Raymundo entra timidamente. DOLORES (_sentindo-lhe os passos_)--Que amor
o d'aquelle homem, que recua deante d'uma velleidade! Vão lá fiar-se no
amor! (RAYMUNDO _avançando_)--Não faça esse conceito de mim, Dolores,
bem sabe se a amo, doidamente, perdidamente, mas é que...
D.--É que talvez nem mesmo agora saiba ser cavalheiro. O meu ourives
acaba de avisar-me de que resolvera acceder á offerta do senhor.
R.--N'esse caso...
D.--Quanto offereceu o senhor?
R.--Quinhentos mil reis.
D.--(_á parte_) É muito! Tenho de dar outros quinhentos. (_Alto_) Não
lhe convém ainda? Acha cara a felicidade que lhe custa quinhentos mil
reis! Que largueza d'animo a sua!
R. (_apaixonado_)--Não, vou já, Dolores. Á noite fulgirá o collar no seu
seio, e as estrellas desmaiarão no céo. Não será mais formosa a huri
quando as exhalações calidas da noite...
D. (_com aborrecimento_)--Quer que lhe faculte o _adresse_ do meu
ourives? É de suppôr que a imaginação lhe anniquille a memoria.
R.--Até já, Dolores. Vou buscar as estrellas para completar o meu céo de
felicidade. (_Sae._).