APPARIÇÕES E ESPECTROS

O poeta tinha uma missão na terra. O Deus que na consciencia se lhe

revelava e elle adorava, não era um principio de puro extasi e absorpção

contemplativa, uma corrupção da energia organica no arrebatamento e na

abdicação de todo o desejo proprio, mas uma vontade determinando a

acção, desenvolvendo-se de continuo nas cousas da terra, exigindo dos

homens de fé que se subordinassem ao seu imperio, e lhe traduzissem a

essencia nas realidades contingentes e mortaes.

Sentindo no intimo o dominio d'essa vontade suprema, Alexandre Herculano

logo cogitou os modos de a cumprir, tão perfeitamente quanto em suas

forças coubesse, e sem tardar se entregou á execução dos seus mandados

com uma fidelidade absoluta.

I

Ordenava-lhe Deus que servisse a patria, a gloria e a virtude.

Deus á poesia deu por alvo a patria

Deu a gloria e a virtude[31].

Mas o que era a sua patria? Que queria ella do seu affecto? Como

conhecel-a e concebel-a, para se identificar com a sua vida e encorporar

o impeto do seu genio no pulsar d'essa vida maior que a sua,

commungando-lhe da aspiração e n'ella se abrazando, immolando-se ao seu

triumpho?

«Os annos e os seculos confundem-se e igualam-se deante da vida perpetua

do universo»[32].

Ha uma eternidade no mover das cousas do mundo que Alexandre Herculano

não ignorou; ha uma continuidade e repetição que apaga a distancia, o

espaço e a individualidade, as distincções entre o dia de hoje e o dia

de hontem, entre o pólo e os tropicos, entre o rochedo e o homem, entre

as raças, nações e epocas. Mas a repetição e a continuidade operam-se

pela renovação successiva, pela dissolução e reconstituição incessantes;

as distincções e as distancias, de cujo confronto e verificação ha de

resultar a percepção da unidade, só se revelam nas creações ephemeras e,

para bem servir o eterno, havemos de o sentir e amar na caducidade a que

descer, no transitorio e momentaneo.

«Debaixo dos pés de cada geração que passa na terra dormem as cinzas de

muitas gerações que a precederam»[33], e só ligando a nossa geração

áquellas de que procede, conseguiremos, por nossa vez, encarnar a

vontade divina. Sendo a mesma atravez dos seculos, demanda para

integridade da sua expressão a filiação estreita dos seres em que se

mostra.

D'ahi vinha que o poeta, para se guiar no presente olhava para o

passado, procurando descortinar-lhe as tendencias e a direcção, os

affectos e as aversões, os beneficios e os damnos, a robustez e a

fraqueza, a luz e as trevas, as bençãos e os castigos; e assim, por amor

da «patria», mandamento da lei do seu Deus, e á força de escavar,

observar e meditar, viu-se cercado de apparições bemfazejas e espectros

terriveis, surgindo das brumas que o olhar inflammado de sublimadas

paixões penetrava, encaminhando-o «á gloria e á virtude», mandamentos

tambem do seu Deus, e defendendo-o da queda em abysmos de ignominia e

tortura. «Pelos becos tortuosos, sombrios e lodacentos» da cidade,

embrenhando-se no «labyrintho de terreirinhos, escadas, pateos, arcos,

passagens, indelineaveis e enredados como meada a que se perdeu o

fio»[34], Alexandre Herculano ia procurar no amontoado informe dos

restos do passado a revelação do seu fausto e da sua miseria, das suas

degradações e da sua nobreza, de todos os seus impulsos, para os exaltar

no que tivessem de elevado e digno e para os condemnar no que

encerrassem de vil. «Muitas vezes passava largas horas deante dum portal

de capellinha carcomida como velha enrugada; deante duma hombreira

partida, onde apenas se divisavam cansados e gastos lavores da arte da

edade media»[35]. Interrogava as pedras, a saber se as suas confissões

confirmavam as palavras dos homens; remexia a poeira, sobre a qual

pesavam annos innumeraveis, a experimentar se, posta á luz do sol, lhe

descobria ainda particulas palpitantes da vida d'outras eras; e dos

lichens e musgos, cobrindo ruinas, desprendia lembranças que alli se

tinham abrigado de contrariedades, e redivivas lhe vinham contar

desgraças infinitas e magnificas victorias, esperanças e desenganos,

paixões ruins e ardor santo, penas e bemaventuranças. De tudo tirava

ensinamento avidamente, confiado em que por seu influxo havia de se

salvar ou perder, conforme o empregasse, e por elle tambem, a sua

patria, o chão onde nascera e os seus irmãos que o habitavam,

encontrariam a felicidade ou a desventura.

A riqueza que n'essas peregrinações amontoou e nos legou, é estupenda; e

o uso que d'ella fez, os sanctuarios em que devotamente a enthesourou,

as edificações que com ella ergueu e onde a recolheu, o espirito em que

por toda a parte a purificou e ungiu, ficaram como monumentos de

perpetua gloria do povo portuguez, attestando o poder mental da raça e a

susceptibilidade, d'óra avante para sempre provada, da grandeza

religiosa da sua alma.

A epoca de Alexandre Herculano favoreceu-lhe singularmente as

inclinações do espirito. A exploração historica entrava no

desenvolvimento assombroso de que as gerações modernas são testemunhas,

colhendo-lhe os copiosos e preciosissimos fructos. A Allemanha, paiz que

Herculano considerou, «por via de regra, o fóco de toda a sincera e

verdadeira sciencia»[36], chamava a attenção da mocidade para uma

renovação da arte, «a qual veio dar nova seiva á arte meridional que

vegetava na imitação servil das chamadas lettras classicas, e ainda

estas estudadas no transumpto infiel da litteratura franceza da epoca de

Luiz XIV»[37]. E as formas em que esse renascimento se fundia e

estampava eram abundantissimas, desde o trabalho de erudição rigida e

analyse minuciosa até á novella opulenta de trajos resplendentes,

palpitante de movimento e pujança no perpassar das multidões que

desfilavam por deante dos nossos olhos atonitos, misturando lances

dramaticos e gargalhadas comicas, placidez, heroismo e abjecção,

generosidades e cobiças, ostentando sem reservas nem piedade todo o

vigor e anceio do coração das sociedades nas conjuncturas infinitas a

que a fatalidade o traz sujeito. O romance historico, ou a novella

historica, como então se lhe chamava, iniciada na Inglaterra por um

talento de rara fertilidade e fascinação, espalhava-se na Europa

inteira, abrindo caminho para desusadas concepções da litteratura e da

arte. Associando as cousas vividas e as cousas sonhadas, a imaginação e

a realidade, embora producto d'uma alliança hybrida perigosa que

constrangia a imaginação pelas pressões da realidade e desfigurava a

realidade pelas violencias da imaginação, o seu apparecimento assignala

um fermentar de fecundidade inexaurivel e o descerrar de largos

horisontes. Corrigiu com elementos sãos e de verdade os desregramentos

da phantasia morbida, entontecida pela vertigem de liberdade infinita;

conduziu á comprehensão das possibilidades, fundadas, logicas,

acautelando-nos dos desenganos de ambições e esperanças insensatas;

produziu salutares effeitos educativos. Na verdade, disciplinou e

moralisou a imaginação, infundindo-lhe a consciencia do limite,

obrigando-a a mover-se na esphera do facto e nos termos por elle

marcados. Influiu até, em ultimo mas não menor resultado, no modo de

comprehender e escrever a historia. Sem embargo, por virtude de

influencias geraes contemporaneas mas um pouco, incontestavelmente, pela

repercussão das tendencias da litteratura imaginativa, a historia

começou a esquecer-se da narração dos feitos d'armas e a emancipar-se do

deslumbramento de façanhas heroicas e entrou com um esplendor sem

precedente na resurreição integral dos seculos passados, tomando-lhes em

conta todos os factores, apreciando e coordenando os multiplos poderes

que collaboram na vida social dos povos e das nações, perante os quaes

se reduz a proporções inferiores a efficacia da acção individual;

dirigindo «as indagações historicas mais para o estudo da indole das

sociedades do que para os actos dos individuos»[38]; verificando a

concorrencia do clima, da situação geographica, das raças e dos

accidentes do destino nos caracteres das diversas civilisações,

representando-as e reconstituindo-as na plenitude da sua substancia.

Coube á novella historica um papel de feliz equilibrio, accudindo por um

lado áquella necessidade de exactidão e rigor scientifico que cada vez

se exigia com maior instancia, annunciando a prodigiosa altura a que a

ergueu a segunda metade do seculo XIX, e por outro lado deixando ainda

livre curso e largo campo á liberdade da imaginação, que a ruptura e

ruina da antiga ordem e de vinculos caducos provocava a reclamar os seus

direitos. Todo o devaneio e ingenua falsidade do romance historico,

todos os seus exaggeros, correcções e corrupções, quasi invariavelmente

motivados por desejos candidos de dar formosura e realce a muita cousa

que merecia ser amada: os seus vicios e deficiencias estrictamente

litterarios, porque para o produzir eram necessarios estudos aridos e,

«no meio de estudos tediosos e positivos, é impossivel que o imaginar

não descore, que o estylo não ganhe asperezas»[39], e obliteram-se

faculdades creadoras essenciaes--todas essas faltas merecem prompta

indulgencia, quando consideramos os beneficios de que elle foi vehiculo

no progresso do pensamento humano. Que profundezas não cavou e abriu á

nossa meditação a novella historica! Que clareza de visão do nosso ser

não nos deu, como nos protegeu de fraquezas e errores dum imaginar sem

lei, confiado a mero capricho, que estabilidade não nos infundiu! Com

que delicia não nos insinuou o sentimento da immutabilidade das cousas e

dos homens, a impossibilidade de nos esquivarmos a moldes, regras e

sujeições, que se tornaram como ingenitas pela diuturnidade da sua

influencia, e de que circumstancia alguma é capaz de nos isentar! Quanta

vaidade desfez, que loucuras d'orgulho não dissipou, que vigor não nos

infundiu, que alma nova e bella não ajudou a crear e a alimentar, em

logar d'aquell'outra, desnorteada e turva, formada nos turbilhões da

poeira intellectual e moral erguida do ruir do velho edificio!

Convertendo-se em propulsor energico do conhecimento da historia, em

todos os aspectos da vida social, e simultaneamente sua filha e escrava,

a novella alimentada n'esse riquissimo manancial foi, sem duvida, obra

de grande proveito na jornada das nações e dos homens para os reinos

luminosos de paz e felicidade, a que tão lenta e dolorosamente se

encaminha. De todas as bençãos são dignos os trabalhadores pacientes e

apostolos que lhe desprenderam de nuvens a claridade.

Teve Alexandre Herculano a incontestada gloria de desbravar na

litteratura portugueza esse campo tão fecundo como saudavel. Elle mesmo

nol-o confessa na _Advertencia_ do primeiro volume das _Lendas e

Narrativas_, cujos merecimentos se lhe afiguravam minguados pela

inexperiencia, pela «singeleza da invenção, pouca firmeza no contorno de

alguns caracteres e o menos bem travado do dialogo»; mas quiz

colligil-as, tentando apenas preservar do esquecimento «as primeiras

tentativas do romance historico que se fizeram na lingua portugueza,

mormente dos esforços do auctor para introduzir na litteratura

nacional um genero duplamente cultivado, n'aquelles tempos, em todos os

paizes da Europa». «Na historia dos progressos litterarios de Portugal,

desde que a liberdade politica trouxe a liberdade do pensamento, e que o

engenho poude apparecer á luz do dia sem os anginhos de uma censura tão

absurda na sua indole, como estupida na sua applicação e esterelisadora

nos seus effeitos», n'essa historia, dizia, aquella nova edição,

reunindo pequenos romances e narrativas, que andavam dispersos em

volumes separados e em publicações periodicas, devia ser julgada

principalmente com attenção «á prioridade das composições n'ella

insertas, e á precisão em que, ao escrevel-as, o auctor se via de crear

a substancia e a forma, porque para o seu trabalho faltavam

absolutamente os modelos domesticos».

Desconfiava do talento com que produzia as primicias d'essa renovação

litteraria, mas tinha certeza e fé na fecundidade e belleza dos

resultados que promettia, sobretudo no resurgimento moral que nos

infiltraria. «Fossem as memorias da patria, que tivemos, o anjo de Deus

que nos revocasse á energia social e aos santos affectos da

nacionalidade. Que todos aquelles a quem o engenho e o estudo

habilitavam para os graves e profundos trabalhos da historia se

dedicassem a ella. No meio d'uma nação decadente, mas rica de tradições,

o mistér de recordar o passado era uma especie de magistratura moral,

era uma especie de sacerdocio. Exercitassem-no os que podiam e sabiam;

porque não o fazer era um crime. Que a arte em todas as suas formas

externas representasse esse nobre pensamento; que o drama, o poema, o

romance fossem sempre um ecco das eras poeticas da nossa terra. Que o

povo encontrasse em tudo e por toda a parte o grande vulto dos seus

antepassados»[40].

N'esse «quinto imperio de mentecaptos dissertadores e mexediços»[41],

em que por sua desgraça se via involvido e de cuja inanidade

e degradação tremia, n'essa liberdade de especulação e impudor que foi a

primeira das liberdades asseguradas ao fim de tantas batalhas e

sacrificios, já aterrado pela ruina e devastação de toda a casta,

material e moral, no meio da qual se debatia, tropeçando e

ensanguentando-se a cada passo nos destroços de tanta cousa querida e

digna de ser amada, clamava aos homens de espirito são e coração puro

que corressem a defender e guardar o patrimonio das nossas infinitas

riquezas, desbaratadas pelas mãos ignorantes e sacrilegas de ambiciosos

depravados e sordidos, e de imbecis não menos funestos do que os

mercantes ingenuamente avidos e cynicos. «Com a rapidez da colera ou da

peste corria por todos os angulos de Portugal e encasava-se em todos os

povoados uma cousa hedionda e torpe, que, inimiga do passado e do

futuro, se chamava illustração; que tendo por logica o escarneo e por

syllogismo o camartello, se chamava philosophia. Deus a mandára ao mundo

como mandou Attila e a Inquisição, como um verbo de morte. Seu mistér

era apagar todos os santos affectos da alma, e incarnar no coração, em

logar d'elles, um cancro para o qual nossos avós não tinham nome, e que

estranhos designaram pela palavra _egoismo_. Que se apressasse aquelle

que quizesse guardar alguns fragmentos do passado para as saudades do

futuro; porque a illustração do vapor e do atheismo social alli ia

livelando o que foi pelo que era, a gloria pela infamia, a fraternidade

do amor da patria pela fraternidade dos bandos civis, as memorias da

historia gigante do velho Portugal pelo areal plano e pallido da nossa

historia presente, a obra artistica pelos algarismos do orçamento, o

templo de Christo pela espelunca do rebatador. Que se apressasse;

porque esses rastos dos antepassados que o tempo e os incendios, e os

terremotos nos deixaram, não nol-os deixaria o descrer brutal d'aquelle

seculo, que a historia distinguiria pelo epitheto de bota-abaixo, e cujo

legado monumental para os seculos que viriam após elle seria um

cemiterio immenso; mas cemiterio sobre o qual não se elevará sequer a

humilde distincção d'uma cruz»[42].

Elle, por sua parte, dava-lhes exemplo. No sagrado trabalho a que

chamava os outros era o primeiro, infatigavel no ardor com que lhe

votára uma energia e capacidade de todo o ponto raras, e copioso na

abundancia com que desentranhava diamantes de filões obscuros e nunca

encetados, e até muitas vezes desprezados, estando aliás bem patentes á

luz do sol, de continuo pisados pela vulgaridade obtusa. Foi assim que

nos deu o _Eurico_, o _Monge de Cistér_, _Lendas e Narrativas_, _O Bobo_

e mil outras pequeninas joias prodigamente dispersas onde quer que o seu

genio passasse, em qualquer assumpto sobre que discorresse.

Sem duvida, nem sempre o fez com perfeição. Muitas d'essas joias ficaram

por lapidar, ou melhor, foram lapidadas de modo que não lhes poz em

evidencia todo o seu brilho. As suspeitas de Alexandre Herculano quanto

á sua obra d'arte imaginativa, eram fundadas. «A singeleza da invenção»

tocou por vezes a pobreza de esqueleto; «a pouca firmeza nos contornos

de alguns caracteres» aqui e além se manifesta, enfraquecendo-os por

insuficiencia d'accentuação, não lhes facultando ensejo de intervirem em

situações tão multiplicadas e diversas que a diversidade de conjunctura,

coincidindo com a identidade de proceder, ponha bem clara a

invariabilidade das feições; e ao dialogo, embora habitualmente «bem

travado», contra o que o auctor aventa, acontece com frequencia

encurtar-se e terminar muito áquem do desenvolvimento necessario ao

pleno effeito de impressão. Mas todas essas faltas, que em outros seriam

grandes, porque a magreza das creações não lhos dispensava cuidados de

trajo, a debilidade da estructura carecia de se occultar na opulencia do

adorno e só por si, sem o amparo e esmero do involucro, não se sustinha

nem realçava, todas essas faltas em Alexandre Herculano somem-se na

torrente d'um cabedal avultado, cuja enorme somma nos confunde e

avassala. Ou procure esboçar-nos o quadro d'uma epoca, como no _Monge de

Cistér_, ou se restrinja ao desenho de simples incidentes, como nas

_Lendas_ e demais obras d'igual natureza, a exuberancia da seiva que

as nutre, a intensidade de vibração psychologica que as anima e o grau

de concentração em que tudo isso se nos revela, são um facto unico na

litteratura portugueza, um limite nunca antes nem depois de Alexandre

Herculano excedido ou sequer alcançado. O que nos fica na lembrança

quando pousamos qualquer d'esses livros, por magia igualmente deliciosos

e severos, é um torvelinho indescriptivel de objectos estranhos e não

menos estranhos espiritos. Se a riqueza é grande em materia

descriptivel, trajos, moveis, armas, habitações, combates, festas,

jogos, banquetes e bens do mundo, movimento e côr, não é inferior na

prodigalidade de aspectos moraes; n'esse tropel de servos e senhores, no

conflicto de dependencias e instituições, a violencia do drama, riqueza

tambem e preciosa em todos os tempos, não cessa de jorrar um instante,

agitando de ondas humanas as materialidades ambientes, espargindo-se em

uma atmosphera de ambições, de cobiças, de hypocrisias, de traições, de

heroismo e dedicação a par da mesquinhez e da perfidia, de grandeza e de

miseria, de todas as paixões emfim que constituem e eternamente hão de

constituir o supremo mysterio e seducção suprema da nossa alma. Porque

todas essas cousas que Alexandre Herculano resuscitou as tirou das

cinzas, não para por si só reviverem mas para de novo se mostrarem nas

suas relações com os homens; por isso que no passado adivinhou problemas

d'uma actualidade perpetua, por isso os seus romances nos prendem e

vencem, rendendo-nos á apreciação e ao peso de forças immortaes, communs

ao passado e ao presente, mostrando-nos docemente o passado no presente

e o presente no passado. Esta unidade da historia realisada na unidade

do coração humano atravez de todos os tempos e modos, ergueu-lhe a

phantasia litteraria a tal altura que não podia perturbar-se-lhe a

grandeza por escassez de adornos, de refolhos de expressão ou

fertilidade de invenção--revestimento, tantas vezes enganoso, d'uma real

e profunda inanidade, supprida por alimento succulento para os que por

sua fortuna e gloria foram dotados de excellencia authentica de faculdades.

Mas «no meio de estudos tediosos e positivos é impossivel que o imaginar

não descore», dizia-nos o mestre no escrupulo da sua franqueza; e, por

certo, dizendo-o tinha em lembrança a sua propria experiencia. Emquanto

se afferrava a compulsar e a interrogar a historia, e o amor da patria

lançára-o n'esse caminho e ahi o mantinha quasi sem admittir desvio,

o espirito tornou-se cada vez menos indulgente com os errores da

imaginação, menos docil para as suas exigencias, menos affeiçoado aos

seus prazeres; enamorado de realidade extrema, deixava affrouxar sem

saudades impulsos creadores, e nem sequer tentara conservar-lhes a

vivacidade primitiva. De facto, o sonho ia descorando; desvanecia-se. As

tendencias, de sua natureza divergentes e algum tempo conciliadas por

muito e subtil engenho, recobravam independencia e em campo proprio

abrigavam-se da rudeza dos attritos que as enfraqueciam, inutilisando

largo capital, sacrificando a embates e antagonismos bens valiosos,

perdidos em restricções obrigadas e concessões mutuas indeclinaveis. O

novellista e o poeta tinham de abdicar nas mãos do historiador, para o

deixarem livre de toda a coacção, não todavia tão absolutamente que lhe

privassem as obras dos reflexos da presença de tão leaes servidores,

nunca de todo affastados, mas apenas distanciados o bastante para o

dominio e evidencia da robustez herculea do mineiro e escriptor do

passado. Desembaraçou-se do enleio em forças estranhas, e, desprendido

das paixões e artificios que abalavam a affirmação e a impediam de

accentuar-se e dilatar-se, foi então até onde o incitavam a chegar uma

abundancia e valor de materiaes desentranhados dos archivos e uma

lucidez de interpretação, até aquella data ignoradas em terras

portuguezas. Embora os caprichos de narrativas romanticas muito

encantassem, estorvavam todavia o inteiro desenvolvimento da capacidade

de revelação, justamente avida de ostentar-se na plenitude do seu vigor.

Necessario se tornou ceder-lhe a preponderancia.

Singular fortuna! Exactamente quando a arte não buscava e só d'uma

extrema exactidão historica cuidava, Alexandre Herculano produziu a sua

mais bella obra d'arte. Em nenhum dos seus trabalhos, e é de notar que

em toda a ordem do pensamento humano discorreu, alcançou a lucidez, a

ponderação, a singeleza e a elasticidade de forma que attingiu na

_Historia de Portugal_. Olhamos com temor para os seus quatro volumes

bem providos de citações, de factos e referencias, tumidos de velharias

extravagantes e termos obsoletos na linguagem e nos objectos que

significavam, suspeitamos do peso do saber e agouram-se-nos enfados de

repetições e minucias, de analyses prolongadas e discussões infinitas; e

vamos encontrar uma suavissima lição, rapida sem insufficiencias

levianas nem obscuridade de precipitações e lacunas, profunda sem

oppressão e cansaço de dissertações ociosas, sem a fadiga de

esforços de attenção e applicação á destrinça de elementos agglomerados

ao acaso e mal ordenados, lição tão segura quando tem motivos de

affirmar como discreta quando pressente alguma duvida, infundindo-nos um

encanto e confiança que d'um só golpe nos subjugam e nos arrancam

applausos de admiração e de affecto sorridente e grato a quem nos

concede um elevado e purissimo prazer e o fabricou, para nosso bem e

cultura, á custa d'um trabalho gigantesco.

Exemplifiquemos. É desnecessario escolher, ou antes, é inutil. O tecido

é d'uma tão unida igualdade que em todo o ponto ostenta a homogeneidade

e o bem ligado da trama, a constancia da côr e a suavidade e rythmo da

ondulação:

«A actividade de Sancho ou, talvez antes, do seu habil ministro, o

chanceller Julião, é na verdade admiravel, se attendermos aos

multiplicados objectos pelos quaes naquella epoca essa actividade se

repartia. No meio de uma guerra violenta com Leão tratavam-se as graves

questões politicas de que procurámos acima dar uma ideia, bem que

necessariamente imperfeita. Não era, porém, só isso. Na mesma

conjunctura em que se promovia a povoação por uma e outra margem do

Tejo, entregando-se ás ordens militares, principalmente aos

templarios, vastos territorios, onde estas corporações poderosas pouco a

pouco iam estabelecendo aldeias e granjas e fazendo arroteamentos, saiam

de Portugal agentes encarregados de conduzir das regiões centraes da

Europa novas colonias que supprissem a escasseza das que desciam das

provincias septemtrionaes do reino. Este encargo devia ser dado com

preferencia aos estrangeiros já estabelecidos no paiz e cujas relações

com a sua patria natural os habilitava para atrairem novas migrações á

patria adoptiva. A doação de Pontevel feita em 1195 ás antigas colonias

da Lourinhã e de Villa Verde, presuppõe um incremento de população mais

rapido do que poderia resultar do seu desenvolvimento natural: e assim

cremos que esses municipios haviam augmentado com os aventureiros que

vinham buscar melhor fortuna n'este paiz hospitaleiro. Entre as

providencias que se davam já em 1198 para tornar menos solitarias as

provincias meridionaes, devastadas pela longa e variada lucta da

conquista e pelas recentes invasões dos almohades, foi uma das mais

importantes diligencias a vinda de novos colonos. Offerecia esta gente

duas utilidades; porque, não só servia para ir desbravando os logares

ermos, mas era tambem seminario d'onde se podiam transplantar para

os campos de batalha valentes homens de guerra. Guilherme, deão de

Silves, que, segundo parece, ahi ficára com o bispo Nicolau na occasião

da tomada d'aquella cidade aos musulmanos, expulso da nascente diocese

pela terrivel reacção de Yacub, passou a Flandres, d'onde voltou com bom

numero de companheiros, deixando muitos outros alistados para depois o

seguirem. Era o chefe principal d'esta colonia flamenga um certo Raolino

(Raulin?). Destinaram-lhes para se estabelecerem uma parte dos largos

campos que se estendem entre Santarem e Alemquer, dando-se-lhes por

termos as varzeas que o Tejo fertilisa com as suas enchentes e que já

eram conhecidas n'aquelle tempo pelo nome de Leziras. Entre elles

fundaram a villa-dos-francos (Villa-franca), designação que depois se

mudou na de Azambuja. Raolino foi feito alcaide-mór do novo municipio e,

homem talvez pobre e obscuro no seu paiz natal, honrado e enriquecido

agora pelo principe portuguez, viu prosperar no processo de uma dilatada

existencia aquelle simulacro da patria que levantara para si e para os

seus em terra estrangeira, mas amiga»[43].

Passemos algumas paginas. Não teria sido esta lucidez e serenidade

maravilhosas um momento de feliz disposição, e porventura toda a obra

estará repassada de igual encanto? Experimentemos uma outra passagem:

«Aquillo em que o reinado de Sancho tem acaso mais subida significação

historica é em ter então começado esse facto tão variado como complexo

que se protrae por tres seculos e que constitue a principal feição

publica da nossa edade-media. Falamos da alliança do rei e dos concelhos

contra as classes privilegiadas, o clero e a fidalguia. N'estas

primeiras phases da lucta ha não só um começo, mas tambem um resumo ou,

antes, um symbolo de toda ella. Os burguezes do Porto, acomettendo o seu

bispo e o seu senhor com os officiaes da coroa, sequestrando-lhe os

bens, expulsando-o coberto de ignominia e affrontando a colera dos

membros da poderosa familia de Martinho Rodrigues, são o typo da

resistencia e da má vontade que nos municipios e nos reis acharam

geralmente as duas altas classes do estado, até a monarchia obter

d'ellas final e decisiva victoria. Sancho, abandonando os habitantes do

Porto, transportando, digamos assim, a sua força inerte de moribundo

para o campo adverso, associando-se, até, ao clero para ajudar a

submetter os burguezes, dava um deploravel exemplo aos seus

successores e entibiava os animos populares para as futuras contendas.

Não póde, apesar d'isso, condemnal-o a historia, pois que tudo parece

indicar que os ultimos mezes da sua vida foram uma dilatada agonia; e se

ainda n'estes nossos tempos, em que o sentimento religioso se acha

atenuado e frouxo, almas que se dizem rijamente temperadas vacilam ao

aproximar-se a morte e se acurvam, não só aos terrores salutares e

santos da religião, mas até muitas vezes ás crenças supersticiosas da

infancia, que revivem então importunas, como deixaremos de desculpar um

homem ignorante e credulo, nascido numa epoca ferrea, de sacrificar á

voz dos remorsos, muitos dos quaes seriam legitimos, tanto as

conveniencias como a lealdade politica?»[44].

Não foi, porém, esta arte incomparavel na subtileza de analyse, de

conjuncção e de expressão, não foi esta virtude que os contemporaneos e

a posteridade reconheceram mais promptamente na _Historia de Portugal_.

A impressão do pasmo pela renovação da historia e pela fortaleza de

verdade que a acompanhava e a tornava subsistente, esse foi o impeto que

de subito lhe deu um logar de excepcional proeminencia.

Consideravamos a nação uma tarefa cavalheiresca do genio militar

rematada com bom exito, questão de audacia militar e fortuna na peleja,

de paixão da guerra e de conquista, consequencia dos dotes dos reis e

principes, do seu temperamento e do seu querer, uma intriga de acções

generosas e de cobiças vãs; raras arremetidas de justiça atropeladas por

muita traição e vingança, revoluções e luctas saidas de roubos,

violencias e especulações de senhores ambiciosos, despoticos, mais rudes

ainda na alma insensivel e sem escrupulos do que no corpo prompto a toda

a fadiga, dureza e excessos. Consideravamos a historia patria obra da

vontade d'alguns homens, e Alexandre Herculano, sem lhes contestar a

intervenção, antes examinando-a e verificando-a em toda a latitude,

rasgava-nos caminhos novos para a descoberta de origens da vida nacional

inteiramente occultas. Graças a processos de investigação e methodos de

correlação aprendidos no estudo paciente dos mestres estrangeiros e por

elle nacionalisados, importando-os e empregando-os com uma habilidade

que o collocava a par dos maiores e mais destros n'essa ordem de

conhecimentos e nos seus espantosos progressos, mostrava-nos a

multiplicidade das forças que haviam cooperado na constituição da

nação portugueza, a influencia de tradições seculares e até da simples

fatalidade, a pressão de massas anonymas da villanagem e do povo ao lado

das façanhas dos capitães, o destino e o instincto das raças superior ás

ambições dos chefes prepotentes, que em seu proveito proprio as guiavam

e serviam, a surda e lenta elaboração do sentimento da collectividade,

confuso e frouxo, sobrepondo-se, em uma ascenção penosa, á absorpção de

tyrannias d'um ferino egoismo despotico, embriagando astuciosamente as

multidões em fumos de gloria emquanto as acorrentava aos seus

insaciaveis apetites. Collocando nas suas relações de existencia e

dependencias logicas os factores da vida nacional, muitos dos quaes foi

exumar do acervo informe de documentos e chronicas onde jaziam inuteis e

suffocados no logar para que o acaso os atirará, juntando um trabalho

colossal de investigação a um talento de organisação e interpretação sem

precedentes na litteratura portugueza e entre os seus raros e apagados

pensadores e philosophos, Alexandre Herculano fez para alguns seculos do

passado o que mais tarde Oliveira Martins conseguiria para algumas

decadas da politica contemporanea.

Note-se--a impressão de surpreza foi nos dois casos identica, como

identicos foram o louvor e a condemnação que se lhe seguiram; louvor

dos que prezam a lucidez de entendimento e a clareza de consciencia; e

creem na sua efficacia para a fortuna dos povos; e condemnação dos que,

fanatisados e tresloucados pelo interesse de castas, de classes, dos

bandos e das clientelas, só esses veem e sabem defender com acrimonia

exaltada, quando o bem publico lhes exige o cerceamento e a quebra de

regalias ou o espirito de justiça lhes denuncia as oppressões, os crimes

e torpezas a que recorreram e recorrem para acrescentar e conservar o

seu predominio nefasto.

Alexandre Herculano(#30699) · 第 17 / 27 题