Pouco indulgente com a sensualidade, porventura deshumanamente rigoroso
com os seus impulsos, a solidão e a vida rural não seriam para Alexandre
Herculano isenção de fadigas physicas e desenlace d'aspirações
naufragadas, adormecimento de mágoas e repouso n'uma animalidade
cuidada, bem mantida, satisfeita e robusta. Não seriam uma festa lauta
dos sentidos, por demais castigados da escuridão da cidade, mas uma
devoção gratissima do espirito desonerado de temporalidades que o
mortificavam, tão pesadas pelo tumulto e pressão ininterrompida, como
estereis pela inanidade das consequencias moraes. Amando o ermo e
procurando-o, não o chamava a delicia pagã; se tanto lhe queria, era por
obediencia religiosa, porque alli melhor interpretava e cumpria a
vontade do Senhor. O sentimento da alegria e equilibrio no pulsar livre
da natureza, a contemplação da harmonia e belleza das formas que por si
vivem como divindades independentes e distinctas, só por excepção
prenderiam Herculano. É um accidente raro, muito raro, que elle se
quede com sympathia a escutar nymphas do rio, dryades da floresta e as
felizes gentes dos reinos de Apollo. Por duvida teria condescendido em
attentar nas crueldades e exaltações orgiacas das estações e dos astros.
Se por elle passaram faunos e bacchantes ou lhes suspeitou os folguedos,
voltou o rosto descontente; os olhos habituados a luz divina, vinda dos
céus, e outra não procuravam, não supportariam fumo e labaredas,
ateiados com o sangue e erguidos dos infernos em que penam condemnados.
Mal sorriu ao carvalho magestoso que encontrou em meio do valle.
«Na primavera
Vinham os moços adornar-lhe o tronco
De capellas cheirosas de boninas,
E coreias gentis traçar-lhe em roda,»[21];
e o quadro captivou-o um rapido instante. Que encanto de formosura,
perfume e gentileza e côr! Outros eram, porém, os enlevos do poeta, que
não esses, candidos, sem duvida, na sua graça, mas fugitivos e
pereciveis, de perto vigiados pela enfermidade e pela corrupção. A
fecundidade da imaginação, a riqueza de conhecimentos e a expontanea
intensidade da attenção todas as relações dos seres e todos os
estados da alma lhe representariam, d'ascetismo ou de expansão; mas o
arrebatamento religioso não lhe consentia identificar-se senão com
aquelles que traduzissem nos mais elevados modos o dominio e amor d'essa
vontade omnipotente e omnipresente, de summa sabedoria, que tudo
ordenava e a quem tudo obedecia, na verdade Deus e Senhor, como o poeta
lhe chamou, invocando-a para o guiar e consolar, deus pela magestade e
virtude infinita, e senhor pelo imperio sem limites na vida do universo.
«Ante o olhar do Senhor vacilla a terra!»[22]. E Alexandre Herculano
renunciaria, por ignoto impulso, ao seu quinhão nas incertezas
vacillantes da terra, para mais firmemente receber o olhar do Senhor,
que era eterno e por isso lhe insinuava uma eternidade, inflamando-o no
seu fulgor. A abdicação salval-o-ia da degradação inherente aos timidos
e fracos que, acorrentando-se á caducidade das cousas mortaes, com ellas
se afundam e desapparecem, nenhumas outras de sua substancia infinitas
tendo visto ou amado, além d'essas mesquinhas e passageiras nas quaes se
absorveram.
«Entendimento bronco», tomando com adoravel candura por aspereza a
fortaleza ingenita, «lançado em seculo fundido na servidão atraviada de
goso, cria que Deus era Deus e os homens livres»[23]. Aos infieis
clamava, para os defender de perdição, que «entrassem no templo e não
temessem aquelle Deus que os labios negam e o coração confessa»[24];
«não escarnecessem do que em Deus confiou»[25]. Ahi se isentavam da
morte, porque «o justo, chegando á meta extrema que nos separa da
eternidade, transpõe-na sem temor e exulta em Deus»[26].
O apostolo tinha jurado a sua fé. «Louvaria o Eterno!» Embora humilde
reconhecesse que os seus hymnos d'amor não eram dignos d'aquelle a que
adorava, embora vis hypocritas, mentindo, o Eterno pintassem como um
tyranno barbaro, para assim dominarem o vulgo cégo e insano, o poeta
passaria tranquillo entre os abrolhos dos males da existencia, guardado
por essa Providencia, a cuja misericordia de todo se entregava[27].