INDUSTRIA DAS RUAS

Industria das ruas é a arqueta do belfurinheiro, o urso que maneja um

pau, o macaco que toca pratos, o garrano que conta as horas, a harpa, o

realejo, a gaita de foles, o sabonete que tira as nodoas, o cosmorama, a

loteria, o arranca-dentes, o arlequim, o compõe-louça, o _pick-pocket_,

e mais ainda.

Todos os homens são como os passaros: teem seu ninho. Voar voam ás

vezes, e para longe, mas é no seu ninho que descançam, é no seu ninho

que dormem. Os negociantes da rua, que constituem para assim dizer uma

humanidade á parte, são como as borboletas; voar, sempre voar! E assim

como os naturalistas atravessam com um alfinete o corpo das borboletas

para as fixarem n'um cartão, usam alguns escriptores fazer da penna

alfinete para apresentarem á humanidade das salas, em livros e jornaes,

a humanidade das ruas.

Em França os typos populares teem tido por photographos habilissimos

talentos. Bastará citar dois ou tres livros, porque são numerosos os que

tractam do assumpto. Eu conheço o _Ce qu'on voit dans les rues de Paris_

e _Les espectacles populaires et les artistes des rues_ por Victor

Fournel; _Enigmes des rues de Paris_ por Eduardo Fournier e _Célébrités

de la rue_ de Charles Yriarte. Em Portugal apenas um ou outro escriptor

se tem occupado em artigos de jornal--lembro-me agora do snr. Alexandre

Herculano e de Julio Cesar Machado--dos typos populares. E todavia esse

immenso mundo das ruas tem, como todos os mundos, seus mysterios, suas

lagrimas, seus sorrisos, seus romances,--o que lhe dava direito a ter

tambem a sua litteratura. Estude-o porém quem se julgar com forças para

o fazer; eu limitar-me-hei hoje a pregar n'este cartão volante duas ou

tres borboletas, das que se andam espanejando nas ruas, á luz do sol de

Deus, e que podem constituir, quando muito, outras tantas paginas da

epopêa do povo.

O leitor perfeitamente conhece os meus typos, de os vêr todos os dias,

de manhã, em frente da igreja dos Congregados,--um com o seu cosmorama,

o outro com os seus canarios. O do cosmorama estava fazendo fortuna,

mórmente em dias de feira, mas vae senão quando apparece-lhe um rival

temivel na feira de S. Lazaro, com um cosmorama muito mais variado,

porque tem vistas sacras e profanas, e com o que é mais, com um

voseirão capaz de suffocar a voz de todos os expositores de cosmoramas.

Occupemo-nos em primeiro logar do _parvenu_ da feira de S. Lazaro, e do

seu cosmorama mixto. Typo de cigano, olhar e linhas de invencivel

velhacaria;--jaqueta, chapéo de lavrador e calças d'almocreve. A mulher,

um pouco gibosa, e zombeteira como todos os gibosos, está sentada,

emquanto o homem falla, n'uma das travessas do X de pau, que sustenta o

cosmorama,--sempre a rir um risinho... Eu não pude averiguar se ella se

ri da velhacaria do homem, se da credulidade dos espectadores. O certo é

que ri sempre. O homem ronca de pé, com a precipitação d'um jorro

d'agua, dando ao pescoço o geito d'um cysne que levanta a cabeça. Começa

a funcção, e a mulher a rir, alapada entre o cosmorama e o chão, como um

satyro feminino n'uma gruta...

Começa o espectaculo e o discurso:

«Vamos, senhores, cheguem-se para vêr as grandes guerras da França e

Prussia. Isto é baratinho, custa apenas 10 reis, ainda temos dois

vidros. (_Para um espectador_: Dê cá 10 reis.)

«Passamos a vêr a primeira vista. Ahi tendes, senhores, a grande cidade

do Rio de Janeiro, aquella grandiosissima cidade com a sua barra por

onde entram e saem embarcações e grandes naus: olhae, senhores, para o

vosso lado direito, e vereis o grande palacio do imperador de quatro

andares. Olhae ao centro e vereis a grande ilha das Cobras; á

esquerda lá se avista a grande torre da Candelaria onde o imperador vae

á missa.

(O orador enxota com a vergasta um gatuno que tenta espreitar por cima

do hombro d'um espectador.)

«Passamos agora, senhores, a vêr o grande exercito prussiano a bater o

exercito francez: olhae ao centro que lá vereis já 12:000 francezes

prisioneiros; á esquerda lá se vêem sahir os prussianos debaixo d'umas

arvores. Pela direita...

(Um espectador, desorientado, volta subitamente os olhos para a

esquerda, e, reconsiderando, vira logo o pescoço para a direita. O orador:)

«Pela direita lá chegam os carros dos feridos francezes; mais adiante lá

se vê Napoleão III na batalha de Sedan com o seu braço esquerdo no

cachaço do cavallo, dando o seu braço direito á Prussia.

«Lá vem Bismark a toda a brida; lá rebentam as metralhadoras, lá se vê

ao centro a grande explosão de polvora.

«Passamos a vêr agora Paris. Olhae, senhores, á vossa esquerda e lá se

verão as balas ardentes a sahir das boccas dos canhões; mais ao centro

lá se vê o balão a fugir para fóra dos muros da cidade. Triste desgraça

é esta, senhores!

«Agora vae apparecer o inferno. Lá estão as alminhas penando, lá está

uma a levantar a cabeça, e o diabo a mergulhar-lhe a cabeça na lavareda.

«Vereis agora, senhores, o purgatorio: o lugar onde estão as almas

antes de subir para o céo. Lá está o padre santo e seus companheiros, e

todos os bispos e alcebispos.

«Passamos agora, senhores, a vêr a ultima vista, que é o inferno, onde

os maus são castigados pelos crimes que fizeram cá n'este mundo.»

A velhacaria d'este homem attrae, mais talvez que o seu voseirão. Faz

dinheiro, junta muita gente, mas ainda assim o seu rival dos

Congregados, que tambem foi á feira, tem suas sympathias e sua

clientella certa. Representa os seus quarenta annos; traz calças

antigas, casaco velho e _bonnet_ decrepito; chama-se Joaquim de Almeida,

e é natural de Villa Nova de Gaya.

Anda emparceirado com o homem dos canarios, que veste pelo mesmo theor,

e que poderia ter a mesma cara, se não fosse trazer a barba crescida.

Chama-se José Maria Alves, e é natural de Valença. O cosmorama está

sempre collocado a par da gaiola, se bem que os espectaculos poucas

vezes sejam simultaneos, porque o homem dos canarios toma a peito fazer

a policia do recinto emquanto o cosmorama funcciona. Joaquim de Almeida

falla em cima de uma cadeira. Estão as lentes todas occupadas: é uma

enchente. Principia a explicação:

«Vamos a vêr, senhores, a paixão e morte de N. S. Jesus Christo.

«A primeira estação representa Jesus preso deante de Pilatos para ser

sentenciado á morte. Pilatos, não encontrando crime nem delicto em

Jesus, mandou que sentenciasse Caifaz, e elle lavava as mãos do bem

e do mal. Como Jesus caminha de casa de Pilatos para casa de Caifaz. A

sentença que le deu Caifaz é que Jesus caminhasse com toda a brevidade

ao monte Calvario com a cruz ás costas para n'ella ser crucificado. E a

primeira cahida que deu Jesus. Jesus caminhando para o monte Calvario

eram tantos os golpes que le davam os judeus, que Jesus cahiu rendido

por terra com o peso da Cruz. Agora vamos a vêr o encontro que teve

Jesus com sua mãe Maria Santissima pelas ruas da amargura. Sahiu Sua Mãe

Maria Santissima ao encontro para se despedir de seu amado filho, mais

Jesus não se podendo despedir de Sua Divina Mãe le disse: «Mãe, não

choreis, pois por minha morte vos glorificarei». Ahi se vê como fica a

Virgem triste chorando atraz de seu amado filho. Jesus caminha arrastado

pelos algozes sem se poder despedir de Sua Divina Mãe. Agora vamos a vêr

como Jesus foi ajudado do Cyreneu. Jesus caminhando para o monte

Calvario, sem forças e sem alentos, pediu a Simão Cyreneu que le

ajudasse a levar a cruz ao monte Calvario. Tambem se vê ao lado direito

como está Simão Cyreneu ajudando a levantar a cruz ao Senhor, e ao lado

esquerdo se vê como caminha o menino Isaac com a cesta dos pregos e com

a escada deante de Jesus, mostrando o caminho do monte Calvario aonde

Jesus ia a padecer e a ser crucificado. Agora o santo sudario. Jesus

caminhando para o monte Calvario em agonias e suor de morte sahiu Santa

Varonica ao encontro. Ao lado direito lá se vê como está a Santa

Varonica com o lenço branco estendido e o santo sudario do Senhor

escripto.»

Este discurso é expectorado com verdadeira rapidez de manivella,

erguendo o orador o rosto para os espaços, e interrompendo-se, a cada

vista nova, o tempo preciso para acompanhar com os olhos o movimento que

a mão tem de executar para a mutação de scena, operação que se resume em

puxar por um cordão.

«Agora a segunda cahida que deu Jesus caminhando para o monte Calvario.

Eram tantos os golpes que le davam os judeus, que cahiu Jesus segunda

vez por terra com o peso da cruz dizendo: «Os maus cargam meus hombros e

meu corpo cae rendido de afflicções.» Jesus caminhando para o monte

Calvario com o peso da cruz, sahiram as filhas de Jerusalem ao encontro

com palmas e ramos para recebel-o, mas Jesus olhando para ellas le

disse: «Filhas, não choreis sobre a minha morte; chorae sobre vós mesmas

e sobre vossos filhos.» Agora é a terceira e ultima cahida. Jesus

caminhando para o monte Calvario, eram tantos os golpes e a pressa que

le davam os judeus, que Jesus cahiu desfallecido a terceira e ultima vez

por terra. Caifaz vendo que Jesus não tinha forças nem alentos, se

apresenta a cavallo dirigindo á guarda que apromptamente apressasse com

Jesus para vir a ser crucificado.»

Nós paramos aqui;--o orador não pára, vae repetindo o seu discurso até á

ultima scena. Annunciado o fim, os espectadores debandam,

ordinariamente calados, rompendo a multidão com a sobranceria de quem

acaba de vêr o que a muitas é defeso.

O homem dos canarios tem quatro, que se chamam: _Isabel_, _Dolores_,

_Branca Flor_ e _Garibaldi_. Tres femeas e um macho, o que equivale a

dizer que tem menos musica do que podia ter se fossem tres machos e uma

femea.

Como se sabe, por excepção aos costumes do sexo feminino, as femeas dos

canarios cantam menos que o macho. Foi por isso que já um poeta francez

extranhou á natureza o

_... priver les meres des serins

Du caquet si commum aux femmes des humains!_

Todavia elle não quer que lhe dêem musica,--quer que lhe dêem pão. Ha

cinco annos que os possue. Não lhes dará commodidades, porque trabalham

todo o dia, não lhes dará mesmo limpeza, porque, ou velhice ou falta

d'esmero, a plumagem não está setinosa, mas com a sua ração d'agua e

painço não lhes falta. Ainda assim, apesar do seu fadario, são alegres,

teem nos olhos a vivacidade que os caracterisa e a delicadeza e graça de

fórmas propria dos canarios, admiravelmente intelligentes.

Chega uma pessoa que quer tirar sorte. Aproximada da gaiola a caixa dos

bilhetinhos coloridos, o homem dos canarios abre a porta d'arame, e

chama por um:

--Vem cá, _Isabel_!

O canario dá duas voltas na gaiola antes de sahir.

--Tira uma sorte a este cavalheiro.

O canario tira com o bico um papelinho.

--Dá-lhe quatro voltas.

O canario obedece. Esta operação é para que o vaticinio leve toda a

virtude. Ás vezes, como se o papelinho, permittam-me a expressão, não

estivesse ainda bem impregnado de futuro, diz o homem:

--_Izabel_, dá-lhe mais duas voltas. Uma por este cavalheiro...

O canario executa.

--Outra pela sua familia.

Obedece ainda.

Então é que o homem entrega o papelinho, e que a gente vae saber o seu

destino por um vaticinio como este, influenciado pelo signo de _piscis_,

que no papel apparece mudado em _pricis_:

«_Estás tranquillo por o temor de não sahirem bem de tuas emprezas._

Tranquillisa-te; os teus desejos se cumprirão dentro em pouco tempo,

terás muito breve noticias que te darão alegria. A educação de teus

filhos será a tua mais doce occupação. Alguns annos depois do teu

casamento, encontrarás um thesouro e comprarás muitos terrenos, tens de

fazer favores e a paga é a má recompensa; a ideia de cumprires tem de

privar-te d'alguns prazeres; terás uma herança que te proporcionará

um bem estar.»

Depois affastam-se as pessoas que tiraram a sorte, algumas rindo do

disparate, outras pensando--as mais sonhadoras--que hão de achar algum

dia um thesouro, ainda que não seja senão o _Thesouro de... meninos_.

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Entre o caffé e o cognac · 第 27 / 64 题