D. Felicidade tirára o chapéo, acommodára-se na _causeuse_.

--Tu desculpas, hein?--fez Luiza.

--Anda, filha, anda! Que é?

--Perdi uma conta--respondeu.

Foi ao guarda-vestidos, achou logo o bilhete na algibeira... Aquillo

serenou-a. A carta tinha ido para o lixo de certo. Mas que imprudencia!

--Bem, acabou-se!--disse, sentando-se resignada.

E D. Felicidade immediatamente, baixando a voz muito confidencialmente:

--Ora eu vinha-te fallar n'uma cousa. Mas vê lá! Olha que é segredo.

Luiza ficou logo sobresaltada.

--Tu sabes--continuou D. Felicidade, devagar, com pausas--que a minha

criada, a Josepha, está para casar com o gallego... O homem é de ao pé

de Tuy, e diz que na terra d'elle ha uma mulher que tem uma virtude

para fazer casamentos que é uma cousa milagrosa... Diz que é o mais que

ha... Em deitando a sorte a um homem,--o homem entra-lhe uma tal paixão

que se arranja logo o casamento, e é a maior felicidade.

Luiza tranquillisada, sorriu.

--Escuta--acudiu D. Felicidade--não te ponhas já com as tuas cousas...

No seu tom grave havia um respeito supersticioso.

--Diz que tem feito milagres. Homens que tinham desamparado raparigas,

outros que não faziam caso d'ellas, maridos que tinham amigas, emfim

toda a sorte de ingratidão... Em a mulher deitando o encanto, os homens

começam a esmorecer, a arrepender-se, a apaixonar-se, e estão pelo

beiço... A rapariga contou-me isto. Eu lembrei-me logo...

--De deitar uma sorte ao Conselheiro!--exclamou Luiza.

--Que te parece?

Luiza deu uma risada sonora. Mas D. Felicidade quasi se escandalisou.

Contou outros casos: um fidalgo que deshonrára uma lavadeira; um

homem que abandonou a mulher e os filhos, fugira com uma _bebeda_...

Em todos a _sorte_ operára d'um modo fulminante, produzindo um amor

subito e fogoso pela pessoa desprezada. Appareciam logo rendidos, se

estavam perto; se estavam longe, voltavam, avidos, a pé, a cavallo,

na mala-posta, apressando-se, ardendo... E entregavam-se, mansos e

humildes como escravos acorrentados...

--Mas o gallego--continuava ella muito excitada--diz que para ir á

terra, fallar á mulher, levar o retrato do Conselheiro, é necessario o

retrato d'elle, o meu, é necessario o meu, ir fallar, voltar--quer sete

moedas!...

--Oh D. Felicidade!--fez Luiza reprehensivamente.

--Não me digas, não venhas com as tuas! Olha que eu sei de casos...

E erguendo-se:

--Mas são sete moedas! Sete moedas!--exclamou, arregalando os olhos.

Juliana appareceu á porta, e muito baixinho, com um sorriso:

--A senhora faz favor?

Chamou-a para o corredor, em segredo:

--Esta carta. Que vem do hótel.

Luiza fez-se escarlate.

--Credo, mulher! não é necessario fazer mysterios!

Mas não entrou no quarto, abriu-a logo no corredor; era a lapis,

escripta á pressa:

«Meu amor--dizia Bazilio--por um feliz acaso descobri o que

precisavamos, um ninho discreto para nos vêrmos...» E indicava a rua, o

numero, os signaes, o caminho mais perto. «... Quando vens, meu amor?

Vem ámanhã. Baptisei a casa com o nome de _Paraiso_: para mim, minha

adorada, é com effeito o paraiso. Eu espero-te lá desde o meio dia:

logo que te aviste, desço.»

Aquella precipitação amorosa em arranjar o _ninho_--provando uma paixão

impaciente, toda occupada d'ella--produziu-lhe uma dilatação dôce

do orgulho; ao mesmo tempo que aquelle _Paraiso_ secreto, como n'um

romance, lhe dava a esperança de felicidades excepcionaes; e todas as

suas inquietações, os sustos da carta perdida se dissiparam de repente

sob uma sensação calida, como flocos de nevoa sob o sol que se levanta.

Voltou ao quarto, com o olhar risonho.

--Que te parece, hein?--perguntou logo D. Felicidade, a quem a sua idéa

occupava tyrannicamente.

--O que?

--Achas que mande o homem a Tuy?

Luiza encolheu os hombros; veio-lhe um tedio de taes enredos de

bruxaria, misturados a amores caturras. Na vaidade da sua intriga

romantica achava repugnante aquelle sentimentalismo senil.

--Tolices!--disse com muito desdem.

--Oh filha! não me digas, não me digas!--acudiu desolada D. Felicidade.

--Bem, então manda, manda!--fez Luiza, já impaciente.

--Mas são sete moedas!--exclamou D. Felicidade, quasi chorosa.

Luiza poz-se a rir.

--Por um marido? Acho barato...

--E se a sorte falha?

--Então é caro!

D. Felicidade deu um grande _ai!_ Estava muito infeliz, n'aquella

hesitação entre os impulsos da concupiscencia e as prudencias da

economia. Luiza teve pena d'ella, e, tirando um vestido do guarda-roupa:

--Deixa lá, filha! Não hão-de ser necessarias bruxarias!...

O Primo Bazilio: Episodio Domestico · 第 25 / 48 题