Era preciso fazer justiça: correu sangue.[5]

Dado porém que na presidencia da republica franceza estivesse a essa

hora não o dictador da palavra, mas o dictador da espada, um intrepido

militar costumado a oppôr a força á força, lembrado de haver pelejado em

Africa no assalto de Constantina, de haver tomado em Sebastopol as

fortificações de Malakoff, e de ganhar na Italia a victoria de Magenta,

esse militar, dizemos, impellido pela sua destemida coragem, haveria

atulhado de francezes os carceres e os cemiterios para salvar a

patria que a sua espada tão gloriosamente por mais d'uma vez nobilitara.

Dictadura da palavra!

Dictadura da palavra foi o governo de Thiers.

Luctas, se as houve, foram parlamentares unicamente, e a assemblêa de

Versalhes o campo de batalha.

Assim requeria ser tratado um enfermo illustre, que tinha ainda nos

labios um timido sorriso de esperança.

E esse enfermo era a França, o paiz das tradições gloriosas, e a

medicina foi a palavra, a discussão, o parlamento.

É impossivel rehabilitar-se um paiz com maior dignidade.

Á ruina da guerra com o extrangeiro succede um governo republicano

d'ordem, que, logo aos primeiros passos, tem de supplantar a Communa

armada em ambas as mãos com o ferro de Caim e o facho d'Omar.

O inimigo da familia depois do inimigo da França!

Ameaçado o lar depois de retalhada a patria!

Era preciso salvar o berço em que fluctuavam os Moysés do futuro, e o

cemiterio onde dormia toda a immensa familia de Clovis.

Isto conseguiu Thiers, e mais ainda.

Reorganisou o exercito.

Satisfez a imperiosa avidez do erario allemão deixando-o cogulado do

muito oiro da contribuição de guerra que pesa ainda menos do que o

sangue das victimas de Metz, Borny, Mars-la-Tour, Gravelotte e Sedan.

Levantou dois emprestimos que provam que o credito da França bastaria a

encher todos os thesoiros da Allemanha.

E reergueu os edificios derrubados pelo inimigo ou pela Communa e, o que

é mais, reergueu a patria, sustentando um difficilimo equilibrio

politico nas frequentes e perigosas oscillações d'um governo provisorio.

Isto fez Thiers: isto fez a dictadura da palavra.

Vejamos agora como se pagou ao velho Noé que depôz, sã e salva, nas

faldas do Ararat, a nau desconjunctada pelo imperio francez.

A eleição de Buffet para presidente da assemblêa franceza, por uma

maioria de 70 votos, contra Martel, candidato do governo, recomposto nas

fileiras do centro esquerdo, era um mau prenuncio de imminente

tempestade parlamentar.

E, de feito, a tempestade rebentou.

Na sessão do dia 19 de maio deu-se o signal de rebate, que não póde ter

outro nome a apresentação da interpellação firmada por quasi todos os

membros do centro direito e da direita.

Venha o documento. Precisamos de vêr claramente como Thiers, o dictador

da palavra, succumbiu dignamente ás unicas armas cujo combate

aceitava,--a palavra.

«Os abaixo assignados, convencidos de que a gravidade da situação exige

á frente dos negocios um gabinete cuja firmeza tranquilise os espiritos

em todo o paiz, pedem para interpellar o ministerio a respeito das

ultimas modificações que acabam de fazer-se n'elle, ácerca da

necessidade de que prevaleça no governo uma politica resolutamente

conservadora, e propõem que se destine a proxima sexta feira para se

realisar a interpellação.»

O governo, pela bocca do ministro Dufaure, pediu um praso de vinte e

quatro horas para se entender com o presidente da republica.

Era esse o dia em que deviam ser apresentados os projectos da lei

constitutiva dos poderes publicos.

A esquerda da assemblêa pediu que fossem lidos.

A direita oppôz-se violentamente.

Era a primeira refrega, depois do signal de combate.

Estava patente a impossibilidade d'acordo entre o presidente da

republica e a direita, unida ao centro direito da assemblêa.

A politica de partido levantava-se para combater a politica nacional;

começava a referver a escumalha da paixão nas aguas que deveram

anilar-se na doçura d'uma discussão serena.

A direita foi intransigente, violenta, aggressiva.

Thiers, o dictador da palavra, cujos actos e discursos procuraram sempre

alliar todas as vontades por meio d'um espirito liberal e conservador,

prudentemente sustentado em todas as luctas, quiz ainda responder á

direita com o seu verbo fluente, sereno e limpido:

«Não solicitei o poder, offereceram-m'o e exerci-o no meio de

muitos desgostos e difficuldades: as vossas censuras não as dirijaes aos

leaes ministros aqui presentes: dirigi-as a mim, que para mim as tomarei.

O momento é solemne; imperiosas as circumstancias: vós ides decidir os

destinos do paiz.»

Mas era preciso dizer a verdade toda:

«Entre os republicanos ha alguns que querem ir mais longe e que instigam

os outros a seguil-os: são os que querem a republica para os republicanos.

N'esta situação, precisa-se de um governo inexoravel para com a

desordem, e que, depois de assegurar a tranquilidade, inicie uma

politica de pacificação; tal é a nossa politica.»

Todavia a direita, como dizia a interpellação, queria uma politica

_resolutamente conservadora_, e Thiers desceu da cadeira da presidencia,

certamente deslembrado das ostentações do poder, se bem que naturalmente

desalentado como todos os grandes obreiros que são chamados a receber a

féria da ingratidão...

Finalmente, Mac-Mahon substituiu Thiers.

A historia registrou o passado, e a espectativa europea nada alcança

pelas trevas do futuro a dentro.

Irá inaugurar-se uma dictadura verdadeiramente militar?

São tudo perguntas.

Governará a direita?

Restaurar-se-ha a monarchia?

Continuará a situação provisoria?

Não se sabe.

Todavia, já vol-o disse, alguem profundamente sabido em coisas dos

homens e da politica, sentenciou: Acabou a dictadura da palavra; começa

a dictadura da espada.

Tambem sabeis que Thiers é o author da _Historia do consulado e do

imperio_, e da _Historia da revolução franceza_, e Mac-Mahon o vencedor

de Constantina, de Malakoff e de Magenta.

Em todo o caso a França é governada por uma espada.

Ora uma espada, depois d'uma guerra fatal, e quando se sonha em outra

guerra diversamente fatal, a _revanche_, lembra o sangue que correu e o

sangue que póde correr...

A espada vence, e a palavra convence.

E a França precisava convencer-se de que deve, primeiro que tudo, coroar

a trabalhosa obra da sua rehabilitação.

* * * * *

Entre o caffé e o cognac · 第 60 / 64 题