reconheceu as leis geraes que presidem á formação de dialectos de que
nos occupâmos.
O eminente philologo P. Meyer tocou a nosso ver em um dos pontos
essenciaes da questão, mas por falta sem duvida de termos de comparação
não a collocou á verdadeira luz: «Estudar-se-hão com interesse, diz
elle, com relação ao dialecto da Trinidad, os diversos tempos compostos
pelos quaes os negros remediaram as lacunas da conjugação, achar-se-ha
materia para diversas comparações com os factos parallelos que apresenta
á formação das linguas romanicas. Nada deve porém esquecer que a
comparação tem aqui a mais fraca base. Os negros, quando aprenderam o
francez, estavam habituados a uma lingua absolutamente differente e
nunca souberam mais que as _palavras e as fórmas mais usuaes_ de seu
novo idioma, emquanto o latim vulgar de que saíram por desenvolvimentos
individuaes e locaes as linguas romanicas, foi sempre um idioma
sufficientemente completo, cujas transformações foram assás lentas para
que as lacunas tenham tido tempo de se encher facilmente ao passo que se
formaram». _Rev. critique_, 1872 artigo 50. Na passagem seguinte, M. P.
Meyer mostra ter repugnancia em admittir que a formação de dois
dialectos creolos obedeça a leis perfeitamente identicas: «Parece que o
_patois_ da ilha de França offerece, na deformação do francez, analogias
com o da Trinidad que não são explicadas sufficientemente pela
communidade do ponto de partida».
O dr. Bos (_Romania_ IX, 571) admitte já a independencia d'essas
formações analogas, sem ver ainda aqui a acção de leis geraes: «Os
diversos creolos (francezes) que se fallam nas Antilhas, na America, nas
ilhas Mascarenhas, no Oceano Indico, têem todos um ar de familia, uma
similhança ainda mais accentuada que a que existe entre as linguas
neo-latinas, e devida provavelmente á sua maior mocidade e á sua maior
proximidade da lingua mãe. Alem d'isso essa lingua mãe, o francez, é
unica para os idiomas creolos; e o latim vulgar, quando deu origem ás
linguas neo-latinas, tinha talvez já perdido a unidade, e experimentado
as influencias regionaes que deviam transformal-o, aqui em francez,
acolá em provençal, alem em italiano, etc. Fóra pois da questão de
tempo, a grande similhança que existe entre as linguagens creolas provém
provavelmente da unidade da lingua que lhe deu origem: o francez
representa aqui o papel do latim vulgar com relação ás linguas
romanicas».
As idéas geraes com relação á formação d'estes dialectos expressas por
E. Tesa no seu citado estudo sobre o creolo de Curaçáo não me parecem
tambem exprimir a verdade dos factos. «Due studj sono a farsi nella
istoria delle lingue: la libertà e la servitù. Una favella si disgiunge
da una grande famiglia, serbando parte del tesoro commune e nei valori
radicali che si incorporano in un grupo di suoni, e ne' canoni
derivativi, e nelle flessioni. Questa ricchezza ereditata non giace
inerte. È un grande albero: e dei molti rami, quale si leva più alto,
quale si arresta a mezza la via; ma in ciascuno è una vita sua propria:
vi discorre lo stesso succo a nutrirli, ma è vario lo spessore degli
strati e le virtú: tutto è un agitarsi, un crescere; finchè le due
ultime foglie, che si toccano in mezzo al sereno dei cieli, non
rammentano più che la radice commune è nascosta in un luogo solo e
circondata di poca terra.
«Beata la nazione alla quale, in codesta opera de' secoli, la lingua si
disvolge senza ingiustamente comandare e senza miseramente servire;
perchè anche negli organismi vocali così corrompe il vedersi schiavo
como il farsi tiranno.
«Bensì le lingue, presto o tardi, si incontrano, si impinguano, si
tarpano l'una l'altra; o sia l'imitazione delle idee come nella prosa
de' Cechi e de' Magiari, guidata in tanta parte dal tedesco: o da questa
lingua in quella si trasfonda la somma delle parole, como le sanscrite
nel tamulico; le turche nel greco, nell'armeno, nello schipetaro, nel
româno, nel bulgaro, nel serbo. Talora poi le forme stesse o cedeno alle
alle straniere o le accettano cooperatrici a rappresentare il pensiero;
come nel persiano e più nel turco e, con istrazio peggiore, nel
huzuresco.
«Un esempio di queste corruzioni profonde lo veggiano a Curassao; e non
osservato, ch'io sappia, dai linguisti. Non ho trovato che un libro; e
bisognerebbe sapere se altri ve ne sieno e serbino tutti le forme
spagnuole, o incomincine a corrompere anche la lingua degli Olandesi,
padroni nuovi. Poi sarebbe utile a conoscere QUALE DIALETTO VI
PARLASSERO GLI ABORIGENI; quando sia scomparso o se ancora se ne
conservino le tracce; finalmente quanto sieno in quel picciolo popolo i
discendenti di Spagna i quanto di Olanda...
«Certo da questo breve studio sul curassese saremo condotti a
ristringere la opinione di Augusto Fuchs che lo spagnuolo, dominatore in
tanta parte di America, non si mescolò a nessuna delle lingue indigene
da formare um nuovo dialetto (Cfr. _Die romanischen Sprachen._ Halle,
1849, p. 7). Non s'è mescolato; ma IL PENSIERO NAZIONALE TRASCINÒ DIETRO
A SÈ LE FÓRME SPAGNUOLE E GLI AVANZI; così che ne derivò una favella che
non assomiglia certo a nessuno dei dialetti metapireneici.
«A me pare che uscirebbe un bel libro, ma da non farsi in Europa, chi si
ponesse a ricercare come le lingue latine rimutassero; il francese nel
Canada, in Haiti; il portoghese nel Brasile e lungo le coste d'India; a
Cuba, a Portorico e via via lo spagnuolo. SAREBBE A DISCOPRIRSI LA
GRAMATICA INDIGENA; E DEDURNE LE LEGGI DISSOLUTIVE DI QUELLA PAROLA, là
inerte o quasi, che fu stromento a forti pensiere e alle grazie
dell'arte in bocca a Dante, a Cervantes, a Voltaire.»
Como se vê o douto professor de Pisa inclina-se a admittir como
explicação dos dialectos creolos uma accommodação das fórmas romanicas á
grammatica das linguas dos povos entre os quaes esses dialectos se
formam.
Alguns eruditos brazileiros, conhecedores dos dialectos indigenas,
admittem influencia grammatieal d'estes dialectos sobre o portuguez do
seu paiz.
«A lingua fallada pelos primitivos incolas d'El-Dorado, a lingua do
selvagem, que teve voga nos primeiros tempos do desenvolvimento do
Brazil, que durante dois seculos entre os proprios colonos europeus era
«a lingua geral» e de uso quotidiano no tracto commum, usada e fallada
até no pulpito, ainda hoje fallada no Paraguay, teve tal importancia já,
que, temendo-se que fosse esquecida a lingua portugueza, mereceu ser
proscripta expressamente a ponto de a mandarem abolir pela provisão de
12 de outubro de 1727 (_Jornal do Timon_, t. 2.^o; p. 315). E depois,
apezar de tudo, ella perdura ainda, já não digo pelo facto de subsistir
hoje entre varias e numerosas tribus do Amazonas e de Matto Grosso,
porém, perdura na lingua portugueza, fallada pelos descendentes dos
Brazis, dando-lhe um feitio caracteristico que distingue essencialmente
essa falla brazileira da portugueza, não só na inflexão da voz, não só
na phonetica, mas ainda no tornêo grammatical e no phraseado que tem
_seu que_ de novo, não usado na terra lusitana, e a final em grande
numero de vocabulos de todo não portuguezes. A «lingua geral» é certo,
morreu com o indio e ou si não morreu ainda, vae morrer e desapparecerá
com o derradeiro selvagem, que a locomotiva da civilização tem de
aniquilar na sua marcha, no seu «avança para deante». Porèm, como em
seguida á derrubada, onde era a mata virgem, surge a capoeira, do mesmo
modo no campo de exterminio, do qual se-eliminou o indio, subsistem o
mameluco, o caboclo, o caipira, o matuto; e essa pobre gente que
constitue a nossa gente da roça, os nossos _officiaes de officio_, a
nossa soldadesca e a nossa maruja, concorre sem a menor duvida com a
maior percentagem para formar o algarismo da nossa população.
Desappareceu o indio (_abá_), o indigena, o autochtone
(_t-yby-abá_==_typynabá_), o selvagem (_tapyyia_),--mas ficou o caboclo,
o perfilhado por branco (_caraïb-oca_==_caribóca_), o mameluco, o filho
da mulher india (_membyrucá_), o pelle tostada (_caipíra_), ou o homem
corrido, envergonhado, abatido, submettido (_kuaipira_). E esses
mamelucos, caboclos e caipiras, fallando a lingua do «outro», do
extrangeiro, do homem de lá longe, do emboaba, (_amo-abá_), fallando
essa lingua corrompida pelo fallar do africano, do selvagem negro
(_tapyyñuna_), conservam no sotaque, no phraseado, reminiscencias da
«lingua geral» que vão se-fazer ouvir ainda no seio do parlamento, onde
desgraçadamente predomina um francez assaz eivado de francezismos e
tambem já de não poucos inglezismos. Foi proscripta a lingua do indio (o
_abá ñeenga_), mas na lingua do branco (no _caraï-ñeenga_) fallada pelos
matutos, e reproduzida ás vezes com bastante merito em escriptos
litterarios, subsistem dizeres _sui generis_, oriundos da lingua
materna, certamente _materna_ pois que elles são os mamelucos, os filhos
da mulher indigena, são os caboclos oriundos do homem branco. Como muito
bem diz o sñr. dr. Couto de Magalhães, na _linguagem popular_ do Brazil
ha não só grande _quantidade de vocabulos tupis_ ou _guaranis_, mas
ainda _phrases, figuras, idiotismos e construcções peculiares_. Quanto
ao vocabulario é incontestavel, e com um pouco de attenção vê-se, que no
portuguez brazilico abundam dicções de linguas americanas em numero mais
consideravel talvez que o das dicções arabicas que se-conservam no
lexicon portuguez. Dizemos «linguas americanas», porque na realidade não
ha só vocabulos do _abáñeenga_, e sim tambem do _chilidugu_, do _kechua
callu_, do _karai-arianga_, e outras, como sejam _brisa_, _canôa_,
_furacão_, _piroga_, _mate_, _guasca_, _guampa_, _gaûcho_, etc. Nas
sciencias naturaes (mórmente na botanica) e na geographia é mais que
consideravel o numero de vocabulos oriundos de linguas americanas[7].»
«Nem o tupi oriental, aquelle que era fallado na costa quando os
jesuitas o escreveram, e que faz objecto dos diccionarios e grammaticas
que nos legaram; nem a lingua Kirirí, um tupi que era fallado pela tribu
d'esse nome, não são hoje linguas vivas. Assim como os selvagens ou
desappareceram ou subsistem mestiçados, assim a lingua ou desappareceu
ou mestiçou-se no rustico fallar do nosso povo, conseguindo introduzir
na lingua portugueza do Brazil centenares de raizes[8].
«O cruzamento d'estas raças (indigenas do Brazil, negros e brancos) ao
passo que misturou os sangues, cruzou tambem (se nos é licito
servirmo-nos d'essa expressão) a lingua, sobretudo a linguagem popular.
É assim que, na linguagem do povo das provincias do Pará, Goyaz, e
especialmente de Matto-Grosso, há não só quantidade de vocabulos tupís e
guaranís accommodados á lingua portugueza e n'ella transformados, como
ha phrases, figuras, idiotismos, e construcções peculiares ao tupí. Este
facto mostra que o cruzamento physico de duas raças deixa vestigios
moraes, não menos importantes do que os do sangue. O notavel professor
norte-americano C. F. Hartt nota que são rarissimos os verbos
portuguezes que têem raizes tupís, e cita como um d'esses raros
exemplos, talvez unico, o verbo _moquear_. Se o illustre professor
houvesse viajado outras provincias, veria que esse exemplo não é
isolado, e que não temos um, mas muitos verbos vindos do tupí, e alguns
d'elles tão expressivos e energicos que não encontrâmos equivalentes em
portuguez; citarei entre outros os seguintes: _espocar_ (Pará) por:
arrebentar abrindo; _petequear_ (Minas, S. Paulo) por: jogar; _entocar_
(geralmente em todo o Brazil) por metter-se em buraco, ou figuradamente,
por: encolher-se, fugir á responsabilidade; _gapuiar_ (Pará, Maranhão)
por: apanhar peixe; _cutucar_ (geral) por: tocar com a ponta; _espiar_
(geral) por: observar; _popocar_ (Pará, Maranhão) por: abrir
arrebentando; _pererecar_ (geral) por: caír e revirar; _entejucar_ por:
embarrear; _encangar_ por: metter os bois no jugo; _apinchar_ por:
lançar, arremessar; _capinar_ por: limpar o matto; _embiocar_ por:
entrar no buraco; _bobuiar_ por: fluctuar; _catingar_ por: exhalar mau
cheiro; _tocaiar_ por: esperar, etc., são outros tantos verbos com que o
tupí enriqueceu a lingua popular dos habitantes do interior do Brazil,
lingua ás vezes rude, não o contestâmos, mas ás vezes tambem de uma
energia e elegancia de que só póde fazer idéa, aquelle que tem estado em
uma roda de gaúchos folgazãos a ouvil-os contar a historia de seus
amores, suas façanhas de valentia, ou as lendas, ás vezes tão tocantes e
poeticas de suas superstições, metade christãs, metade indigenas[9]...
«Se dos verbos passassemos aos substantivos, nomes de animaes, logares,
plantas, ver-se-hía que nada menos de mil vocabulos, quasi uma lingua
inteira, passou e veiu fundir-se na nossa, assim como com o cruzamento
tem passado e ha-de continuar a passar o sangue indigena a assimilar-se
e confundir-se com o nosso[10].»
Como se vê os dois escriptores brazileiros, que têem um longo
conhecimento do tupi-guarani, nenhum facto apresentam que prove a
influencia grammatical que admittem: as suas indicações resumem-se a
factos lexiologicos, alguns dos quaes são muito contestaveis.
Não entraremos n'um exame critico directo das diversas opiniões que
acabâmos de citar. Os materiaes por nós accumulados permittem-nos
assentar os seguintes principios, em face dos quaes é facil julgar essas
opiniões.
1.^o _Os dialectos romanicos e creolos, indo-portuguez e todas as
formações similhantes representam o primeiro ou primeiros estadios na
acquisição de uma lingua estrangeira por um povo que falla ou fallou
outra._
Este principio é por assim dizer evidente. Basta observar como os
estrangeiros que não têem estudos grammaticaes começam a fallar a lingua
de um paiz que não é o seu para a ver perfeitamente confirmada. _Mi no
fallá portuguese_ é uma phrase typica que todos conhecemos na bôca dos
inglezes.
Os factos observados nos dialectos creolos de Santo Antão, Guiné, etc.,
revelam _graus diversos na acquisição do portuguez_. A lingua franca
póde ser considerada como o typo mais rudimentar das formações de que
nos temos occupado. Aqui devemos observar um facto interessante:
consiste elle em que o povo de qualquer paiz achando-se em contacto com
estrangeiros que não fallam a sua lingua reduz esta tambem, por assim
dizer instinctivamente, ao mesmo typo privado de fórmas grammaticaes que
caracterisam os dialectos creolos[11].
Nos contos populares, os mouros, os turcos e os negros são apresentados
pelo povo a fallar uma lingua em que o infinito substitue as outras
fórmas verbaes; assim em G. Pitré, _Fiabe, novelle e racconti popolari
siciliani_, I, 17, n.^o 1, ha o seguinte dialogo entre um turco e S.
Nicolau: «Bonciornu Santu Nicola!»--«Addiu Maumettu.»--«_Pigghiari_
tanticchia d'ogghiu?»--«_Pigghiari_ quanto vôi.» Póde comparar-se a
versão portugueza d'essa facecia em a nossa collecção de _Contos
populares portuguezes_, n.^o 72. O douto e indefesso collector das
tradições sicilianas ministra-nos a seguinte nota: «Nel _Malmantile_ del
Lippi annotato dal Minucci, vol. III, pag. 257, a proposito della frase
del Lippi _star usanza_ si legge: «_Star usanza_. È detto alla maniera
degli stranieri, specialmente tedeschi, o turchi, che cominciando a
parlar un poco Italiano, si servono quasi sempre dell'infinito in luogo
di qualsivoglia tempo. È curiosa la perifrase d'uno schiavo turco, che
avendo rubato un turibolo d'argento, volendolo vendere, andava dicendo
negli orecchi a coloro, ch'egli supponeva lo potessino comprare: _Voler
comprar un andare un venire un sentir buono?_»
É com razão que M. E. Egger nas suas _Observations et réflexions sur le
développement de l'intelligence et du langage chez les enfants_ (Paris,
1879. 8.^o) compara a linguagem das creanças aos dialectos creolos: «A
vingt-huit mois l'enfant connaît le sens des trois mots: _ouvrir_,
_rideau_ et _pas_ (négation); déjà il les rapproche avec une certaine
dextérité, en les acompagnant du geste et du monosyllabe _ça_. _Pas
ouvrir ça_ signifie «la fenêtre est fermée»; _pas rideau ça_ signifie
«la fenêtre n'a pas de rideau». On reconnaît là ces grossières façons de
parler qu'on décore parfois du nom de patois nègre, parce que les nègres
de nos colonies n'empruntent guère à la langue de leurs maîtres qu'un
petit nombre de vocables, les plus nécessaires, et qu'ils les
accouplent, selon le strict besoin, sans aucun souci de la conjugaison
et même de la syntaxe.» Ob. cit., p. 44.
Os dialectos de que nos temos occupado não são pois o resultado de uma
transformação lenta, gradual, tendo por ponto de partida principal a
alteração phonetica, como a que se opera nas linguas que seguem o curso
normal da sua evolução, como a que transformou o latim em portuguez,
hespanhol, provençal, italiano e valachio; nos dialectos creolos e
similhantes a alteração phonetica é o menos; com ella pouco se explica
da estructura morphologica e syntactica d'essas fórmas de linguagem.
Bopp e Diez são de muito pouca utilidade immediata, os principios da
grammatica comparada usual de pouco nos servem para entendermos aquelles
dialectos.
A transformação da linguagem em virtude da alteração phonetica é um
phenomeno de base physiologica; a formação dos dialectos creolos é no
que tem de essencial um phenomeno psychologico. Formam-se elles
rapidamente, para acudir á necessidade das relações; é o povo inferior
pela raça, pelo estado de civilisação, mas ao mesmo tempo mais forte de
instinctos, mais rico de espontaneidade, é esse que os forma com os
materiaes da lingua do povo superior, que em regra não desce a aprender
ou mesmo a dar attenção ás expressões do barbaro, do selvagem. Ao ouvido
do povo inferior chegam primeiro como ondas sonoras tumultuosas as
palavras do povo superior, depois aquelle percebe como que um rythmo,
depois n'aquelle oceano de palavras descobre alguns pontos firmes,
salientes; fixa-se n'elles: são as fórmas mais geraes e frequentes da
linguagem; ellas bastam--a lingua nova, o instrumento indispensavel para
o trato está forjado; enriquecel-o, approximando-o do typo perfeito, é
obra do tempo, se o houver, se as condições o permittirem; mas a riqueza
não será muitas vezes mais do que anomalia, porque aquella fórma
primeira de linguagem, nascida de um trabalho todo espontaneo, era
perfeitamente coherente. Por fim dá-se muitas vezes um phenomeno
curioso: entendido do povo superior, do povo que em geral manda, o povo
inferior não quer saber mais nada da lingua d'elle, contentando-se com o
dialecto que formou: então o povo superior ver-se-ha obrigado a fallar a
sua propria lingua alterada[12].
É innegavel que a primeira reducção morphologica (podemos assim definir
o processo de formação dos nossos dialectos) que uma lingua experimenta
na bôca de um povo que tinha já outra deixa vestigios profundos, ainda
quando o povo acaba por esquecer completamente a sua lingua propria e
por conhecer de um modo mais completo a morphologia da lingua que adopta
de um outro povo. Os processos periphrasticos da primeira phase da
acquisição da lingua estranha não desapparecerão de todo, e mais tarde,
quando a alteração phonetica, que elles favorecem, obscurecer certas
fórmas grammaticaes, esses processos voltarão a ser normaes na lingua.
Não será a causa d'esta natureza que serão devidos os futuros
periphrasticos, por exemplo, nas linguas romanicas? Até hoje não se
determinou com precisão o grau e caracter da influencia exercida por um
povo sobre a lingua estranha que a conquista ou outras causas lhe faz
adoptar. O erro capital n'esta questão consiste, a nosso ver, em se
suppor que a lingua estranha é alterada pelo typo da lingua propria. O
estudos dos dialectos creolos permitte-nos resolver esta questão.
2.^o _Os dialectos romanico-creolos, indo-portuguez e todas as formações
similhantes devem a origem á acção de leis psychologicas ou
physiologicas por toda a parte as mesmas e não á influencia das linguas
anteriores dos povos em que se acham esses dialectos._
Os factos accumulados por nós mostram á evidencia que os caracteres
essenciaes d'esses dialectos são por toda a parte os mesmos, apesar das
differenças de raça, de clima, das distancias geographicas e ainda dos
tempos. É em vão que se buscará, por exemplo, no indo-portuguez uma
influencia qualquer do tamul ou do singalez. No dialecto macaista a
formação do plural por duplicação do singular póde attribuir-se a uma
influencia chineza, mas esse processo é tão rudimentar que nenhuma
conclusão podemos fundar sobre elle. No dialecto da ilha de Sant'Iago
_muito muito_ é um superlativo.
Os phenomenos phoneticos que nos offerecem os dialectos creolos nada
têem de especial: a suppressão do _r_ final, a tendencia para o
iotacismo, por exemplo, apparecem-nos quasi por toda a parte; as
proprias excepções são as mesmas: assim temos _ser_ e não _sê_ em
Ceylão, em Macau, no archipelago de Cabo Verde. Nenhum som das linguas
indigenas foi transportado para os dialectos creolos; mas alguns sons
das linguas europeas foram modificados. Ora na propria Europa se notam
modificações similhantes. A seguinte observação do dr. Bos sobre o
creolo da ilha Mauricio é, emquanto aos sons, quasi inteiramente
applicavel a todos os dialectos similhantes: «É provavel que os sons do
francez que o negro não pôde reproduzir faltavam na sua lingua. A
influencia das linguas negras reduziu-se a isso; ellas não....
implantaram nenhum som novo; ellas supprimiram os que ellas
ignoravam[13], para os substituir por outros mais ou menos analogos: _e_
mudo por _i_, _ui_ por _i_ , _j_ por _z_, _ch_ por _ç_, etc.»
No fallar brazileiro, por exemplo, não parece haver nenhum dos sons
particulares do tupi-guarani.
A acção das leis psychologicas geraes vae quasi sempre nos dialectos de
que nos occupâmos até ás feições miudas; assim não só a periphrase com
as fórmas mais geraes nos apparece para substituir as fórmas não
adquiridas, mas ainda a mesma preferencia por certas fórmas auxiliares
se nota quasi por toda a parte; assim o presente formado com _ta_
(==_estar_) em Macau, nas ilhas de Cabo Verde, em Curaçáo; em Ceylão
como em Curaçáo _lo_ é o elemento formativo do futuro. Na Luisiania
_té_==_était_ serve para formar o imperfeito.
A preferencia dada n'esses dialectos aos pronomes regimens, que vêem
occupar o logar dos pronomes sujeitos encontra-se entre nós no fallar
das creanças e tem grande extensão nas phrases populares das nossas
linguas europêas[14].
A propria selecção lexiologica, isto é, a preferencia dada a certos
termos, manifesta a acção das mesmas leis geraes, das mesmas tendencias
nas formações que estudâmos, apesar das differenças de raças e de meios;
assim para significar fallar ou dizer encontrâmos em Ceylão, Curaçáo,
archipelago de Cabo Verde, etc., a palavra _papiá_, o que é tanto mais
interessante quanto esse termo não parece existir hoje nem em hespanhol
nem em portuguez. O substantivo _misté_ (_mister_) em Ceylão, em Macau,
em Curaçáo, no archipelago de Cabo Verde, tem o valor de um verbo
significando ser preciso, ter necessidade de, dever. _Pamóde_ e
_promodi_(==por amor de) tomam em Macau, como em Santo Antão, o logar da
conjuncção porque, de um modo independente; em quanto o _passóba_
(==_por es'obra_) de Curaçáo nos lembra o _quamobrem_ latino. _Assilai_
por _tal_ em Ceylão e Macau deve ter-se produzido tambem
independentemente n'um e n'outro dialecto; a palavra é composta de
_assi_ (d'este modo) e _lai_ por _laia_, que em portuguez significa
especie, sorte, estofo. sentido desenvolvido do de _lã_.
A extensão já tão consideravel d'este artigo não nos permitte
desenvolvermos mais completamente estas idéas, julgâmos porém ter
ministrado sufficientes provas de que os dialectos creolos e formações
similhantes não revelam influencia alguma directa, salvo no vocabulario,
das linguas anteriores dos povos que os fallam, mas que se deve ver
n'elles apenas o resultado da acção de leis geraes a que obedece por
toda a parte o espirito humano.