II

Ha no _Monge de Cistér_ «um filho das Hespanhas» em que «a côr, o gesto,

o olhar, tudo dizia que ahi dentro havia o espirito dum godo e ao mesmo

tempo que n'essas veias corria o sangue dum arabe»; e as cartas de

Alexandre Herculano a Oliveira Martins, que este ultimo publicou no

_Reporter_, quando se fez a transladação dos restos do historiador para

os Jeronymos, referem-se a «estas sociedades, meio romanas, meio

germanicas na indole, e celto-romanas na raça, que estanceiam ao

occidente.»

Porventura, estão alli designados os elementos ethnicos e tradicionaes

que se associaram na formação do genio de Alexandre Herculano, meio

romano e meio germanico na indole e na raça, com o espirito dum godo na

idealisação da vida e o senso pratico dum romano na concepção da

sociedade, por vezes sonhador e ethereo como um bardo errante das

margens do Rheno, a espaços accordando e rompendo em impetos dum

cavalleiro nado e tisnado nas terras ardentes do islamita, e de

repente recobrando a serenidade e a capacidade de ordenamento pratico

que distinguiu e tornou famoso o conquistador romano. Tinha a sêde de

liberdade, a consciencia da responsabilidade, a paixão da sinceridade, a

febre de apostolado e a tenacidade de combater caracteristicas do sangue

anglo-saxonio, e possuia ao mesmo tempo aquelle espirito de sequencia,

lucidez e justa distribuição, aquelle horror do desequilibrio e do

incerto e indefinido, a percepção penetrante das realidades e a arte de

as sujeitar á regra e á lei que engrandeceram o mundo latino.

A liberdade, essa era para Alexandre Herculano um dogma, e capital.

Sabia que «Deus era Deus e os homens livres». O reconhecimento de Deus

implicava a liberdade; a existencia de um ser superior, ao qual tinhamos

de obedecer, revelado em nossa consciencia e n'ella habitando, exigia a

anniquilação de todo o estorvo á contemplação da sua grandeza e á

insinuação e execução da sua vontade.

Para Alexandre Herculano, como para todos os grandes caracteres do seu

tempo, a liberdade foi o primeiro dos artigos de fé. Sobre todos os

demais prevalecia e a todos os outros synthetisava. Onde menos acatada a

encontraram, ahi se esforçaram por lhe assegurar a soberania. E assim

deram a precedencia á revolução politica sobre quaesquer outras, e

n'essa collocaram os principios de liberdade acima de qualquer outro

principio ou conveniencia.

Seguiu-se ás esperanças d'essa geração um periodo historico adverso. É

certo. Uma pleiade de philosophos e devotos da realidade, analysando os

homens e as sociedades, e entrincheirando-se nos baluartes de uma

sciencia que se reputou inexpugnavel e a ultima e terminante verdade,

sorriu das crenças dos paladinos ingenuos de que era filha. Tomando-as

sinceramente por illusão de romanticos generosos, aliás com a mesma

candura que tinham posto em as amar aquelles de quem os novos prophetas

immediatamente descendiam, apressou-se a desvanecer o erro e deu a mão

ás arremetidas de um despotismo renascido e vestido em trajos

desconhecidos e atraentes, mas herdeiro e fiel representante do

absolutismo antigo e, a seu exemplo, fatal á felicidade dos homens.

A experiencia e mesmo o desenvolvimento da analyse scientifica e suas

conclusões logo trouxeram, porém, o desengano. Pela segunda vez a

supposta illusão de nossos paes se revela a verdade fundamental do

progresso. Contradictou-se a religião da liberdade com a legitimidade da

oppressão, a aspiração individual com a razão d'estado; mas a ideia

imperialista que d'ahi cresceu e teve longos annos de triumpho,

parecendo por momentos absorver e desbaratar em sua gloria rutila de

baionetas, os planos magnificos da ideia liberal, vae por sua vez e em

nossos dias descendo ao accaso. Favoreceram-na a concepção biologica das

sociedades, accentuadamente reaccionaria, que oppôz a força á justiça e

ao direito e nos imbuiu na convicção de que a base de toda a aggremiação

animal era um estado de lucta interior permanente e essa lucta

significava um bem, factor essencial do desenvolvimento da sua

capacidade. A victoria do mais forte e a subordinação do mais fraco

seriam consequencias de leis naturaes indeclinaveis e beneficas, ás

quaes nos cumpria prestar reverencia, auxiliando-lhes a execução em toda

a extensão da vida physica e moral do individuo e da communidade. Os

interesses materiaes, levados já por circunstancias economicas a um

subido grau de concentração e anceiando por se constituirem n'aquelle

estado de tyrannia soberana, a que o capitalismo europeu e sobretudo o

capitalismo norte-americano souberam conduzil-o, aproveitaram habilmente

as instigações crueis de uma sciencia alheia a inspirações moraes; se a

lei da vida organica consistia na victoria dos fortes e na

escravidão dos fracos, as instituições sociaes, para serem salutares,

logicas e efficazes, haviam de respeital-a, e a divisão entre servos e

senhores seria tambem condição natural de boa ordem. E entretanto,

emquanto semelhantes doutrinas se propagavam e captivavam os espiritos

mais puros e os melhores corações, a guerra franco-prussiana e a

formação do imperio formidavel que ella creou e consolidou, antepondo ao

cesarismo desmoralisado, que derrubava, um cesarismo disciplinado,

rigido, e intellectualmente riquissimo de saber, justificava e apregoava

de modo pratico, com esplendor, o principio, então por excellencia

scientifico, da força brutal. Para o effeito da boa administração o

mandavam acatar as boccas dos canhões e os sabres dos guardas do estado,

convencendo por esse meio os menos promptos em lhe descobrir as

virtudes. Homens d'estado e multidões fanaticas, governantes soberbos e

doceis governados, uns por ambição, outros por cegueira, uns na avidez

do mando e outros na esperança de ventura, e todos victimas dos

vendavaes que repetidas vezes vergam a seu bello prazer as sociedades e

as arrastam em delirio, inconscientes e desvairadas, abjuraram os

evangelhos da liberdade que se lhes figurou um culto da debilidade e de

rebellião insensata contra o despotismo da natureza, e, preferindo

o gendarme ao sacerdote, desconfiando da crença para se renderem ás

armas, trocaram a reverencia da justiça e da caridade christã pela

desapiedada glorificação da caserna.

Não cessavam, todavia, os estudiosos na observação e cogitação das leis

intimas da vida; e os ideaes do humanitarismo e da religião desthronados

não tardaram a rehaver um logar de proeminencia. A doutrina da evolução,

que parecera o seu peior inimigo, provou ser o seu apoio mais solido;

por ella deixaram de representar o sentimentalismo absurdo e enfermiço,

de que foram acoimados, para se reduzirem a uma comprehensão exacta de

lei organica das sociedades, producto e derivação do proprio

desenvolvimento evolutivo. Um dos mais notaveis espiritos do mundo

scientifico vinha a concluir o exame da doutrina evolutiva pela

demonstração de que a resistencia e o progresso da especie resultavam,

não da lucta mas da sua atenuação, não da força mas da união e auxilio

mutuo; a livre cooperação substituiria pois a sujeição oppressiva dos

fracos ao capricho e engrandecimento dos fortes, se quizessemos, como

deviamos, respeitar a ordem natural. E, simultaneamente, a miseria dos

trabalhadores, precipitados na escravidão do capitalismo pela

torrente dos interesses materiaes, accelerada e engrossada pela

abundancia de doutrinas que consagravam o imperialismo em toda a sorte

de relações, desde as de amo e creado até ás das nações e estados, o

clamor dos servos tornou-se uma ameaça e uma dôr, para as quaes os

piedosos procuravam balsamos, os timidos e previdentes inventaram

prevenções attenuantes, e os homens d'estado buscavam remedio, vendo

periclitante a estabilidade e a propria vida do corpo social, e

cumprindo-lhes defendel-a.

Apoz o eclipse de algumas decadas, o idealismo liberal resurge,

inscrevendo nos livros da lei o principio da igualdade juridica dos

homens, da igualdade de opportunidade, como modernamente se diz,

corrigindo a phantasia do absolutismo igualitario de outras eras. Nos

corações restaurou-se o culto da liberdade. E n'este renascimento da luz

que um sonho de terrivel barbarie escureceu, a figura de Alexandre

Herculano, protegida pelas sagradas paixões que o animavam, reapparece

no resplendor de uma aureola eterna. Como o poeta de Além-mar[71],

Alexandre Herculano, sentindo a onda de imperalismo que nos seus

derradeiros dias avassalava a Europa, poderia exclamar:--«Triste,

desthronada rainha, oh liberdade! Ainda que contra ti se volte todo o

mundo, hei de eu ser-te fiel!» Na sua adoração da liberdade havia laivos

de fanatismo, o unico talvez que em toda a vida revelou. D'ahi viriam

todos os seus temores em acceitar normas de organisação social que de

toda a parte lhe apregoavam efficazes para salvação de angustias. Na

ordem moral, o socialismo estava justificado. Não o contestava; «não se

lhe afigurava que chamar socialista a quem discute, que impôr um labeu

mais ou menos affrontoso desfizesse um argumento, nem que fosse

demonstração concludente e irresistivel o affirmar que taes ou taes

theorias são más porque são socialistas, e que o socialismo é mau porque

propaga essas theorias. As escolas socialistas, (que nem elle já sabia

quantas eram então), teem doutrinas positivas e critica negativa. As

doutrinas positivas pareciam-lhe longos rosarios de despropositos; a

critica negativa, embora frequentemente exaggerada, era a seu vêr uma

coisa seria. Havia ahi indicações de males profundos e dolorosos no

corpo social, que faziam estremecer as consciencias; que faziam cogitar

tristemente os espiritos liberaes e sinceros»[72]. Mas apavorava-o

sómente o perigo que em cada explosão de socialismo ameaçava a

democracia de se converter gradualmente em uma burocracia ou em uma

oligarchia, perigo que a violencia despotica do espirito de partido e o

odio das classes expropriadas temerosamente asseguravam, inevitavel.

Em ultima analyse, a tendencia politica de Alexandre Herculano, no

encadeamento logico da sua crença espiritual e religiosa, seria o que

actualmente se chama anarchismo, por absurda que a muitos possa parecer

á primeira vista uma tal classificação applicada a um tradicionalista

fervoroso;--anarchismo no bom sentido, no sentido de uma doutrina

philosophica, temperado, ou, digamos melhor, limitado pela visão

historica e sua demonstração da força de organisação inherente a toda a

vida em communidade, mas, sem embargo, suspirando por toda a sorte de

libertação, crendo no resgate da humanidade em Deus e aborrecendo todo o

constrangimento imposto pelas vontades humanas isoladas ou colligadas.

Aquelle socialismo de que mostrou signaes na presidencia da camara

municipal de Belem, não se lhe teria figurado traição ao principio

da liberdade; tornava-o inoffensivo, quebrar-lhe-ia todas as velleidades

de despotismo a descentralisação extrema em que se realisava. E são de

notar os compromissos a que no presente veio a ideia socialista para se

conformar com o principio de liberdade,--as restricções que a si mesmo

vae impondo, o desamor das grandes aggremiações, tão promptas em

degenerar em tyranias, o valor cada vez maior attribuido á communa como

instrumento da distribuição das commodidades elementares da vida. O

socialismo contemporaneo da Inglaterra com a sua caracteristica

insistencia na liberdade da terra e na liberdade do commercio, essa

concepção da sociedade renovada, tão diversa do socialismo continental

facilmente propenso á restauração cesarista, está mostrando até que

ponto a intransigencia do apostolo da liberdade em Alexandre Herculano

era a voz do propheta dos tempos proximos, ainda mesmo quando parecia

combater-lhes o advento.

Essa crença na liberdade que obrigações não importava aos que passavam

no mundo levando-a no peito?!... Conquistar a liberdade era servir a

Deus, facultar aos homens a inteira sujeição aos seus mandados. A

responsabilidade perante Deus, a todo o instante exigida na consciencia,

em que elle se revelava, não podia tornar-se effectiva senão pela

liberdade. Os despotismos da terra figurar-se-lhe-iam uma offensa á

divindade. Urgia derrubal-os onde quer que se acoitassem, sob o manto

dos reis ou sob as vestes do sacerdote, em nome do estado ou em nome da

egreja, nos castellos do feudalismo ou nas officinas dos mestéres, na

altivez dos capitães de guerra ou na vilania cupida dos rebatedores.

A religião determinava uma politica. Mandava desembaraçar o caminho que

conduz a Deus. A predica, o sacrificio e o martyrio, as luctas civis e

as guerras dos homens, todas as armas eram de Deus e Deus reclamava para

sua defeza e triumpho, se pela liberdade, sua filha e serva, combatiam.

Mas a religião determinava sobretudo uma moral, o exame constante da

conducta da actividade humana, em toda a extensão, e a sua conformidade

com a essencia divina, até aos movimentos minimos, até ao mais pequeno

objecto em que da nossa vontade dependesse.

Pessoalmente, emquanto se tratava de dar exemplo, a tarefa não foi

difficil a Alexandre Herculano. Por virtude do seu raro vigor quebrou de

prompto muito estorvo ao proposito de servir em acção os principios que

adorava em espirito. Cedo se libertou, e com firmeza e audacia, das

escravidões vulgares do commum dos homens, e até das de muitos que

se elevam não pouco acima do commum.

Riquezas? Não o tentavam. A simplicidade espartana dos seus habitos

contentava-se com pouco; estava-lhe no animo, e confessava-a, a aversão

a negocios e a aproveitar com boa arte mercantil os bens magnificos da

sua intelligencia[73].

Honrarias? Detestava-as. D. Pedro V levou-lhe a casa a commenda da Torre

e Espada. Recusou-a. E em uma carta publicada no _Jornal do Commercio_

deu as razões do seu procedimento. «Pertenço», dizia, «a uma classe

obscura e modesta, quero morrer como nasci. Ha nisto uma grande ambição

solapada. No meio do immenso consumo que se está fazendo e que se tem

feito, ha trinta annos, de distincções, insignias, uniformes

bordados, de titulos, gráus, tratamentos e rotulos nobiliarios, o homem

do povo, que queira e possa morrer com esta classificação, deve adquirir

em menos de meio seculo uma celebridade extraordinaria... Não sou

commendador da Torre e Espada. O senhor D. Pedro V, que Deus tem

comsigo, procurou-me um dia para pedir-me, dizia elle, um favor. Era o

de acceitar a commenda da Torre e Espada. Recusei; e com a sinceridade,

que elle sempre encontrou em mim, expuz-lhe amplamente os motivos da

minha recusa. Aquelle grande espirito, complexo de extrema doçura, de

alta comprehensão e de profundo sentir, debateu, sem se irritar, as

ponderações, talvez demasiadamente rudes, que lhe fiz. Concluiu por me

dizer que cada um de nós podia proceder n'aquelle assumpto em harmonia

com as proprias convicções. Que elle cumpria o que reputava um dever de

rei, e que fizesse eu o que a consciencia me ditasse. Como os outros

homens, os reis, embora se chamem D. Pedro V, estão sujeitos a apreciar

mal as pessoas e as coisas. Nem eu valia o que elle suppunha, nem a

commenda valia nada. O que valia muito, apezar do seu innocente erro,

era esse moço de vinte e quatro annos, esse filho de João I, D. Duarte

extraviado no seculo XIX, vindo pedir como favor ao filho do povo

que lhe acceitasse uma mercê, porque entendia que o dever a isso o

obrigava».

Não quiz mais á lisonja do mundo do que aos regalos da riqueza e á

ostentação das honrarias. Por não perder uma liberdade de critica sempre

severa com a propria pessoa e com as estranhas, não o atemorisou a fama

de impertinente ou orgulhoso, e desprezou, aborrecendo-o, o titulo de

_excellente pessoa_ «que o mundo costuma dar a quem se acommoda com as

suas opiniões, quer absurdas, quer judiciosas»[74]. Ouvindo,

invariavelmente e exclusivamente, as indicações e o conselho da sua

consciencia, desacatou com frequencia e por completo a opinião publica,

«o mais sublime, o mais respeitavel, o supremo embuste d'este mundo».

A intuição moral não se limitaria, porém, á imposição de regras

adoptadas na vida individual e intima. Fixando leis, conduzia ao

julgamento de quantos as offendessem e á apreciação de toda a

circunstancia em que fosse offendida.

O amor da patria, inspiração de Deus, levou Alexandre Herculano ao

estudo da historia, e da conjuncção do historiador e do poeta e

crente devia resultar, e resultou, um moralista profundo e ardente.

O conhecimento do mundo e do fatalismo das suas leis, o mecanismo

inconsciente e intransgressivel do seu movimento, que bem cedo a

historia lhe revelou, posto em presença da aspiração divina, que mais

cedo ainda se lhe revelou no coração, fatal tambem por inspiração da

consciencia religiosa e por demonstração das civilisações e das raças,

imperativa e absoluta por essencia, obrigava o poeta a cogitar e a

estabelecer as formas de existencia dos homens e das sociedades nas

quaes se conciliassem em virtude, belleza e felicidade os elementos

diversos que a intelligencia e a observação lhe apresentavam.

Isso preferia mesmo á concepção de systemas, que para o fim pouco

adeantavam, capazes de ligar e synthetisar o amontoado de relações e

dependencias oppostas e desconnexas no seu aspecto exterior.

Compadecendo-se mal a nitidez descarnada e fria das systemathisações com

o prisma multiface dos factos concretos e as suas penas, o seu peso na

ventura e na desgraça dos homens, a philosophia cederia a primazia á

regra da vida, porque a instancia intima de crear belleza sob o poder de

visões era evidentemente em Alexandre Herculano superior á sêde de

saber por mero orgulho ou simples curiosidade. A satisfação do

dever podia mais na sua alma do que o deleite de penetrar e vêr e

comprehender, exultando no reconhecimento das suas faculdades de

aprehensão e exame. Ha na philosophia estreme, que em si contem e limita

o seu destino e fim, qualquer cousa de peccaminoso egoismo e

indifferença que o apostolo de uma missão divina não acceita sem

correctivo. Se é philosopho, e não pode deixar de o ser em alto grau

quando a robustez mental lhe descobre o encadeamento das cousas, logo

aproveitará a philosophia, subordinando-a e apeando-a do throno, para

instrumento e maior efficacia da sua missão, sem muito cuidar do mais

que ella encerra ou se esforçar por o definir com clareza, em quanto não

aproveita á fortuna dos homens e á elevação da sua dignidade. Só n'estes

termos convém, e d'ahi resultou, sem duvida, que em Alexandre Herculano

o moralista seguisse de perto o historiador, como este seguiu o poeta,

deixando ambos a grande distancia e em manifesta obscuridade o

philosopho e sua impassibilidade, a cujos dotes e companhia nunca

mostraram grande afêrro, naturalmente porque lhes pareciam debeis na

substancia, de caracter por demais altivo, insensato e vaidoso, e

mesquinhos em beneficios, se os referiamos á desmedida presumpção

com que pretendiam representar a sabedoria das sabedorias.

Foi implacavel. Nada indulgente comsigo, Alexandre Herculano mediu os

outros pela propria craveira, e sem piedade flagellou vicios, erros,

crimes e fraquezas, em todo o logar, tempo e circumstancia, onde quer

que os encontrou. Costumes, instituições, processos politicos, religiões

e crenças, tudo apreciou e julgou com uma severidade indomavel, a que os

impetos illuminados do seu genio e a isenção da sua vida deram uma

auctoridade tremenda.

As intrigas politicas e occupações analogas, «que são o recreio, o

comodo, o alimento, a respiração e a vida do estadista e do

cortezão»[75], em que Alexandre Herculano andou «extraviado», não por

«culpa da vontade mas do entendimento», serviram-lhe para comprehender

toda a abominação de taes manejos e fins, astuciosamente occultos em

verdades graúdas, porque «em cada seculo ha uma verdade graúda que

predomina, e que vae ajudando os espertos a consolarem-se dos dissabores

da vida á custa do animal, alvar por excellencia, chamado cidadão, para

cujo consolo vieram á terra as bruxas, a therapeutica, os fundos

publicos, a ontologia, os duendes, as infusões, a esthetica, as petas e

o palavreado»[76].

Quando emergiu do atoleiro, sentiu-se renascer. As circunstancias

haviam-no «baldeado no charco da vida publica», mas «a Providencia, que

provavelmente não o achou assaz corrompido para fazer d'elle um homem de

estado, deu-lhe uma hora de contricção em que podésse desempegar-se,

escorrer o lodo dos vestidos, lavar o rosto, e voltar ao gremio do mundo

moral»[77].

Não foi debalde, como debalde não foi a sua passagem na côrte e a

approximação das classes nobres, quer consideradas no convivio

immediato, quer observadas nos fastos das eras passadas. Ahi teria visto

e aborrecido «a etiqueta, as minucias de cortezania escolastica, as

vaidades inquietas de todas as supremacias e eminencias politicas,

litterarias, agiotas, artisticas, da impertinente aristocracia burgueza,

mirando-se, escarnecendo-se, detestando-se»... «o egoismo das pequeninas

vanglorias, as pontualidades parvoas e a sensaboria de convencional

contentamento»[78].

Tudo isso e a repulsão do espectaculo de miserias ainda maiores levaria

deante dos olhos quando ia a caminho do seu ermiterio de Val-de-Lobos, a

viver entre a gente rude, cujos thesouros de ingenuidade reconhecera e

adorava. «As fileiras dos antigos pelejadores cujo ardor aliás se achava

enfraquecido pelo cansaço, haviam-nas rareado os annos, e os novos não

tinham braços assaz robustos para o combate. Então chamava-se á tibieza

tolerancia, e aos calculos do egoismo e da pusillaminidade civilisação.

Os velhos interesses e as velhas preoccupações tinham voz e voto,

preponderante ás vezes nas cousas publicas. Os tumultos, as luctas das

facções, as guerras civis, eram ainda possiveis: as revoluções não. Para

isso requeria-se que nas veias dos homens houvesse sangue, no coração

crenças, e na sociedade seiva moral»[79].

Fugido da mentira de requintes de sensualidade e perfidia em que os

senhores do mundo folgavam; buscando uma atmosphera de sinceridade e de

paz, não só pelo anceio de se banhar em summa candura mas tambem,

decerto, pela alta sapiencia de collocar em ambiente adequado o poder de

meditação do seu espirito, affastado assim das distracções e

constrangimentos que sem repouso o irritavam; «envelhecido antes de

tempo pela contensão do espirito em comparar, conjecturar, deduzir»[80]

e sobretudo pelo tremor de uma consciencia inquieta, meticulosa, votada

a uma continua febre de acertar; a affastado pelas illusões de um

momento das occupações litterarias a que se dedicára com intimo affecto

e reconduzido por asperos desenganos ao tranquillo retiro d'onde não

devera talvez ter saido; concebendo como, no desabar do imperio romano,

tantas almas severas e energicas, desesperando do futuro de Roma, iam

buscar os ermos, onde o christianismo nascente lhes indicava um refugio,

e alli, a sós com as suas cogitações, cerravam os ouvidos ao importuno

ruido de uma sociedade gasta e podre que esboroava, não tanto ao impulso

dos barbaros, como pelos effeitos da propria dissolução interior»;

convencido emfim de que «luctar com a Providencia não é esforço, é

loucura»[81]:--uma fadiga mortal lhe reclamava horas de repouso, a

defeza instinctiva do minguado alento de um organismo exausto de

aspirações, contrariedades e desillusões, e rendeu-se-lhe. Reaccendeu

então na alma o vigor amortecido e quebrado em luctas vãs; e deu-nos o

exemplo da nobreza na derrota quem primeiro nos mostrára dignidade e

gloria nos combates.

Combates!... Os que o vulgo apreciou nas obras de Alexandre Herculano e

nos actos publicos da sua vida seriam bem frouxos comparados com os que

no seu peito se travavam para o isentar de cair em falta. Conheceu as

profundezas fataes da fraqueza humana, e do vigor com que procurou e

alcançou remir-se da sua atracção depõe uma existencia inteira de

dignidade.

O trovador prisioneiro, «á vista dos homens, saberia esconder o seu

delirio e morrer com firmeza; mas, na solidão, a saudade de uma

existencia cheia de amor e d'esperanças, a vergonha de supplicio

affrontoso, e o temor da morte lhe não consentiam velar-se deante de si

proprio com a mascara que a vaidade e o orgulho põe na face humana ainda

nas suas mais terriveis situações, para que a vida seja uma continua

farça, da qual o coração é o actor mentiroso desde o berço até ao

sepulcro»[82]. E Alexandre Herculano, tambem trovador e

prisioneiro dos ferros das contingencias e convenções mundanas,

teria soffrido as angustias do seu irmão do romance medieval; mas,

mais corajoso, tirou deante de si mesmo a mascara que a vaidade e o

orgulho põe na face humana, e do mesmo modo, virilmente, descobriu o

rosto perante as multidões atonitas de tão estranha fortaleza,

provocando, sem duvida, a aversão e escarneo da debilidade vulgar, para

a qual estabelecia um confronto accusatorio.

Essa sinceridade, essa facilidade e até sollicitude em patentear em

todos os actos da sua vida os mobis intimos, como para se certificar da

rectidão do proprio procedimento sujeitando-o ao julgamento de

estranhos, indifferentes, amigos e inimigos, constitue um dos mais finos

traços da delicadeza o escrupulo da moral de Alexandre Herculano. A cada

passo se confessa. Voluntariamente, com uma corajosa franqueza, expõe-se

á affronta e á calumnia que da revelação do seu intimo lhe possam

derivar; dava aos homens as contas que de todas as suas acções dava a

Deus, sem temer a injustiça do mundo que tantas vezes lhe ignorou e

menosprezou a inteireza e a candura. O sentimento da responsabilidade,

filho dilecto da liberdade e seu fiel companheiro, obrigava-o a

julgar-se frequentemente com o rigor que o dever lhe impunha na

apreciação dos actos alheios, e até mesmo, não raro, com a

severidade que por indulgencia e amor não tinha com os outros.

As relações de Alexandre Herculano com D. Pedro V e os termos em que

nol-as expõe no prefacio da terceira edição da _Historia de Portugal_,

são testemunho da sinceridade mais perfeita, mais repassada de grandeza

moral, que pode coroar as faculdades portentosas de um talento

peregrino. Nem amesquinha o proprio valor nem o isenta de confronto e

subalternisação ao valor alheio; não cede um palmo do que lhe pertence e

não regateia uma pollegada do que deve a outrem. Reconhece a propria

força, sem jactancia, descobre com uma serena e firme justiça os escudos

da sua fortaleza; e sem pejo, sem córar por se sentir vulneravel e fraco

á semelhança dos communs mortaes, é o primeiro a apontar os golpes com

que um outro mais forte lhe rompia e penetrava a armadura.

Emprehendera o estudo da historia de Portugal para educação do principe.

Pagava ao filho a divida que contraira com o pae; a este devera a

situação isenta de encargos pesados, que lhe permittiu dedicar-se por

completo ao aturado trabalho da compilação da historia. Levára o estudo

quasi até ao fim da primeira epoca da monarchia, quando a parte

publicada suscitou a «animadversão d'aquelles que querem accomodar

a historia ás crenças do vulgo, ás preoccupações nacionaes e aos

interesses que n'ellas se estribam.» Abriram então na imprensa e no

pulpito uma campanha contra o auctor de tão estranhas revelações, e os

seus inimigos encontraram adeptos até nas regiões do poder.

Difficultaram-lhe a edificação da sua obra. Inhibido de proseguir sem

sacrificio de dignidade, abandonou-a.

Reagindo contra essa violencia deploravel, que privava a nação de

conhecimentos fundamentaes para a sua vida e consciencia moral e

politica, «demonstrações incessantes e sempre crescentes dentro e fóra

do paiz»[83], obrigaram os poderes publicos a reconsiderar. Os homens do

poder, «se não respeitam, geralmente fallando, a moral e a justiça,

quando estas tão sómente se affirmam, acatam-nas quando estribadas em

qualquer genero de força e quando, portanto, significam um risco. Por

isso e só por isso, do mesmo modo que por meios indirectos lhe fôra

tirada, a possibilidade de continuar a _Historia de Portugal_ foi emfim

indirectamente restituida» a Alexandre Herculano. Mas era tarde. Na

lucta contra a torpe estupidez que o assaltára, «a ambição litteraria, a

confiança no futuro, a energia e o vigor da alma, o habito dos penosos

estudos e das meditações, a perseverança no trabalho, e, até, a robustez

physica tinham em grande parte desapparecido».

Depois, passado algum tempo, ainda tentou um ultimo esforço para

proseguir no trabalho. Se porém o tentou, ingenuamente confessava que

«não fôra para servir o seu paiz.» Só por uma grande amizade o fazia.

«Emquanto alheio, não ao estudo dos homens e do mundo, mas ás suas

ambições vulgares, consumia os melhores dias da vida em trabalhos a cuja

sinceridade, ao menos, o futuro havia de fazer justiça, um acontecimento

impensado tinha chamado ao throno aquelle para quem, na sua puericia,

fôra destinada a _Historia de Portugal_. Devera-lh'a por mais de um

titulo; mas, annulados, sem culpa sua, os meios de pagar, a obrigação

desapparecia. Fôra, todavia, por elle, e só por elle, que ainda uma vez

tentára o que a razão lhe representava como quasi impossivel.»

«Na procella em que naufragára o seu pobre livro o nome do soberano fôra

murmurado em voz baixa, associado ao dos satellites da reacção,

calumniado, como tinha de o ser depois, com torpeza sem exemplo, em

negocio mais grave. Ouviu esse murmurio: conhecia bem os homens de que

vinha, deu-lhes o asco que pediam e volveu a face. O facto tinha uma

significação e um valor bem sabidos.

«Malquistar o soberano com o cidadão era nobre e grande; mas era

incompleto: completava-se malquistando o cidadão com o soberano.

Infelizmente a tentativa falhou. O vago, o mysterioso, o terrifico teem

attractivos para as almas novas de profundo e energico sentir; para as

intelligencias juvenis e robustas que a ambição da ideia devora e que,

impacientes, forcejam por se precipitar nas vastidões do mundo

moral para lhe devassar os segredos. A alma do rei era d'essas. Buscou-o

e desceu, como diria o mundo, a justificar-se, porque nunca inquiriu se

para chegar do throno ás regiões do dever ou da justiça era preciso

descer ou subir. Movia-o, além d'isso, o instincto proprio da sua edade

e da sua indole. Queria sondar o abysmo de orgulho, de odios

implacaveis, de impiedade, de paixões tempestuosas de que lhe fallavam

com susto. Parece que a lenda exaggerava: o precipicio, o abysmo, eram

de dimensões menos amplas. Verdade é que os precipicios e abysmos

fascinam e atraem: póde tambem ser que fosse isso. Que, porém, se

illudisse ou que acertasse, o rei achára que todas essas negruras do

feroz plebeu se reduziam a uma sinceridade talvez rude, e a sinceridade,

ainda rude, tinha para elle o attractivo do novo, do impensado. Achava

onde retemperar o animo lasso do incessante espectaculo da

condescendencia interessada, do applauso grosseiro que vale o insulto,

da devoção requerente, do regirar e mentir dos que buscam recamar-se de

avellorios e lantejoulas para se inebriarem, para esquecerem que se

arrastam porque são lesos. Entrava apenas na edade de homem e estava já

saciado do serpeiar flexuoso das linhas curvas: attrahia-o por isso

irresistivelmente a dureza da linha perpendicular, recta. Aquella

alma, tão rica de abnegação de si, quanto o era de affectuosa sympathia

para com todos os opprimidos, para com tudo o que padece, comprazia-se

em fitar a vista em olhos que não se abaixassem deante dos seus, em

encontrar na ideia alheia a resistencia á propria ideia. Não tinha ciume

de uma soberania superior á sua, a da razão, nem o humilhava a dignidade

humana, que equivale no subdito á magestade do rei. O que repugnava

profundamente a esse espirito era o baixo, o abjecto. O reptil,

infusorio em grande, inquieta-nos, tenta a nossa fé na immortalidade com

o dogma horrivel da geração espontanea, da omnipotencia do

fermentescivel: o homem, que é homem, esse é que prova Deus.

«Foi na affeição de D. Pedro V, no desejo de lhe comprazer que achou

alentos para galgar de novo a ingreme ladeira d'onde o tinham

despenhado; foi animado por elle que proseguiu em ajuntar materiaes, não

para levar a cabo os ambiciosos designios concebidos na edade das

grandes audacias, mas para concluir o quadro sincero da epoca mais

obscura da nossa deturpada historia; para deixar no mundo um livro em

vez de um fragmento. Expressa apenas como desejo, a sua vontade tinha-se

tornado para elle irresistivel: nem se pejava de confessar que elle

começava a exercer já sobre o seu espirito aquella especie de

absolutismo moral que, provavelmente, aos trinta annos havia de exercer,

se vivesse, sobre o geral dos animos; singular especie de absolutismo,

que encerrava a esperança da regeneração dos costumes publicos e,

conseguintemente, a unica esperança da manutenção da nossa autonomia e

da nossa liberdade; autonomia e liberdade que foram para elle crença e

culto, porque lh'as tornavam santas a voz de uma consciencia virgem e as

revelações de uma poderosa intelligencia.»[84].

Que alma segredava essas confissões! Que essencia sobrehumana as animou!

Que resplendor divino nos confunde! O orgulho do stoico e a rigidez do

crente abdicaram perante a personificação candida da justiça. Não

temeram degradação no desprendimento. Conscientemente o tributavam,

pesando sem impostura o proprio valor e sem aviltamento depondo-o no

altar do affecto que o reclamava, devido por gratidão e não offerecido

pela livre generosidade do devoto. O crente engrandeceu-se

renunciando á altivez do propheta e trocando-a pela humildade do servo.

Nem sempre, porém, o espirito de Alexandre Herculano pairava n'essa

esphera religiosa de adoração, e não raro de indignação, a que tão altos

impulsos o erguiam. Por vezes, baixando ao meio das vulgaridades

terrenas, benignamente as viu e lhes sorria.

Esta ironia grave, e affirmativa todavia atravez dos reflexos inquietos

da multiplicidade dos seus prismas, objecto de justiça e simultaneamente

desenfado de austeridade, o rigor sem crueldade, o rir sem malevolencia

ou escarneo e ao mesmo tempo sem indulgencia, sem cobrir a nudez da

falta, jocoso sem insolencia e agressivo, por corrigir, sem durezas de

expiação ou vindicta; esse humorismo caracteristico do sangue

anglo-saxonio insinuou-se na obra de Alexandre Herculano e nos seus

prolongados combates de polemista. E é de vêr a doçura, salpicada de

ingenuidade, com que nos colloca em frente das ambições e cobiças

barbaras d'outras eras, no intimo condemnadas e condemnaveis, embora

sejam pesado attributo das miserias humanas de todos os tempos.

Exemplifiquemos.

Na côrte de D. Thereza, mãe d'Affonso Henriques, ricos homens,

cavalleiros e clerigos discutiam acremente, entre si e ao sabor de

cada um, a legitimidade das pretensões do filho á posse do reino e o

direito da mãe em lh'a negar. «As injurias voavam de parte a parte, os

ferros polidos dos punhaes principiaram a reluzir meio-arrancados dos

cintos, e a sala do conselho ia a converter-se n'um campo de batalha,

quando dois homens, talvez os unicos que pelo seu caracter politico e

ainda mais pela sua condição moral o podiam alcançar, atalharam as

scenas de sangue de que os paços de Guimarães estavam a ponto de serem

theatro. Quasi ao mesmo tempo dois sacerdotes se alevantaram a pedir

treguas em nome de Deus. Era D. Tello, arcediago de Coimbra, um d'elles:

o outro: Fr. Hilarião, o bom velho abbade do mosteiro de D. Muma.

Áquelle dissera muitas vezes D. Thereza que assaz grato lhe seria vel-o

bispo da sua sé, a qual então se achava orphã de pastor; a este, a

predilecção que sempre mostrára ao seu mosteiro e a elle em especial o

moço principe, fazia crêr com bom fundamento que não eram vãs de todo

varias palavras que uma vez lhe ouvira soltar ácerca não sabemos de que

doação ao santo asceterio de Guimarães, de certa villa ou herdade, com

cincoenta homens de creação, e seus montes e pastos, fontes e lagoas,

exitos e regressos. Não os moviam na verdade estas circunstancias

que apontámos casualmente, a serem, D. Tello, inclinado a favorecer a

justiça da bella infanta, e Fr. Hilarião a justiça de Affonso Henriques.

Pregoava-os o mundo por virtuosos: nós ajuntamos o nosso brado ao do

mundo. Mas é indubitavel que ambos elles estavam persuadidos de que o

outro seguia uma causa má e affligiam-se profundamente de verem assim a

virtude desvairada e perdida no campo contrario... Ainda cremos na

virtude dos cultores de politica: sabemos por experiencia que a maior

parte das vezes as suas expressões são singelas e nascem de crenças mui

fundas; sabemos tambem que as suas opiniões são em geral

desinteressadas, e que jámais é o medo que os incita a prégarem a

concordia e a paz. E se isto é assim n'estes tempos de perversão moral,

com bom fundamento affirmamos que eram puras e generosas as intenções

d'aquelles dois ministros do Senhor, n'um seculo em que as doutrinas do

christianismo estavam vivas e a caridade era fervorosa e sincera. É

certo, porém, que apezar das deligencias que faziam cada um d'elles para

aquietar o furor da respectiva parcialidade, por muito tempo o alarido

dos cavalleiros, que se doestavam com bastas e grossas injurias, cobriu

as debeis vozes dos varões apostolicos. Finalmente foram ouvidos. A

reputação de santidade de que ambos gozavam,--no seu bando já se

entende,--porque em epocas de odios civis as reputações facilmente tocam

o extremo da profundeza, mas na extensão ficam sempre em metade; essas

reputações, dizemos, mais ainda que a força das suas ponderações,

fizeram pouco a pouco asserenar a tempestade. Os ricos homens, infanções

e cavalleiros vieram emfim a uma conclusão razoavel; isto é, sairam

d'alli cada vez mais afferrados ás suas opiniões e sem concluirem

nada»[85].

Assim nol-os pintou o romancista historiador, em momento de os

considerar sem impaciencia.

Se necessario fosse descobrir a couraça de ferocidade dos fundadores de

dynastia, com tal destreza e arte procederia Alexandre Herculano n'essa

tarefa que sorrimos, quando aliás poderiamos sem injustiça voltar a face

indignada pelo espectaculo de crueldades barbaras. Assim, por exemplo,

que sacrilegos aggravos não se teriam feito ao conde D. Henrique,

duvidando-lhe da bondade! Apressa-se o historiador a corrigil-os, porque

«devemos crêr, ao menos piamente, que o conde D. Henrique, na epoca

em que alevantou o castello de Guimarães, não lançou nos fundamentos do

seu edificio soberbo um carcere seguro e vasto com os intuitos de rapina

que guiavam o commum dos senhores n'estas tristes edificações. Ainda que

algum documentinho de má morte provasse o contrario, cumpria-nos pol-o

no escuro, ou contestar-lhe francamente a authenticidade, porque o conde

foi o fundador da monarchia, e a monarchia desfunda-se uma vez que tal

cousa se admitta. Assim é que se ha-de escrever a historia, e quem não o

fizér por este gosto, evidente é que póde tratar de outro officio»[86].

Muitas vezes castigava rindo. É certo. Não cessava todavia atravez do

riso a tenacidade de combater, a intuição e o ardor apostolicos,

caracteristicos, como o humorismo, do sangue germanico. Sempre se uniam

na alma do poeta aquella visão exacta das realidades e sua ordem,

propria da educação romana, e o espirito de missão religiosa que nunca

abandona os povos de origem septentrional. Se alguem representou por

completo, resumindo-as nas tendencias e altos talentos de um só

individuo, «estas sociedades, meio romanas, meio germanicas na

indole, e celto-romanas na raça, que estanceiam ao Occidente», foi

Alexandre Herculano, foi exactamente quem melhor as definiu na historia.

O polemista manteve-se inquebrantavel até ao final da sua vida. De facto

nunca abandonou as armas. Os derradeiros annos da sua existencia, as

condições de desprendimento em que os passou, e a voz que de longe em

longe nos vinha do ermiterio de Val-de-Lobos, foram pelo exemplo e pela

affirmação explicita uma exortação ininterrompida á virtude, e um clamor

instigando a contricção e emenda as gerações corrompidas cuja degradação

presenciava com amargura. Corria-lhe nas veias a febre de exame intimo

constante e de ambição de conquista moral e religiosa peculiares

áquelles que deram á humanidade a renovação fecunda do protestantismo.

Chamaram-lhe lutherano os que suspirariam por o levar ás fogueiras da

Inquisição, se ainda as houvesse, porque lhes arruinava os milagres e a

consequente exploração de estupidas crendices populares. Havia qualquer

cousa de verdade n'essa designação. Sómente o honrava, em vez de ser

pejorativa. Traduzia o reconhecimento de uma independencia rebelde a

toda a seducção e lisonja de sensualidades satisfeitas e vaidades

saciadas, a confirmação da posse de faculdades raras entre latinos,

commodamente conciliadores, a verificação da revolta insubmissa do

combatente, inimigo jurado e exaltado de todas as oppressões, do

despotismo dos homens e da escravidão da consciencia. Por erro o

julgaram desalentado e vencido. Jámais o foi. Reagiu sempre, nunca

tolerou ambiente que lhe repugnasse ao coração. Defendeu-se

constantemente, de reducto em reducto, levando intactos e intangiveis

seus escudos. Onde achou terreno ingrato para a sua alma, logo a

transpôz para logar em que podesse offerecer-lhe resguardo conveniente.

Deixou as armas, deixou a politica, deixou as lettras, deixou o seu

minguado mundanismo da cidade, mas não por fraqueza; deixou-os, para

renovar com uma energia inexaurivel as condições da sua vida apenas se

convencia de que as não tinha adequadas á preservação da sua pureza.

Vicente Ferrer diz-nos que Alexandre Herculano «_gostava_ de questionar

e discutir». Presente-se, com effeito, nas suas polemicas certo prazer

de se defender e flagellar a matilha que o assaltava latindo

raivosamente. Com facilidade acceita o duelo, não mostra pressa de o

rematar, e, muito ao contrario, procede com tal pausa na destituição do

antagonista, arrancando-lhe uma a uma as suas armas, que, se não

lhe foi deleite a tarefa, pelo menos não a houve por enfadonha ou

penosa. Sendo o combate instrumento de propagação da verdade,

logicamente não poderia desamal-o, antes deveria apetecel-o quem tinha a

verdade em conta de missão suprema. Combatendo reconheceria, não só a

constituição vigorosa das proprias forças, o que o alegrava, mas tambem

a expansão e derramamento da sua crença, o que lhe satisfaria a

consciencia e lhe premiava o esforço.

Tornou-se materia corrente que o dominava o orgulho.

Não é exacto. Confundiu-se o orgulho com a defeza attenta e prompta da

dignidade, com a justificação vigilante dos seus actos em que a

salvaguarda da propria honra se juntava á necessidade constante de exame

de consciencia. Na polemica que mais fundamente deveria feril-o, porque

lhe contestava crenças religiosas, e nenhumas tinha mais arreigadas em

seu peito, vinha adduzir com exactidão e vigor os factos em que na vida

patenteára, muito mais do que generosidade com os vencidos e

perseguidos, verdadeiro amor da egreja e do clero. «Como procedera elle

sempre ácerca de egreja e do clero?» perguntava, indignado pela offensa

que um catholicismo estreito de intelligencia e de coração fazia á

nobreza cavalheiresca do seu caracter, n'este caso inflamada pela fé

religiosa, e pelo respeito e encanto da tradição e por toda a poesia do

culto. E respondia, com uma serenidade em que se advinham tremores de

mágoa e mal contidos impetos de desaggravo: «As ideias do seculo,

recalcadas por uma compressão violenta, a que, força é confessal-o, a

maioria do sacerdocio se havia associado, tinham reagido violentamente,

e assentavam-se triumphantes sobre as ruinas do passado quando eu entrei

no campo de imprensa, no campo das batalhas do espirito. De roda de mim

jaziam os fragmentos da sociedade que fôra, e no meio d'elles o clero,

disperso, empobrecido, coberto d'affrontas, experimentava as

consequencias do predominio de um partido adverso e irritado. A situação

da egreja portugueza n'essa epoca, e sobretudo a situação dos regulares,

sabemos todos qual era. Foram feridas de que, porventura, ainda mais de

uma goteja sangue. Os homens das velhas opiniões politicas, no meio do

terror, vergados pelo desalento de uma queda tremenda, duplicadamente

dolorosa pela desesperança, calavam. Nem uma voz amiga se alevantava

n'esta terra de Portugal a favor da egreja batida pela tempestade. Ainda

então esse grupo de mancebos cheios de talento, de inspirações

grandiosas e de crença fervente na liberdade humana, e pela liberdade na

eterna justiça; essa phalange, no meio da qual todos os dias apparecem

novos soldados, e que não se envergonhava de Deus nem do seu Christo,

não tinha ainda começado a surgir para ser generosa com os adversarios

das suas ideias, quando a desventura os santifica. Na imprensa liberal,

revolucionaria, impia, como quizerem chamar-lhe, eu, só eu, tive por

muito tempo palavras de affeição e consolo para a desgraça; só eu tive

animo para accusar os homens do meu partido de espoliadores e

insensatos; para tentar revocal-os á poesia do christianismo, do eterno

alliado da liberdade. A voz que do campo do progresso saudava o templo

enlutado e deserto era debil, mas sincera: a mão que se estendia para

amparar o sacerdote curvado sob o peso da agonia era bem pouco robusta

mas era leal! Como Yorick guardava a caixa do pobre franciscano entre os

symbolos da sua religião de affectos, eu guardo para mim, e só para mim,

mais de um papel escripto por mãos tremulas de velho monge, e talvez

regado por lagrimas, em que se reconhecia a possibilidade de haver um

homem das novas ideias que não fosse absolutamente um malvado. É sobre

estas reliquias que eu quero encostar a cabeça para dormir

tranquillo o ultimo e longo somno em que todos devemos repousar»[87].

Havendo, porém, fallado d'este modo, que a leviandade tomaria por

altivez aggressiva ou desdenhosa, logo se apressa a esclarecer e

dissipar por palavras de humildade essa impressão, como suspeitando-a,

temendo-a, e não querendo que subsistisse tão mal pensado e calumnioso

conceito. «Trouxera para o campo da historia», dizia elle então, «o

mesmo amor da verdade singela, que tinha mostrado n'uma das mais graves

questões sociaes. Não se arrependera do que fizéra. Cumpria um dever que

lhe impunham Deus e a sua consciencia. Não esperava arrepender-se do que

fazia. Cumpria uma obrigação litteraria, e estava certo de que bem

merecia da terra em que nascêra escrevendo a verdade». Só hesitava

«sobre a legitimidade das suas queixas; sobre se, no que suppunha um

dever de honra, não haveria um pouco da obcecação da vaidade. Quando

Roma que parecia ter jurado nas aras de Jupiter Stator o exterminio do

catholicismo, crucificava no seu _Index_ nomes como os de Chateaubriand

e Lamartine; nomes como os de Gioberti e Ventura, teria elle, verme

que passava á sombra do seu nada, direito de offender-se porque de

pulpitos obscuros, n'um canto obscuro da Europa, alguns clerigos maus ou

ignorantes lançavam sobre elle o vilipendio das suas palavras? Quando a

egreja, involvendo a fronte no véu da sua immensa tristeza, e sentindo

humedecer-lhe os pés o sangue humano vertido pelo ferro sacerdotal,

contempla aterrada o futuro, havia dôr de individuos a que fosse licito

um brado»[88]?

A victima de um odio estupido defendera-se do aggravo, mas o christão,

dominado pelo desprendimento divino e pela abdicação na vontade do

Senhor, duvidava não só do direito de defeza mas até da legitimidade de

accusar a injuria e se queixar. Na hesitação do combatente revelar-se-ia

um eterno problema de consciencia; na apreciação do facto accidental

transpareceria o conflicto, porventura insoluvel, da religião da honra e

da religião de Deus. Mas o que, com certeza, se sumia e dissipava era o

ultimo vestigio de sentimentos de orgulho.

No fundo, não poderia tel-os quem se sentiu presa de arrependimentos

porque expontaneamente reconheceu, desconfiando de haver caido em

erro, «não ser dos menos sujeitos a ceder ás vezes aos impulsos da

vivacidade»[89]. Em ultima analyse, bem ponderados todos os

elementos que entravam na sua constituição moral e de que elle nos

deixou bastas indicações, Alexandre Herculano não seria orgulhoso nem

humilde. Quem tão singela e modestamente confessava gratidão e, pelo

facto, se mostrava commum mortal, fraco e sujeito á bondade do auxilio

estranho; quem, longe de alardear independencias mentirosas e estultas a

que a comprehensão do proprio valor o poderia sem estranheza tentar,

declarava dever á intelligente previdencia de um rei a situação isenta

de encargos pesados que lhe permittiu dedicar-se por completo ao aturado

trabalho da composição da historia e haver emprehendido o estudo da

_Historia de Portugal_ para educação do principe, pagando ao filho a

divida que contraira com o pae e tributando em troca do pão e do socego

que lhe concederam a fortuna immensa de talentos assombrosos: quem

pretendia collocar-se n'esse terreno chão da fraqueza e do affecto

vulgar, não seria nem orgulhoso nem humilde, seria apenas um justo,

pedindo justiça para si pelos impulsos da mesma rectidão em que aos

estranhos procurava fazel-a, tendo reclamado o seu logar entre os

da sua graduação moral, sem ignorancia ou preterição dos que por

qualquer titulo lhe estavam acima, e muito menos sem desprezo dos que

lhe ficavam inferiores, sem prescindir dos direitos que possuia e sem

regateiar as obrigações que lhe cabiam ou occultar fraquezas a que se

reputava exposto. Julgaram-no orgulhoso, porque alliando a força á

justiça, uma virilidade intemerata a um sentimento indefectivel do

dever, abominando a impostura, a hypocrisia, toda a ostentação de falsa

modestia, não cedendo a incentivos do proprio capricho, se é que por

elle passaram, affrontando valoroso toda a contingencia, disse de si e

dos outros com uma energia superior toda a verdade. É singular até que

seja quasi estranha ao caracter de Alexandre Herculano a melancolia,

esse suave desfallecimento e queixume proximos da voluptuosidade na

mágoa; no seu peito sómente responderiam á dôr a tristeza, os soluços

ingentes e as lagrimas abundantes e francas de vencidos. A magnitude da

reacção, o grito de mortificação denunciava a valentia do opprimido, as

contracções gigantescas em que se debatia antes de succumbir, e nunca a

morbida debilidade de quem se allivia renunciando ao seu querer e

entregando-se ás fluctuações do destino.

A robustez inviolavel no combate, na crença e no soffrimento

consentiu-lhe a sinceridade e a largueza na ternura. Sómente os

verdadeiramente fortes a possuem. Demanda profundezas taes de

desprendimento, tão larga vibração de sympathia, que só a confiança de

uma perfeita fortaleza intima as admitte. A bondade e o affecto

vulgares, justamente porque são fracos, não ousam sujeitar-se a perdas,

guardam sempre com avareza, em toda a expansão carinhosa, certa reserva

de um egoismo que nem por instantes descura os seus pequeninos

interesses. Mas Alexandre Herculano, porque era forte, pôde ser terno

sem pusillanimidades de uma acanhada prudencia. Podia amar esquecendo-se

por completo no amor; instinctos vigorosos o afoitavam, assegurando-lhe

que em toda a abdicação o seu ser se enriquecia em vez de alienar e

depauperar-se. As suas relações com D. Pedro V e as cartas intimas á

esposa, das quaes com muita razão se tornou famosa a que vem publicada

no _Estudo Critico-Historico de Alexandre Herculano_, de D. Antonio

Sánchez Moguel, lido na Real Academia de Historia de Madrid, são

testemunho eloquente de como o amor sublimado d'aquelle inspirado

apostolo baixou intacto e perfeito das regiões em que é um poder divino,

universal e soberano, para o conforto do lar e para o respeito e

dedicação de homem a homem, em que se torna doçura, encanto e lenitivo

da vida mortal dos miseros seres ephemeros onde habita a consciencia

eterna. Esse homem, que não podia ignorar a sua estatura herculea porque

as rudezas das batalhas e dos trabalhos lh'a punham em prova e em

evidencia aos olhos dos estranhos e aos proprios olhos, não temia

aviltar-se, ou sequer amesquinhar-se, publicando que o rei, um moço,

começava a exercer sobre elle «aquella especie de absolutismo moral que,

provavelmente, aos trinta annos havia de exercer, se vivesse, no geral

dos animos»; não tinha pejo nem admittia desdouro em se confessar

vencido pela vontade e pelo entendimento alheio, satellite do prestigio

d'aquelle deante do qual, pela edade e pela experiencia, ainda que por

mais não fosse, poderia sem offensa allegar superioridade. E, ao mesmo

tempo, as mãos que votou ao trabalho da terra e n'elle endurecera, para

as purificar e avigorar n'aquelle salutar mestér e sacerdocio, guardavam

doce flexibilidade de ternura, capaz de proteger e amaciar o ninho em

que abrigava a companheira e de a amar com carinho, interessado e

collaborando de continuo nas suas fainas, indulgente para os seus

appetites e sollicito em lhe alliviar enfermidades.

Da grandeza stoica reservou para si sómente a força de supportar

contrariedades e dôres, remindo-se das suas feridas pela propria

energia. Mas o que de frieza, impassibilidade e orgulhoso isolamento e

desprendimento houvesse n'aquella doutrina, isso dissipou-o, apagou-o no

fogo das emoções affectivas, na expansão ingenita de sympathia o de

dedicação, nos apetites e doçura de aturado commercio com os homens.

Val-de-Lobos consolou-o de muita amargura; collocou-o a salvo do

desgosto de muita vilania, a distancia sufficiente para lhe não sentir

continuadamente as picaduras irritantes; libertou-o na contemplação e

beatitude dos mundos da infinita ingenuidade. Mas não foi sem lhe fazer

pagar seu preço, sem lhe impôr enfados da soledade, vaga saudade. Alguma

cousa alli lho faltaria que a rigidez estoica não podia supprir. O

stoicismo, quando traduzido na existencia concreta, tinha suas

tyrannias. A Val-de-Lobos não chegava o tumulto da cidade, o rumor das

suas infamias, das suas dissipações e das suas depravadas demencias; mas

calava-se tambem, no affastamento dos homens, o murmurio de amizades,

aspirações e crenças, que todo o coração amoravel escuta e repete,

distinguindo-o no meio de pragas e discordias, alimentando-o e

alimentando-se por esse pulsar de harmonia que incessantemente

funde a sua vida na vida estranha. Sequioso d'esses filtros d'amor,

d'esse sustento que fôra a paixão de toda a sua existencia, para dar e

receber o qual combatera, estudára e se exaltára em esperanças, em

combates, e em fadigas de apostolado e na febre das creações do genio,

não lhe supportou sem lamentos a privação, quando os muros da voluntaria

clausura em que se encerrára o impediram de o possuir em abundancia, de

todo lh'o roubando até durante longas horas. Na _Advertencia_ que

precede o primeiro volume dos _Opusculos_, explicando porque começara a

ajuntar os retalhos dispersos do seu passado intellectual, Alexandre

Herculano, com a habitual e irreprimivel senceridade de todos os seus

passos, não nos occulta como e quando o ermo lhe fôra tambem pesado. Nem

só o espectaculo e a vozeria infernal dos odios e atropelos das cobiças

da multidão importavam magoas. Outras se encontravam na sua ausencia,

ainda que inspirada por uma sagrada repulsão. Eram differentes de

caracter mas identicas na essencia: ou um rumor de sympathia nos falte

em absoluto e o substitua um frigido silencio, ou o nosso coração sinta

e chore a divergencia e opposição entre os seus anceios e os impulsos

alheios, em qualquer caso deplora a separação dos homens, o

apartamento moral ou physico dos nossos irmãos, e suspira pela sua

proximidade.

Procurando allivio a semelhantes males, proprios da ternura do seu

temperamento e caraterisando-o fundamente n'esse ponto, para lhes

moderar os effeitos começou Alexandre Herculano a colligir e ordenar nos

ultimos annos da vida os seus escriptos dispersos. «Para o velho que

vive na granja, na quinta, no casal, como que perdidos por entre as

collinas e serras do nosso anfractuoso paiz, ha na existencia uma

condição que todos os annos lhe prostra o animo por alguns mezes, doença

moral, mancha negra da vida rustica, facil de evitar nas cidades. É o

tedio das longas noites de inverno; das horas estereis em que o peso do

silencio e da soledade cai com duplicada força sobre o espirito. Para o

velho do ermo, n'esses intervallos da vida exterior, a corrente

impetuosa do tempo parece chegar de subito a pégo dormente e espraiar-se

pela sua superficie. A leitura raramente o acaricia, porque os livros

novos são raros. A decima visão da mesma ideia, vestida do seu decimo

trajo, repelle-o, não o distráe. As convicções ardentes, as alegrias das

illuminações subitas, as coleras e indignações que inspiram e que, na

mocidade e nos annos viris, enchem a cella do estudo de

turbulencias interiores, de arrebatamentos indomaveis, de debates

inaudiveis, de lagrimas não sentidas, de amargo sorrir, cousas são que

se desvaneceram. Matou-as o gear do inverno da existencia... para o

velho não ha a febre da alma que devora o tempo... É verdade que a

natureza compensa o esmorecer e passar do vigor e da actividade

intellectual com a propria somnolencia do espirito, voluptuosidade da

velhice, ameno e dourado pôr do sol, que se refrange no espectro da

sepultura já visinha e o illumina suavemente. Mas o dormitar do

entendimento, para ser deleitoso enleio, exige o movimento externo e as

singelas occupações e cuidados da vida campestre. Sem isso, e é isso que

falta muitas vezes nas interminaveis noites de inverno, a inercia da

intelligencia, que vagueia no indefinito sem o norte da realidade,

vae-se convertendo pouco a pouco em intoleravel tormento; tormento no

qual ha, por fim, o que quer que seja da cellula circular e

esmeradamente branqueiada, onde o grande criminoso é entregue, sósinho,

á eumenide da propria consciencia. N'esta extremidade, por mais

somnolenta e obscurecida que esteja a mente, por mais que ella ame o

repouso, o trabalho do espirito, ainda o mais arido, é preferivel,

cem vezes preferivel, ao fluctuar indeciso no vacuo»[90].

O stoicismo bastaria para infundir na alma de Alexandre Herculano uma

robustez inviolavel; mas não teria sido sufficiente para lhe facultar um

contentamento indefectivel e povoar de alegria a soledade. É que o

stoico commungára do amor de Christo, e esse annuncia desgraça a quem se

encontrar sósinho. Mandava-lhe amar a Deus sobre todas as cousas, e esse

bem o encontrava no ermo; mandava-lhe porém simultaneamente amar o

proximo como a elle mesmo se amava, e esse preceito não dispensava a

presença constante dos homens, desvairados ou santos que elles fossem,

para lhes minorar a desgraça ou para lhes seguir o exemplo, em todo o

caso para correr seu destino e o partilhar. O stoico pôde fortalecer o

seu adepto com uma disciplina mas não pôde supprir o alento humano que

anima o christão, esse anceio de dar e receber constantemente que é a

sua razão de ser. Por isso, sentindo que lhe faltava, corria a juntar-se

em espirito aos homens e a partilhar das suas preoccupações quem pela

pressão cruel de sua sorte fôra pessoalmente lançado fóra dos turbilhões

do mundo.

Sem duvida, pela firmeza de animo e mais pelo exemplo do que por

qualquer tentativa de systematisação philosophica ou defeza intencional

de doutrina, a vida de Alexandre Herculano abunda na conformidade com os

preceitos do stoicismo. Em grande extensão, poderia Seneca descobrir

n'elle um discipulo. Acceitou-lhe leis fundamentaes. Confiou na virtude,

teve-a «pelo maior dos bens»; «n'ella se alegrou e desprezou os

accidentes da fortuna». Attingiu a «invulneravel grandeza de espirito

que não se eleva nem abate com a boa ou má sorte». Sentiu que «em todo o

homem bom habita um deus», um espirito sagrado, indicador e guarda do

que é bem e do que é mal, «um ser divino e razão que reside no mundo e

em todas as suas partes». Pela temperança, pela paciencia, pela coragem

e pelo culto vigilante da integridade do caracter moral, saccudindo

todas as servidões, e sobretudo as servidões dos sentidos, da cobiça, do

luxo e da avareza, dominando as paixões e submettendo-se puramente aos

mandados da razão, ensinou-nos eloquentemente como se enriquece «não

augmentando os bens mas diminuindo as necessidades». Mostrou-nos assim

como a virtude é accessivel a todos e até como a adversidade se converte

em benção, porque «conheceu a sua propria força e valor pondo em

prova a virtude», quando a desgraça lhe bateu á porta.

Mas esse stoicismo que podia ser e foi alicerce de fortaleza, não tinha

o calor bastante para fóco de irradiação, para inundar de luz e conforto

a alma estranha. E inflamou-o então no evangelho de Christo, ungindo-o

de piedade e por ella o convertendo á humildade, supplicando dos céus

para os outros a indulgencia e auxilio que por intangivel capacidade de

soffrer não carecia de pedir para si.

Abrangendo d'este modo todos os gráus da dignidade humana, da acção á

contemplação, da firmeza á caridade, do humano ao divino, do heroismo á

santidade, Alexandre Herculano a todos honrou igualmente,

engrandecendo-se e legando-nos um exemplo unico e supremo na historia do

povo portuguez.

[1] Alexandre Herculano, _Poesias_. Lisboa, 1860, pag. 165.

[2] _Poesias_, pag. 172.

[3] _Poesias_, pag. 178.

[4] _Poesias_, pag. 182.

[5] _Poesias_, pag. 182.

[6] _Poesias_, pag. 56.

[7] _Poesias_, pag. 208.

[8] _Poesias_, pag. 169.

[9] Emerson, _Essays_ (Grant Richards, London, 1902). Pag. 199.

[10] Oliveira Martins, _Portugal contemporaneo_. Lisboa, 1881, tom.

II, pag. 305.

[11] _Eurico_, 5.ª edição. Lisboa, 1864, pag. 10.

[12] _Eurico_, pag. 15.

[13] _Eurico_, pag. 19.

[14] _Eurico_, pag. 22.

[15] _Eurico_, pag. 30.

[16] _Poesias_, pag. 57.

[17] _Poesias_, pag. 51.

[18]

«E eu comparei o solitario obscuro

Ao inquieto filho das cidades:

Comparei o deserto silencioso

Ao perpetuo ruido que sussurra

Pelos palacios do abastado e nobre,

Pelos paços dos reis; e condoí-me

Do cortesão soberbo que só cura

De honras, haveres, glorias que se compram

Com maldições e perennal remorso.»

«Oh cidade, cidade que trasbordas

De vicios, de paixões e de amarguras!

.........................................

Soberba prostituta alardeiando

Os theatros, e os paços e o ruido

Das carroças dos nobres recamadas

De ouro e prata, e os prazeres de uma vida

Tempestuosa e o tropeiar continuo

De fervidos ginetes que alevantam

O pó e o lodo cortezão das praças

.........................................

Braqueado sepulcro, que misturas

A opulencia, a miseria, a dôr e o goso

Honra e infamia, pudor e impudecicia

......................................... »

_Poesias_, pag. 52, 53 e 54.

[19]

«Bello ermo! Eu hei de amar-te emquanto esta alma

Aspirando o futuro além da vida

E um halito dos céus, gemer atada

Á columna do exilio, a que se chama

Em lingua vil e mentirosa o mundo.

Eu hei de amar-te, oh valle, como um filho

Dos sonhos meus. A imagem do deserto

Guardal-a-ei no coração, bem junto

Com minha fé, meu unico thesouro.»

_Poesias_, pag. 50 e 51.

[20] _Poesias_, pag. 112.

[21] _Poesias_, pag. 27.

[22] _Poesias_, pag. 20.

[23] _Poesias_, pag. 4.

[24] _Poesias_, pag. 31.

[25] _Poesias_, pag. 61.

[26] _Poesias_, pag. 49.

[27] _Poesias_, pag. 81, 85 e 86.

[28] _Poesias_, pag. 89 e seg.

[29] _A Tempestade_, é o titulo, bem caracteristico, da poesia em

que o exprimiu.

[30] _Poesias_, pag. 92 e 93.

[31] _Poesias_, pag. 111.

[32] _Monge de Cistér_, tom. I, pag. VII, (Lisboa, 1859).

[33] _Monge de Cistér_, tom. I, pag. III.

[34] _Monge de Cistér_, tom. I, pag. VIII.

[35] _Monge de Cistér_, tom. I, pag. XI.

[36] _Opusculos_, tom. V, 3.ª ed., pag. 294.

[37] _Opusculos_, tom. IX, pag. 278.

[38] _Opusculos_, tom. III, 2.ª edição, pag. 70.

[39] _Monge de Cistér_, tom. II, pag. 376.

[40] _O Bobo_, pag. 31 e 14.

[41] _Monge de Cistér_, tom. I, pag. XII.

[42] _Monge de Cistér_, tom. I, pag. IX a XII.

[43] _Historia de Portugal_, 3.ª ed., tom. II, pag. 93 e 94.

[44] _Historia de Portugal_, tom. II, pag. 137 e 138.

[45] _Monge de Cistér_, tom. I, pag. 61.

[46] George Bernard Shaw.

[47] _Opusculos_, tom. III, pag. 65 e 66, 2.ª edição.

[48] _Opusculos_, tom. II, pag. 217 e seg., 2.ª edição, Lisboa,

1880.

[49] _Monge de Cistér_, tom. I, pag. 73 e 76.

[50] Vid. o prologo da _Historia da Origem e do Estabelecimento da

Inquisição em Portugal_.

[51] _Monge de Cistér_, tom. I, pag. 262.

[52] _Monge de Cistér_, tom. I, pag. 243.

[53] _Monge de Cistér_, tom. I, pag. 219.

[54] _Monge de Cistér_, tom. I, pag. 227.

[55] _Monge de Cistér_, tom. II, pag. 70.

[56] _Monge de Cistér_, tom. II, pag. 152.

[57] _Monge de Cistér_, tom. II, pag. 137.

[58] _Monge de Cistér_, tom. II, pag. 78.

[59] _Historia de Portugal_, tom. III, pag. 223 e seg., 8.ª edição.

[60] _Opusculos_, tom. II, _Mousinho da Silveira_.

[61] _Opusculos_, tom. III, pag. 111.

[62] _Opusculos_, tom. III, pag. 113 e seg.

[63] _Opusculos_, tom. III, pag. 121 e 122.

[64] _Reporter_, n.º 178, 28 de junho de 1888. Cartas de Alexandre

Herculano a Oliveira Martins.

[65] Stuart Mill viveu de 1806 a 1873, antecedendo portanto

Alexandre Herculano quatro annos no nascimento e na morte.

[66] _Mes Mémoires._ Trad. fr.; Paris, 1874. Pag. 221 e seg.

[67] Alexandre Herculano. _Opusculos_, tom. I, pag. XV. 4.ª edição.

Lisboa, 1897.

[68] Vid. _Poesias_.

[69] É singular e significativa certa frieza que transparece no

elogio, quando José Estevão apreciou a pouca fortuna de Alexandre

Herculano no parlamento. Dizia o tribuno na _Revolução de Setembro_,

em um pequeno artigo que o meu erudito conterraneo Sr. Marques Gomes

transcreve no seu _José Estevão, Apontamentos para a sua

Biographia_:

«Coube a palavra ao Sr. Alexandre Herculano, litterato conhecido e

deputado debutante. O discurso d'este senhor foi modelo em dicção,

mesquinho na intenção e falho nos meios. Este senhor deputado,

tendo-se declarado opposicionista, não proferiu uma palavra de

censura contra o ministerio, e querendo inculpar as administrações

da Revolução mostrou que nem sempre os bons desejos supprem a

escassez de recursos. O senhor deputado é um talento, e póde vir a

ser um bom orador applicando os encantos da sua dicção aos termos

logicos das questões.»

Ora José Estevão era de uma generosidade e largueza d'animo com os

adversarios verdadeira e superiormente nobre. Se escreveu com

semelhante leveza de Alexandre Herculano foi porque em consciencia a

tinha por merecida, e nunca por qualquer sombra de mesquinhez

partidaria ou pessoal, de que de todo e sempre se achou isento. E

desconheceu-o, ou melhor, talvez o conhecesse mal n'aquelle tempo,

porque a diversidade de temperamento tornava embaraçosa e lenta a

mutua comprehensão dos caracteres, que de resto veio a mostrar-se. É

sabido como esses dois homens acabaram por se estimar profundamente,

como o exigia a conformidade da grandeza moral de um e outro.

[70] _Monge de Cistér_, tom. II, pag. 57 e seg.

[71] Ernest Howard Crosby.

[72] _Opusculos_, tom. II, 2.ª edição, pag. 141 e 142.

[73] A carta em que propunha a Bertrand a edição da _Historia de

Portugal_ é sobre esse ponto sufficientemente elucidativa.

Encontram-se publicadas pelo Sr. Dr. José Pessanha as suas passagens

principaes, no _Boletim da Real Associação dos Archeologos

Portuguezes_, em o numero especial com que recentemente aquella

aggremiação commemorou o centenario de Alexandre Herculano. Todas as

condições commerciaes da empreza confiava á experiencia e probidade

do editor; nem sequer se importava de as determinar; e gracejava da

propria incapacidade para semelhante ajuste e para materias do

negocio em geral.

[74] _Monge de Cistér_, tom. I, pag. 122.

[75] _Monge de Cistér_, tom. II, pag. 9.

[76] _Monge de Cistér_, tom. II, pag. 170.

[77] _Monge de Cistér_, tom. II, pag. 331.

[78] _Monge de Cistér_, tom. II, pag. 246 e 247.

[79] _Opusculos_, tom. IV, 2.ª edição, pag. 102.

[80] _Monge de Cistér_, tom. XI, pag. 377.

[81] _Historia de Portugal_, tom. IV, pag. 5 e 6.

[82] _O Bobo_, pag. 261.

[83] Graças ainda á generosidade do Sr. Marques Gomes, foi-me

possivel lêr a representação das pessoas d'Aveiro pedindo ao governo

que a Alexandre Herculano se facultassem todos os meios de continuar

a _Historia de Portugal_. A representação está publicada no _Campeão

do Vouga_, n.º 536, de 16 de julho de 1857. Conheci a maior parte

dos homens que a assignaram. São tudo o que em Aveiro havia de

superior pela intelligencia e situação social; e encontro alli, a

par dos liberaes mais exaltados, os nomes de catholicos severos e

intransigentes, legitimistas ferrenhos, cabralistas, padres e

seculares de todas as classes.

Diz-me mais o Sr. Marques Gomes que a representação foi promovida

por José Estevão, o que de resto logo suspeitei porque não falta

alli a assignatura de nem um só dos amigos mais dedicados do

tribuno, dos que cegamente o seguiam. Mas, se duvidas houvesse a tal

respeito, estavam tiradas em a nota que o Sr. Marques Gomes

encontrou nos apontamentos de seu pae, o dr. Francisco Thomé Marques

Gomes. Este apontou o dia em que assignou a representação, e

accrescenta que o fez a pedido de José Estevão.

[84] Vid. toda a _Prefação_ da 3.ª edição da _Historia de Portugal_.

[85] _O Bobo_, pag. 89 e 92.

[86] _O Bobo_, pag. 254.

[87] _Opusculos_, tom. III, pag. 30 a 32 da 2.ª ed.

[88] _Opusculos_, tom. III, pag. 83 e 84 da 2.ª ed.

[89] _Opusculos_, tom. III, pag. 63.

[90] _Opusculos_, tom. I, pag. IX a XII da 4.ª ed.

Alexandre Herculano(#30699) · 第 23 / 27 题