A _telha_ é muito antiga.
Nos tempos heroicos vae o escalpello do historiador encontrar conspicuos
_telhudos_ como Orestes, Athamas, e Alcmeon, posto se dissesse
simplesmente que _viviam atormentados pelas Eumenides_. Nos tempos
historicos tornam-se notaveis pela _telha_ Pythagoras, Socrates, Mahomet
e Luthero. Em tempos menos remotos apparecem na historia uns celebrados
_telhudos_ que se chamam Swedenborg, Pascal e Voltaire.
É uma consolação...
Encosta-se a gente com a sua _telha_ a estas cabeças-firmamentos da
historia, que ora tinham relampagos de genio, ora negruras de sandice, e
vae vivendo. Não se falla por ahi na historia a cada passo? Para se
dizer que um sujeito é velho não se lhe chama Mathusalem? Nero para
dizer que é mau? Job para dizer que é paciente? Pois muito bem.
Desculpemo-nos da nossa _telha_ com a historia na mão, e vamos
vivendo com o nosso mal, porque para mim é ponto de fé que, sendo
_telhudos_ os maiores genios, cuja memoria assombra o mundo, não ha por
ahi sujeito que não tenha a sua _telha_. Os que são mais robustamente
organisados sabem que a teem e procuram modifical-a, como se combate uma
enfermidade; os que nasceram peior acabados vão vivendo sem se lembrar
um unico dia de que nasceram com _telha_ e com lombrigas.
A uns e outros desculpa a historia.
Pouco importa conhecer ou não conhecer a _telha_,--o caso é tel-a.
Hyppocrates veio a dizer na sua que a _telha_ estava na cabeça; Lacaze e
Bordeu que estava no diaphragma, e Bichat no coração. Esteja ella onde
estiver; o certo é que está dentro de nós e da historia. Isto mesmo de
querer dizer onde a _telha_ está, já é _telha_. O que estou vendo é que
os sabios da velha antiguidade eram muito mais perspicazes que os sabios
dos tempos modernos.
Nos tempos heroicos, se um sujeito tinha a _telha_ de rinchar de
cavallo, dizia-se logo que entrara n'elle o espirito de Neptuno; se a
_telha_ lhe dava para começar a cantar de passaro, era por alta vontade
de Apollo. Agora a sciencia trata de enxotar a ideia do _espirito ruim_
o apregoa que se o sujeito tem _telha_ é porque nasceu tolo. Isto assim
não vae bem. Em remotissimos tempos pagãos desculpava-se a _telha_ de
pythonissas e sibyllas com influição divina; agora vem a sciencia e diz
que a _telha_ procede de imperfeição do systema nervoso,
chamando-lhe _monomania_. Ser _monomaniaco_ é não poder um homem
andar e proceder por sua conta e risco. Tanto vale como matal-o. É
preciso pois que façamos crusada e nos defendamos com a historia.
Os homens do passado constituem a historia que hoje lêmos, assim como
nós constituiremos a historia de amanhã.
Pois folheemos a chronica do passado e ponhamos a nossa _telha_ ao
abrigo de censuras, escondendo-nos agachados contra o pedestal de
preclaros homens que o mundo festeja, e deixemos assim aberta uma
valvula de segurança para respirar a _telha_ de nossos netos.
Comecemos.
O marquez Arouet de Voltaire...
Marmontel conta que fôra um dia, acompanhado pelo seu amigo Gaulard,
visitar Voltaire. Encontrou-o na cama, recostado em travesseiras, de
barrete de lã na cabeça.
--Encontram-me a morrer, disse com voz debil o philosopho. Venham
receber o meu ultimo suspiro.
Mr. Gaulard commoveu-se, mas Marmontel, que já conhecia a _telha_,
tregeitou a Gaulard para calmal-o.
Voltaire entrou de conversar e de animar-se progressivamente.
--Meu caro Marmontel, disse elle, folgo de vêl-o em occasião em que lhe
posso apresentar um estimavel artista, mr. Ecluse! Como elle canta a
canção de _Remouleur_.
E Voltaire começou a imitar Ecluse cantarolando;
Je ne sais oú la mettre
Ma jeune fillette,
Je ne sais oú la mettre
Car on me la che...
Os hospedes riam estrepitosamente.
--Imito-o mal, bem sei, objectou Voltaire, é preciso ouvil-o a elle, ao
proprio Ecluse. Oh! que voz aquella!
_Telhudo!_
La Fontaine, o meigo educador das creanças, pertence ao rol. Casou com
Maria Hericard, uma formosa e intelligente mulher. Passados tempos,
abalou para Paris esquecido de haver casado. Aconselharam-n'o porém
alguns amigos a reconciliar-se com sua esposa. Partiu com esse intuito
e, procurando madame La Fontaine em Chauteau-Thierry, disseram-lhe que
estava na igreja. Recolheu-se a casa de um amigo, onde comeu e dormiu
durante dois dias,--ao cabo dos quaes regressou a Paris.
--Então, reconcilias-te com tua mulher?
--Não a pude vêr: estava na igreja.
Certo militar convidou La Fontaine para banquete opiparo com o simples
intento de o ouvir discretear á mesa. La Fontaine comeu, bebeu e apenas
disse levantando-se:
--Tenho d'ir á Academia.
--É ainda muito cedo...
--Não importa. Irei por onde fôr mais longe.
_Telhudo!_
D'Alembert...
Elle, o grande geometra, o chefe da seita encyclopedica, chegou a ser um
escravo amoroso de mademoiselle Espinasse.
Sahia todas as manhãs para lhe fazer serviços, a comprar alfinetes ou
ganchos, e, quando o seu rival Mora partiu de França, ia ainda como de
noite esperar o correio á estrada para levar as cartas a mademoiselle
Espinasse.
_Telhudo!_
Saint-Foix, author do _Essais sur Paris_, e varias obras...
Estava uma vez no caffé _Procopio_, a lêr o _Mercurio_. Era á noite.
Entrou um sujeito e pediu capilé. Saint-Foix disse da sua mesa:
--O capilé é uma triste ceia!
O sujeito olhou e ficou-se. Torna Saint-Foix:
--O capilé é uma triste ceia!
O sujeito carregou o sobr'olho. Torna Saint-Foix:
--O capilé é uma triste ceia!
--Isso é commigo, senhor?
--Pois com quem? O capilé é uma triste ceia!
Foi immediatamente reptado, bateu-se no Luxemburgo, e recebeu uma
cutilada. Já em terra, banhado em sangue, apostrophou:
--Isto não prova nada. O capilé é uma triste ceia.
_Telhudo!_
Pugnani, compositor de musica e celebre violinista piamontez...
Estando uma noite tocando violino em meio de numerosa sociedade, parou
subitamente e disse:
--Senhoras e senhores, rezem cinco _Padre-Nossos_ pelo pobre Pugnani.
E ajoelhando começou elle proprio a rezar o _Padre Nosso_.
_Telhudo!_
Sua exc.ª o barão de Dangu...
Tinha a _telha_ de querer ser almirante, e, como houvesse passado no mar
os primeiros annos de sua vida, sabia um avultado numero de termos
nauticos de que diariamente usava. O palacio em que morava tinha a
configuração interior d'um immenso navio. Os criados vestiam de
marinheiro e tractavam-n'o por almirante. O barão fazia _quarto_ no
terraço que chamava _convez_. Pela manhã dizia-lhe um dos criados:
--O mar foi muito esta noite!
Quando elle queria sahir, outro criado berrava pelo porta-voz:
--A chalupa do almirante ao mar!
Isto queria dizer que pozessem as cavallos á carruagem.
Momentos depois, o barão subia ao _convez_, d'onde com o auxilio de
cordas, descia á carruagem, que se abria pelo tecto.
_Telhudo!_
Mr. Berluguer, author de tres enormes volumes--_Les farfadets_. Ora os
_farfadets_ eram demonios que elle dizia vêr pendurados das arvores do
jardim, do espaldar do catre e ás cabriolas sobre a mesa do jantar.
Pensava que a melhor maneira de se vêr livre dos _farfadets_ era
mettel-os em garrafas ou atravessar-lhes o corpo com alfinetes. Tirante
esta notabilissima _pancada_, era um homem alegre e amavel, que sabia
conversar com senhoras. Basta porém lêr os _farfadets_ para conhecer que
era...
_Telhudo!_
O historiador Mezerai, membro da Academia Franceza...
Escrevia á luz da candeia, ainda que fosse meio dia, e pleno estio.
Quando alguem o visitava, acompanhava-o ao corredor, de candeia na mão,
e algumas vezes chegava á porta da rua:
--Olhe lá, não caia, dizia elle.
_Telhudo!_
Sua magestade catholica, Filippe V, rei d'Hespanha...
Este soberano passava na cama seis mezes inteiros, sem cortar o cabello
e as unhas, sem mudar de camisa. Umas vezes queria que o capellão do
paço fosse á camara real dizer missa ás cinco horas da manhã, outras ao
meio dia e outras ás oito horas da noite. No inverno mandava abrir de
par em par as janellas; durante os ardores caniculares dormia com tres
cobertores de papa. Muitas vezes, emquanto dormia, arranhava-se e,
quando acordava, começava a gritar que o haviam mordido os vermes.
Julgava-se então morto, mordia em si, em seus filhos e na rainha.
Perguntavam-lhe o que tinha. Respondia:
--Não tenho nada!
E desatava a cantar.
_Telhudo!_
Sua ex.ª o marquez de Brunoy...
Quando morreu o marquez pae, mandou despejar em todos os tanques do
palacio almudes de tinta d'escrever para que as aguas tomassem lucto; e
cobriu de crepes todas as arvores do parque. Era o sachristão da igreja
de Brunoy. D'uma occasião, em Conflans, pegou no cadaversinho d'uma
criança debaixo do braço, e foi elle proprio sepultal-o. Ahi por 1775
projectava ir de sandalias e esclavina á Terra Santa, fazendo-se
acompanhar por sessenta romeiros. A familia pôde estorvar-lhe o plano e
sua ex.ª o marquez desistiu de ser peregrino para continuar a ser...
_Telhudo!_
Esta é a grande lição da historia.
Quando alguem nos atacar, leitores, facilmente nos poderemos defender
apontando para o enorme epitaphio da historia, que diz:
«Aqui jaz a _telha_ de muitas gerações.»
Jaz e ha de jazer. Culpa é dos ministros portuguezes que fazem reformas
na instrucção e não supprimem o estudo da historia. Mandam-nos estudar
historia; estudemos. Admiremos os _telhudos_ e sejamos tambem _telhudos_
por nossa vez. Lá diz o conhecido verso:
Un sot trouve toujours um plus sot qui l'admire.
É fado. Iremos caminhando de _telha_ em _telha_. O numero dos tolos é
infinito, diz o livro santo, e é assim. Acho prudente o conselho de não
sei quem que disse: quem os não quizer conhecer, não saia de casa e
quebre o espelho...
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