III

Antes porém da libertação extrema, o crente teria de experimentar as

tentações da impiedade e n'esse combate succumbir ou armar-se,

invencivel, para o ultimo triumpho.

Alexandre Herculano passou pelo baptismo pessimista. Não lhe poupou o

destino o transe supremo, que é provação da grandeza, e perante o qual

succumbiram ou se desvairaram nobilissimos espiritos do seu tempo.

Sómente o soffre quem entreviu reinos sublimados de pureza e, para os

alcançar, lançou o vôo que invariavelmente o mundo corta, na sua miseria

eterna, com crueldade e escarneo. E então a dôr é tão aguda e funda que

ainda os mais fortes muita vez lhe preferiram a rendição total e ultima

desgraça, entregando-se, exultando, a quem os remisse do supplicio e

lhes desse a paz, anjo ou demonio que se lhes apresentasse.

A «doce mãe do repouso» com o seu «amoroso aspecto», a «calumniada

morte» tentou Alexandre Herculano, como sempre, invariavelmente, tentou

quantos se enlevaram em aspirações santas e, «sentindo-as morrer no

fundo do coração», calcadas por «quanto ha vil no mundo», sonharam

libertar-se do conflicto terrivel das visões celestes com as realidades

terrenas. Tambem elle soffreu os negros anceios de anniquilamento que

essa angustia provoca; tambem lhe entonteceu os sentidos a vertigem dos

abysmos da inconsciencia, para se resgatar de contradicções intimas,

pungentes, em que n'uma agonia infinda a negação das cousas respondia ás

affirmações da alma, satanica e desapiedadamente, com irrisão e

ludibrio. E implorou então o soccorro da «peregrina eterna» que, sendo

temida em seu mysterio, a elle, infeliz e naufrago, lhe promettia a

redempção de todo o mal:

«Oh morte, amiga morte! É sobre as vagas

Entre escarceus erguidos

Que eu te invoco, pedindo-te feneçam

Meus dias aborrecidos:

Quebra duras prisões que a natureza

Lançou a esta alma ardente;

Que ella possa voar por entre os orbes

Aos pés do Omnipotente.

Doce mãe do repouso, extremo abrigo

De um coração oppresso

Que ao ligeiro prazer, á dôr cansada

Negas no seio accesso,

Não despertes, oh não! os que abominam

Teu amoroso aspeito;

Febricitantes que se abraçam, loucos,

Com seu dorido leito!

Tu, que ao misero ris com rir tão meigo,

Calumniada morte;

Tu, que entre os braços teus lhe dás azylo

Contra o furor da sorte;

Tu, que esperas ás portas dos senhores,

Do servo ao limiar,

E eterna corres, peregrina, a terra

E as solidões do mar,

Deixa, deixa sonhar ventura os homens;

Já filhos teus nasceram:

Um dia accordarão d'esses delirios,

Que tão gratos lhes eram.

E eu que vélo na vida e já não sonho

Gloria nem ventura;

Eu, que esgotei tão cedo, até ás fezes,

O calix da amargura:

Eu, vagabundo e pobre, e aos pés calcado

De quanto ha vil no mundo,

Santas inspirações morrer sentindo

Do coração no fundo,

Sem achar no desterro uma harmonia

De alma, que a minha entenda,

Porque seguir, curvado ante a desgraça,

Esta espinhosa senda?»[28]

Respondia-lhe uma voz intima, assegurando não só a necessidade de

proseguir na jornada, atravez de todas as angustias, mas tambem a

certeza da recompensa, se fosse em obediencia á vontade divina e

sujeito á sua inspiração.

A tentação da morte teria sido para Alexandre Herculano apenas um

«pensamento infernal», gerado em meio da tempestade[29]. Ao

seu rugir comparou o clamor da consciencia desvairada, quando,

accordando para o conhecimento das cousas e dos homens e reconhecendo

mentira nas esperanças cujos sonhos nos affagavam ao «despontar do dia»,

ao entrar na vida da aspiração, recua aterrada e endoidecida, sem saber

que caminho a possa conduzir a salvamento. Mas a tempestade é de sua

essencia transitoria, por muito violenta e assoladora que haja sido nos

effeitos de destruição irreparavel; seguem-se-lhe horas de bonança, a

serenidade reapparece e mantem-se, illuminando os destroços e

atenuando-lhes a tristeza do aspecto; embora jámais deixemos de os vêr,

duradouros, claros e manifestos, sobrevém reparações do tempo, lentas e

imperfeitas, sem duvida, mas capazes todavia de nos trazerem momentos de

calma e até de ventura; sobre as ruinas crescem verduras. Na propria

terra ha poderes de renovação indestructiveis, eternidades cosmicas

que de toda a tormenta sáem illesas e intactas.

Do mesmo modo acontecia ao poeta. A angustia em que os primeiros golpes

da desillusão o lançaram, a agitação de que nascia o desejo de se

afundar n'essa noite sem fim da inconsciencia, dissipava-se como os

bulcões varridos pelo vento que elles geraram e que o vento na sua

violencia desfaz. Acalmada a tormenta, contemplando o que lhe restava da

sua devastação e procurando unil-o e reanimal-o em novas creações d'uma

fortaleza intangivel, precavida contra o assalto de toda a adversidade,

o poeta encontrava «um consolo», e pressentiu que «nas trevas da

existencia Deus lhe deixára doce amizade e amor». Por elle se ergueria

para «passar sua noite a luz tão meiga até ao amanhecer, até subir á

patria do repouso, onde não ha morrer»[30].

É que ás eternidades cosmicas correspondem eternidades do espirito, e

n'ellas se formára e retemperava incessantemente a alma de Alexandre

Herculano, defendida contra toda a traição da amargura, para todo o

combate armada invencivel, em toda a contingencia.

Alexandre Herculano(#30699) · 第 15 / 27 题