza, e ficou a olhar, vagamente cançada; havia um susurro lento;
bocejava-se discretamente; e o fumo dos cigarros, entrando, de fóra,
fazia uma nevoa apenas perceptivel que enchia a sala, ia prender-se
ao lustre, embaciando ligeiramente as luzes. Quando Jorge sahiu o
Conselheiro acompanhou-o: ia acima tomar o seu copo de gelatina...
--É a minha cêa em dia de S. Carlos--disse.
Voltou d'ahi a pouco, limpando os beiços ao lenço de sêda, ter com
Jorge que fumava no pequeno patamar junto á entrada das cadeiras:
--Veja isto, Conselheiro--disse-lhe logo Jorge, indignado, mostrando a
parede--que escandalo!
Tinham desenhado, com o charuto apagado sobre a parede caiada, enormes
figuras obscenas: e alguem, prudente e amigo da clareza, ajuntára por
baixo as designações sexuaes com uma boa letra cursiva.
E Jorge, revoltado:
--E passam por aqui senhoras! Vêem, lêem! Isto só em Portugal!...
O Conselheiro disse:
--A autoridade devia intervir de certo...--Acrescentou com
bonhomia:--São rapazes, com o charuto. Apreciam muito esta
distracção...--E sorrindo, recordando-se:--Uma occasião mesmo, o conde
de Villa Rica, que tem graça, muita graça, insistiu commigo, dando-me o
charuto, para que eu fizesse um desenho...--E mais baixo:--Eu dei-lhe
uma lição severa. Tomei o charuto...
--E fumou-o?
--Escrevi.
--Uma obscenidade?
O Conselheiro, recuando, exclamou com severidade:
--Jorge, conhece o meu caracter! Pois suppõe...?--E acalmando-se:--Não,
tomei o charuto e escrevi com mão firme: HONRA AO MERITO!
Mas a campainha retiniu, entraram no camarote. Luiza incommodada
não quiz sentar-se á frente. E o Conselheiro, grave, tomou o seu
lugar--defronte de D. Felicidade. Foi para a nutrida senhora um momento
feliz, de um gozo requintado. Estavam _ambos_, alli, como noivos! O
seu peito abundante arfava: via-se a sahirem, mais tarde, de braço
dado, entrarem n'um _coupé_ estreito, pararem á porta da casa conjugal,
pisarem o tapete da alcova... Tinha um suor á raiz dos cabellos--e
vendo o Conselheiro sorrir-lhe, amavel, com a sua calva toda luzidia ao
gaz, sentia um reconhecimento apaixonado pela mulher de virtude que,
áquella hora, no fundo da Galliza, estava cravando agulhas n'um coração
de cera!...
Mas de repente o Conselheiro bateu na testa, arremessou-se sobre o
chapéo, sahiu impetuosamente. Olharam-se inquietos. D. Felicidade
empallideceu: seria alguma dôr? Santo Deus! Já murmurava baixo uma reza.
Mas viram-no entrar logo, e dizer com uma voz triumphante:
--D'azul escuro!
Abriram grandes olhos, sem comprehender.
--Sua magestade a rainha! Tinha promettido verifical-o, cumpri-o!
E sentou-se com solemnidade, dizendo a Luiza:
--Lamento que se esconda n'esse recanto, D. Luiza! Na sua idade! Na
flôr dos annos! Quando tudo na vida é côr de rosa!
Ella sorriu. Estava agora muito sobresaltada. A cada momento olhava
o relogio. Sentia-se doente: os pés arrefeciam-lhe, uma vaga febre
fazia-lhe a cabeça pesada. O seu pensamento estava na casa, em Juliana,
em Sebastião, cortado de palpites, de esperanças, de terrores... E via,
sem comprehender, a multidão de soldados vestidos de côres mipartidas,
com armas obsoletas, que marchavam, paravam n'uma cadencia affectada,
erguendo uma poeira subtil no tablado mal regado. Um côro vigoroso
resoava: era a marcha arrogante e festiva dos reitres allemães,
celebrando a alegria das excursões victoriosas pelos paizes do vinho,
e a posse das bolsas mercenarias cheias de sonoros rixdales! E os
seus olhos seguiam um barbaças corpulento, que, por cima dos gorros
quadrados dos bésteiros, balançava monotonamente um largo quadrado de
paninho--a bandeira do Santo Imperio, negra, vermelha e d'ouro!
Mas então ergueu-se um rumor no fundo da platéa. Vozes duras
altercavam. Ordem! ordem! dizia-se. Localistas na superior pozeram-se
rapidamente em bicos de pés na palhinha das cadeiras. Quatro policias
e dous municipaes appareceram á porta do fundo; e depois d'uma troça,
de risadas, foram levando um moço livido, que cambaleava,--e o lado
esquerdo do seu jaquetão de pellucia estava todo vomitado!
Mas fez-se logo silencio: o pano de fundo oscillava um pouco,
acotovellado pela sahida festiva dos reitres e dos populares; e no
palco deserto, tendo á direita um portico oscillante de cathedral e á
esquerda a portinha triste d'uma casa burgueza, Valentim, com uma longa
pera, á beira da rampa, beijava sofregamente uma medalha:--mas Luiza
não o escutava. Pensava com o coração confrangido: que fará a esta hora
Sebastião?
Sebastião, ás nove horas, por um nordeste agudo que torcia as luzes do
gaz dentro dos candieiros, dirigia-se devagar a casa d'um commissario
de policia, seu primo afastado, o Vicente Azurara. Uma velha servente,
engelhada como uma maçã raineta, levou-o ao quarto escolastico, «onde
o snr. commissario estava a cozer uma grande constipação»: encontrou-o
com um gabão pelos hombros, os pés embrulhados n'um cobertor, tomando
_grogs_ quentes, e lendo o _Homem dos tres calções_. Apenas Sebastião
entrou tirou do nariz adunco as grandes lunetas, e erguendo para elle
os olhos pequeninos, chorosos do defluxo, exclamou:
--Estou com um diabo d'uma constipação ha tres dias, que me não quer
largar...--E rosnou algumas pragas, passando a mão magra e nodosa sobre
uma face trigueira, de linhas duras, a que um espesso bigode grisalho
dava ferocidade.
Sebastião lamentou-o muito: não admirava com a estação que ia!...
Aconselhou-lhe agua sulfurica com leite fervido.
--Eu, se isto não despega--disse o commissario
rancorosamente--atiro-lhe ámanhã p'ra dentro com meia garrafa de
genebra; e se não fôr por bem, ha-de ir á força... E que ha de novo?
Sebastião tossiu, queixou-se d'andar tambem adoentado, e chegando a
cadeira para ao pé do primo Vicente, pondo-lhe a mão sobre o joelho:
--Ó Vicente, tu, se eu te pedisse um policia p'ra me acompanhar cá p'ra
uma cousa, só p'ra metter medo, só p'ra fazer que uma pessoa restitua o
que tirou, tu davas ordem, hein?
--Ordem p'ra quê?--perguntou lentamente o Vicente com a cabeça baixa,
os olhinhos avermelhados em Sebastião.
--Ordem p'ra me acompanhar, p'ra se mostrar. É só p'ra se mostrar. É um
caso exquisito... P'ra metter medo... Tu sabes que eu não sou capaz...
É p'ra que uma pessoa restitua o que tirou. Sem fazer escandalo...
--Roupas? Dinheiro?
E o commissario cofiava reflectidamente o bigode com os seus longos
dedos magros, muito queimados do cigarro.
Sebastião hesitou:
--Sim. Roupas, cousas... É p'ra não haver escandalo... Tu percebes...
O Vicente murmurou com um ar profundo, fixando-o:
--Um policia p'ra se mostrar...
Escarrou ruidosamente. E franzindo a testa:
--Não é cousa de politica?
--Não!--fez Sebastião.
O commissario embrulhou mais os pés no cobertor, rolou em redor os
olhos, ferozmente:
--Nem toca com gente grauda?
--Qual!
--Um policia p'ra se mostrar...--ruminava o Vicente.--Tu és um homem de
bem... Dá cá aquella pasta de cima da commoda.
Tirou um papel pautado, examinou-o, acavallando a luneta no nariz,
meditou com a mão em garra sobre a testa:
--O Mendes... Serve-te o Mendes?
Sebastião, que não conhecia o Mendes, acudiu logo:
--Sim, quem quizeres. É só p'ra se mostrar...
--O Mendes. É um homemzarrão. É serio, foi da Guarda.
Fez-lhe aproximar o tinteiro; escreveu devagar a ordem; releu-a duas
vezes; cortou os _tt_, seccou-a á chaminé do candieiro; e dobrando-a
com solemnidade:
--Á segunda divisão!
--Obrigado, Vicente. É um grande favor... Obrigado. E agasalha-te,
homem! E não te esqueça: agua sulfurica da pharmacia Azevedo na rua de
S. Roque: meia chavena de leite fervido... E obrigado. Não queres nada,
hein?
--Não. Dá uma placa ao Mendes. É serio, foi da Guarda!
E acavallando as lunetas retomou o _Homem dos tres calções_.
Sebastião d'ahi a meia hora, seguido do robusto Mendes, que marchava
militarmente, com os braços um pouco arqueados, encaminhava-se
para casa de Jorge. Não tinha ainda um plano definido. Calculava
naturalmente que Juliana vendo, áquella hora da noite, o policia com o
seu terçado, se aterraria, imaginaria logo a Boa Hora, o Limoeiro, a
costa d'Africa, entregaria as cartas, pediria misericordia! E depois?
Pensava vagamente em lhe pagar a passagem para o Brazil, ou dar-lhe
quinhentos mil reis para ella se estabelecer longe, na provincia...
Veria. O essencial era aterral-a!
Juliana, com effeito, depois d'abrir a porta, apenas viu subir, atraz
de Sebastião, o policia, fez-se muito amarella, exclamou:
--Credo! Que temos nós?
Estava embrulhada n'um chale preto, e o candieiro de petroleo, que ella
erguia, prolongava na parede a sombra disforme da cuia.
--Ó snr.^a Juliana, faça favor d'accender luz na sala--disse Sebastião,
tranquillamente.
Ella fixava no policia um olhar faiscante e inquieto.
--Ó senhor, que aconteceu? Credo! Os senhores não estão em casa. Eu se
soubesse nem tinha aberto... Ha alguma novidade? Olha o proposito!
--Não é nada--disse Sebastião, abrindo a porta da sala--tudo em paz!
Elle mesmo accendeu com um phosphoro uma vela na serpentina--que fez
sahir vagamente da sombra os dourados dos caixilhos das gravuras, a
pallida face do retrato da mãi de Jorge, um reflexo de espelho.
--Ó snr. Mendes, sente-se, sente-se!
O Mendes collocou-se á beira da cadeira com a mão na cinta, o terçado
entre os joelhos, muito soturno.
--Esta é que é a pessoa--disse Sebastião, indicando Juliana, que ficára
á porta da sala, attonita.
A mulher recuou, livida:
--Ó snr. Sebastião, que brincadeira é esta?
--Não é nada, não é nada...
Tomou-lhe o candieiro da mão, e tocando-lhe no braço:
--Vamos lá dentro á sala de jantar.
--Mas que é? É alguma cousa commigo? Credo! E esta! Olha que
desconchavo!
Sebastião fechou a porta da sala de jantar, pousou o candieiro sobre
a mesa, onde havia ainda um prato com codeas de queijo, e um fundo de
vinho n'um copo, deu alguns passos, fazendo estalar nervosamente os
dedos, e parando bruscamente diante de Juliana:
--Dê cá umas cartas que roubou á senhora...
Juliana teve um movimento para correr á janella, gritar.
Sebastião agarrou-lhe o braço, e fazendo-a sentar com força sobre uma
cadeira:
--Escusa d'ir á janella gritar, a policia já está dentro de casa. Dê cá
as cartas, ou p'ra a enxovia!
Juliana entreviu n'um relance um quarto tenebroso no Limoeiro, o caldo
do rancho, a enxerga nas lages frias...
--Mas que fiz eu?--balbuciava--que fiz eu?
--Roubou as cartas. Dê-as p'ra cá, avie-se.
Juliana sentada á beira da cadeira, apertando desesperadamente as mãos,
rosnava por entre os dentes cerrados:
--A bebeda! A bebeda!
Sebastião, impaciente, pôz a mão no fecho da porta.
--Espere, seu diabo!--gritou ella, erguendo-se com um salto. Fixou-o
rancorosamente, desabotoou o corpete, enterrou a mão no peito, tirou
uma carteirinha. Mas de repente batendo com o pé, n'um phrenesi:
--Não! não! não!
--Diabos me levem se vossê não fôr dormir á enxovia!--Entre-abriu a
porta.--Ó snr. Mendes!
--Ahi tem!--gritou ella atirando-lhe a carteira. E brandindo para elle
os punhos:--Raios te partam, malvado!
Sebastião apanhou a carteira. Havia tres cartas: uma muito dobrada era
de Luiza; leu a primeira linha: _Meu adorado Bazilio_; e muito pallido
guardou logo tudo na algibeira interior do casaco. Abriu então a porta:
a possante figura do Mendes estava na sombra.
--Está tudo arranjado, snr. Mendes,--a voz tremia-lhe um pouco--não lhe
quero tomar mais tempo.
O homem fez uma continencia, calado: quando Sebastião, no patamar, lhe
resvalou na mão uma libra, o Mendes curvou-se respeitosamente e disse,
com uma voz pegajosa:
--E para o que quizer, o sessenta e quatro, o Mendes, que foi da
Guarda. Não se incommode v. s.^a Ás ordens de v. s.^a Minha mulher
e filhos agradecem. Não se incommode v. s.^a O sessenta e quatro, o
Mendes, que foi da Guarda!
Sebastião fechou a cancella, voltou á sala de jantar. Juliana ficára
n'uma cadeira, aniquilada; mas apenas o viu, erguendo-se furiosamente:
--A bebeda foi-lhe contar tudo! Foi vossê que arranjou a armadilha!
Tambem vossê dormiu com ella!...
Sebastião, muito branco, dominava-se.
--Vá pôr o chapéo, mulher. O snr. Jorge despediu-a. Ámanhã mandará
buscar os bahus...
--Mas o homem ha-de saber tudo!--berrou ella.--Este tecto me rache
se eu não lhe disser tudo tim-tim por tim-tim. Tudo! As cartas que
recebia, onde ia vêr o homem. Deitava-se com ella na sala, até os
pentes lhe cahiam na balburdia. Até a cozinheira lhes sentia o alarido!
--Cale-se!--bradou Sebastião com uma punhada na mesa, que fez tremer
toda a louça no aparador, e esvoaçar os canarios. E com a voz toda
tremula, os beiços brancos:--A policia tem o seu nome, sua ladra! Á
menor palavra que vossê diga vai para o Limoeiro, e pela barra fóra.
Vossê não roubou só as cartas; roubou roupas, camisas, lençoes,
vestidos...--Juliana ia fallar, gritar.--Bem sei--continuou elle
violentamente--deu-lh'os ella, mas á força, porque vossê a ameaçava.
Vossê arrancou-lhe tudo. É roubo. É d'Africa!--E o que é dizer ao snr.
Jorge, póde ir dizer. Vá. Veja se elle a acredita. Diga! São algumas
bengaladas que leva por esses hombros, ladra!
Ella rangia os dentes. Estava apanhada! _Elles_ tinham tudo por si, a
policia, a Boa-Hora, a cadêa, a Africa!... E ella--nada!
Todo o seu odio contra a _Piorrinha_ fez explosão. Chamou-lhe os nomes
mais obscenos. Inventou infamias.
--É que nem as do Bairro-Alto! E eu--gritava--sou uma mulher de bem,
nunca um homem se pôde gabar de tocar n'este corpo. Nunca houve raio
nenhum que me visse a côr da pelle. E a bebeda!...--Tinha arremessado o
chale, alargou anciosamente o collar do vestido.--Era um desaforo por
essa casa! E o que eu passei com a bruxa da tia! É o pago que me dão!
Os diabos me levem se eu não fôr para os jornaes. Vi-a eu abraçada ao
janota, como uma cabra!
Sebastião a seu pezar escutava-a, com uma curiosidade dolorosa por
aquelles pormenores; sentia desejos agudos de a esganar, e os seus
olhos devoravam-lhe as palavras. Quando ella se calou arquejante:
--Vá, ponha o chapéo, e p'ra a rua!
Juliana então allucinada de raiva, com os olhos sahidos das orbitas,
veio para elle, e cuspiu-lhe na cara!
Mas de repente a bocca abriu-se-lhe desmedidamente, arqueou-se para
traz, levou com ancia as mãos ambas ao coração, e cahiu para o lado,
com um som molle, como um fardo de roupa.
Sebastião abaixou-se, sacudiu-a; estava hirta, uma escuma rôxa
apparecia-lhe aos cantos da bocca.
Agarrou no chapéo, desceu as escadas, correu até á Patriarchal. Um
_coupé_ vazio passava; atirou-se para dentro, mandou a «todo o que
dér», para casa de Julião; e obrigou-o a vir immediatamente, mesmo em
chinellas, sem collarinho.
--É caso de morte, é a Juliana--balbuciava muito pallido.
E pelo caminho, entre o ruido das rodas e o tilintar dos caixilhos,
contava confusamente que entrára em casa de Luiza, que achára Juliana
muito despeitada por ter sido despedida, e que a fallar, a esbracejar,
de repente, tombára p'ra o lado!
--Foi o coração. Estava p'ra dias--disse Julião, chupando a ponta do
cigarro.
Pararam. Mas Sebastião desorientado, ao sahir, fechára a porta! E
dentro só a morta! O cocheiro offereceu a sua gazua, que serviu.
--Então nem se vai a uma passeadinha ao Dáfundo, meus fidalgos?--disse
o homem, mettendo a gorgeta na algibeira.
Mas vendo-os atirar com a porta:
--Tambem não é gente d'isso--rosnou com desprezo, batendo a parelha.
Entraram.
No pequeno pateo o silencio da casa pareceu a Sebastião pavoroso.
Subia, aterrado, os degraus, que se afiguravam infindaveis; e, com
fortes pancadas do coração, esperava ainda que ella estivesse apenas
adormecida n'um desmaio simples, ou já de pé, pallida e respirando!
Não. Lá estava como a deixára, estendida na esteira, com os braços
abertos, os dedos retorcidos como garras. A convulsão das pernas
arregaçára-lhe as saias, viam-se as suas canellas magras com meias
de riscadinho côr de rosa e as chinellas de tapete; o candieiro de
petroleo, que Sebastião esquecera ao pé sobre uma cadeira, punha tons
lividos na testa, nas faces rigidas; a bocca torcida fazia um sombra;
e os olhos medonhamente abertos, immobilisados na agonia repentina,
tinham uma vaga nevoa, como cobertos d'uma têa d'aranha diaphana. Em
redor tudo parecia mais immovel, d'um hirto morto. Vagos reflexos
de prata reluziam no aparador; e o tic-tac do _cuco_ palpitava sem
descontinuar.
--Julião apalpou-a, ergueu-se sacudindo as mãos, disse:
--Está morta com todas as regras. É necessario tiral-a d'aqui. Onde é o
quarto?
Sebastião, pallido, fez signal com o dedo que era por cima.
--Bem. Arrasta-a tu, que eu levo o candieiro.--E como Sebastião não se
movia:--Tens medo?--perguntou rindo.
Escarneceu-o: que diabo, era materia inerte, era como quem agarrava uma
boneca! Sebastião, com um suor á raiz dos cabellos, levantou o cadaver
por debaixo dos braços, começou a arrastal-o, devagar. Julião adiante
erguia o candieiro; e por fanfarronada cantou os primeiros compassos da
marcha do _Fausto_. Mas Sebastião escandalisou-se, e com uma voz que
tremia:
--Largo tudo, e vou-me...
--Respeitarei os nervos da menina!--disse Julião curvando-se.
Continuaram calados. Aquelle corpo magro parecia a Sebastião d'um
peso de chumbo. Arquejava. Nas escadas uma das chinellas do cadaver
soltou-se, rolou. E Sebastião sentia aterrado alguma cousa que lhe
batia contra os joelhos; era a cuia cahida, suspensa por um atilho.
Estenderam-na na cama; Julião, dizendo que se deviam seguir as
tradições,--pôz-lhe os braços em cruz e fechou-lhe os olhos.
Esteve um momento a olhal-a:
--Feia besta!--murmurou, estendendo-lhe sobre o rosto uma toalha
enxovalhada.
Ao sahir examinou, admirado, o quarto:
--Estava mais bem alojada que eu, o estafermo!
Fechou a porta, deu volta á chave:
--_Requiescat in pace_--disse.
E desceram, calados.
Ao entrar na sala, Sebastião, muito pallido, pôz a mão no hombro de
Julião:
--Então achas que foi o aneurisma?
--Foi. Enfureceu-se, estourou. É dos livros...
--Se não se tivesse zangado hoje...
--Estourava ámanhã. Estava nas ultimas... Deixa em paz a creatura. Está
começando a esta hora a apodrecer, não a perturbemos.
Declarou então, esfregando as mãos com frio, que «comia alguma cousa».
Achou no armario um pedaço de vitella fria, uma garrafa meia de
Collares. Installou-se e, com a bocca cheia, deitando o vinho d'alto:
--Então sabes a novidade, Sebastião?
--Não.
--O meu concorrente foi despachado!
Sebastião murmurou:
--Que ferro!
--Era previsto--disse Julião com um grande gesto.--Eu ia fazer um
escandalo, mas...--e teve um risinho--amansaram-me! Estou n'um posto
medico, deram-me um posto medico! Atiraram-me um osso!
--Sim?--fez Sebastião.--Homem, ainda bem, parabens. E agora?
--Agora, roel-o!
De resto, tinham-lhe promettido a primeira vagatura. O posto medico não
era mau... Em definitiva, a situação melhorára...
--Mas mesquinha, mesquinha! Não sáio do atoleiro...
Estava farto de medicina, disse depois d'um silencio. Era um bêco
sem sahida. Devia-se ter feito advogado, politico, intrigante. Tinha
nascido p'ra isso!
Ergueu-se, e com grandes passadas pela sala, o cigarro na mão, a voz
cortante, expoz um plano de ambição:--O paiz está a preceito para um
intrigante com vontade! Esta gente toda está velha, cheia de doenças,
de catarrhos de bexiga, de antigas syphilis! tudo isto está pôdre
por dentro e por fóra! o velho mundo constitucional vai a cahir aos
pedaços... Necessitam-se homens!
E plantando-se diante de Sebastião:
--Este paiz, meu caro amigo, tem-se governado até aqui com
_expedientes_. Quando vier a revolução contra os _expedientes_, o paiz
ha-de procurar quem tenha os _principios_. Mas quem tem ahi principios?
Quem tem ahi quatro principios? Ninguem; teem dividas, vicios secretos,
dentes postiços; mas principios, nem meio! Por consequencia se houver
tres patuscos que se dêem ao trabalho de estabelecer meia duzia de
principios sérios, racionaes, modernos, positivos, o paiz tem se atirar
de joelhos, e supplicar-lhes: Senhores, fazei-me a honra insigne de
me pôr o freio nos dentes! Ora eu devia ser um d'estes. Nasci p'ra
isso! E secca-me a idéa de que em quanto outros idiotas, mais astutos
e mais previdentes, hão-de estar no poleiro a reluzir ao sol, _al
hermoso sol português_, como se diz nas zarzuelas, eu hei-de estar a
receitar cataplasmas a velhas devotas, ou a ligar as rupturas d'algum
desembargador caduco.
Sebastião calado pensava na outra, morta em cima.
--Estupido paiz, estupida vida!--rosnou Julião.
Mas uma carruagem entrou na rua, parou á porta.
--Chegam os principes!--disse Julião. Desceram logo.
Jorge ajudava Luiza a sahir do trem, quando Sebastião, abrindo a porta,
bruscamente:
--Houve cá grande novidade!
--Fogo?--gritou Jorge voltando-se aterrado.
--A Juliana, que lhe rebentou o aneurisma--disse a voz de Julião da
sombra da porta.
--Oh c'os diabos!--E Jorge atarantado procurava á pressa na algibeira
troco para o cocheiro.
--Ai, eu já não entro!--exclamou logo D. Felicidade, mostrando á
portinhola a sua larga face envolvida n'uma manta branca.--Eu já não
entro!
--Nem eu!--fez Luiza, toda tremula.
--Mas para onde queres que vamos, filha?--exclamou Jorge.
Sebastião lembrou que podiam ir para casa d'elle. Tinha o quarto da
mamã, era só pôr lençoes na cama.
--Vamos, sim! Vamos, Jorge! É o melhor!--supplicou Luiza.
Jorge hesitava. A patrulha que ia passando ao alto da rua, ao vêr
aquelle grupo junto á lanterna do trem, parou. E Jorge emfim, instado,
muito contrariado, consentiu.
--Diabo da mulher, morrer a semelhante hora! A carruagem vai-a levar,
D. Felicidade...
--E a mim, que estou em chinellas!--acudiu Julião.
D. Felicidade lembrou então, como christã, que era necessario alguem,
para velar a morta...
--Ora, pelo amor de Deus, D. Felicidade!--exclamou Julião, entrando
logo para a carruagem, batendo com a portinhola.
Mas D. Felicidade insistia: era uma falta de religião! ao menos pôr
duas velas, mandar chamar um padre!...
--Largue, cocheiro!--berrou Julião, impaciente.
A carruagem deu a volta. E D. Felicidade á portinhola, apesar de Julião
que a puxava pelos vestidos, gritava:
--É um peccado mortal! É uma irreverencia! Ao menos duas velas!
O trem partiu a trote.
Luiza agora tinha escrupulos: realmente podia-se mandar chamar alguem...
Mas Jorge enfureceu-se. Chamar quem, áquella hora? Que beatice! Estava
morta, acabou-se! Enterrava-se... Velar o estafermo! Fazer-lhe talvez
camara ardente tambem? Queria ella ir velal-a?...
--Então, Jorge, então!...--murmurava Sebastião.
--Não, é de mais! É vontade de crear embaraços, que diabo!
Luiza baixava a cabeça: e, em quanto Jorge, praguejando, ficou atraz a
fechar a porta da casa, ella foi descendo a rua pelo braço de Sebastião.
--Estourou de raiva--disse-lhe elle baixinho.
Toda a rua Jorge resmungou. Que idéa, irem dormir agora fóra de casa!
Realmente era levar muito longe as mariquices...!
Até que Luiza lhe disse, quasi chorando:
--Vê se me queres torturar mais, e fazer-me mais doente, Jorge!
Elle calou-se, mordendo furioso o charuto. E Sebastião, para a socegar,
propoz que viesse a tia Vicencia, a preta, velar a Juliana.
--Era talvez melhor--murmurou Luiza.
Chegaram á porta de Sebastião. O _frou-frou_ do vestido de sêda de
Luiza, áquella hora, na sua casa, dava uma commoção a Sebastião: a mão
tremia-lhe ao accender as velas da sala. Foi acordar a tia Vicencia
para fazer chá; tirou elle mesmo os lençoes dos bahús, apressado, feliz
d'aquella hospitalidade. Quando voltou á sala, Luiza estava só, muito
pallida, ao canto do sophá.
--Jorge?--perguntou elle.
--Foi ao seu escriptorio, Sebastião, escrever ao parocho para
o enterro...--E com os olhos brilhantes, n'uma voz sumida e
assustada:--Então?
Sebastião tirou da algibeira a carteirinha de Juliana. Ella agarrou-a
sofregamente--e com um movimento brusco, tomou-lhe a mão, e beijou-lh'a.
Mas Jorge entrava, sorrindo.
--Então agora está mais descançada, a menina?
--Inteiramente--disse ella, com um suspiro de allivio.
Foram tomar chá. Sebastião contou a Jorge, corando um pouco, a
maneira como entrára em casa, a Juliana lhe estivera a dizer que fôra
despedida, e fallando, exaltando-se, zás, de repente, cahira para o
lado morta...
E acrescentou:
--Coitada!
Luiza via-o mentir, olhando-o com adoração.
--E a Joanna?--perguntou Jorge, de repente.
Luiza, sem se perturbar, respondeu:
--Ah, esqueci-me dizer-te... Tinha pedido licença p'ra ir vêr uma tia
que está muito mal, p'ra os lados de Bellas... Diz que volta ámanhã...
Mais uma gota de chá, Sebastião...
Esqueceram-se depois de mandar a Vicencia--e ninguem velou a morta.