Mac-Mahon veio substituir Thiers na presidencia da republica franceza.
Alguem disse: Acabou a dictadura da palavra; começa a dictadura da espada.
E porque?
Porque Mac-Mahon é um general francez, e Thiers é um estadista e um
historiador.
Porque um deu os primeiros passos da vida na Escola militar de
Saint-Cyr, e o outro na Academia d'Aix.
Porque um saiu da escola para o campo de batalha, e o outro saiu da
Academia para a lucta politica.
Porque um começou a militar no cerco d'Anvers ás ordens do general
Achard, e o outro estudou o plano das primeiras campanhas no gabinete do
velho Talleyrand.
Dictadura da palavra e dictadura da espada!
Vejamos.
O estadista e o historiador foi chamado a governar a nova republica
franceza depois da sangrenta guerra franco-allemã.
É sempre difficil dirigir uma creança, mórmente uma creança, cujo berço
fluctua sobre sangue nas ruinas d'um paiz inteiro.
O sangue era francez: as ruinas eram as da França.
O vencedor era a Allemanha.
Pela eterna rivalidade que reina entre as duas nações, a França
julgava-se duas vezes vencida por succumbir ás mãos da Allemanha.
Thiers foi o medico chamado á cabeceira da França no momento em que as
feridas do corpo nacional sangravam dolorosamente sobre as ultimas
purpuras encontradas nas Tulherias.
Comprehende-se o que seria governar assim.
Vêde bem que exforço titanico não requer subir ao Vesuvio, quando elle
muge em convulsões precursoras d'erupção, debruçar-se á cratera,
despreoccupado da escuridão sinistra que fecha a montanha, escutar o
surdo ruido das entranhas de pedra agitadas pelo fogo, sentir affluir ao
enorme local d'aquella pyra enorme o turbilhão vertiginoso das lavas, e
suster com um dedo a massa candente que irrompe de dentro, e reprimir
com uma palavra a torrente impetuosa d'um niagára de chammas.
Assim estava a França: isto fez Thiers.
Foi elle, o dictador da palavra, que provou ao mundo que para os
cadaveres das nações como para os cadaveres dos homens tinha a physica
descoberto o galvanismo.
Foi elle que estendeu o seu braço obstando a que a plebe desenfreada
sepultasse no grande tumulo das nações que foram o cadaver da França,
amortalhado nos fragamentos das suas esphaceladas bandeiras.
Apagados os fogos sinistros da batalha, ergueram-se vorazes os fogos da
Communa.
Depois da derrota,--o incendio; depois da guerra extrangeira, a guerra
civil.
Era preciso combater a França para salvar a França, porque o peior
inimigo da França era a França.
A derrota tinha alastrado de cadaveres o chão.
Eram as cinzas dos heroes, que se bateram com o eterno denodo francez.
Cumpria veneral-as no mais sagrado culto devido aos que perecem pela
patria.
Mas o facho da Communa tentava queimar em Paris os corpos dos heroes nas
fogueiras que no Industão espalham no ar as cinzas das viuvas brahmines.
Era uma profanação immensa.
Cumpria respeitar a desgraça da patria, salvar ao menos a quilha da nau
desarvorada, que desde tempos immemoriaes estava costumada a despejar as
suas hostes conquistadoras nas praias da Europa inteira.
Pois bem, Thiers estava ao leme, e queria morrer abraçado á ossada do
seu navio, quando desesperasse de salval-o.
N'estes momentos de suprema agonia todos os olhos e todas as esperanças
estão concentrados no capitão.
Se elle desanima, desanima a equipagem.
E cada vez mais referviam em derredor as ondas populares d'aquelle
immenso mar de fogo que dava ás aguas do Sena uma ardentia sinistra.
Thiers salvou a França, suffocando a Communa, e fazendo cahir o braço
fratricida armado para a guerra civil.
Isto ainda o não conseguiu a Hespanha, que manda as legiões de Madrid
combater as guerrilhas da Navarra.
A Communa era o incendio, o saque, o fusilamento, e, para vencer todas
estas calamidades, claro está que era preciso oppor-lhes pelo menos
outra: a morte.