Ha theatros que procuram a gente, em vez de ser a gente que os procura a
elles.
Para ir ao Palacio de Crystal, por exemplo, é preciso ir lá procural-o
ás ribas outr'ora solitarias que se aprumam sobre o Douro. Quando vamos
ao theatro de S. João, sahimos de casa no proposito de ir ao
espectaculo, como quando vamos almoçar á Foz ou jantar á Ponte da Pedra.
É uma caminhada que se faz simplesmente por distracção. Todavia com o
theatro Baquet não acontece o mesmo;--é o theatro que nos procura, é
elle que nos dá na vista, que nos chama, que nos tenta.
Sahimos de casa para comprar um par de luvas, um chapéo, um casaco, umas
botas, uma _badine_, um relogio, um frasco com conserva, uma caixa de
charutos, um oboé, para tomar um banho, para mandar tingir um
collete, para reconhecer um attestado, e até para comprar tortas, por
divertimento, porque eu já conheci um comilão de _tortas_ ás direitas,
que as trazia no bolso, e que de instante a instante se mettia n'um
portal, como quem accende um charuto, para comer uma torta. No theatro
guardava uma provisão de tortas na copa do chapéo, e ia-as comendo de
intervallo a intervallo, fazendo no botiquim unicamente a despeza de um
copo de agua. Mas voltando ao Baquet,--sahimos de casa para comprar
qualquer coisa, e damos comnosco na rua de Santo Antonio. Fazemos a
transacção, paramos á porta do theatro a lêr o cartaz, e vemos a
passeiar no atrio o snr. Antonio Moutinho de Sousa, floreando a sua
_badine_ na posse da mais tranquilla felicidade, de modo a dar á gente
tentações de ser empregado no theatro para vêr se tambem engorda.
Entra-se ao portal. Depois de entrar, é vergonhoso retroceder. N'este
momento chega um actor cantarolando, e emquanto o bilheteiro faz o troco
entra uma paviola com um sophá de velludilho encarnado e quatro cadeiras
d'espaldares doirados. Por Deus! como aquelle actor ha-de cantar bem á
noite, se até pela rua se anda ensaiando! como as cadeiras hão-de
relampejar reflexos deslumbrantes á luz da rampa! Sae a gente e passa
pelos cartazes com o reservado orgulho de quem sabe mais do que lhe
dizem. O cartaz annuncia simplesmente o espectaculo, mas o comprador do
bilhete sabe o que não diz o cartaz,--que entram no drama cadeiras com
espaldares doirados.
Á noite enxameia á porta do theatro o bando dos agiotas.
--Quer geral?
--Quer cadeira?
E a gente rompe por entre elles com a sobranceira indifferença de quem
tem desde pela manhã, no bolso do collete, o divertimento que elles nos
offerecem, esbofando-se.
No theatro Baquet ha sussurro nos corredores.
No theatro lyrico entram as senhoras, cobertas d'arminhos, friamente
silenciosas, e assomam aos camarotes com a estudada compostura de quem
vae ser retratado.
Muda o caso no Baquet; as senhoras charlam pelos corredores, e os homens
descem rapidamente as escadas, cumprimentando e saltando.
Bem! É um theatro popular, onde os espectadores fallam alternadamente
com os actores, e onde a gente póde espirrar á vontade sem que lhe digam
do lado--_sciu_!
Os frequentadores habituaes do theatro Baquet--os das platéas,
entenda-se--dividem-se, a meu vêr, em trez classes distinctas:
espectadores fluctuantes, espectadores fixos, e espectadores moderados.
Os espectadores fluctuantes são os que occupam as primeiras filas da
superior, e os logares das coxias na geral. Alguns,--especialmente os da
superior,--trazem camelia ao peito e luva côr de canario. Mal desce o
panno, saiem para o botiquim, para os camarins, e para os
corredores. Que teem elles que fazer em todos os intervallos? Que vão
dizer? Nada. Saiem porque são fluctuantes. Entram á plateia quando
começa a symphonia. Encostam-se á varanda da orchestra, com requebrada
negligencia, olhando uns para os camarotes atravez do binoculo e outros
cantarolando se estão em scena os _Apostolos do Mal_:
As moças da nossa aldeia
D'aldeia de S. Luiz,
Fallam sempre de maridos
E n'um enlace feliz;
ou se se representam as _Mulheres de marmore_:
Amas tu. Marco gentil,
Os salões cheios de flores,
Com uma alegria infantil
As danças, risos, amores?
Espectadores fixos são uns sujeitos pesados, que não se mexem na
cadeira, e que conversam nos intervallos com os visinhos da direita e
com os visinhos da esquerda, incommodando-se com os espectadores
fluctuantes que os obrigam a levantarem-se ao sahir e ao entrar.
Espectadores moderados são, a meu vêr, os que saiem em dois intervallos,
quando a peça tem cinco actos, e os que só incommodam o porteiro no fim
do drama se depois do drama vae comedia. São methodicos. Da ultima vez
que saiem não é por variedade mas unicamente por methodo. Vão buscar o
guarda-chuva ou a bengala para evitarem os apertos da confusão no
fim do espectaculo.
Passemos ás galerias. A galeria é um mundo dentro d'um theatro. De
hemispherio a hemispherio medeia o oceano-platéa. As ondulações, as
correntes, e as tempestades estão na platéa, mas nas galerias ha a
variedade do atlas:--alli é que estão as castas, os systemas, as luctas,
a verdadeira liberdade do homem e a verdadeira emancipação da mulher.
Pouca gente leva uma creança para um camarote, mas o povo leva os seus
filhos para a galeria. É que reside alli a soberania popular. Os mil
episodios, que por via de regra accidentam a vida das nações,
reproduzem-se nas galerias.
Ha em todos os espectaculos do Baquet--digam se não é verdade--uma
creança que chora: um visinho da esquerda que se oppõe á expansão vocal
da creança, e um visinho da direita que proclama alto e bom som a
liberdade da larynge.
Estas luctas são eterno apanagio do povo.
Ha sempre um velho, ou bonacheirão, rosado, inxundioso, que diz
graçolas, e é o divertimento dos visinhos durante os intervallos, ou um
velho zarolho, de cabello em ss e chapéo quinhentista, silencioso, que
se não levanta toda a noite, e que faz a critica do drama e da platéa
pela unica janella que a Providencia lhe deixou aberta para vêr a
humanidade.
O velho gordo, se vê que uma _lorette_ põe a cabeça fóra da galeria,
para ser vista, acode logo a dizer:
--Estenda a cabeça, estenda, que lhe caiem os pingos das vélas!
O velho sêco olha com o seu luzio para a _toilette_, e volta logo a cara
para o outro lado, porque de si para si fez austeramente a seguinte
reflexão:
--Bem te entendo!
Ha sempre nas galerias um _cicerone_. É ordinariamente um cocheiro, de
jaqueta e chapéo redondo; explica todas as situações da peça ainda que
seja nova.
--Ella agora vae pegar n'aquella flôr!
Ás vezes, mórmente se o drama é novo, o cocheiro engana-se, e a actriz
em vez de pegar na flôr bebe um copo d'agua.
O _cicerone_ não se acobarda. Continua a explicar;--explica tudo.
Isto facilmente se comprehende. O cocheiro precisa de presumir-se sabio.
Pergunta-se-lhe:
--Sabes onde mora F.?
--Sei, meu amo.
Não sabe. Vai andando á espera que lhe batam na janella da carruagem.
--Pára; é aqui.
--É aqui; eu bem sabia.
O cocheiro precisa realmente de dizer que sabe.
Vamos agora ao botiquim. O botiquim do _Baquet_ offerece curioso estudo.
É preciso ser-se philosopho para se exercer o logar de botiquineiro
alli. De contrario, ao cabo do primeiro intervallo, o botiquineiro
estaria doido com toda a certeza. O snr. Magalhães, botiquineiro, é
pois um philosopho.
--Uma sangria!
--Gelatina!
--Uma limonada!
--Uma orchata.
--Um grog!
N'uma palavra, é nem mais nem menos que todos os espectadores
fluctuantes a dizerem ao snr. Magalhães:
--Retalhe n'um momento o seu botiquim e dê a cada um de nós um fragmento.
Qualquer homem menos philosopho responderia:
--Ó senhores! não os posso servir a todos ao mesmo tempo! Sem este
senhor beber a limonada, não dou ao senhor o grog.
Isto era o mesmo que perder a freguezia.
O snr. Magalhães descubriu um optimo systema para viver com todos. Como
seja grande a concorrencia, alguns espectadores, em rasão da sua mesma
natureza fluctuante, já estão no corredor no momento em que deviam
pagar. O snr. Magalhães bem percebe que é logrado, mas não se afflige.
Tem a paciencia de esperar para o dia seguinte. D'esta maneira tudo vae
bem.
Conta-se de Mazarino dizer: «Cantam! Deixal-os cantar; elles o pagarão.»
Toda a philosophia do snr. Magalhães tem por eixo esta anecdota de
Mazarino: «Escapam-se! Elles o pagarão.»
Saiamos do botiquim para fallarmos ainda d'uma classe supplementar de
frequentadores, que já iam esquecendo. São os espectadores-meteoros. Não
compram bilhete pela simples rasão de não terem tempo de o comprar.
Entram á platéa e dizem ao porteiro:
--Eu saio já.
Está o panno em cima. (Elles entram sempre quando o panno está em cima).
Encostam-se á varanda da orchestra. Passam em revista os camarotes,
medem a plateia com um só olhar, e saem. Vae a gente a procural-os, e já
não os vê. São meteoros; desappareceram. Quando a gente os procura, já
estão em outro theatro. Tambem por sua vez são philosophos; toda a
philosophia d'elles está no adverbio _já_.
--Eu saio _já_.
E vêem tudo.
Ora eu, se fosse actor e fizesse beneficio, havia de perguntar ao porteiro:
--Você quantos _jás_ conhece?
A esses é que eu passaria bilhetes para vêr o que respondiam.
Agora me lembro! Salvavam-se ainda com o mesmo adverbio:
--_Já_ tenho.
Depois de conhecida a nau e a tripulação, justo é fallar do piloto, que
vai tranquillamente encostado á cana do leme, sereno em meio da azafama
geral, saboreando-se nos mil accidentes de bordo, como homem que
morreria nostalgico se porfiasse a sorte em arrancal-o ao mar.
O Palinuro do _Baquet_ é o snr. Antonio Moutinho de Sousa, actual
empresario.
Nasceu para o theatro como o piloto nasceu para as vagas.
É alli que elle vive feliz.
Derivaram os primeiros annos de sua vida na eschola e na ourivesaria de
seu pae, mas chegado a idade em que no espirito começam a desabrochar as
tendencias, boas ou más, ao sabor das quaes havemos de fazer a
peregrinação terrena, o snr. Moutinho, contados 24 annos, embarcou para
o Rio de Janeiro, e foi escripturar-se no theatro do Gymnasio.
Os jornaes brasileiros de 1858 festivamente commemoram a brilhante
apparição do snr. Moutinho no Gymnasio. Ha um periodo notavel do
_Correio Mercantil_ que diz assim: «O primeiro passo da sua vida
artistica como os dos antigos guerreiros da sua patria nas areas
d'Africa a derrubarem nos campos da lucta os obstaculos que lhes
impediam a victoria, foi grandioso e decisivo! Percorreu em um só dia o
escabroso e longo estadio que conduz o talento ao perystilio do
sanctuario das artes.» O ser actor revelou-lhe que tambem podia ser
litterato,--dramatisou, folhetinisou e versejou agradavelmente, mas
todos os lances solemnes da sua vida ao theatro os deveu.
Casou em primeiras nupcias com a actriz D. Ludovina Devecchy, e em
segundas com a actriz D. Amelia Simões.
Parece que todo o seu fito foi escolher esposa que comprehendesse as
tradições gloriosas do theatro e houvesse sacrificado no altar do bello.
Se o snr. Moutinho tivesse casado com certa dama que uma vez dissera ter
ouvido _uma peça em cinco dramas_, o snr. Moutinho requereria
immediatamente divorcio.
Como empresario tem o seu camarim. Podia ter simplesmente um
escriptorio, mas o snr. Moutinho quer ter camarim para se enganar a si
proprio. Passa as noites d'espectaculo a tomar café. É um velho habito
theatral. Quer excitar os nervos para as luctas da scena, como se
houvesse de representar.
Encontram-se n'elle todos os requisitos d'um empresario, e até, se
attendermos unicamente ao homem, conheceremos que o snr. Moutinho está
entre a gordura do empresario Palha e a gordura do empresario Price.
Todavia affigura-se-nos que o snr. Moutinho poderá fazer um d'aquelles
admiraveis prodigios que só se conseguem no theatro, e vem a
ser--representar um papel de galan tendo proporções de empresario.
É preciso acabar, e sahirmos do Baquet.
Toda a gente sabe como se sae do Baquet: hombro com hombro, braço com
braço. Tanto se aproximam os espectadores á sahida, que é talvez essa a
rasão de se conhecerem todos uns aos outros. Um sujeito conhecemos nós
que ao sahir uma noite do Baquet metteu a mão no bolço do _bournous_
para tirar a charuteira, e encontrou com grande surpresa uma caixa de
prata. Só então reconheceu haver introdusido a mão no bolso do
espectador que vinha a par. Passou angustias para se salvar com
dignidade do equivoco... Ora são justamente estas peripecias, todas as
circumstancias que ahi ficam amontoadas, que dão ao theatro Baquet uma
individualidade caracteristica.
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