_Diz-se n'esta redacção quem vende uma cabra, algumas missas, e um
violão._
Ou finalmente este:
_Quem nas immediações de Lamego perdesse um albardão pela romagem dos
Remedios de 1867, etc., etc._
Annuncios ha, porém, que se impõem pela extensão, pela gravidade, pela
elegancia, e até pela pureza do dizer, acrescendo a tudo isto, que já
não é pouco, serem verdadeiros. Haja vista o annuncio da frasqueira dos
snrs. Castro & Leão, publicado n'este jornal e em outros.
Por traz d'aquelle annuncio enxergam-se dois rapazes elegantes, que
principiam a negociar em vinhos tambem elegantemente, e que para
redigirem o annuncio calçaram luvas do Sertori. Escrevem para o publico
como escreveriam para um amigo, por exemplo: «Não se especialisam mais
vinhos como branco do Porto, Carcavellos, Chably, Mansanilha, Madeira e
muitos outros para não tornar a lista mais longa, e por isso talvez
fastidiosa.» Isto é delicado. Annunciantes ha que fatigam o publico,
porque entendem que o publico só afflue quando se vê impertinentemente
rodeado d'annuncios e _reclames_.
Tudo quanto se diz alli, é verdade. Vae a gente em bacchica peregrinação
á frasqueira da rua do Rosario e encontra abundancia, riqueza, bom gosto
e, digamol-o, bom tom. Plantas, crystaes, candelabros e porcelanas. O
_Baron Latour_ sorri amavelmente; o _Chateau d'Yquem_ cumprimenta; o
_Sparkling_ atira-nos um beijo d'espuma iriada e, ó tentação, venha
a taça, Evohé! e em derredor o _Bourgogne_, o _Hochheimer_, o
_Forestier_, o _Venoge_ e o _Medoc_ começam a bailar nas prateleiras e a
entoar ruidosamente um dythirambo.
Quem nos levou lá? Foi o annuncio. O annuncio falla, o annuncio chama, o
annuncio fascina. Rasões tinha o meu querido Julio Machado para dizer:
«Annunciae, annunciae! Sempre d'ahi se tira alguma coisa!» Annunciar é
armar o barco para sahir á pescaria. Convém que seja bonito o batel, e
que vá alegre o pescador, cantando uma barcarola, para que o fundo do
mar o oiça e de terra o vejam.
Eu conheço annunciantes tristes, que fazem annuncios tristes, com
dizeres tristes, e que muitas vezes vendem objectos tristes. O resultado
é que as pessoas de temperamento nervoso, e hoje é o predominante, não
lêem segunda vez o annuncio, nem vão á loja, nem compram os objectos. E
o annunciante, se annuncia tristemente, tristemente vive e tristemente
morre. Um homem póde vender sapatos de defunto com tanto que se saiba
annunciar. Se elle disser:
«Fulano tem grande sortimento de sapatos de defunto para cadaveres de
todas as idades»
diz mal, e a gente não lhe quer passar pela porta com receio de que lhe
cheire a cemiterio. Mas caso annuncie:
«Quem esperar que eu lhe dê o que costumo vender, toda a vida andará
descalço»
diz bem, é mysterioso, tem novidade, e faz espirito com a coisa mais
triste d'este mundo, perdão, com as duas coisas mais tristes, porque o
annunciante não venderá um sapato só.
Quando se não poder ser elegante no annuncio, seja-se ao menos
mysterioso. E fazer como aquelle cavalheiro d'industria que chegou a uma
feira, armou barraca, e pregou á porta este distico:
Quem quizer vêr a ardina,
Deite dez reis e corra a cortina.
_Ardina_ é um provincianismo; tanto vale como ardil. Deitavam-se os dez
reis á caixa, corria-se a cortina, e que se via? Um burro velho preso á
mangedoura pela cauda. Era o ardil. Ninguem se queixava do annunciante
porque elle tinha prevenido no annuncio. E depois ninguem queria dizer o
que tinha visto para não confessar que fôra enganado. Ia toda a gente
vêr a _ardina_; sahia a rir, e não dizia nada.
Quando acabou a feira, o cavalheiro d'industria tinha os seus vintens. E
a quem os deveu? A elle proprio, que soube ser mysterioso.
Supponhamos que o snr. Costa Braga, fundador da chapelaria a vapor,
fornecedor da casa imperial do Brazil e da casa real de Portugal,
precisava de annunciar os seus excellentes chapéos. Se dissesse
simplesmente que vendia chapéos finos, lustruosos como setim, ninguem
recordaria que o snr. Costa Braga gastara cem contos de reis para montar
a sua fabrica. Se, porém, annunciasse:
«Delicadas estufas de feltro para os pensamentos, redomas de sêda e
cartão para perseverar das intemperies as mais mimosas ideias»
o snr. Costa Braga teria de fechar as suas portas por não ter tempo de
vender a todos os compradores chapéos altos e chapéos baixos,
artisticamente annunciados.
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