COIMBRA
F. FRANÇA AMADO, EDITOR
1910
I
Um paladino illuminado e moço, intemerato no ardor da juventude e na
exaltação da crença que nem o martyrio lograria dominar ou perverter,
sonhou a redempção da patria desolada pelas guerras, pela fome, pela
oppressão de tyrannias ávidas e corruptas, por hypocrisias sordidas e
degradações monstruosas. Sonhou dias de luz e de ventura, de liberdade e
de paz, de boa vontade entre os homens, de trabalho honesto, de civismo
austero e de religião sublimada, formosura e virtude, o resgate da
miseria desalentada e tenebrosa em que se afundava um povo, outrora são
e justamente altivo e agora debatendo-se por se salvar e erguer dos
abysmos em que a desventura o havia precipitado. E o paladino partiu a
conquistar para a patria a fortuna revelada em visões de
claridade; e armou-se soldado, transpondo para exercitos do mundo
aspirações divinas, a todos os perigos sujeitando a existencia ephemera,
sem que algum fosse capaz de lhe turvar a fé.