ESCUDOS DE FORTALEZA

Abrigava-se sob escudos impenetraveis a fortaleza de Alexandre

Herculano. Não se segue no mundo caminho recto, como elle seguiu, sem o

auxilio continuado de armas proprias para remover os obstaculos

infinitos que se nos deparam, sem o bordão em que o peregrino se apoia

para vencer asperrimos fraguedos. Não se mantem a firmeza de animo, que

foi talvez a maior gloria da sua auréola, sem a protecção de um nimbo de

sentimentos inaccessiveis a toda a corrupção e assalto de fraquezas. Em

torno da sua figura humana de athleta, adejam legiões angelicas,

baixando invariavelmente em seu soccorro, se as contingencias da sorte

transitoria, a que o seu ser mortal andava exposto, ameaçavam

prostral-o, feril-o ou desvial-o da derrota luminosa do seu sonho.

I

Guardava-o Deus de cair em tentação. Resoava-lhe do continuo nos ouvidos

a harpa do crente e, perpetuamente, sem hesitar, rendeu-se ás modulações

das suas cordas. Cria que «Deus era Deus e os homens livres». «A terra

vacillava ante o olhar do Senhor». «Louvaria o Eterno!» Quando se ergueu

a voz d'aquelle moço «velador de angustias», pallidas as faces, nas

veias a febre, alagada a fronte de um suor frio, os olhos humidos de

pranto e dentro do peito a dôr que o ia roendo; quando a poesia lhe

murmurou na alma a «ultima nota de quebrada lyra», «o triste adeus do

trovador que expira», que hymnos cantou, que visões perpassaram

«No delirio febril d'aquella mente

Que, balouçada á borda do sepulcro,

Volve apoz si a vista longamente?»

Turvou-o a _Desesperança_; segredou-lhe maldições do Deus que «por

insania» adorára. Aos pés do seu throno não chegavam os gemidos da

terra. A Providencia era uma crença vã, e mentia quando apontava ao

poeta, em ancia de gloria, a immensidade. Mas o _Anjo da Guarda_ impôz

silencio á rebeldia blasphema. Se o misero agonisante podesse

comprehender a amargura com que o anjo lhe chorava a perdição no amor

terreno, e a doçura que ha no affecto do homem aos mensageiros de Deus,

despiria, rindo, o corpo enfermo, para se lhes unir, «para aspirar o

goso celestial do amor sem termo». E logo, sem tardar, respondendo á voz

do anjo, a _Graça_ ungiu o moribundo. Era uma «harmonia suave», perante

a qual a sombra da morte se aclarou e o coração, alliviado do peso da

dôr, pediu «o hymno da oração em vez do canto irado». O poeta sentiu

então de novo o que o «revocava a Deus». Inspirava-o a esperança. E

adormece na Resignação, contricto, rogando ao anjo bom que não o

abandone na «hora fatal», e lhe repita aquelles segredos de doçura onde

aprendera

«Que é o céu a patria nossa;

Que é o mundo exilio breve;

Que o morrer é cousa leve;

Que é principio, não é fim»[68].

A successão dos estados da sua alma, os termos pelos quaes attingiu a

constituição ultima, a religião, «abrigo extremo», consolação de toda a

miseria terrena, da deshonra, do exilio ou da injustiça, essa formação

progressiva do seu ser espiritual, deixou-a Alexandre Herculano marcada,

estampada, na pintura da morte do trovador, de resto apenas um incidente

e exemplo, porque toda a sua obra poetica é uma profissão de fé quasi

ininterrompida. Em toda ella prevalece o cantico religioso sobre o

anceio mortal; resume-se em louvor, adoração e abdicação do homem em

face do principio divino, embora considere esse principio nas

modalidades transitorias, como convém ao poeta, embora o encontre e veja

com os olhos do corpo e da lembrança, extasiando-se em delicia, nas

capellas, nas ermidas, nos mosteiros, nos templos, pelos campos

desertos, pelos adros, pelos cruzeiros e pelos cemiterios das aldeias,

nas tradições e nos momentos ingenuos disseminados pela terra patria.

O confronto do caracter de Alexandre Herculano com o de José Estevão

poderá talvez definir melhor do que qualquer outra explanação os

attributos proprios de cada um.

Foram ambos figuras primaciaes da grandeza moral do seu tempo. Sel-o-iam

em qualquer epoca, culminantes. Resumem as duas formas mais nobres

da dignidade humana. E, todavia, quanto são differentes! Alexandre

Herculano procede por principio religioso; José Estevão por

humanitarismo. Um tira a sua força da obediencia a uma Vontade suprema,

que n'elle vive e se realisa mas que não é d'elle; o outro é arrastado

por sympathia e inspiração fraterna, basta-lhe para razão de heroismo o

sentimento da solidariedade, auxilio mutuo e reino da justiça entre os

homens. D'ahi, d'essa reducção essencial da sua natureza psychologica,

conjunctamente synthese e centro de derivação da vida de cada um

d'elles, as consequencias praticas diversas da expansão das respectivas

individualidades. Amaria José Estevão a vida civica e a vida urbana, até

mesmo caprichos e complexidades mundanas, o calor de carinhosas

amizades, tudo aquillo em que os homens se juntam mais estreitamente e é

filho do seu aturado commercio; inclinar-se-ia Alexandre Herculano á

solidão, ao labor silencioso dos campos, ao isolamento meditativo, a

tudo aquillo em que mais por completo podia conceber a invariabilidade

do divino e a relatividade das relações do contingente e do infinito.

Este nunca trocaria pela glorificação de faculdades humanas o culto

do Eterno, como era corrente nas revoluções do seu tempo que

trouxeram na rua, postas em andores, mulheres figurando a Razão. Ás

tendencias de Alexandre Herculano para o claustro, para a contemplação,

e para o estudo e apologia dos primeiros seculos do christianismo e do

seu vigor e dilatação na edade-media, corresponderia em José Estevão a

paixão politica e a actividade impetuosa, e o sentimento da justiça

fundada, não em determinação divina, mas na imposição dos principios

abstractos concebidos e affirmados pela intelligencia humana e em seu

nome enthronisados. Dum ao outro ia toda a distancia que medeia entre

uma philosophia, embora de affecto sublimado, e uma religião de amor

que, ainda por amor, algumas vezes será rigida em excesso, nada propensa

á indulgencia. E da diversa natureza do impulso fundamental veio a

diversidade de attitude no decorrer da existencia terrena d'aquelles

dois genios, conduzindo Alexandre Herculano ao recolhimento e á

fascinação do ermo, porque para elle de prompto se purificava n'esse

estado e se mantinha illesa a crença religiosa, a consciencia da

presença de Deus no universo e os estimulos de obediencia á sua vontade,

emquanto José Estevão, atravez de todos os desenganos e recobrando animo

de todos os desalentos, voltava constantemente á interferencia nos

combates das multidões, porque assim sentia de perto effectuar-se a

aspiração humanitaria, em absoluto dissolvida, reduzida a nada, fóra

d'esse ambiente. Para o crente, impregnado de adoração e abdicação, o

amor, mensageiro do Senhor e seu interprete, poderá encarnar em toda a

materia e em todo o orbe; não percebe quebra do principio divino ou

infidilidade aos seus mandados consagrando-se ás arvores e fugindo dos

logares em que o convivio dos homens é activo. Porém para o humanitario,

o amor, symbolisado em justiça e acção, só nos homens teria o seu

principio e não podia, por uma logica instinctiva e imperiosa,

desviar-se d'elles sem em absoluto se perder pela ausencia de objecto

que o consubstanciasse. José Estevão vivia cercado de amigos em todas as

contingencias da vida publica e da vida intima, nas alegrias e mágoas do

seu lar e nas luctas politicas; Alexandre Herculano, que tambem teve

amigos, e exaltados na admiração e no affecto, aliás retribuindo com

infinitos carinhos do seu coração, era facil em se refugiar no

isolamento e consolar-se de toda a amargura na beatitude do silencio da

vida ingenua, onde por certo acharia realisada e integra a aspiração de

serena e plena conformidade com a vontade do destino. Não valeria

tanto para o poeta religioso a meiguice das petalas das rosas como o

sorrir de labios humanos, e não mentiria menos á missão divina?

Assim tambem, ainda por consequencia de um mesmo pendor, a religião que

para Alexandre Herculano era uma força intima, immanente, inflexivel, e

por isso essencialmente sujeita a suscitar conflictos insoluveis com a

ordem mundana, para José Estevão podia sem difficuldade acceitar-se em

termos de compromisso entre necessidades presentes, tradições e

principios eternos, resolvidos os antagonismos, quando se declarassem, a

beneficio da paz publica e dos interesses da sua causa. O caso de

consciencia, intransigente na primeira d'essas duas concepções

religiosas, admittia na segunda concessões mutuas e limites

convencionaes, formulas de conciliação politica, subordinada por

momentos á salvação da republica, e por contradicções estranhas, mas

afinal beneficas, corroborando-se e negando-se ao mesmo tempo. O clero,

a egreja constituida, não quiz mais a José Estevão do que a Alexandre

Herculano, mas por differente motivo. Um desfazia-lhe a virtude dos

milagres, atacava-o na capacidade intrinseca e arguia-o de traição a

Christo: o outro deixava-lhe a liberdade dos milagres e não o

incommodava nas relações divinas, e apenas se esforçava por lhe

restringir o despotismo e as cobiças terrenas, cerceando-lhe regalias e

reduzindo-lhe a auctoridade de adquirir, mandar e dispôr, e accusando-o

de infidelidade aos interesses do povo e da nação[69].

O confronto do modo de ser religioso d'esses dois grandes caracteres não

significará, todavia, que a religião de Alexandre Herculano fosse

inactiva, e muito menos deshumana. Revelará apenas que a sua alma,

religiosa por essencia, dependente conscientemente de uma outra alma

infinita e eterna, da qual se reconhecia mero instrumento e frouxo

reflexo, encontrára, por virtude d'essa constituição e prisão, as

obrigações supremas de vida entre as quaes a primeira seria o amor,

imposto pela abdicação no principio divino. O humanitarismo não seria

n'esse systema de deveres uma religião, como de facto foi no sentir de

José Estevão; consubstanciaria sómente a summula dos deveres religiosos,

e manifestamente aquelles a que Alexandre Herculano mais quiz e com

extremo ardor se consagrou. O mundo estava subordinado a Deus; e não

seria absorvido pela humanidade, renegando a subordinação, posto que na

humanidade tivesse a obra de Deus mais bafejada do seu alento.

De resto, a emoção religiosa em Alexandre Herculano, sendo christã e

demais educada na tradição do christianismo latino, tão rematadamente

caridoso e, por concreto, distante da abstracção cruel em que redundou

no espirito oriental, não poderia tender ao extasi, esteril e mortifero

além do resgate individual, mas logo se transfundiria na objectivação

pratica, na traducção do seu principio dominante em forma e movimento,

em acção. Não resultaria em ascetismo, mas na moralisação de todas as

energias organicas, aliás livres em sua esphera, reconhecendo-se-lhes a

legitimidade da expansão. Assim como lhe impunha entre os impulsos

iniciaes o amor da terra e da patria, levava-o consequentemente ao amor

dos homens que a povoam e á intervenção em toda a complexidade das suas

relações, tão extensas na multiplicidade de manifestações e aspectos

como coordenadas e indivisiveis na unidade do espirito que as liga e rege.

Esse amor illuminara-se duma vez para sempre aos olhos de Alexandre

Herculano no «clarão do Evangelho triumphante». Toda a consolação e todo

o saber encontrou no «Verbo que renovou o mundo corrompido». Os

arrebatamentos do poeta, as affirmações do publicista e os combates do

soldado e do apostolo, toda a sua vida e toda a sua obra estão

repassadas de christianismo. Vibra em cada palavra e em cada gesto, nas

victorias e no desalento, na ira e nas bençãos, na lucta e no repouso.

Até a propria historia e a obra d'arte imaginativa, não menos que a

contemplação da natureza, seriam para elle desenvolvimento de verdade

religiosa do christianismo e ensejo da sua propagação. A visão da cruz e

a atmosphera moral que d'esse symbolo irradiava, acompanhavam todos os

passos do sonhador; os seus poemas são uma floresta espessa de cruzeiros

e templos onde de continuo perpassam murmurios de orações e canticos de

louvor. Toda a enredada architectura do _Monge de Cistér_ parece

erguida, quando no conjuncto a observamos, para inscrever alli, em

traços d'uma fulguração diamantina, a sentença do Evangelho que lhe

serve de fecho:--_Se não perdoardes, tambem Deus te não perdoará._

Humanisou o christianismo; quebrou-lhe a rigidez e a seccura,

amortecendo os rigores da consciencia, que elle facilmente accusa, pela

uncção da suavidade, que a cada passo vae derramando entre os homens.

Mais do que isso: soube como ninguem, pelo poder do genio, trazel-o á

terra, infundil-o em todas as cousas creadas, vividas e sentidas,

infundil-o em a natureza inteira por uma insinuação cheia de

mysterio, que todavia nos arrebata em encantos de doçura e luminosidade

intraduziveis. Esse dia santo, que elle celebrou com palavras que ficam

como pergaminhos da nobreza de uma geração e seu orgulho, maravilha da

união subtil mas vigorosa do amor divino e do amor terreno, do amor das

cousas da terra santificado pela presença de espiritos angelicos, será

perpetuamente o espelho da candura religiosa. «Um dia santo; um dia

santo!...» disse o poeta comovido, deixando transbordar os seus

affectos. «Assim juntas, estas duas palavras são as mais sonoras, as

mais pinturescas, as mais saudosas da nossa lingua; para mim, ao menos.

De todas essas memorias passadas, cujas ruinas o descrer da edade de

homem me tem alastrado pelo coração, uma sei eu que vive ainda n'elle

fresca e viçosa, e que me parece morrerá só quando eu morrer. É a

lembrança dos dias santos dos meus tenros annos. Um domingo de então

ainda me sorri suavemente quando deito olhos longos para o caminho

tortuoso e agro, por onde já derramei, sem saber como, um terço de

seculo da vida. Na orla d'esse horisonte crepuscular do passado

avulta-me a capellinha da habitação da infancia ao dia santo, e o altar

com os seus castiçaes de talha dourada e as jarras de flores, que lá se

punham no sabbado á noite, e o alevantar cedo para todos e tudo

estar lavado, espanejado, escovado e ordenado para a missa. Sabe Deus

com quanta fé e devoção a minha alma tenra se balouçava na toada

monotona que murmurava o velho frade arrabido, calvo e macilento, cujo

burel desapparecêra debaixo das vestes variegadas do sacerdocio! Atravez

da alta gelosia o sol vinha, semelhante a uma columna de vidro amassado

com pó de ouro tombada do seu pedestal, bater de soslaio nos degraus do

altar. As luzes trémulas das velas, cuja claridade se annulava no

esplendor do dia, pareciam-me espiritos que se inclinavam esperando a

presença real de Deus para o adorarem. Depois o frade que viera de

longe, do convento de Ribamar ou da Boa-viagem, almoçava e jantava. E

todos estavam contentes; porque era um santo mas jovial frade o bom do

arrabido, e contava historias que era um pasmar. N'aquelles dias

abençoados juraria eu que a folhagem das arvores era de um verdor mais

vivo, os fructos mais saborosos, o ar mais diaphano, a agua mais

transparente, o ceu mais azul, e até as alfaias da casa mais novas, e o

caio dos muros mais alvo. Á tarde corria pela relva com os outros moços

da minha edade, e travava luctas e gritava e ria e suava e

tripudiava nos jogos e brinquedos que são proprios d'aquella edade;

mas quando o sol descia para o horisonte ia assentar-me á sombra de uma

grande nogueira, sósinho, a ouvir cair n'um tanque uma pequena bica

d'agua, e alli ficava muito tempo a scismar. Em que? Eu sei lá! Em nada,

provavelmente. Mas scismava e sentia levantar-se-me no coração um

fumosinho de tranquilla melancolia, fumosinho, que se condensava

brevemente nos olhos em lagrimas, que não chegavam a rolar, mas que

n'elles bailavam. E alli me achava á noite, e buscavam-me, e

desfaziam-me o encanto; mas ficava-me cá a saudade... Domingos dos doze

annos, em que o meu espirito se harmonizava com o hymno eterno da

natureza, salvé! A gloria litteraria, o amor da independencia, e talvez

até o orgulho de proceder honesto, todos os meus sonhos de ambição

dal-os-ia a troco de me sentir viver comvosco; comvosco, oh dias santos;

porque os outros, esses, se não eram palidos como os de hoje, eram

acres, dolorosos, inquietos. As paixões fervidas e insensatas da

mocidade vinham chegando; e como que já sentia rugir a pouca distancia

as tempestades que iam agitar e devorar-me os annos mais bellos da

vida... Não tenho saudades dess'outros dias. Não tenho. Deixal-os ir. É

pelos meus ricos dias santos de então que eu hei de sempre chorar.

«Ainda hoje ha um individuo, que exerce singular predominio sobre mim, e

ignora-o. É o sineiro da minha meio-rural, meio-urbana parochia. Na

escala das reputações de sinos, os da minha freguezia occupam logar

modesto, e todavia, quando repicam antes da missa do dia, sinto passar

em volta de mim uma como aura fugitiva dos dias santos da meninice, e o

sol illumina-se da luz d'aquelle tempo. O repique, por estes sitios, é

ainda patriotico e tenaz: ainda não o perverteu a peste da civilisação.

Nem as cantigas populares, nem as harmonias do theatro se atreveram a

pôr pé sacrilego nos degraus do campanario. Abençoado sineiro, que me

parece has de morrer abraçado com as tradições do teu antecessor. Oxalá

que, se eu te sobrevier, tenhas um herdeiro digno de ti! Mal sabes tu,

quando no teu ardor d'artista te penduras por essas cordas, e as fazes

vibrar, saltando de um a outro lado, banhando-te numa catadupa de sons

estrugidores, que se despenham sobre ti, jorram pelas sineiras, e vão

ennovelados esmorecer por esses ares; mal sabes tu, que, a certa

distancia, no alto da montanha, alguem larga o livro, a pena, as ideias,

e fica abstracto e immovel a aspirar as harmonias que lhe mandas

frouxas, sacrosantas, ricas de saudades da infancia! Mal sabes tu

quantas cogitações profundas, quantas dôres do espirito tens suspendido

com essas divinas toadas. Oh, que se me podesses restituir a capella, e

o velho arrabido, e a sua missa, e as suas historias, e o murmurio que

tinham outrora as pequenas bicas a correr nos pequenos tanques, e a

sombra que davam as nogueiras, e a melancolia do sol posto de ha vinte

annos; se tal podesses!... Eu sei!? Caindo adorar-te-ia, fosses Deus ou

Satanaz.

«Ai, não pódes; não pódes! Isto tudo sumiu-se. Hoje sou cidadão, jurado,

eleitor, homem de lettras; podia ser commendador, conselheiro,

governador civil, deputado, ministro, se navegassem para esse rumo as

minhas ambições, e Deus me houvesse concedido o ser um nada mais parvo.

«Vida positiva, realidade do mundo, se tu fosses uma realidade tangivel,

uma realidade que sentisse, uma realidade real, quizera ver-te jazer

ante mim, para te pôr um pé sobre os peitos e calcar-te e cuspir-te nas

faces! Só isto me consolava das saudades dos dias santos infantis e

d'este viver miseravelmente desbotado.»[70]

Esta interpenetração das cousas e da alma, esta vibração unisona da

essencia etherea do espirito e da materia visivel e palpavel, esta

harmonia religiosa da consciencia e de toda a creação terrena, marcarão

a orbita da qual nunca se affasta a alma de Alexandre Herculano.

Em Val-de-Lobos, no ermo da sua clausura, construiu uma capella. A

religião carecia de symbolos, e reclamava para si um pedaço de terra

onde os guardasse e fossem invocados e venerados. N'elles se havia de

encontrar e integrar a adoração de Deus em espirito e nas visualidades

tangiveis. O idealismo germanico e o symbolismo romano juntavam-se e

completavam-se fundindo aspirações do espirito, absolutas na sua

abstracção, e tradições da ordem terrena, essenciaes tambem pela

permanencia e pela vitalidade historica, e captivantes pela belleza

sensivel. E, assim, o templo, a que Deus descia para olhar os homens,

seria o degrau mais alto a que os homens subiam para vêr a Deus.

Alexandre Herculano(#30699) · 第 22 / 27 题