II

Pouco indulgente com a sensualidade, porventura deshumanamente rigoroso

com os seus impulsos, a solidão e a vida rural não seriam para Alexandre

Herculano isenção de fadigas physicas e desenlace d'aspirações

naufragadas, adormecimento de mágoas e repouso n'uma animalidade

cuidada, bem mantida, satisfeita e robusta. Não seriam uma festa lauta

dos sentidos, por demais castigados da escuridão da cidade, mas uma

devoção gratissima do espirito desonerado de temporalidades que o

mortificavam, tão pesadas pelo tumulto e pressão ininterrompida, como

estereis pela inanidade das consequencias moraes. Amando o ermo e

procurando-o, não o chamava a delicia pagã; se tanto lhe queria, era por

obediencia religiosa, porque alli melhor interpretava e cumpria a

vontade do Senhor. O sentimento da alegria e equilibrio no pulsar livre

da natureza, a contemplação da harmonia e belleza das formas que por si

vivem como divindades independentes e distinctas, só por excepção

prenderiam Herculano. É um accidente raro, muito raro, que elle se

quede com sympathia a escutar nymphas do rio, dryades da floresta e as

felizes gentes dos reinos de Apollo. Por duvida teria condescendido em

attentar nas crueldades e exaltações orgiacas das estações e dos astros.

Se por elle passaram faunos e bacchantes ou lhes suspeitou os folguedos,

voltou o rosto descontente; os olhos habituados a luz divina, vinda dos

céus, e outra não procuravam, não supportariam fumo e labaredas,

ateiados com o sangue e erguidos dos infernos em que penam condemnados.

Mal sorriu ao carvalho magestoso que encontrou em meio do valle.

«Na primavera

Vinham os moços adornar-lhe o tronco

De capellas cheirosas de boninas,

E coreias gentis traçar-lhe em roda,»[21];

e o quadro captivou-o um rapido instante. Que encanto de formosura,

perfume e gentileza e côr! Outros eram, porém, os enlevos do poeta, que

não esses, candidos, sem duvida, na sua graça, mas fugitivos e

pereciveis, de perto vigiados pela enfermidade e pela corrupção. A

fecundidade da imaginação, a riqueza de conhecimentos e a expontanea

intensidade da attenção todas as relações dos seres e todos os

estados da alma lhe representariam, d'ascetismo ou de expansão; mas o

arrebatamento religioso não lhe consentia identificar-se senão com

aquelles que traduzissem nos mais elevados modos o dominio e amor d'essa

vontade omnipotente e omnipresente, de summa sabedoria, que tudo

ordenava e a quem tudo obedecia, na verdade Deus e Senhor, como o poeta

lhe chamou, invocando-a para o guiar e consolar, deus pela magestade e

virtude infinita, e senhor pelo imperio sem limites na vida do universo.

«Ante o olhar do Senhor vacilla a terra!»[22]. E Alexandre Herculano

renunciaria, por ignoto impulso, ao seu quinhão nas incertezas

vacillantes da terra, para mais firmemente receber o olhar do Senhor,

que era eterno e por isso lhe insinuava uma eternidade, inflamando-o no

seu fulgor. A abdicação salval-o-ia da degradação inherente aos timidos

e fracos que, acorrentando-se á caducidade das cousas mortaes, com ellas

se afundam e desapparecem, nenhumas outras de sua substancia infinitas

tendo visto ou amado, além d'essas mesquinhas e passageiras nas quaes se

absorveram.

«Entendimento bronco», tomando com adoravel candura por aspereza a

fortaleza ingenita, «lançado em seculo fundido na servidão atraviada de

goso, cria que Deus era Deus e os homens livres»[23]. Aos infieis

clamava, para os defender de perdição, que «entrassem no templo e não

temessem aquelle Deus que os labios negam e o coração confessa»[24];

«não escarnecessem do que em Deus confiou»[25]. Ahi se isentavam da

morte, porque «o justo, chegando á meta extrema que nos separa da

eternidade, transpõe-na sem temor e exulta em Deus»[26].

O apostolo tinha jurado a sua fé. «Louvaria o Eterno!» Embora humilde

reconhecesse que os seus hymnos d'amor não eram dignos d'aquelle a que

adorava, embora vis hypocritas, mentindo, o Eterno pintassem como um

tyranno barbaro, para assim dominarem o vulgo cégo e insano, o poeta

passaria tranquillo entre os abrolhos dos males da existencia, guardado

por essa Providencia, a cuja misericordia de todo se entregava[27].

Alexandre Herculano(#30699) · 第 14 / 27 题