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texto, foram tomadas várias decisões quanto à versão final. Em caso
de dúvida, a grafia foi mantida de acordo com o original. No final
deste livro encontrará a lista de erros corrigidos.
Rita Farinha (Julho 2010)
SOCIEDADE DE GEOGRAPHIA DE LISBOA
OS
DIALECTOS ROMANICOS OU NEO-LATINOS
NA
AFRICA, ASIA E AMERICA
POR
F. ADOLPHO COELHO
Professor do Curso Superior de Lettras e socio effectivo da Sociedade de
Geographia de Lisboa
LISBOA
CASA DA SOCIEDADE DE GEOGRAPHIA
89, RUA DO ALECRIM, 89
1881
IMPRENSA NACIONAL
Extrahido do Boletim da Sociedade de Geographia de Lisboa
OS
DIALECTOS ROMANICOS OU NEO-LATINOS
NA
AFRICA, ASIA E AMERICA
N'uma conferencia feita ante a Sociedade de Geographia em 16 de
fevereiro de 1878 chamámos a attenção dos nossos consocios e do publico
para as fórmas dialectaes particulares que algumas linguas europêas e
particularmente o francez, o hespanhol e o portuguez, tinham tomado nas
colonias e conquistas da Africa, Asia e America. Esses dialectos têem
até hoje attrahido muito pouco a attenção dos linguistas, não existindo
ainda nenhum trabalho geral sobre elles.
Era nosso desejo reunir os materiaes para um trabalho especial sobre os
dialectos portuguezes, e um trabalho geral comparativo em que
tentassemos determinar as leis de formação d'esses dialectos, formação
que se póde por assim dizer estudar _no vivo_, porque um similhante
estudo não poderia deixar de nos ministrar dados importantes sob os
pontos de vista glottologico, ethnologico e psychologico.
Pedimos n'essa conferencia esclarecimentos, como já o tinhamos feito por
outros meios, e os nossos pedidos não foram de todo inuteis. Um mancebo
intelligente da ilha de Santo Antão, o sr. Cesar Augusto de Sá Nogueira,
que assistíra á conferencia, deu-nos todos os materiaes para o estudo
que publicâmos do dialecto creolo d'aquella ilha. O nosso amigo rev. R.
H. Moreton continuou nos seus dedicados esforços para nos obter
publicações no dialecto portuguez de Ceylão, e a elle devemos em grande
parte poder dar hoje uma bibliographia já assás consideravel d'essas
publicações e, o que é mais, possuil-as, estando assim habilitados para
publicar em breve um estudo bastante completo sobre a _Grammatica e
vocabulario do indo-portuguez_. No meio de outros trabalhos mais
consideraveis nunca perdemos de vista os dialectos creolos, que havia
muito nos interessavam, e fomos assim reunindo uma serie de noticias, em
parte simplesmente bibliographicas, cujo conjuncto nos parece offerecer
já doutrina sufficiente para constituir materia de um artigo de ensaio.
Por mais incompleto que fique o nosso trabalho estamos certos que vem
preencher uma lacuna no quadro da glottologia. Fr. Pott no quadro
systematico-bibliographico da glottologia que serve de prefacio ao tomo
II, 4 das suas _Etymologische Forschungen_ (1870) nem sequer menciona os
dialetos creolos; nos livros geraes de Whitney, Max Müller e outros
sobre a glottologia em vão se busca uma noticia d'esses tão
interessantes productos; as opiniões expressas por alguns linguistas
sobre o caracter d'esses dialectos, são, como veremos, indecisas ou
erroneas, ou não apontam os lados por que esses dialectos são mais
importantes para o observador. Comprehende-se este facto singular da
historia da nossa sciencia quando se sabe que uma parte dos glottologos
gastam o seu tempo á busca da solução de problemas ou insoluveis ou cuja
chave não está ainda descoberta (etrusco, basco, acadiano, etc.), e
outra anda absorvida pelos seus estudos especiaes, sem duvida
interessantes e muitas vezes importantes, mas que fazem desviar a
attenção de questões de muito maior momento, sendo poucos os que fazem
progredir a sciencia de uma maneira sensivel.
O nosso ensaio seria muito mais completo se tivessemos maior numero de
informações dos dialectos das nossas colonias e conquistas, e se
tivessemos visto diversas publicações sobre os dialectos similhantes das
outras linguas europêas, que por diversas causas não podémos examinar.
Entre essas causas predominam a raridade de algumas d'essas publicações
e miseravel dotação das nossas bibliothecas, que não lhes permitte
comprar senão poucos livros que interessem a um pequeno numero de
estudiosos.
I. DIALECTOS PORTUGUEZES
1. Creolo da ilha de Santo Antão (archipelago de Cabo Verde)
Este dialecto é fallado principalmente pela população de côr e pelas
creanças que o aprendem com as creadas e amas negras. Distinguem-se duas
fórmas: o creolo _rachado_, creolo _fundo_, creolo _vejo_, fallado
principalmente no interior da ilha e de que as noticias e documentos que
publicâmos dão conhecimento, e o creolo em que a grammatica portugueza é
menos ignorada, distinguindo-se quasi unicamente pela pronuncia de
algumas palavras ou sons e pelo accento geral.
As cartas seguintes foram escriptas por pessoas instruidas que fallam
bem o portuguez, mas conhecem bem o creolo rachado. O unico documento
verdadeiramente genuino do dialecto de Santo Antão acha-se na serie de
adivinhações que o nosso amigo o sr. Sá Nogueira nos ministrou.
Carta 1.^a
Nha amigo.--Cu préssa en scrêbê | Meu amigo.--Com pressa escrevi
ês dôs fója di papel, qui dentro | estas duas folhas de papel que dentro
d'ês carta en tâ manda nhô. | d'esta carta lhe envio.
|
Talvêz algun cúsa, palabra, ou | Talvez alguma cousa, palavra ou
móde nhù crê, stâ êrrado. Cuza | como quizer, esteja errada. O que
qn'en câ tâ dubída; pamóde pâ | não duvido, porque por mais creolo
más criôlo qui nós di Cabo Berde | que nós de Cabo Verde saibâmos,
nú sabê, sénpre nu tâ ncontra | sempre encontrâmos difficuldade ou
dificuldade ou enbaráço, quel'ora | embaraço logo que pegâmos na |
qui nú pêga na péna pâ nu scrêbê na | penna para escrevermos na nossa
nós lingua. | lingua.
|
Ês culpa ê câ di nós, ê di gobérno, | A culpa não é nossa, é do governo
qui si al bê animaba nós na | que longe de animar-nos em qualquer
calquér cuza, ê tâ oprimíno cú má | cousa, opprime-nos com a má
scoja di sês empregado, qu'ê tâ | escolha dos seus empregados, que
manda pâ Cabo Berde. | elle manda para Cabo Verde.
|
Ê tâ fazê bên mal, pamóde assi | Faz bem mal, porque assim perde
ê tâ pêrdê tudo amor, tudo stima | todo o amor e toda a estima que
qu'ê pôdê tên na pôbo di Cabo | póde ter no povo de Cabo Verde.
Berde. Ês cuza ê câ só na Cabo | Isto não é só em Cabo Verde é por
Berde, ê pâ tudo cábo, unde ê tên | toda a parte, onde elle tem um palmo
un palmo di chôn. En podê flába | de terra. Eu podia dizer-lhe
nhô cuzás chéo a ruspêto di nós | muitas cousas a respeito do nosso
gobérno na Cabo Berde, ¿mas paquê? | governo em Cabo Verde, mas para
Ês carta ê câ, sima português | que? Esta carta não é, como dizem
tâ flâ, di politica, e pamóde | os portuguezes, de politica, e por
ês en tâ bira pâ principio di nós | isso volto ao principio da nossa
conbersa. Ê sima en staba tâ flâ | conversação. É como lhe estava dizendo,
nhô, en câ sabê si algun cuza stâ | não sei se alguma cousa está
tórto ou mál screbêdo nês dôs fójas | errada ou mal escripta n'essas duas
di papel; mas câ m'inporta cú | folhas de papel; mas não nos importemos
ês, e nhu ôubi cuss'ê qu'ent â flâ | com isso, e ouça o que
nhô: Na fója un e na linha binte | lhe digo: Na folha 1 v. e linhas
eu binte un, nhu tâ lé na banda | vinte e vinte um, na columna creola
di criôlo «nha Dóna di nha Lucía» | «nha Dona nha Luzia», e no portuguez
e na banda di português nhú câ tâ | não encontro nada que,
acha nada qui, sima português tâ | como dizem os portuguezes, lhe
flâ, tâ corrêspondêl. | corresponda.
|
Nhú sabê ê pamóde? Ê pamóde | Sabe a rasão? É porque Dona
ês _Dóna_ ê un nóme qui na criôlo | n'aquelle logar é um nome que em
tâ chomádo «nome di cassa», e ê | creolo se chama «nome de casa»,
tâ custuma pôdo n'algun minino | e usa-se nas meninas (creanças).
fémea. Ê pâ ês nóme que ês minino | É por esse nome que ellas são chamadas
tâ chomado tioqu'ê grande, | até á maioridade ou até á
ou tioqu'ê mórré. Ês uso ê câ só di | morte. Este uso não é só de Cabo
Cabo Berde, na Brazil tanbê ê tâ | Verde, no Brazil tambem se usa,
usado, e assi mi conchê ghentes | e assim conhecemos muita gente
chéo cú nome di Nené, Nhanhina, | com os nomes de Néné ..........
Nhánha, Sinhârínha, Nhásinhára, | ...............................
Júca, Jóca, sin sér sês nome di | ...... e Joca sem serem os seus
batismo, ou _sês nome di greja_. | nomes de baptismo.
|
Agora si nhú crê sabê cuss'ê quí | Agora se quizer saber o que quer
Dóna crê flâ, en tâ flâ nhô, no | dizer Dona, eu lhe digo, em portuguez
portugués ê _avó_ e Dóno ê _avô_. | é avó e Dono avô.
|
A ruspêto di berbo, criôlo câ tên | Emquanto a verbos, o creolo não
tudo qui português tâ choma _ténpo_.| tem tudo quanto o portuguez chama tempo.
|
Prónóme ê sima ja'n esplicá nhô | O pronome é como já lhe expliquei
na fója dôs. Na criôlo di Cabo Berde| na folha 2. No creolo de Cabo
câ tên _bós_ ou _abós_ pâ _vós_ di | Verde só ha _bós_ ou _abós_ para o _vós_
português, e ês tâ flâ _nhô_, o | portuguez, e usam de _nhô_ quando
qu'ês tâ papiâ cú alguên só, e | fallam a uma pessoa só, e de _nhôs_
_nhôs_, o qu'ês tâ papiâ cú más | quando fallam a mais de uma.
d'un. |
|
Agora _En_, _min_, _amin_ ê quasi | Agora emquanto a _Eu_, _min_, _amin_
tudo ô mésmo, cú algun différença, | é quasi tudo o mesmo, com alguma
cónfórme conbersa tâ corrê. Tanbê | differença conforme o seguimento
criôlo tên _mi_. Ex.: | da conversação. Tambem o creolo
| tem _mi_. Ex.:
|
En crê ês cuza. | Eu quero esta cousa.
|
Quênhê qui fazê ês cuza? Ê mi. | Quem fez isto? Fui eu.
|
Amin en sâ tâ bá enghênho, ou | Eu vou ao engenho..........
Amin sâ tâ bá enghênho, ou En | ............................
sâ tâ bá enghenho. |
|
Jâ bástâ. Nhú al stâ enfadado. | Basta. Deve de estar enfadado.
Agóra tioque nu encontra na | Agora até quando nos encontrarmos
biblióthéca. | na bibliotheca.
|
Nhú acreditan, cum'amigo (_ou_ | Acredite-me, como amigo, que
sima'amigo) qui tâ respêta nhô chéo.| muito o respeita.
Carta 2.^a
_Césa._--Pan fartá-bo bontade en | Cesar.--Para vos fazer a vontade
tâ scrêbê-bo na nós lingua, na | eu escrevo-vos na nossa lingua,
criôlo rachado, qu'en câ sabê si bô | em creolo fundo, que eu não sei
tâ entendê-le. | se vós o entendeis.
|
Flan: pâ que bô mestê pâ nû | Dizei-me: para que precisaes de
scrêbêbo nês lingua? Bô tenê gána | que vos escrevamos n'esta lingua?
di estudâ si orige, fazê algun | Tendes desejo de estudar a sua
gramatica ou dicionare? S'ê pâ algun| origem, de fazer alguma grammatica
dês cussa Deus juda-bos; mas dexam | ou diccionario? Se é para alguma
fla-bo mê al fazê-bo suâ tioque | d'estas cousas, Deus vos ajude,
bu câ podê más, tioque bi seinti... | mas sempre vos direi que isso
| vos fará suar até não poderdes mais,
| até que o sintaes..............
|
N'ês ija quasi tudo alguên tenê | N'esta ilha quasi toda a gente
médo di Duco. Duco bu conchê-le? | tem medo de Duco: Duco vós conheceil-o?
Estan mâ náu. Duco era un préso | Estou que não. Duco era
que staba na calabôs; ê entendê mê | um preso que estava no calabouço;
câ stába lâ sábe, ê fugi êle cû dôs | e entendeu que não estava lá bem;
companheros; ê stâ riba cháda; tâ | e fugiu com dois companheiros; está
mátâ cábra, tâ forçâ mujéres, tâ | em cima da achada; mata cabras,
fazê tudo casta di pouca borgonha. | força mulheres, faz toda a casta
Flado mâ Duco manda flâ Henrique | de pouca vergonha. Diz-se (fallado)
d'Olibéra, Puchim, Maia, Bencesláu | que Duco manda dizer a Henrique
pâ ês tomâ seintido cú sês | de Oliveira, Puchim, Maia, Wenceslau
bida, pâ ês câ bá fóra, pamóde se | para que estes tomem sentido
encontra cu êles mê tâ matalos. | com a sua vida, para estes não
Fazê idéa mó ês al tênê mêdo! | irem fóra, poisque se se encontra
| com elles que os mata. Fazei idéa,
| como estes terão medo!
|
P. si bida ê dentro cartore; ê | Paulo a sua vida é dentro do
stâ magro sima alguên tisgo; ê flâ | cartorio, elle está magro assim como
mâ só bo que sâ tâ fazê-le falta; | um tisico; diz que sois vós que
ê mandá-bo mantenha chéo. | lhe tendes feito falta; elle manda-vos
| muitas recommendações.
|
Ti outr'ora; en câ ten mâs tempo. | Até outra occasião; eu não tenho
Bo armun, etc. | mais tempo. Vosso irmão, etc.
Carta 3.^a
Nha estimado armun. En rêcêbê | Meu estimado irmão. Eu recebi
carta di nhô, qu'in fica munto | carta do senhor, que eu fico muito
contente con êl, e pan fazê nhô | contente com ella, e para fazer ao
bontade en tâ cumçâ screbê nhô na | senhor vontade eu começo a escrever
criôlo. Primêro nobidade qu'in tâ | ao senhor em creolo. Primeira
dâ nhô ê cumâ C. mâ tâ recitâ quês | novidade que eu dou ao senhor é
berços di dôda de Albano na criôlo | que C. recita aquelles versos da doida
e ê ta cunçal sin: | de Albano em creolo, e começa
| assim:
|
Benca li nha fijo sucuta: | Vem cá meu filho escuta:
|
Bê ê amigo di bu mái? | És amigo de tua mãe?
|
Bé! nha mái, e que pergunta ê | Bem, minha mãe, e que pergunta
ês? | é essa?
|
Pôs bên, sima bu ojá ês carnuja | Pois bem, assim como tu vês este
carnugado, ferucho feruchado ê | ferro enferrujado é sangue de teu
sangue di bu pai; i bu tâ juran cumâ| pae, e tu juras-me como o vingas?
bu ta bingal? |
|
En tâ jura! | Eu juro!
|
Ampôz ê Ricardo pai di Maria, | Pois é Ricardo, pae de Maria,
qui matâ bu pai! | que matou teu pae!
|
Bé! mamái! Pai di Maria en câ | Bé! mamã! Pae de Maria eu não
podê matal, pamóde Maria stan | posso matal-o, porque Maria está
dente nha côraçon. | dentro de meu coração.
|
E assim cú munto cuza, mas | E assim com muita cousa, mas
qu'in câ sabê, e por isso en câ tâ | que eu não sei, e por isso eu não
pon. Quen qui costumá tanbê recital | ponho. Quem aqui tambem costuma
ê Brito e mas Quinquim. | recital-os é Brito e mais Joaquim.
|
En pidi nhô di fabôr pá nhú mandan | Eu pedi ao senhor o favor de
quêl dicionare; en pedi té na | mandar-me aquelle diccionario; eu
português, gora en tâ biral na | pedi em portuguez, agora eu traduzo
criôlo. Quê pâ fabur câ nhú | (viro) em creolo. Queira por
desquecê. En tâ, cába ês carta pan | favor não se esquecer. Eu acabo
porgunta nhô s'ê pêrciso escrêbê nhô| esta carta por perguntar ao senhor
en criôlo na tudo bapor, ou náo. | se é preciso escrever ao senhor em
| creolo por todos os vapores ou não.
|
Nhu adés, nhú dán tudo alguen |
mantênha chéo. Tudo ghentes di |
casa tâ mandâ nhô mantenha chéo. |
Phrases diversas
Mâ nhu stâ? ou Mâ nhu pássâ? | Como está? ou como passa?
|
Cômmôdádo, nhô mâ nhu sa ta | Bom, e o sr. como tem passado?
pássâ? |
|
Mâ ba ghentes tudo dinhô? _ou_ | Como estão todos os seus?
Móde ghentes tudo di nhô stâ? |
|
Tudo stâ bon, graças a Déus. | Todos estão bons, graças a Deus.
|
Jâ dura qui en ca ôjâ nhô; Unde | Ha muito tempo que o não vejo,
nhu staba? _ou_ Unde nhu tên stado? | onde tem estado?
|
Mi en stába la na Orgôn, _ou_ En | Eu estava nos Orgãos, ou eu tenho
tên stâdo la na Orgôn. | estado nos Orgãos.
|
Cuz'é _ou_ Cuss'ê nhu bá fazêba lâ? | O que foi lá fazer?
|
En bába oja (_ou_ en bá ojába) un | Fui ver uma parenta minha que
nhâ parente, qui stába doente. | estava doente.
|
¿Quênhê, tia di nhô, nhâ Maria? | Quem? a sua tia, a sr.^a Maria?
¿Cuss'ê qu'ê tênba? | O que tinha ella?
|
E tênba dór na péto, _ou_, ê ta | Tinha dores no peito, ou queixava-se
quexaba di dór na péto. | de dores no peito.
|
Ê jâ stâ milhor? | Já está melhor?
|
En dêxal um pouco milhor, _ou_, | Deixei-a um pouco melhor.
En dêxal más cômôdádo un pouco. |
|
Púndo nhu sâ tâ bai? (_gossi-n_). | Para onde vae agora?
|
En sâ tâ bai Praia. | Vou á Praia.
|
I mi en sâ tâ bai (_ou_ bá) Tarrafal| E eu vou para o Tarrafal.
_ou_ Tarfal. |
|
Anton nhu tên qui anda chêo | Então tem de andar ainda muito.
inda. |
|
Qui horas ê gossin? _ou_ Canto | Quantas horas são?
hora jâ dâ? |
|
Já stâ pâ dôs hora. | Devem ser duas horas.
|
Dêxam bai, tioque nu torna ojá. | Deixe-me ir, até quando nos tornarmos
| a ver.
|
Nhu adés. (_adés_). | Adeus.
|
F. En tâ pidi bo pâ bo escrêbên | F. Peço-te que me escrevas uma
um carta na criôlo, mas num criôlo | carta em creolo, mas em um creolo
bêrdadêro. | verdadeiro (puro). Has de achar
Bu al acha galante ês pidido; | exquisito (extravagante) este pedido,
mas oc bu sabê ê pâ cuzé, bu al | mas quando souberes para que
ficá conténte. Gossin en câ podê | é, ficarás satisfeito. Agora (n'esta
flábo ê pâ que fin, pamóde en câ | occasião) não posso dizer-te para
tên ténpo. | que fim é, porque não tenho tempo.
|
Câ bu squêcê, ¿já bu oubí? | Não te esqueças, ouviste?
|
Bo armun amigo. | Teu irmão, amigo.
|
Jâ bu râcêbê nha carta qui en | Já recebeste a minha carta que
scrêbê-bo na criôlo? Respondên e | te escrevi em crioulo? Responde-me
e mandâ flan mode ghentes tudo | e manda dizer-me como estão todos.
stâ. |
|
Titia jâ stâ mijór di si dismaios? | A tia já está melhor dos seus
Nha Dóna di nha Lucía inda câ | desmaios? A nha Dona da Luzia
cômôda? | ainda não está boa?
|
Logo qui[1] bu rêcêbê ês carta, | Logo que receberes esta carta
bu ta manda chôma Roque, e bu | mandarás chamar o Roque, e lhe
ta flal cumâ en rêcêbê si carta, e | dirás que recebi a carta d'elle, e
su xinti chêo di más, di máo tratos,| senti bastante dos maus tratos, que
qui scribons sâ tâ dal. | os escrivães lhe têem dado.
|
Comâ gossin en câ podê fazel | Que agora nada lhe posso fazer,
náda, e pâ ê spêra tioque en boltâ | e que espere até (quando) eu voltar
C. Berde; e anton en tâ oja, si | a Cabo Verde, e verei então se
algun cuza en tâ podê alcança na si | alguma cousa posso alcançar em
fabôr. | seu favor.
Adivinhações
«Os creolos em Cabo Verde, diz-nos o sr. Nogueira, pelo menos em
Sant'Iago, têem por costume contarem historias, isto é, lendas ou
contos.
«Quasi sempre essas historias são contadas á noite, assentando-se as
pessoas que tomam parte n'esse passatempo de caracter verdadeiramente
familiar, á porta da rua ou então dentro de casa, fazendo d'esse
passatempo um serão. Precedem a essas historias as adivinhações, sendo
algumas d'estas bem obscenas.»
Eis uma pequena serie d'essas adivinhas que o nosso collaborador nos
ministrou:
1. Xintido. | Mi li, mi lá.
|
2. Porco. | Mungo mungo tâ ba rúbera.
|
3. Chúba na banána. | Ráque-ráque na pedragál.
|
4. Ê un home que mátâ un buro, { Curupíu de dâs pé mátâ curúpíu de
pamóde um pé de coube. { quato pé, sob curupiu de um pé.
|
5. Ê ôjo. { In tên nhâ dôs fijo na janélla nium
{ câ tâ ôjâ companhêro.
|
6. Falla. { In tên nhâ fijo in tâ mandal dento
{ chuba ê câ tâ môjâ.
|
7. Máma di cadêra. { In tên nhâ dôs fijo tâ córê tudo córê,
{ nium câ tâ pássâ companhêro.
|
8. Oréja. { In tên nhâ figuêrinha na pónta di
{ rócha, tâ queí, câ tâ queí.
|
9. Sónbra. { In córê ín câ pêga, in xinta in
{ pêga.
|
10. Bôca cú dente. | In tên nhâ pucarínha cheio d'ôsso.
|
11. Tripiche. { Chôro na cassa di riba, batuque na
{ cassa di baxo.
|
12. Pánno. | Nôte di cumprido, di dia di trabêsado.
|
13. Caldêron. { Ê tên pé ê câ tâ ánda ê tên aça ê
{ câ tâ buâ.
|
14. Arco d'abêja. { Jôn di Pico, Manél d'Orgôn, sê câ
{ súbi ê al trabêssa.
|
15. Pedra fôgôn. { In tên três préto; si ún câ stâ, quêlouto
{ dôs câ tâ sirbi.
|
16. Óbo. { Radondête indête _que não tem_ tapo
{ nem tôpête.
|
17. Anzol:--ê tâ lêba isca mórto, { Préto côrcôbádo que tâ lêba mórto,
ê tâ tarcê pexe { tâ trâzê bibo.
|
18. Póte. | Ê bá dêtado, ê bên sâquédo.
|
19. Estréla na Céo. { In tên nha cúrál di cábra, nôte pâ
{ manheê nium.
|
20. Máma de báca. { Nha quato bôli bóca pâ báxo lête
{ câ tâ lánça.
|
21. Estrubado. { Nhâ boi tâ bônba lâ na Tarafál, in
{ tâ oubi li.
|
22. Mandioca. { Ríquití pé béjo fésta quê câ chiga,
{ ê câ sabe.
|
23. Morte | In bai pân cá bên más.
|
24. Calbicêra. { Albo cú mâ albâiáda, verde mâ
{ vêrdête, tên côr di rabu de sancho,
{ mas ê câ êl.
|
25. Caminho. { Un hóme grande sin sónbra.
|
26. Fumo. { Nha cabállo dento cóma na rua.
|
27. Sino. { Sin câ pêga nha boi rábo ê câ tâ
{ bônba.
|
28. E côco cú si pája, cu cumida, { In tên un caza di pája dento quêl
cu ágo. { caza di pája in tên un caza branca,
{ dento caza branca in tên un
{ fonte d'ágo.
|
29. Cruz na cháda. { In tên nha báca na cháda, in câ
{ tâ dâ pája, in câ tâ dé ágo, tudo
{ alghên qui páçâ ta botan el um
{ mô de pája.
|
30. Nabíu. { In tên un óme grande na mê di
{ mar, s'ê câ bento ê câ tâ anda.
Observações phoneticas
Dos sons do portuguez faltam no creolo de Santo Antão _lh_, substituido
por _j_ (_paja_, _ija_, _foja_, _fijo_, _scoja_), _v_ substituido por
_b_ (_dubida_, _dêbê_, _oubi_, _pobo_, _conbersa_, _biro_, _fabur_); os
diphthongos nasaes (_Jan_==_João_, _Orgon_==_Orgãos_,
_coraçon_==_coração_, _armun_==_irmãos_, _náo_==_não_); o diphthongo
_ei_, substituido por _é_, _ê_ (_proméro_, _ruspêto_, _figuêrinha_).
Ha alguma tendencia para o iotacismo: _di_==_de_.
_I_ desapparece em _pos_==_pois_, _mas_==_mais_.
Mudanças varias nas vogaes atonas: _armum_==_irmão_,
_proméro_==_primeiro_, _borgonha_==_vergonha_, _ruspêto_==_respeito_.
Mudança nas vogaes accentuadas: _cuza_==_cosa_, _favur_==_favor_.
Apherese de vogal ou de syllaba: _sim_==_assim_, _nhô_==_senhor_,
_nha_==_minha_[2]; _tâ_==_está_.
Syncope de vogal: _cumçâ_==_começar_, _crê_==_querer_,
_conchê_==_conhecer_.
Apocope de vogal ou de syllaba inteira: _calabôs_==_calaboço_, _mó_
(como)==_modo_, _mo_==_molho_, _ês_==_este_.
Apocope de _r_: regular no infinito (_ser_ é uma excepção, se não ha
erro no paradigma que nos enviou o nosso informador); _nhô_==_senhor_,
_pâ_==_por_.
Varia: _ago_==_agua_, _sucuta_==_escuta_.
Observações morphologicas
1. _Genero._ Os adjectivos não têem fórmas que indiquem o genero. A
fórma typica é em geral a fórma masculina portugueza; mas ha excepção,
como _nha_==_minha_.
2. _Numero._ O emprego das fórmas do plural não se póde estabelecer com
certeza dos textos que temos á nossa disposição, nem das noticias que
nos ministraram.
Os casos seguintes parecem-nos representar as tendencias do dialecto no
emprego do _s_ do plural: a) os adjectivos e pronomes empregados como
adjectivos não tomam o signal do plural (mas diz-se _quel_, _quels_); b)
com os numeraes o substantivo não toma o signal do plural (mas na carta
2.^a ha _dôs companheros_); c) quando do contexto da phrase resulta a
idéa da pluralidade falta o _s_ do plural. Exemplos:
_es dos foja._ estas duas folhas.
_tres preto._ tres pretos.
_mujer, mujeres._ mulher, mulheres.
Com relação ao plural diz-nos o nosso informador: «A tendencia que ha
hoje para empregar regularmente as fórmas do plural torna-se muito
sensivel».
3. _Pronomes._ Os pronomes demonstrativos são: _ês_ (este, esse) e
_quel_ (aquelle).
_Ês home._ Este homem.
_Ês mujer._ Esta mulher.
_Ês homes._ Estes homens.
_Ês mujeres._ Estas mulheres.
_Quel rapaz._ Aquelle rapaz.
_Quel rapariga._ Aquella rapariga.
_Quels_ (ou _quel_) _rapaz_. Aquelles rapazes.
_Quels_ (ou _quel_) _raparigas_. Aquellas raparigas.
O interrogativo é: _quen_, _qui_, ou _quê-nhê_, quem.
Eis o quadro dos pronomes pessoaes.
Singular: _En_, _in_, _mi_ eu
_-n_ -me
_Bu_ (abó) tu
_Di bó_ de ti
_-bo_ -te
_Ê_ elle
_-l_ lhe
_nhô_ lhe (vos)
_êl_, _-le_ o
Plural: _Nós_, _nu_ nós
_-no_ -nos
_Nhô_, _nhôs_ vós
_nhô_ vos
_Ês_ elles
_-ls_ lhes
_Quên qui dan (dâ-n) el._ Quem m'a deu.
_Quên qui dá-bo el._ Quem t'a deu.
_Quên qui dá-nhô el._ Quem lh'a deu.
_Quên qui dá-no el._ Quem nol'a deu.
_Quên qui dá nhô el._ Quem vol'a deu.
_Quên qui dals (da-ls) el._ Quem lh'a deu.
_Bu tâ entendêle._ Tu entendel-o.
_En tâ jural._ Eu o juro.
_Bu_ (vós) tendo usurpado o logar de _tu_, não ha pronome da segunda
pessoa do plural; o _pronomen reverentiae_ é substituido por
_nhô_==senhor, _nhâ_==senhora. _Nhô_ tomou o signal do plural: _ô
nh'amigos, nhôs al judan fazê ês cuza_, ó meus amigos, vós haveis de me
ajudar a fazer esta cousa.
O pronome da segunda pessoa do singular diz-se _bó_ quando é precedido
de proposição: _di bó_, de ti.
Nas ilhas de Barlavento ha _bucê_, _bucês_, _bocê_, _bocês_ em logar de
_bó_, _abó_ e _nhô_.
Os seguintes exemplos mostram as fórmas dos possessivos ou seus
equivalentes:
_Nha caballo._ O meu cavallo.
_Nha caballos._ Os meus cavallos.
_Nha egua._ A minha egua.
_Nha eguas._ As minhas eguas.
_Ês caballo ê di men._ Este cavallo é meu.
_Ês caballos ê di men._ Estes cavallos são meus.
_Ês egua ê di men._ Esta egua é minha.
_Ês eguas é di men._ Estas eguas são minhas.
_Bu cavallo._ O teu cavallo.
_Bu cavallos._ Os teus cavallos.
_Bu egua._ A tua egua.
_Bu eguas._ As tuas eguas.
_Ês caballo ê di bó._ Este cavallo é teu.
_Ês egua ê di bó._ Esta egua é tua.
_Si caballo, sês caballo._ O seu cavallo, o cavallo d'elle.
_Caballo di nhô_ ou _nhâ._ O seu (vosso) cavallo.
_Ês caballo ê di nhô._ Este cavallo é vosso, seu.
_Nós boi._ O nosso boi.
_Nós báca._ A nossa vaca.
_Ês boi ou ês báca ê di nós._ Este boi ou esta vaca é vosso, vossa.
_Si caballo, sês caballo._ O seu cavallo (d'elles).
_Ês caballo ê di sês, d'êls_ ou _d'ês._ Este cavallo é seu (d'elles).
4. _Verbo._ Esta parte da grammatica do creolo de Santo Antão apresenta
uma riqueza muito maior que em geral os outros dialectos similhantes.
Não é difficil explicar este facto: o contacto persistente entre a
população que falla o dialecto e os que fallam o portuguez puro tende
naturalmente a fazer penetrar no creolo maior numero de fórmas
portuguezas. Vimos já o que se dava com as fórmas do plural. Damos os
paradigmas da conjugação e faremos depois algumas observações sobre
elles.
Ser (sér)
Indicativo
Presente
_Mi ê_ Eu sou
_Bu, abo_ ou _abo bu ê_ Tu és
_Êl ê_ Elle é
_Nós, nos nu ê_ Nós somos
_Ês ê_ Elles são
Perfeito composto
_Eu ten sido_ Eu tenho sido
_Bu ten sido_ Tu tens sido
_Êl, ê ten sido_ Elle tem sido
_Nos, nu, ten sido_ Nós temos sido
_Ês tên sido_ Elles têem sido
Imperfeito e perfeito
_Mi era_ Eu era
_Bu etc. era_ Tu eras
_Êl era_ Elle era
_Nós era_ Nós eramos
_Ês era_ Elles eram
Futuro
_En al ser_ Eu serei
_Bu al ser_ Tu serás
_Êl al ser_ Elle será
_Nu al ser_ Nós seremos
_Ês al ser_ Elles serão
Condicional
_En tâ sérba_ Eu seria
_Bu tâ serba_ Tu serias
_Ê tâ sérba_ Elle seria
_Nu tâ sérba_ Nós seriamos
_Ês tên de ser_ Elles seriam
Subjunctivo
Presente
_En ser_ Eu seja
_Bu ser_ Tu sejas
_Ê ser_ Elle seja
_Nu ser_ Nós sejamos
_Ês ser_ Elles sejam
Imperfeito
_Mi era_ Eu fosse
_Bu era_ Tu fosses
_Êl, ê era_ Elle fosse
_Nu era_ Nós fossemos
_Ês era_ Elles fossem
Futuro composto
_In ten de ser_ Eu tiver de ser
_Bu ten de ser_ Tu tiveres de ser
_El, ê ten de ser_ Elle tiver de ser
_Nos, nu ten de ser_ Nós tivermos de ser
_Ês ten de ser._ Elles tiverem de ser
Imperativo
_Ser_ Sê tu
_Nhu ser_ Sede vós
Haver
Este verbo é quasi exclusivamente empregado para a expressão do futuro
como auxiliar, portanto no presente do indicativo.
A fórma _al_ provém de _ha-de_, por apocope e mudança de _d_ em _l_.
O verbo _dêbê_ é empregado como auxiliar, substituindo _al_. Na cidade
da Praia diz-se _hôbe (oubi) tempo, tên habido_, mas essas fórmas não se
acham ainda no creolo rachado.
Ten (ter)
No presente do indicativo _tên_ para todas as pessoas no paradigma
escripto pelo nosso informador; mas nas cartas 2.^a e 3.^a ha _tênê_
como fórma fundamental, servindo pois para o presente só com os pronomes
e figurando nos tempos compostos, como _ser_ no paradigma acima.
O imperfeito e o perfeito do indicativo tem _tenba_, tinha, para todas
as pessoas; o imperativo _tên_. Emprega-se o participio _tido_.
Stá (estar)
No presente do indicativo _sta_ ou _star_ para todas as pessoas; no
imperfeito _staba_, no perfeito _stêbe_, ou no creolo rachado _staba_,
como no imperfeito. Os tempos periphrasticos conformam-se ao paradigma
de _ser_. Emprega-se o participio _stado_.
Verbos não auxiliares
O presente em regra é expresso por _tâ_ (-stá) com o infinito, para
todas as pessoas exemplos: _en tâ jurâ_, eu juro, _bô tâ flâ_, vós
dizeis; mas occorre tambem como presente a simples fórma do infinito:
_nhu sabê_, vós sabeis. Algumas fórmas do presente portuguez,
principalmente da terceira pessoa, occorrem, sem variação, com o
auxiliar _tâ_ ou isoladas, exprimindo o presente: _en tâ bai_, eu vou;
_êl tâ lêba_, elle leva; _en péga_, eu agarro; _en tâ biro_, eu volto;
_in xinto_, eu me sento.
Ha fórmas do preterito como _fazeba_, fazia, _baba_, ia (sobre o
presente _bai_).
O perfeito parece ser expresso pelo infinito, como _recebê_, _fugî_
(elle fugiu), _xinti_, _matá_, _entendê_, nas cartas acima.
O imperativo é expresso pelo infinito: _esquecê_, esquece, esquecei;
_judá_, ajuda, ajudae. Occorrem algumas fórmas particulares como _ben_,
vem, vinde.
Ha participios em _ado_ como _usado_, _enfadado_, em _edo_ como
_screbedo_, escripto, em _ido_ (normal?).
Os tempos periphrasticos seguem o paradigma de _ser_ (auxiliar com a
fórma principal, infinito presente ou participio passado).
Algumas vezes o futuro é identico ao presente: _en tâ mandá_, mandarei;
_bô tâ flal_, dir-lhe-has.
Observações lexiologicas
A etymologia dos vocabulos creolos é geralmente transparente nos
specimens que publicâmos; notâmos apenas particularmente os seguintes,
comquanto outros chamem tambem a attenção:
_Câ_, não; origem incerta.
_Mâ_, _mê_, que; provirá da conjugação adversativa _mas_?
_Mantenha_ em _mantenha chéo_, significando muitas recommendações;
originou-se este emprego evidentemente da formula antiga de saudar:
_Deus te mantenha_.
_Pamóde_, porque; provém da formula _por amor de_, _por mór de_, muito
usada em portuguez, significando por causa de. No dialecto de Macau
usa-se no mesmo sentido a variante phonetica _prómódi_.
_Papiá_, fallar; _flâ_ toma o sentido de dizer.
_Sâ_ em _nhu sâ tâ passado_ como tem passado, e _sâ tâ dal_, lhe tem
dado, etc., é obscuro para nós.
_Sábe_ (de _saber_) serve para exprimir que uma cousa é agradavel; _câ
sábe_, que é desagradavel; _ês cumida ê sâbe_, esta comida é agradavel,
sabe bem; _quel home tên ar sábe_, aquelle homem ter ar agradavel;
algumas vezes póde traduzir-se por _bem_. _Fede_ exprime o contrario:
_chêrá féde_, cheirar mal; _fazêl féde_, offendel-o.
_Tioque_, até que; _oque_ (_oc_), _oqu'ês_, quando.
Nomes hypocoristicos ou nomes de casa
_Baca._ Lourenço.
_Balanta._ Valentim.
_Banda._ Domingos.
_Barujo._ Vicente.
_Beba._ Genoveva.
_Bebé._ Bernabé.
_Beto._ Alberto.
_Beto._ Roberto.
_Bibina._ Balbina.
_Bina._ Etelvina.
_Bocha._ Ambrosio.
_Bomba._ }
} Anna.
_Bombina._}
_Caella._ Michaela.
_Caixa._ Nicolau.
_Cote._ Torquato.
_Chalino._ Marcellino.
_Chamara._ Maximiana.
_Chamaro._ Maximiano.
_Chana._ Sebastiana.
_Chana._ Luciana.
_Chanchane._ Alexandre.
_Chéché._ José.
_Chella._ Marcella.
_Chello._ Marcello.
_Chencho._ Innocencio.
_Chicha._ Narcisa.
_Chichi._ Cecilia.
_Chica._ Francisca.
_Chico._ Francisco.
_Chimí._ Cazimiro.
_China._ Filippe.
_Choga._ Chrysostomo.
_Choncha._ Sebastião.
_Chubanta._ Martha.
_Chumpa._ Paula.
_Cobra._ Francisco.
_Coco._ Simoa.
_Coima._ Paulo.
_Colaça._ Nicolaça.
_Cuna._ Joaquina.
_Dada._ Felicidade.
_Damás._ Damasio.
_Delba._ Amaro.
_Dico._ Frederico.
_Didi._ Claudina.
_Dindino._ Bernardino.
_Dique._ Henrique.
_Doca._ Theodora.
_Doco._ Theodoro.
_Doli._ Isidoro.
_Doria._ André.
_Dunda._ Domingos.
_Jéjé._ José.
_Faia._ Raphael.
_Fan._ Estephania.
_Fina._ Josephina.
_Fita._ Antonio.
_Fonfon._ Affonso.
_Fronha._ Luiza.
_Gena._ Eugenia.
_Gruida._ Margarida.
_Ia._ Maria.
_Lela._ Magdalena.
_Lelencha._ Florencia.
_Lelencho._ Florencio.
_Lena._ Helena.
_Lorma._ Jeronymo.
_Lota._ Izabel.
_Maja._ Luiz.
_Mana._ Germana.
_Mano._ Germano.
_Maral._ Pedro.
_Mongido._ Hermenegildo.
_Motas._ Thimotheo.
_Munda._ Raymundo.
_Nhaba._ Filippe.
_Nico._ Manuel.
_Oiro._ Miguel.
_Pelico._ Polycarpo
_Penha._ Gregorio.
_Pomba._ Ignez.
_Potâ._ Hippolyto.
_Queta._ Henriqueta.
_Quinquina._ Joaquina.
_Ramal._ Antonio.
_Roda._ Andreza.
_Ronda._ Agostinho.
_Supro._ Cypriano.
_Tancha._ }
} Constança.
_Tantancha._}
_Tantana._ Victoriana.
_Tantano._ Victoriano.
_Tatacha._ Anastacia.
_Tatacho._ Anastacio.
_Tetêa._ Dorothea.
_Têtês._ Matheus.
_Tilia._ Mathilde.
_Tinho._ Martinho.
_Tino._ Faustino.
_Tintim._ Valentim.
_Tintina._ Catharina.
_Tólo._ Bartholomeu.
_Touco._ Victor.
_Tuda._ Gertrudes.
Ás formações hypocoristicas que têem limitadissima extensão em Portugal,
abriu-se um campo novo nos dialectos fóra da Europa; algumas d'essas
fórmas vieram de lá para a metropole, como _Juca_, _Nhónhô_, etc.
É difficil e em parte impossivel achar as relações que existem entre
algumas d'essas fórmas hypocoristicas de Santo Antão e as usuaes
correspondentes; para algumas não haverá até talvez relação etymologica;
mas a difficuldade provém principalmente do pequeno numero das fórmas
que conhecemos, que não nos permittem reconhecer todas as variedades dos
processos, a que devem a existencia. As fórmas difficeis de reduzir ou
irreductiveis, em a nossa lista são: _Baca_, _Banda_, _Barujo_, _Bomba_
(e _Bombina_), _Caixa_, _China_, _Choga_, _Choncha_, _Chubanta_,
_Chumpa_, _Cobra_, _Coco_, _Coima_, _Delba_, _Doria_, _Dunda_, _Faia_,
_Fita_, _Fronha_, _Lota_, _Maja_, _Maral_, _Nhabo_, _Oiro_, _Pelico_,
_Pomba_, _Potâ_, _Ramal_, _Roda_, _Ronda_, _Touco_ (32 fórmas). As
outras fórmas hypocoristicas de Santo Antão provém das usuaes
correspondentes por processos de formação em geral perfeitamente
regulares. O processo mais geral é o da simples apherese de todos os
elementos que precedem a syllaba accentuada; essa alteração raramente é
a unica que se dá: quasi sempre se complica com outras. Em poucos casos
a apherese deixa de fazer desapparecer todas as syllabas que precedem a
accentuada (vid. infra _Mongido_ e _Chamaro_).
Formação por apherese
_A._ Simples apherese.
_Caela_ de _Michaela_.
_Colaça_ » _Nicolaça_.
_Fina_ » _Josephina_.
_Lena_ » _Helena_.
_Mano_ de _Germano_
_Queta_ » _Henriqueta_.
_Tinho_ » _Martinho_.
_Tino_ » _Faustino_.
Em:
_Ia_ de _Maria_
a apherese estendeu-se á consoante inicial da syllaba accentuada.
_B._ Apherese complicada com outros phenomenos phoneticos.
1) Modificações nas vogaes finaes:
_Cate_ de _Tor-quato_.
_Dada_ » _Felici-dade_.
_Gena_ » _Eu-genia_.
_Mota-s _ de _Ti-motheo_.
_Munda _ » _Raymundo_.
2) Apocope:
_Fan_ de _Este-phania_.
3) Apocope com retracção do accento:
_Tólo_ de _Bartholo-meu_.
4) Alteração da vogal accentuada:
_Cuna_ de *_Quina_ de _Joa-quina_.
5) Quéda de _r_ da syllaba accentuada, com ou sem modificação das vogaes
finaes:
_Beto_ de *_Berto_ de _Al-berto_.
_Beto_ » *_Berto_ » _Ro-berto_.
_Dico_ » *_Drico_ » _Fre-drico_, _Frederico_.
_Guida_ » *_Grida_ » _Mar-grida_, _Margarida_.
_Tuda_ » *_Trudes_ » _Ger-trudes_.
6) Modificações nas consoantes das syllabas conservadas:
a) _v_ em _b_.
_Beba_ de *_Veva_ de _Genoveva_.
_Bina_ » *_Vina_ » _Etel-vina_.
b) _s_, _z_ (_ç_, _s_) em _ch_:
_Chicha_ de *_Cisa_ de _Nar-cisa_.
_Chello_ » *_Cello_ » _Mar-cello_.
_Tancha_ » *_Tança_ » _Cons-tança_.
c) _ci_, _si_, _ti_ em _ch_:
_Bocha_ de *_Brosio_ de _Am-brosio_.
_Chana_ » *_Ciana_ » _Lu-ciana_.
_Chencho_ » *_Cencio_ » _Inno-cencio_.
_Chana_ » *_Tiana_ » _Sebas-tiana_.
Em _Bocha_ houve quéda de _r_ como em _Beto_, _Tuda_, etc., mudança de
_o_ em _a_ como em _Munda_.
d) Mudança de _ç_ em _ch_ com alteração n'uma vogal protonica:
_Chalino_ de *_Cellino_ de _Mar-cellino_.
e) Mudança de _ç_ em _ch_ e desapparecimento d'uma consoante:
_Chico_ de *_Cisco_ de _Francisco_.
_Facico_ é a pronuncia pathologica do nome _Francisco_.
f) Alterações diversas regulares de consoantes (complicadas n'alguns
casos com modificações vocalicas).
Assimilação de _ld_ em _ll_ (_l_):
_Tilia_ de *_Tilde_ de _Ma-thilde_.
Assimilação de _ld_ em _d_:
_Mongido_ (_Mengido_) de *_Menegildo_ de _Hermenegildo_.
_r_ em _l_, _n_ em _r_:
_Lorma_ de *_Ron(y)mo_ de _Je-ronymo_.
_r_ em _l_:
_Doli_ de *_Doro_ de _Isi-doro_.
_r_ em _d_:
_Dique_ de *_Rique_ de _Henrique_.
_n_ em _r_:
_Chamáro_ de *_Chimiano_ de _Ma-ximiano_.
_n_ em _l_:
_Lela_ de *_Lena_ de _Magda-lena_.
g) Alteração consonantal irregular:
_Doca_ de *_Dora_ de _Theo-dora_.
h) Alteração da consoante da syllaba accentuada com apocope de syllaba:
_Chimí_ de *_Zimí_ de _Ca-zimiro_.
_C._ Apherese e reduplicação:
1) Sem apocope:
a) _Bibina_ de *_Bina_ de _Bal-bina_.
_Chanchane_ » *_Chane_ (_Chandre_) » _Alexandre_.
_Dindino_ » *_Dino_ » _Bernar-dino_.
_Lelencho_ » *_Lencho_ (_Rencho_) » _Flo-rencio_.
_Tantancha_ » *_Tancha_ » _Constança_.
_Tatacho_ » *_Tacho_ » _Anas-tacio_.
_Tetea_ » *_Tea_ » _Doro-thea_.
_Tetés_ » *_Tés_ (_Teus_) » _Ma-theus_.
b) _Bebé_ » *_Bé_ » _Berna-bé_.
_Chéché_ » *_Ché_ » _José_.
_Jéjé_ » *_Jé_ » _José_.
_Quimquim_ » *_Quim_ » _Joa-quim_.
_Tintim_ » *_Tim_ » _Valen-tim_.
2) Com apocope:
_Didi_ de *_Di_ (_Dina_) de _Clau-dina_.
_Fonfon_ » *_Fon_ (_Fonso_) » _A-fonso_.
_Chichi_ » *_Chi_ (_Chilia_) » _Ce-cilia_.
_Chichi_ póde explicar-se tambem por apocope.
3) Com syncope:
_Tantano_ de _Tano_ (_Trano_, _Triano_, _Toriano_) de _Vic-toriano_.
_Tintina_ » _Tina_ (_Trina_, _Tarina_) » _Ca-tharina_.
Formação por apocope (sem apherese)
_A._ Sem retracção do accento:
_Damás_ de _Damasio_.
_B._ Com retracção do accento e em geral alteração da vogal sobre que
elle vae recaír:
_Balánta_ de _Valentim_.
_Pelíco_ » _Policarpo_.
_Supro_ » _Cypriano_.
Algumas das fórmas difficeis de explicar resultam sem duvida, em parte,
de uma complicação de processos; _Potâ_, por exemplo, provém, de
_Hypolito_ por apherese de _Hy_, syncope de _l_ com contracção de vogaes
e protracção do accento, mas esta fórma permanece isolada. A derivação
póde tambem, como n'outras linguas, ter representado algum papel
(_Lota_==_Izabelota_).
Os processos de formação que acabâmos de expor não têem nada de
especial: encontram-se com simples variantes n'um grande numero de
linguas antigas e modernas, falladas a distancias consideraveis,
pertencendo a grupos radicalmente distinctos.
Mr. Robert Mowat consagrou ás fórmas hypocoristicas um estudo muito
interessante, _De la déformation dans les noms propres_, publicado
primeiramente em _Mémoires de la société de linguistique de Paris_, e
depois na brochura _Noms propres anciens et modernes_ (Paris, 8.^o,
1869), p. 41-59. Um grande numero de fórmas hypocoristicas germanicas
acha-se estudada na obra especial de Franz Stark, _Die Kosenamen der
Germanen_ (Wien, 1868, 8.^o), em August Fick, _Die Göttinger
Familiennamen_ (Programma do _Gymnasium and Realschule erster Ordnung zu
Göttingen_. Göttingen, 1875, 4.^o), em Ludwig Steub, _Die Oberdeutschen
Familienamen_ (München, 1870, 8.^o peq.) Nos _Studien zur romanischen
Wortschöpfung_ von Carolina Michaëlis ha uma collecção interessante de
fórmas hypocoristicas romanicas (p. 70 ss). São essas as obras que temos
á mão sobre o assumpto, mas ha outras que d'elle se occupam, como a de
August Fick, _Griechische Eigennamen_. Vamos extrahir d'essas obras
alguns exemplos que provam a existencia de leis geraes nas formações
hypocoristicas.
Na Biblia _Aram_ (Gen. 22, 21) e _Ram_ (Job. 32, 2) designam o mesmo
personagem; o mesmo se dá com _Jaziel_ (Chr. I, 15, 20) e _Aziel_ (Chr.
I, 15, 18). Mowat, que cita esses exemplos, approxima _Lazaro_
(Evangelho de S. João e de S. Lucas) de _Eleazaro_ (Livro dos Machabeos)
e adduz o copta _Chael_ (cp. _Caella_ por _Michaela_ no creolo de Santo
Antão), o phenicio _Karthalon_ por _Melkarthalon_, _Stembal_ por
_Manastambal_ (segundo Gesenius).
No grego o processo da apherese é raro; exemplo:
[Greek: Kletos] por [Greek: Anakletos]
A apherese com derivação observa-se em:
[Greek: Stasoyla] de [Greek: 'Ana-stasie], suf. [Greek: oyla]
[Greek: Stathakis] » [Greek: Ey-stathyos], suf. [Greek: ake].
Na mencionada lingua ao contrario o processo da apocope é frequente,
sendo as terminações supprimidas substituidas constantemente por a final
[Greek: as]; exemplos:
[Greek: 'Aleksas] de [Greek: 'Aleksandros]
[Greek: 'Artemas] » [Greek: Artemidoros]
[Greek: Epafras] » [Greek: Epafrodeitos]
[Greek: Zinas] » [Greek: Zinosoros]
[Greek: Kleopas] » [Greek: Kleopatros]
[Greek: Kleofas] » [Greek: Kleofantos]
[Greek: Loykas] » [Greek: Loykanos]
[Greek: 'Antipas] de [Greek: Antipatros]
[Greek: Minas] » [Greek: Minodoros]
[Greek: Nikandas] » [Greek: Nikandridas]
[Greek: Olympas] » [Greek: Olympiodoros]
[Greek: Olympas] » [Greek: Olympiodoros]
{[Greek: Parmenidis]
[Greek: Parmenas] » { ou
{[Greek: Parmeniskos]
[Greek: Silas] » [Greek: Siloyanos].
O inglez, com a sua tendencia para accentuar a syllaba inicial, emprega
de preferencia a apocope nas formações hypocoristicas; essa apocope é
complicada com outros factos phoneticos, de que mencionaremos alguns.
1. Apocope simples:
_Chris_ de _Chrístian_ de _Christiánus_.
_Clem_ » _Clemént_ » _Cleméntius_.
_Dan_ » _Dániel_ » _Daniél_.
_Tom_ » _Thómas_ » _Thomás_ ([Greek: Thômas]).
_Greg_ » _Grégory_ » _Gregórius_.
2. Apocope e adjuncção de um _s_:
a) Sem assimilação de consoantes:
_Cutts_ de _Cuth-bert_.
_Edes_ » _Ed-ward_.
b) Com assimilação de consoantes:
_Watts_ de _Walter_, _Gibbs_ de _Gilbert_.
Comp. creolo _Motas_ de _Timotheo_.
3. Apocope com mudança de _r_ em _d_:
_Dick_ de _Richard_, _Dobbs_ de _Robert_.
Comp. creolo _Dique_ de _Henrique_.
Nos seguintes nomes germanicos medievaes desappareceu ou a primeira ou a
segunda parte:
_Faro_ por _Burgundofaro_.
_Giso_ » _Wartgis_.
_Offa_ » _Ceolwulf_.
_Prandus_ » _Rotprandus_.
_Uffo_ » _Liudulfus_.
_Bruna_ por _Brunihildís_.
_Euva_ » _Evarix_.
_Hrode_ » _Hruodolf_.
_Sunna_ » _Suanilda_.
_Tado_ » _Tadelbertus_.
A suppressão de uma parte do nome foi seguida ou acompanhada, como se
vê, de outras modificações, comparaveis em parte ás que observámos nas
fórmas hypocoristicas do creolo de Cabo Verde.
O processo de addição de suffixos diminutivos ás fórmas mutiladas tem
grande extensão nas linguas germanicas. Exemplos:
_Godi-ko_ de *_Gode_ por _Gode-fredus_.
_Ghise-ke_ » *_Gise_ » _Gise-lbertus_.
_Ghere-ke_ » *_Ghere_ » _Gere-hardus_.
_Albi-so_ » *_Albe_ » _Albe-ricus_.
_Gisle-zo_ » *_Gisel_ » _Gisel-bertus_.
_Berti-nus_ » *_Bert_ » _Bert-randus_.
_Feli-nus_ » *_Fel_ » _Fel-mirus_.
Escolhemos agora alguns exemplos da lista das fórmas hypocoristicas
francezas dadas por Mowat:
_Bastien_ de _Sebastien_.
_Billon_ » _Barbillon_.
_Briel_ » _Gabriel_.
_Brois_ » _Ambrois_, _Ambroise_.
_Colas_ » _Nicolas_.
_Cot_ » _Jacot_.
_Delle_ » _Adèle_.
_Fan_ » _Stephan_.
_Fonce_, _Fons_ » _Alphonse_.
_Gelle_ » _Angèle_.
_Gory_ » _Grégory_.
_Hippeau_ » _Philippeau_.
_Guste_ de _Auguste_.
_Livet_ » _Olivet_.
_Mancet_ » _Clémencet_.
_Mas_ » _Thomas_.
_Maury_ » _Amaury_.
_Nardon_ » _Bernardon_.
_Pin_ » _Chopin_.
_Pold_ » _Léopold_.
_Randal_ » _Durandal_.
_Sandre_ » _Alexandre_.
_Thézard_ » _Balthazar_.
_Vestris_ » _Silvestre_.
Estes exemplos bastam para mostrar que as fórmas hypocoristicas creolas
são o resultado da acção de leis geraes.
2. Creolo de S. Thomé
Conhecemos apenas o seguinte specimen que devemos á memoria de um amigo;
são versos de um portuguez que habita a ilha:
Sã Ma Plantá, Senhora Maria da Apresentação,
Sã Ma jabo, Senhora Maria diabo,
Floli blavo, Flor brava,
Bujungá. Bujungá (nome indigena)
Neni d'òlo, Annel d'oiro
Cun mimoia C'om argolas (memoria);
Sâ za estoia, Isto é historia,
Sã zetá. Senhora rejeitar,
Lenço seda Lenço de seda
C'uma saia, C'uma saia
Mé lagaia, ?
Sã zetá Senhora rejeitar.
Sã Ma Plantá. Senhora Maria da Apresentação.
3. Creolo da Ilha de Sant'Iago (archipelago de Cabo Verde)
Ao nosso amigo, o sr. Luciano Cordeiro, secretario da sociedade de
geographia, devemos a communicação da seguinte carta, dictada por uma
negra de Sant'Iago, que se exprime no creolo d'aquella ilha:
_Nho Dótore._
Senhor doutor.
_Mi ten sódadi cheu di nho Dótore, a má di nha Dóna L._
Eu tenho saudades muitas do sr. doutor e mais da sr.^a Dona
_Mi manda mantenha, cheu, cheu, cheu._
Eu mando recommendações, muitas, muitas, muitas.
_Mi a má Seyton nu está desamparados cheios di sódadi_
Eu e mais o Seyton nós estamos desamparados cheios de saudades
_di nha Dotore e di nha L...._
do sr. doutor e da sr.^a
_Oh! nhor Deus!_
Oh! senhor Deus!
_Nha Sinhára manda mantenha cheu tambê A. cu J._
A minha senhora manda recommendações muitas tambem A. e J.
_Está magro tóraqui piscóço já sae fora._
Estão magros até que (até o ponto) pescoço já sae fóra.
(Isto é: está demasiadamente magro).
_Agora qui já mi sabê cusa qui é falta di nho Dotore. Deos_
Agora que já eu sei cousa que é a falta do sr. doutor. Deus
_al judan qui in torna, olhá nho._
ha de permittir-me que eu torne a ver sr.
_Mi está na casa di nha Sinhára, mas en stá cu muito_
Eu estou na casa de minha senhora, mas eu estou com muitas,
_muito sódadi di nhos tudo dós._
muitas saudades dos srs. ambos dois.
_Mi é quel creada di nhós qui tâ chomado Maria._
Eu sou a creada dos srs. que se chama Maria.
Este dialecto offerece naturalmente intimas similhanças com o de Santo
Antão, mas revela uma maior approximação ao portuguez puro, que em parte
póde ser puramente individual, poisque a negra que dictou a carta tem
vivido muito com pessoas instruidas originarias da metropole.
O dialecto possue um presente formado com _tá: en tá bá_, eu vou, como
em Santo Antão. A negação é tambem _câ_, não; _nh'armun_==meu irmão,
como em Santo Antão; _al_==_hade_, _ajudan_==_ajudar-me_, e outras
particularidades coincidem ainda nos dois dialectos, e provavelmente em
todos os do archipelago de Cabo Verde.
Observam-nos que _nhor_ e _nhara_ por _senhor_, _senhora_ são mais
respeitosos que _nho_ e _nha_ e se empregam dirigindo-se a pessoas de
idade. _Nhanha_ é a senhora da casa, mãe de familia; _nhanhinha_,
menina; _nhonhosinho_, menino.
4. Creolo da Guiné portugueza
Tudo quanto podemos apurar sobre o creolo portuguez da Africa
(continente e ilhas) se reduz ao que precede e á seguinte noticia.
_De la langue, créole de la Guinée portugaise. (Notes sur la Guinée
portugaise ou Sénégambie méridionale_, par M. Bertrand-Bocandé).
_Bulletin de la Société de Géographie_ de Paris, 3^e série, t. XII.
73-77 (1849 juillet et août):
«On conçoit que des hommes acoutumés à se servir pour manifester
leur pensée, d'un idiome aussi simple, ne purent facilement élever
leur intelligence au génie d'une langue européenne. Quand ils
furent en contact avec les Portugais et forcés de s'entendre avec
eux, en parlant une même langue, il a fallu que l'expression variée
des idées acquises pendant tant de siècles de civilisation se
dépouillât de sa perfection, pour s'adapter aux idées naissantes et
aux formes barbares du langage des nations à demi sauvages. Le mot
adopté dut conserver toujours le même son; et perdre ces désinences
variées qui servent à distinguer les nombres, les genres, les
pronoms, les temps ou les modes; il fut soumis seulement aux
transformations absolument indispensables au discours, pour qu'il
ne devînt pas uniquement des sons insignifiants.
«Il se fit un retranchement graduel de toutes ces modifications qui
servent à exprimer les diverses nuances de la pensée, et quand il
ne fut plus possible de rien retrancher pour conserver le discours
encore intelligible, l'idiome fut fixée dans sa grammaire
particulière, devenue aussi simple que peuvent le permettre les
règles de la grammaire générale de toute langue. Il exista alors ce
que l'on appelle la langue _créole_ portugaise.
«Pour se former, elle a dû d'abord se soumettre à la prononciation
habituelle des peuples d'Afrique. Ceux-ci ne peuvent, comme je l'ai
déjà dit, prononcer les deux sons représentés par _je_ et _che_ qui
sont devenus _ie_ et _kie_.
«Les noms n'eurent plus de terminaison pour distinguer les
_nombres_; on doit désigner la quantité de l'objet, ou dire s'il y
en a peu, ou beaucoup. Le _genre_, en parlant des animaux
seulement, se fait connaître en ajoutant au nom les mots _homme_ ou
_femme_; on dit donc par exemple: un _boeuf homme_, un _boeuf
femme_.
«Il fallut adopter des pronoms. Il y a des pronoms personnels pour
les différentes personnes et le nombre de ces personnes.
«Le radical des verbes se termine toujours par une voyelle: on en a
retrauché l'_r_; et ce radical peut être employé comme substantif,
ou comme verbe.
«Les pronoms ajoutés au verbe désignent seuls les personnes; il n'y
a pas de désinences différentes pour les déterminer.
«Quand aux temps _présents_, _passés_ et _futurs_, il fallait
nécessairement un moyen de les distinguer.