--Sabes que tenho um chapéo lindo?--exclamou de repente Luiza--Não
viste? Lindo!
Foi logo buscal-o ao guarda-vestidos. Era de palha fina, guarnecido de
myosotis.
--Que te parece?
--É um primor!
Luiza mirava-o dando pancadinhas com as pontas dos dedos nas florzinhas
azues.
--Dá frescura--fez D. Felicidade.
--Não é verdade?
Pôl-o com muito cuidado, toda séria. Ficava-lhe bem! Bazilio se a visse
havia de gostar, pensou. Era bem possivel que o encontrassem...
Veio-lhe, sem motivo, uma felicidade exuberante: achava tão delicioso
viver, sahir, ir á Encarnação, pensar no seu amante!... E toda no ar,
procurava pelo quarto as chavinhas do toucador.
Onde tinha deixado as chaves? Na sala de jantar, talvez! Ia vêr! Sahiu
correndo, tontinha, cantarolando:
Amici, la notte è bella...
La ra la la...
Quasi topou com Juliana, que varria o corredor.
--Não deixe de engommar a saia bordada para ámanhã, Juliana!
--Sim, minha senhora. Está em gomma!
E seguindo-a com um olhar feroz:
--Canta, piorrinha, canta, cabrasinha, canta, bebedasinha!...
E ella mesma, tomada subitamente d'um jubilo agudo, atirou vassouradas
rapidas, soltando na sua voz rachada:
Além d'ámanhã termina a campanha,
P-o-o-or aqui se diz...
Se tal fôr verdade, se não fôr patranha...
E com um espremido emphatico:
Se-e-rei bem feliz!
Ao outro dia, pelas duas horas da tarde, Sebastião e Julião passeavam
em S. Pedro de Alcantara.
Sebastião estivera contando a sua «scena» com Luiza, e como desde então
a sua estima por ella crescera. Ao principio escabreára-se, sim...
--Mas teve razão! Assim de surpreza, ouvir uma d'aquellas! E eu levei a
cousa mal, fui muito á bruta...
Depois, coitadinha, concordára logo, mostrára-se muito desgostosa, toda
zelosa do seu pudor, pedira-lhe conselhos... Até tinha as lagrimas nos
olhos.
--Eu disse-lhe logo que o melhor era fallar ao primo, dizer o que se
passava... Que te parece?
--Sim--disse vagamente Julião.
Tinha-o escutado distrahido, chupando a ponta do cigarro. O seu rosto
terreo cavava-se, com uma côr mais biliosa.
--Então achas que fiz bem, hein?
E depois d'uma pausa:
--Que ella é uma senhora de bem ás direitas! Ás direitas, Julião!
Continuaram calados. O dia estava encoberto e abafado, com um ar
de trovoada: grossas nuvens pesadas e pardas iam-se accumulando,
ennegrecendo para o lado da Graça por traz das collinas: um vento
rasteiro passava por vezes, pondo um arripio nas folhas das arvores.
--De maneira que agora estou descançado--resumiu Sebastião.--Não te
parece?
Julião encolheu os hombros com um sorriso triste:
--Quem me dera os teus cuidados, homem!--disse.
E fallou então com amargura nas suas preoccupações.--Havia uma semana
que se abrira concurso para uma cadeira de substituto na Escóla,
e preparava-se para elle. Era a sua taboa de salvação, dizia: se
apanhasse a cadeira, ganhava logo nome, a clientella podia vir, e a
fortuna... E, que diabo, sempre era estar de dentro!... Mas a certeza
da sua superioridade não o tranquillisava--porque emfim em Portugal,
não é verdade? n'estas questões a sciencia, o estudo, o talento são
uma historia, o principal são os padrinhos! Elle não os tinha--e o seu
concorrente, um semsaborão, era sobrinho d'um director geral, tinha
parentes na camara, era um colosso! Por isso elle trabalhava a valer,
mas parecia-lhe indispensavel metter tambem as suas cunhas! Mas quem?
--Tu não conheces ninguem, Sebastião?...
Sebastião lembrava-se d'um primo seu, deputado pelo Alemtejo, um
gordo, da maioria, um pouco fanhoso. Se Julião queria, fallava-lhe...
Mas sempre ouvira dizer que a Escóla não era gente de empenhos e de
intriga... De resto tinham o conselheiro Accacio...
--Uma besta!--fez Julião--Um parlapatão! Quem faz lá caso d'aquillo?
O teu primo, hein! O teu primo parece-me bom! É necessario alguem que
falle, que trabalhe...--Porque acreditava muito nas influencias dos
empenhos, no dominio dos «personagens», nas docilidades da fortuna
quando dirigida pelas habilidades da intriga. E com um orgulho raiado
d'ameaça:--Que eu hei-de-lhes mostrar o que é saber as cousas,
Sebastião!
Ia explicar-lhe o assumpto da these, mas Sebastião interrompeu-o:
--Ella ahi vem.
--Quem?
--A Luiza.
Passava com effeito, por fóra do Passeio, toda vestida de preto,
só.--Respondeu á cortezia dos dous homens com um sorriso, _adeusinhos_
da mão, um pouco corada.
E Sebastião immovel, seguindo-a devotamente com os olhos:
--Se aquillo não respira mesmo honestidade! Vai ás lojas... Santa
rapariga!
Ia encontrar Bazilio no _Paraiso_ pela primeira vez. E estava muito
nervosa: não pudera dominar, desde pela manhã, um medo indefinido que
lhe fizera pôr um véo muito espêsso, e bater o coração ao encontrar
Sebastião. Mas ao mesmo tempo uma curiosidade intensa, multipla,
impellia-a, com um estremecimentosinho de prazer.--Ia, emfim, ter
ella propria aquella aventura que lêra tantas vezes nos romances
amorosos! Era uma fórma nova do amor que ia experimentar, sensações
excepcionaes! Havia tudo--a casinha mysteriosa, o segredo illegitimo,
todas as palpitações do perigo! Porque o apparato impressionava-a mais
que o sentimento; e a _casa_ em si interessava-a, attrahia-a mais que
Bazilio! Como seria? Era para os lados d'Arroios, adiante do largo de
Santa Barbara: lembrava-se vagamente que havia alli uma correnteza de
casas velhas... Desejaria antes que fosse no campo, n'uma quinta, com
arvoredos murmurosos e relvas fôfas; passeariam então, com as mãos
enlaçadas, n'um silencio poetico; e depois o som d'agua que cahe nas
bacias de pedra daria um rhythmo languido aos somnos amorosos... Mas
era n'um terceiro andar,--quem sabe como seria dentro? Lembrava-lhe um
romance de Paulo Féval em que o heroe, poeta e duque, fórra de setins e
tapeçarias o interior d'uma choça; encontra alli a sua amante; os que
passam, vendo aquelle casebre arruinado, dão um pensamento compassivo
á miseria que de certo o habita--em quanto dentro, muito secretamente,
as flôres se esfolham nos vasos de Sèvres e os pés nús pisam Gobelins
veneraveis! Conhecia o gosto de Bazilio,--e o _Paraiso_ de certo era
como no romance de Paulo Féval.
Mas no largo de Camões reparou que o sujeito de pera comprida, o do
Passeio, a vinha seguindo, com uma obstinação de gallo; tomou logo
um coupé. E ao descer o Chiado, sentia uma sensação deliciosa em ser
assim levada rapidamente para o seu amante, e mesmo olhava com certo
desdem os que passavam, no movimento da vida trivial--em quanto ella ia
para uma hora tão romanesca da vida amorosa! Todavia á maneira que se
aproximava vinha-lhe uma timidez, uma contracção d'acanhamento, como um
plebeu que tem de subir, entre alarbadeiros solemnes, a escadaria d'um
palacio. Imaginava Bazilio esperando-a estendido n'um divan de sêda: e
quasi receava que a sua simplicidade burgueza, pouco experiente, não
achasse palavras bastante finas ou caricias bastante exaltadas. Elle
devia ter conhecido mulheres tão bellas, tão ricas, tão educadas no
amor! Desejava chegar n'um coupé seu, com rendas de centos de mil reis,
e ditos tão espirituosos como um livro...
A carruagem parou ao pé d'uma casa amarellada, com uma portinha
pequena. Logo á entrada um cheiro molle e salobre enojou-a. A escada,
de degraus gastos, subia ingrememente, apertada entre paredes onde a
cal cahia, e a humidade fizera nodoas. No patamar da sobre-loja, uma
janella com um gradeadosinho d'arame, parda do pó accumulado, coberta
de teias d'aranha, coava a luz suja do saguão. E por traz d'uma
portinha, ao lado, sentia-se o ranger d'um berço, o chorar doloroso
d'uma criança.
Mas Bazilio desceu logo, com o charuto na bocca, dizendo baixo:
--Tão tarde! sóbe! Pensei que não vinhas. O que foi?
A escada era tão esguia, que não podiam subir juntos. E Bazilio,
caminhando adiante, d'esguelha:
--Estou aqui desde a uma hora, filha! imaginei que te tinhas esquecido
da rua...
Empurrou uma cancella, fêl-a entrar n'um quarto pequeno, forrado de
papel ás listras azues e brancas.
Luiza viu logo, ao fundo, uma cama de ferro com uma colcha amarellada,
feita de remendos juntos de chitas differentes: e os lençoes
grossos, d'um branco encardido e mal lavado, estavam impudicamente
entreabertos...
Fez-se escarlate, sentou-se, calada, embaraçada. E os seus olhos, muito
abertos, iam-se fixando--nos riscos ignobeis da cabeça dos phosphoros,
ao pé da cama; na esteira esfiada, comida, com uma nodoa de tinta
entornada; nas bambinellas da janella, d'uma fazenda vermelha, onde
se viam passagens; n'uma lithographia, onde uma figura, coberta d'uma
tunica azul fluctuante, espalhava flôres voando... Sobre tudo uma larga
photographia, por cima do velho canapé de palhinha, fascinava-a: era um
individuo atarracado, d'aspecto hilare e alvar, com a barba em collar,
o feitio d'um piloto ao domingo: sentado, de calças brancas, com as
pernas muito afastadas, pousava uma das mãos sobre um joelho, e a outra
muito estendida assentava sobre uma columna truncada: e por baixo do
caixilho, como sobre a pedra d'um tumulo, pendia d'um prego de cabeça
amarella, uma corôa de perpetuas!
--Foi o que se pôde arranjar--disse-lhe Bazilio.--E foi um acaso: é
muito retirado, é muito discreto... Não é muito luxuoso...
--Não--fez ella, baixo.--Levantou-se, foi á janella, ergueu uma ponta
da cortininha de cassa fixada á vidraça: defronte eram casas pobres: um
sapateiro grisalho, batia a sola a uma porta; á entrada d'uma lojita
balouçava-se um ramo de carqueja ao pé d'um maço de cigarros pendente
d'um barbante; e, a uma janella, uma rapariga esguedelhada embalava
tristemente no collo uma criança doente que tinha crostas grossas de
chagas na sua cabecinha côr de melão.
Luiza mordia os beiços, sentia-se entristecer. Então nós de dedos
bateram discretamente á porta. Ella assustou-se, desceu rapidamente o
véo. Bazilio foi abrir. Uma voz adocicada, cheia de _ss_ mellifluos,
ciciou baixo. Luiza ouviu vagamente: Socegadinhos, suas chavesinhas...
--Bem, bem!--disse Bazilio apressado, batendo com a porta.
--Quem é?
--É a patrôa.
O céo pozera-se a ennegrecer; já a espaços grossas gôtas de chuva se
esmagavam nas pedras da rua; e um tom crepuscular fazia o quarto mais
melancolico.
--Como descobriste tu isto?--perguntou Luiza, triste.
--Inculcaram-m'o.
Outra gente, então, tinha vindo alli, «amado» alli? pensou ella. E a
cama pareceu-lhe repugnante.
--Tira o chapéo--disse Bazilio, quasi impaciente--estás-me a fazer
afflicção com esse chapéo na cabeça.
Ella soltou devagar o elastico que o prendia, foi pôl-o no canapé de
palhinha, desconsoladamente.
Bazilio tomou-lhe as mãos, e attrahindo-a, sentando-se na cama:
--Estás tão linda!--Beijou-lhe o pescoço, encostou a cabeça ao peito
d'ella. E com a vista muito quebrada:
--O que eu sonhei comtigo esta noite!
Mas, de repente, uma forte pancada de chuva fustigou os vidros. E
immediatamente bateram á porta, com pressa.
--Que é?--bradou Bazilio furioso.
A voz cheia de _ss_ explicou que esquecera um cobertor na varanda que
estava a seccar. Se se encharcasse, que perdição!...
--Eu lhe pagarei o cobertor, deixe-me!--berrou Bazilio.
--Dá-lhe o cobertor...
--Que a leve o diabo!
E Luiza, sentindo um arripio de frio nos seus hombros nús,
abandonava-se com uma vaga resignação, entre os joelhos de
Bazilio--vendo constantemente voltada para si a face alvar do piloto.
Assim um _yacht_ que apparelhou nobremente para uma viagem romanesca
vai encalhar, ao partir, nos lodaçaes do rio baixo; e o mestre
aventureiro que sonhava com os incensos e os almiscares das florestas
aromaticas, immovel sobre o seu tombadilho, tapa o nariz aos cheiros
dos esgotos.
Apenas Luiza começou a sahir todos os dias, Juliana pensou logo: Bem,
vai ter com o _gajo_!
E a sua attitude tornou-se ainda mais servil. Era com um sorriso de
baixeza que corria a abrir a porta, alvoroçada, quando Luiza voltava
ás cinco horas. E que zelo! Que exactidões! Um botão que faltasse, uma
fita que se extraviava, e eram «mil perdões, minha senhora», «desculpe
por esta vez», muitas lamentações humildes. Interessava-se com devoção
pela saude d'ella, pela sua roupa, pelo que tinha para jantar...
Todavia, desde as idas ao _Paraiso_, o seu trabalho augmentára: todos
os dias agora tinha d'engommar; muitas vezes era preciso ensaboar á
noite collares, rendinhas, punhos, n'uma bacia de latão, até ás onze
horas. Ás seis da manhã, mais cedo, já estava com o «ferro ás voltas».
E não se queixava, até dizia a Joanna:
--Ai! é um regalo vêr assim uma senhora aceada!... Que as ha! credo!
Não, não é por dizer, mas até me dá gosto. Depois, graças a Deus, agora
tenho saude, o trabalho não me assusta!
Não tornára a resmungar da «patrôa». Affirmava mesmo á Joanna
repetidamente:
--A senhora! ai, é uma santa! Muito boa d'aturar... Não a ha melhor!
O seu rosto perdera alguma cousa do tom bilioso, da contracção amarga.
Ás vezes, ao jantar ou á noite, costurando calada ao pé de Joanna, á
luz do petroleo, vinham-lhe sorrisos subitos, o olhar clareava-se-lhe
n'uma dilatação jovial.
--A snr.^a Juliana tem o ar de quem está a pensar em cousas boas...
--A malucar cá por dentro, snr.^a Joanna!--respondia com satisfação.
Parecia perder a inveja; ouviu mesmo fallar com tranquillidade do
vestido de sêda que estreou n'um dia de festa, em setembro, a Gertrudes
do doutor. Disse apenas:
--Tambem um dia hei-de estrear vestidos, e dos bons! Dos da modista!
Já outras vezes revelára por palavras vagas a idéa d'uma abundancia
proxima. Joanna até lhe dissera:
--A snr.^a Juliana espera alguma herança?
--Talvez!--respondeu seccamente.
E cada dia detestava mais Luiza. Quando pela manhã a via arrebicar-se,
perfumar-se com agua de colonia, mirar-se ao toucador cantarolando,
sahia do quarto porque lhe vinham venetas d'odio, tinha medo
d'estourar! Odiava-a pelas _toilettes_, pelo ar alegre, pela roupa
branca, pelo _homem_ que ia vêr, por todos os seus regalos de senhora.
«A cabra!» Quando ella sahia ia espreitar, vêl-a subir a rua, e
fechando a vidraça com um risinho rancoroso:
--Diverte-te, piorrinha, diverte-te, que o meu dia ha-de chegar! Oh se
ha-de!
Luiza com effeito divertia-se. Sahia todos os dias ás duas horas. Na
rua já se dizia que «a do Engenheiro tinha agora o seu S. Miguel».
Apenas ella dobrava a esquina o conciliabulo juntava-se logo a
cochichar. Tinham a certeza que se ia encontrar com o «peralta». Onde
seria?--era a grande curiosidade da carvoeira.
--No hótel--murmurava o Paula.--Que nos hóteis é escandalo bravio. Ou
talvez--acrescentava com tedio--n'alguma d'essas possilgas da baixa!
A estanqueira lamentava-a: uma senhora que era tão apropositada!
--Vacca solta lambe-se toda, snr.^a Helena!--rosnava o Paula.--São
todas o mesmo!
--Menos isso!--protestava a estanqueira--Que eu sempre fui uma mulher
honesta!
E ella?--reclamava a carvoeira--ninguem tinha que lhe dizer!
--Fallo da alta sociedade, das fidalgas, das que arrastam sêdas! É
uma cambada. Eu é que o sei!--E acrescentava gravemente:--No povo ha
mais moralidade. O povo é outra raça!--E com as mãos enterradas nos
bolsos, as pernas muito abertas, ficava absorto, com a cabeça baixa,
o olhar cravado no chão.--Se é!--murmurava--Se é!--Como se estivesse
positivamente achando as pedrinhas da calçada menos numerosas que as
virtudes do povo!
Sebastião, que tinha estado na quinta d'Almada quasi duas semanas,
ficou aterrado quando, ao voltar, a Joanna lhe deu as grandes
«novidades»: que a Luizinha agora sahia todos os dias ás duas horas,
que o primo não voltára; a Gertrudes é que lh'o dissera; não se fallava
na rua n'outra cousa...
--Então a pobre senhora nem sequer póde ir ás lojas, aos seus
arranjos!--exclamou Sebastião.--A Gertrudes é uma desavergonhada, e
nem sei como a tia Joanna consente que ella ponha aqui os pés. Vir com
esses mexericos!...
--Cruzes! Olha o destempero!--replicou muito escandalisada a tia
Joanna.--Oh menino, realmente... A pobre mulher disse o que ouviu na
rua! Que ella até a defende, até ella é que a defende! Até se esteve
a queixar que se falla! que se falla! Boa!--E a tia Joanna sahiu,
resmungando:--Olha o destempero, credo!
Sebastião chamou-a, aplacou-a:
--Mas quem falla, tia Joanna?
--Quem?--E muito emphaticamente:--Toda a rua! Toda a rua! Toda a rua!
Sebastião ficou aniquilado. Toda a rua! Pudera! Se ella agora se
punha a sahir todos os dias, uma senhora, que quando estava Jorge não
sahia do buraco! A visinhança que murmurára das visitas do outro,
naturalmente começava a commentar as sahidas d'ella! Estava-se a
desacreditar! E elle não podia fazer nada! Ir advertil-a? Ter outra
«scena»? Não podia.
Procurou-a. Não lhe queria de certo tocar em nada, ia só vêl-a. Não
estava. Voltou d'ahi a dous dias. Juliana veio-lhe dizer á cancella,
com o seu sorriso amarellado: «Foi-se agora mesmo, ha um instantinho.
Ainda a apanha á Patriarchal». Emfim, um dia encontrou-a ao principio
da rua de S. Roque. Luiza pareceu muito contente em o vêr:--Porque se
tinha demorado tanto em Almada? Que deserção!
Trazia carpinteiros, era necessario vigiar as obras. E ella?
--Bem. Um bocado aborrecida. O Jorge diz que ainda se demora. Tenho
estado muito só. Nem Julião, nem Conselheiro, ninguem. A D. Felicidade
é que tem apparecido ás vezes de fugida. Está agora sempre mettida na
Encarnação... Isto gente devota!--E riu.
Então aonde ia?
A umas comprasitas, á modista depois...--E appareça agora, Sebastião,
hein?
--Hei-d'apparecer.
--Á noite. Estou tão só! Tenho tocado muito, é o que me vale é o piano!
N'essa mesma tarde Sebastião recebeu uma carta de Jorge. «Tens visto a
Luiza? Estive quasi com cuidado, porque estive mais de cinco dias sem
carta d'ella. De resto está preguiçosa como uma freira; quando escreve
são quatro linhas porque está o correio a partir. Vai dizer ao correio
que espere, que diabo! Queixa-se de se aborrecer, de estar só, que
todos a abandonaram, que tem vivido como n'um deserto. Vê se lhe vaes
fazer companhia, coitada, etc.»
No dia seguinte ao anoitecer foi a casa d'ella. Appareceu-lhe muito
vermelha, com os olhos estremunhados, de roupão branco. Tinha chegado
muito cançada de fóra, tinha-lhe dado o somno depois de jantar,
adormecera sobre a _causeuse_... Que havia de novo? E bocejava.
Fallaram das obras d'Almada, do Conselheiro, de Julião; e ficaram
calados. Havia um constrangimento.
Luiza então accendeu as velas no piano, mostrou-lhe a nova musica
que estudava, a _Medjé_ de Gounod; mas havia uma passagem em que se
embrulhava sempre; pediu a Sebastião que a tocasse, e junto do piano,
batendo o compasso com o pé, acompanhava baixo a melodia, a que a
execução de Sebastião dava um encanto penetrante. Quiz tentar depois,
mas enganou-se, zangou-se, atirou a musica para o lado, veio sentar-se
no sophá, dizendo:
--Quasi nunca tóco! Estão-se-me a enferrujar os dedos!...
Sebastião não se atrevia a perguntar pelo primo Bazilio. Luiza não lhe
pronunciou sequer o nome. E Sebastião, vendo n'aquella reserva uma
diminuição de confiança ou um resto persistente de despeito, disse que
tinha d'ir á Associação Geral d'Agricultura, e sahiu muito desconsolado.
Cada dia que se seguiu trouxe-lhe a sua inquietação differente. Ás
vezes era a tia Joanna que lhe dizia á tarde: «A Luizinha lá sahiu hoje
outra vez! Por este calor, até póde apanhar alguma! Credo!» Outras era
o conciliabulo dos visinhos, que avistava de longe, e que de certo
«estavam a cortar na pelle da pobre senhora»!
Parecia-lhe tudo aquillo exactamente a _aria da Calumnia_ no _Barbeiro
de Sevilha_: a calumnia ao principio leve como o fremito das azas d'um
passaro, subindo n'um crescendo aterrador até estalar como um trovão!
Dava agora voltas para não passar na rua, diante do Paula e da
estanqueira: tinha vergonha d'elles! Encontrára o Teixeira Azevedo, que
lhe perguntára:
--Então o Jorge quando vem? Que diabo! o rapaz fica por lá!
E aquella observação trivial aterrou-o.
Emfim, um dia, mais apoquentado, foi procurar Julião. Encontrou-o no
seu quarto andar, em mangas de camisa e em chinellas, enxovalhado e
esguedelhado, rodeado de papelada, com uma chocolateirinha de café ao
pé, trabalhando. O soalho negro estava cheio de pontas de cigarro;
ao canto estava embrulhada roupa suja; sobre a cama desfeita havia
livros abertos;--e um cheiro relentado sahia do desmazêlo das cousas.
A janella de peitoril dava para o saguão, d'onde vinha o cantar
estridente d'uma criada, e o ruido areado do esfregar de tachos.
Julião, apenas elle entrou, ergueu-se, espreguiçou-se, enrolou um
cigarro, e declarou que estava a trabalhar desde as sete!... Hein? Era
bonito! Para que soubesse o snr. Sebastião!
--De resto chegaste a proposito. Estava para mandar a tua casa... Devia
receber ahi um dinheiro e não veio. Dá cá uma libra.
E immediatamente começou a fallar da these. A cousa sahia!
Leu-lhe paragraphos do prologo com uma deleitação paternal, e, muito
satisfeito, na abundancia de confiança que dá a excitação do trabalho,
com grandes passadas pelo quarto:
--Hei-de-lhes mostrar que ainda ha portuguezes em Portugal, Sebastião!
Hei-de-os deixar de bocca aberta! Tu verás!
Sentou-se, pôz-se a numerar as folhas escriptas, assobiando. Sebastião,
então, com timidez, quasi vexado de perturbar com as suas preoccupações
domesticas aquelles interesses scientificos, disse baixo:
--Pois eu vim-te fallar por causa lá da nossa gente...
Mas a porta abriu-se com força, e um rapaz de barba desleixada, e olhar
um pouco doudo, entrou; era um estudante da Escóla, amigo de Julião;
e quasi immediatamente os dous recomeçaram uma discussão que tinham
travado de manhã, e que fôra interrompida ás onze horas, quando o rapaz
d'olhar doudo descêra a almoçar á Aurea.
--Não, menino!--exclamava o estudante exaltado.--Estou na minha! A
medicina é uma meia sciencia, a physiologia é outra meia sciencia! São
sciencias conjecturaes, porque nos escapa a base, conhecer o principio
da vida!
E cruzando os braços diante de Sebastião, bradou-lhe:
--Que sabemos nós do principio da vida?
Sebastião, humilhado, baixou os olhos.
Mas Julião indignava-se:
--Estás desmoralisado pela doutrina vitalista, miseravel! Trovejou
contra o Vitalismo, que declarou «contrario ao espirito scientifico».
Uma theoria que pretende que as leis que governam os corpos brutos
não são as mesmas que governam os corpos vivos--é uma heresia
grotesca!--exclamava.--E Bichat que a proclama é uma besta!
O estudante, fóra de si, bradou--que chamar a Bichat uma besta era
simplesmente d'um alarve.
Mas Julião desprezou a injuria, e continuou, exaltado nas suas idéas:
--Que nos importa a nós o principio da vida? Importa-me tanto como
a primeira camisa que vesti! O principio da vida é como outro
qualquer principio: um segredo! Havemos d'ignoral-o eternamente!
Não podemos saber nenhum principio. A vida, a morte, as origens, os
fins, mysterios! São causas primarias com que não temos nada a fazer,
nada! Podemos batalhar seculos, que não avançamos uma pollegada. O
physiologista, o chimico, não tem nada com os principios das cousas;
o que lhes importa são os phenomenos! Ora os phenomenos e as suas
causas immediatas, meu caro amigo, podem ser determinadas com tanto
rigor nos corpos brutos, como nos corpos vivos--n'uma pedra, como n'um
desembargador! E a physiologia e a medicina são sciencias tão exactas
como a chimica! Isto já vem de Descartes!
Travaram então um berreiro sobre Descartes. E immediatamente, sem que
Sebastião attonito tivesse descoberto a transição, encarniçaram-se
sobre a idéa de Deus.
O estudante parecia necessitar Deus para explicar o universo. Mas
Julião atacava Deus com cólera: chamava-lhe «uma hypothese safada»,
«uma velha caturrice do partido miguelista»! E começaram a assaltar-se
sobre a questão social, como dous gallos inimigos.
O estudante, com os olhos esgazeados, sustentava, dando punhadas sobre
a mesa, o principio da authoridade! Julião berrava pela «anarchia
individual»! E depois de citarem com furia Proudhon, Bastiat, Jouffroy
romperam em personalidades. Julião, que dominava pela estridencia da
voz, censurou violentamente ao estudante--as suas inscripções a seis
por cento, o ridiculo de ser filho d'um corretor de fundos, e o bife de
proprietario que vinha de comer na Aurea!
Olharam-se, então, com rancor.
Mas d'ahi a momentos o estudante deixou cahir com desdem algumas
palavras sobre Claude Bernard, e a questão recomeçou, furiosa.
Sebastião tomou o chapéo.
--Adeus--disse baixo.
--Adeus, Sebastião, adeus--disse promptamente Julião.
Acompanhou-o ao patamar.
--E quando quizeres que eu falle a meu primo...--murmurou Sebastião.
--Pois sim, veremos, eu pensarei--disse Julião com indifferença, como
se o orgulho do trabalho lhe tivesse dissipado o terror da injustiça.
Sebastião foi descendo as escadas, pensando: Não se lhe póde fallar em
nada, agora!
De repente veio-lhe uma idéa: se fosse ter com D. Felicidade, abrir-se
com ella! D. Felicidade era espalhafatona, um pouco tonta, mas era
uma mulher d'idade, intima de Luiza; tinha mais authoridade, mais
habilidade mesmo...
Decidiu-se logo, tomou um trem, foi á rua de S. Bento.
A criada de D. Felicidade appareceu-lhe, desolada, e lacrimosa:
--Pois não sabe?
--Não.
--Ai! até admira!
--Mas o que?
--A senhora! Uma desgraça assim! Torceu um pé na Encarnação, deu uma
quéda. Tem estado muito mal, muito mal.
--Aqui?
--Na Encarnação. Nem pôde sahir. Está com a snr.^a D. Anna Silveira.
Uma desgraça assim! E está n'um phrenesi!
--Mas quando foi?
--Antes d'hontem á noite.
Sebastião saltou para o trem, mandou «bater» para casa de Luiza.
A D. Felicidade, doente, na Encarnação! Mas então Luiza podia bem sahir
todos os dias! Ia vêl-a, fazer-lhe companhia, tratar d'ella!...
A visinhança não tinha que rosnar! Ia vêr a pobre doente!...
Eram duas horas quando a parelha estacou á porta de Luiza. Encontrou-a,
que descia a escada, vestida de preto, de luva _gris perle_, com um véo
negro.
--Ah! suba, Sebastião, suba! Quer subir?
Parára, nos degraus, com uma côrzinha no rosto, um pouco embaraçada.
--Não, obrigado. Vinha dizer-lhe... Não sabe? A D. Felicidade...
--O quê?
--Torceu um pé. Está mal.
--Que me diz?
Sebastião deu os pormenores.
--Vou já lá.
--Deve ir. Eu não posso ir, não entram homens. Coitada! Diz que
está mal.--Acompanhou-a até á esquina da rua, offereceu-lhe mesmo
a tipoia:--E muitos recados, que tenho pena de a não vêr!... Pobre
senhora! E diz que está n'um phrenesi!
Viu-a afastar-se para a Patriarchal, e, admirando a graça da sua
figura, esfregava as mãos satisfeito.
Estavam justificadas, santificadas mesmo aquellas passeatas todos
os dias! Ia ser a enfermeira da pobre D. Felicidade! Era necessario
que todos soubessem, o Paula, a estanqueira, a Gertrudes, as
Azevedos, todos, de modo que quando a vissem de manhã, subir a rua,
dissessem:--Lá vai fazer companhia á doente! Santa senhora!
O Paula estava á porta da loja--e Sebastião com uma idéa subita,
entrou. Estava-se estimando de se sentir tão fecundo em expedientes,
tão habil!
Deitou um pouco o chapéo para a nuca, e mostrando com o guarda-sol o
painel que representava D. João VI:
--Quanto quer vossemecê por isto, ó snr. Paula?
O Paula ficou surprehendido:
--O snr. Sebastião está a brincar?
Sebastião exclamou:
--A brincar?--Fallava muito sério! queria uns quadros para a sala
d'entrada, em Almada: mas velhos, sem caixilho, para dizerem bem sobre
um papel escuro.--Como isto! Estou a brincar! Ora essa, homem!
--Desculpe, snr. Sebastião... Pois n'esse caso ha por ahi alguns
paineis a calhar.
--Este D. João VI agrada-me. Quanto custa isto?
O Paula disse, sem hesitar:
--Sete mil e duzentos. Mas é obra de mestre.
Era uma téla desbotada de tom defumado, onde uns restos de face
avermelhada, com uma cabelleira em cachos, sobresahiam vagamente sobre
um fundo sombrio. Um vermelhão baço indicava o velludo de uma casaca
de côrte: a pança saliente e ostentosa enchia um collete esverdeado. E
a parte mais conservada da téla era, ao lado sobre um coxim, a corôa
real--que o artista trabalhára com uma minuciosidade enthusiasta, ou
por preoccupação d'idiota, ou por adulação de cortezão.
Sebastião achava caro; mas o Paula mostrou-lhe o preço escripto por
traz, n'uma tirinha de papel; espanejou a téla com amor; indicou as
bellezas, fallou na sua honestidade; deprimiu outros vendedores de
moveis, «que tinham a consciencia nas palmilhas»; jurou que o retrato
pertencera ao paço de Queluz, e ia atacar as questões publicas--quando
Sebastião disse resumindo:
--Bem, pois mande-m'o logo, fico com elle. E mande a conta.
--Leva uma rica obra!
Sebastião agora olhava em redor. Queria fallar do «pé torcido de D.
Felicidade», e procurava uma transição. Examinou umas jarras da India,
um tremó; e avistando uma poltrona de doente:
--Aquillo é que era bom para a D. Felicidade!--exclamou logo--aquella
cadeira! Boa cadeira!
O Paula arregalou os olhos.
--Para a D. Felicidade Noronha--repetiu Sebastião.--Para estar
deitada... Pois não sabia, homem? Partiu um pé, tem estado muito mal.
--A D. Felicidade, a amiga _de cá_?--e indicou com o pollegar a casa do
Engenheiro.
--Sim, homem! Quebrou um pé na Encarnação. Até lá ficou. A D. Luiza vai
para lá fazer-lhe companhia todos os dias. Agora ia ella para lá...
--Ah!--fez o Paula lentamente. E depois de uma pausa:--Mas eu ainda a
vi entrar _para cá_ ha-de haver oito dias.
--Foi antes d'hontem.--Tossiu e acrescentou, voltando o rosto, olhando
muito umas gravuras:--De resto a D. Luiza já ia todos os dias á
Encarnação, mas era para vêr a Silveira, a D. Anna Silveira, que esteve
mal. Coitada, ha tres semanas que tem passado uma vida d'enfermeira.
Não sahe da Encarnação! E agora é a D. Felicidade. Não é má massada!
--Pois não sabia, não sabia--murmurava o Paula, com as mãos enterradas
nos bolsos.
--Mande-me o D. João VI, hein?
--Ás ordens, snr. Sebastião.
Sebastião foi para casa. Subiu á sala; e atirando o chapéo
para o sophá: Bem, pensou, agora ao menos estão salvas as
apparencias!--Passeou algum tempo com a cabeça baixa; sentia-se triste;
porque o ter conseguido, por um acaso, justificar aquelles passeios
para com a visinhança, fazia-lhe parecer mais cruel a idéa de que os
não podia justificar para comsigo. Os commentarios dos visinhos iam
findar por algum tempo, mas _os seus_?... Queria achal-os falsos,
pueris, injustos: e, contra sua vontade, o seu bom senso e a sua
rectidão estavam sempre a revolvel-os baixo. Emfim, tinha feito o que
devia! E com um gesto triste, fallando só, no silencio da sala:
--O resto é com a sua consciencia!
N'essa tarde, na rua, sabia-se já que a D. Felicidade de Noronha
torcera um pé na Encarnação, (outros diziam quebrára uma perna), e
que a D. Luiza não lhe sahia da cabeceira... O Paula declarára com
authoridade:
--É de boa rapariga, é de muito boa rapariga!
A Gertrudes do doutor foi logo, á noitinha, perguntar á tia Joanna,
«se era verdade da perna quebrada». A tia Joanna corrigiu: era o pé,
torcera o pé! E a Gertrudes veio dizer ao doutor, ao chá, que a D.
Felicidade déra uma queda que ficára em pedaços.--Foi na Encarnação,
acrescentou. Diz que anda tudo lá n'uma roda viva. A Luizinha até lá
tem dormido...
--Pieguices de beatas!--rosnou com tedio o doutor.
Mas na rua todos a elogiavam. Mesmo, d'ahi a dias, o Teixeira Azevedo
(que apenas comprimentava Luiza), tendo-a encontrado na rua de S.
Roque, parou, e com uma cortezia profunda:
--Desculpe vossencia. Como vai a sua doente?
--Melhor, agradecida.
--Pois, minha senhora, tem sido de muita caridade, ir todos os dias por
este calor á Encarnação...
Luiza corou.
--Coitada! Não lhe falta companhia, mas...
--É de muita caridade, minha senhora--exclamou com emphase--Tenho-o
dito por toda a parte. É de muita caridade. Um criado de vossencia!
E afastou-se commovido.
Luiza fôra logo, com effeito, vêr D. Felicidade. Tinha uma luxação
simples; e deitada nos quartos da Silveira, com o pé em compressas
d'arnica, cheia de terror de «perder a perna», passava o dia rodeada
d'amigas, chorando-se, saboreando os mexericos do Recolhimento, e
debicando petiscos.
Apenas alguem entrava para a vêr, redobrava d'exclamações e de queixas;
vinha logo a historia miuda, incidentada, prolixa da «desgraça»: ia a
descer, a pôr o pé no degrau; escorregára; sentiu que ia a cahir; ainda
se sustentou, e pôde dizer: Ai Nossa Senhora da Saude! Ao principio a
dôr não foi grande; mas podia ter morrido; tinha sido um milagre!
Todas as senhoras concordavam «que era realmente um milagre».
Olhavam-na compungidas, e iam ao côro alternadamente prostrar-se, e
pedir aos santos especiaes o allivio da Noronha!
A primeira visita de Luiza foi para D. Felicidade uma consolação,
«deu-lhe melhoras»; porque se ralava de estar alli de cama, sem saber
noticias d'_elle_, sem poder fallar d'_elle_!
E nos dias seguintes, apenas ficava só no quarto com Luiza, chamava-a
logo para a cabeceira, e n'um murmurio mysterioso: Tinha-o visto?
Sabia d'_elle_?--A sua afflicção era que o Conselheiro não soubesse
que ella estava doente, e não lhe podesse dar aquelles pensamentos
compassivos--a que o seu pé tinha direito, e que seriam um conforto
para o seu coração! Mas Luiza não _o_ vira--e D. Felicidade, remexendo
a chásada, exhalava suspiros agudos.
Ás duas horas Luiza sahia da Encarnação--e ia tomar um trem ao Rocio:
para não parar á porta do _Paraiso_ com espalhafato de tipoia,
apeava-se ao largo de Santa Barbara; e fazendo-se pequenina, cosida com
a sombra das casas, apressava-se com os olhos baixos, e um vago sorriso
de prazer.
Bazilio esperava-a deitado na cama, em mangas de camisa: para não se
enfastiar, só, tinha trazido para o _Paraiso_ uma garrafa de cognac,
assucar, limões--e com a porta entreaberta fumava, fazendo _grogs_
frios. O tempo arrastava-se, via a todo o momento as horas, e sem
querer ia escutando, notando todos os ruidos intimos da familia da
proprietaria que vivia nos quartos interiores: a rabuje d'uma criança,
uma voz acatarrhoada que ralhava, e de repente uma cadellinha que
começava a ladrar furiosa. Bazilio achava aquillo burguez e reles,
impacientava-se. Mas um _frou-frou_ de vestido roçava a escada--e os
tedios d'elle, bem como os receios d'ella, dissipavam-se logo no calor
dos primeiros beijos. Luiza vinha sempre com pressa; queria estar
em casa ás cinco horas, «e era um estirão depois!» Entrava um pouco
suada, e Bazilio gostava da transpiraçãosinha tepida que havia nos seus
hombros nús.
--E teu marido?--perguntava elle.--Quando vem?
--Não falla em nada.--Ou então:--Não recebi carta, não sei nada.
Parecia ser aquella a preoccupação de Bazilio, na alegria egoista da
posse recente. Tinha então caricias muito extaticas; ajoelhava-se aos
pés d'ella; fazia voz de criança:
--Lili não ama Bibi...
Ella ria, meio despida, com um riso cantado e libertino.
--Lili adora Bibi!... É douda por Bibi!
E queria saber se pensava n'ella, o que tinha feito na vespera. Fôra ao
Gremio, jogára uns _robbers_, viera para casa cedo, sonhára com ella...
--Vivo para ti, meu amor, acredita!
E deixava-lhe cahir a cabeça no regaço, como sob uma felicidade
excessiva.
Outras vezes, mais serio, dava-lhe certos conselhos de gôsto, de
_toilette_: pedira-lhe que não trouxesse postiços no cabello, que não
usasse botinhas de elastico.
Luiza admirava muito a sua experiencia do luxo; obedecia-lhe,
amoldava-se ás suas idéas:--até affectar, sem o sentir, um desdem pela
gente virtuosa, para imitar as suas opiniões libertinas.
E lentamente, vendo aquella docilidade, Bazilio não se dava ao
incommodo de se constranger; usava d'ella, _como se a pagasse_!
Acontecera uma manhã escrever-lhe duas palavras a lapis que «não podia
ir ao _Paraiso_», sem outras explicações! Uma occasião mesmo não foi,
sem a avisar--e Luiza achou a porta fechada. Bateu timidamente, olhou
pela fechadura, esperou palpitante--e voltou muito desconsolada,
quebrada do calor, com a poeirada nos olhos, e vontade de chorar.
Não aceitava o menor incommodo, nem para lhe causar um contentamento.
Luiza tinha-lhe pedido que fosse de vez em quando aos domingos a sua
casa, passar a noite: viria Sebastião, o Conselheiro, D. Felicidade
quando estivesse melhor: era uma alegria para ella, e depois dava ás
suas relações um ar mais parente, mais legitimo.
Mas Bazilio pulou:
--O quê! ir cabecear de somno com quatro caturras... Ah! não!...
--Mas conversa-se, faz-se musica...
--_Merci!_ Conheço-a, a musica das _soirées_ de Lisboa! A valsa do
_Beijo_ e o _Trovador_. Safa!
Depois duas ou tres vezes fallára de Jorge com desdem. Aquillo
offendera-a.
Ultimamente mesmo, quando ella entrava no _Paraiso_, já não tinha a
delicadeza amorosa de se levantar alvoroçado: sentava-se apenas na
cama, e tirando preguiçosamente o charuto da bocca:
--Ora viva a minha flôr!--dizia.
E um ar de superioridade quando lhe fallava! Um modo de encolher os
hombros, de exclamar:--Tu não percebes nada d'isso! Chegava a ter
palavras cruas, gestos brutaes. E Luiza começou a desconfiar que
Bazilio não a estimava,--apenas a desejava!
Ao principio chorou. Resolveu explicar-se com elle, romper se fosse
necessario. Mas adiou, não se atrevia: a figura de Bazilio, a sua voz,
o seu olhar dominavam-na; e accendendo-lhe a paixão tiravam-lhe a
coragem de a perturbar com queixas. Porque estava convencida então que
o adorava: o que lhe dava tanta exaltação no _desejo_, se não era a
grandeza do _sentimento_?... Gozava tanto, é porque o amava muito!...
E a sua honestidade natural, os seus pudores refugiavam-se n'este
raciocinio subtil.
Elle tinha ás vezes uma seccura aspera de maneiras, era verdade; certos
tons de indifferença, era certo... Mas n'outros momentos, quantas
denguices, que tremuras na voz, que phrenesi nas caricias!... Amava-a
tambem, não havia duvida. Aquella certeza era a sua justificação. E
como era o Amor que os produzia, não se envergonhava dos alvoroços
voluptuosos com que ia todas as manhãs ao _Paraiso_!
Duas ou tres vezes, ao voltar, tinha encontrado Juliana que subia
tambem apressada o Moinho de Vento.
--D'onde vinha vossê?--perguntára-lhe em casa.
--Do medico, minha senhora, fui ao medico.
Queixava-se de pontadas, palpitações, faltas d'ar.
--Flatos! flatos!
Com effeito, Juliana agora fazia todos os arranjos pela manhã; depois
apenas Luiza, pela uma hora, dobrava a esquina, ia-se vestir, e muito
espartilhada no seu vestido de merino, de chapéo e sombrinha, vinha
dizer a Joanna:
--Até logo, vou ao medico.
--Até logo, snr.^a Juliana--dizia a cozinheira radiante.
E ia logo fazer signal ao carpinteiro.
Juliana descia por S. Pedro de Alcantara, e tomando para o largo do
Carmo ia á ruasita, defronte do quartel. Alli morava n'um terceiro
andar a sua intima amiga, a tia Victoria.
Era uma velha que fôra inculcadeira. Ainda tinha mesmo na cancella,
n'uma placa de metal, com letras negras: «Victoria Soares,
inculcadeira.» Mas nos ultimos annos a sua industria tornou-se mais
complicada, muito tortuosa.
Exercia-a n'uma saleta esteirada, com mosquiteiros de papel pendentes
do tecto encardido, alumiada por duas tristes janellas de peito. Um
vasto sophá occupava quasi a parede do fundo: fôra de certo de reps
verde, mas o estofo coçado, comido, remendado, tinha agora, sob largas
nodoas, uma vaga côr parda; as molas partidas, rangiam com estalidos
melancolicos; a um dos cantos, n'uma cova que o uso cavára, dormia todo
o dia um gato; e um dos lados da madeira queimada revelava que fôra
salvo d'um incendio. Sobre o sophá pendia a lithographia do senhor D.
Pedro IV. Entre as duas janellas havia uma commoda alta; e em cima,
entre um Santo Antonio e um cofre feito de buzios, um macaquinho
empalhado, com olhos de vidro, equilibrava-se sobre um galho d'arvore.
Ao entrar via-se logo, junto da janella fronteira á porta, a uma mesa
coberta de oleado, um dorso magro e curvado, e um barretinho de sêda
com uma borla arrebitada. Era o snr. Gouvêa, o escripturario!
O ar abafado tinha um cheiro complexo, indefinido--em que se sentia
a cavalhariça, a graxa e o refogado. Havia sempre gente: grossas
matronas de capote e lenço, face gordalhufa e buço; cocheiros com
o cabello acamado, muito lustroso de oleo, e blusa de riscadinho:
pesados gallegos côr de greda, de passadas retumbantes e fórmas lôrpas:
criadinhas de dentro, amarelladas, de olheiras, sombrinha de cabo
d'osso, e as luvas de pellica com passagens nas pontas dos dedos.
Defronte da sala abria-se um quarto que deitava para o saguão,--por
cuja portinha verde se viam ás vezes desapparecer dorsos respeitaveis
de proprietarios, ou caudas espalhafatosas de vestidos suspeitos.
Em certas occasiões, aos sabbados, juntavam-se cinco, seis pessoas:
velhas fallavam baixo, com gestos mysteriosos: uma altercação mal
abafada roncava no patamar: rapariguitas de repente desatavam a
chorar; e, impassivel, o snr. Gouvêa escrevinhava os seus registos,
arremessando para o lado jactos melancolicos de saliva.
A tia Victoria, no entanto, com a sua touca de renda negra, um vestido
rôxo,--ia, vinha, cochichava, gesticulava, fazia tilintar dinheiro,
tirando a cada momento da algibeira rebuçados de avenca para o catarrho.
A tia Victoria era uma grande utilidade, tornára-se um centro! A
criadagem reles, mesmo a criadagem fina, tinha alli para tudo o
seu _despacho_. Emprestava dinheiro aos desempregados; guardava
as economias dos poupados; fazia escrever pelo snr. Gouvêa as
correspondencias amorosas ou domesticas dos que não tinham ido á
escóla; vendia vestidos em segunda mão; alugava casacas; aconselhava
collocações, recebia confidencias, dirigia intrigas, entendia de
partos. Nenhum criado era inculcado por ella; mas, arranjados ou
despedidos, nunca deixavam de subir, descer as escadas da tia Victoria.
Tinha além d'isso muitas relações, infinitas condescendencias:
celibatarios maduros iam entender-se com ella, para o confortosinho
d'uma sopeira gordita e nova: era ella quem inculcava as serventes ás
mulheres policiadas; sabia de certos agiotas discretos. E dizia-se: a
tia Victoria tem mais manhas que cabellos!
Mas, ultimamente, apesar dos seus «afazeres», apenas Juliana
entrava--levava-a para o quarto nas trazeiras, fechava a porta, e
«havia para meia hora»!
E Juliana sahia sempre vermelha, os olhos accesos, feliz! Voltava
depressa para casa; e mal entrava:
--A senhora ainda não voltou, snr.^a Joanna?
--Ainda não.
--Está na Encarnação. Coitada! não tem má cruz, ir aturar a velha!
E depois naturalmente vai dar o seu passeio! Faz ella muito bem!
Espairecer!
Joanna era de certo espessa e obtusa; além d'isso a paixão animal pelo
rapazola emparvecia-a. Todavia, percebera que a snr.^a Juliana andava
«muito derretida pela senhora»: disse-lh'o mesmo um dia:
--Vossemecê agora, snr.^a Juliana, parece mais na bola da senhora!
--Na bola?
--Sim, quero dizer, mais aquella, mais...
--Mais apegada á senhora?
--Mais apegada.
--Sempre o estive. Mas então! ás vezes a gente tem os seus repentes...
Que olhe, snr.^a Joanna, não se acha melhor que aqui. Senhora de muito
bom genio, nada de exquisitices, nenhumas prisões... Ai, é dar louvores
ao céo de estarmos n'este descanço.
--E é!
A casa com effeito tinha um aspecto jovial de felicidade tranquilla:
Luiza sahia todos os dias e achava tudo bom; nunca se impacientava;
a sua antipathia por Juliana parecia dissipada, considerava-a uma
pobre de Christo! Juliana tomava os seus caldinhos, dava os seus
passeios, ruminava. Joanna, muito livre, muito só em casa, regalava-se
com o carpinteiro. Não vinham visitas. D. Felicidade, na Encarnação,
inundava-se d'arnica. Sebastião fôra para Almada vigiar as obras. O
Conselheiro partira para Cintra, «dar umas ferias ao espirito, tinha
elle dito a Luiza, e deliciar-se nas maravilhas d'aquelle Eden». O snr.
Julião, «o doutor», como dizia a Joanna, trabalhava a sua these. As
horas eram muito regulares, havia sempre um silencio pacato. Juliana,
um dia, na cozinha, impressionada por aquelle recolhimento satisfeito
de toda a casa, exclamou para Joanna:
--Não se póde estar melhor! A barca vai n'um mar de rosas!
E acrescentou, com uma risadinha:
--E eu ao leme!