Tenho aqui, na meza em que escrevo, deliciosamente cartonado, o
_primeiro volume_ da nova e augmentadissima edição das _Farpas_.
Não entram n'este volume, que é todo de paysagens, aspectos maritimos ou
campestres, scenas ruraes, costumes de aldeia ou de borda d'agua, de
estações thermaes ou de pequenas villas provincianas--nenhum dos
assumptos das _antigas Farpas_. Este volume é portanto inteiramente novo
para nós, e não é tardia nem inopportuna a opinião da Critica a respeito
d'elle.
Basta ter enumerado os capitulos que o compõem para se comprehender que
o livro é delicioso. Não ha em Portugal quem, como Ramalho Ortigão,
saiba _vêr_ e saiba transladar para a sua prosa o _aspecto exterior_ das
cousas.
Para descrever uma paysagem, para pintar uma _marinha_, para nos dar a
impressão nitida, precisa e firme, de um ou de muitos objectos, para
desenhar, a traços inimitaveis de exactidão ou de pittoresco, a
_sillouette_ d'um monumento archeologico ou o _fouillis_ encantador d'um
salão moderno, é verdadeiramente incomparavel este escriptor, e não ha
plasticidade egual á do seu estylo, em que á riqueza do colorido e á
vida intensa se reune a technologia mais variada em todas as
especialidades, fixando na memoria e no olhar a physionomia viva e real
das cousas que elle pretende fazer-nos vêr.
Não é um psychologo, não é um devaneador.
É raro que elle se perca por um instante n'essa «floresta de almas», em
que só vagueiam os apaixonados prescrutadores do invizivel, os sedentos
de inacessivel Ideal, os interrogadores sombrios do eterno abysmo
humano!
Elle, mais simples e mais são, prefere as largas estradas batidas de
sol, em que a luz é intensa e fulgurante, em que as arvores parecem uma
renda phantastica polvilhada de scentelhas d'oiro. Em quasi todas as
organisações artisticas d'este fim de seculo, n'aquellas principalmente
em que imperam a sensibilidade e a imaginação, ha um fundo de morbidez
visionaria, uma tristeza indefenivel e inquieta, uma ironia dolorosa e
triste, um desejo insaciavel de penetrar o impenetravel enyma do nosso
destino...
Ramalho Ortigão foge muito de preposito d'essas regiões vaporosas em que
a flor azul do sonho desabroxa, a um luar doentio, as suas petalas
ideiaes.
Robusto, equilibrado e são, ha n'elle um forte temperamento de artista,
mas de artista que no seculo XVI teria podido desenvolver e exercer
amplamente todas as suas faculdades, satisfazer o seu gosto do
pittoresco, o seu amor do luxo, a sua preferencia pelas bellas coisas
decorativas e espectaculosas.
Na Vida o que o interessa mais que tudo, é o colorido, a variedade, o
brilhantismo, a graça, a correcção, a harmonia dos seus multiplos
aspectos e das suas diversas formas.
A côr e a linha--eis os elementos que lhe bastam para a felicidade dos
seus olhos, para as delicias da sua imaginação, para as necessidades do
seu temperamento de artista!
Viajar muito, vêr muito, e pintar tudo o que vio, n'um estylo de
colorista veneziano, com uma penna que é, ao mesmo tempo, escopro e
pincel--eis a faculdade predominante d'este escriptor que, só errando a
brilhante vocação que recebeu da Natureza, póde perder-se de vez em
quando em abstracções philosophicas, sempre confusas, e em sabbatinas
pedagogicas, sempre contrafeitas.
Elle não é um philosopho nem um educador das sociedades; é um artista!
Abençoado quinhão o seu, incontestavelmente o melhor de quantos na terra
se podem escolher!
Para demonstrar n'elle a superioridade do colorista, do pintor, sobre o
philosopho e o critico, bastaria este volume de viajante, illuminado das
mais bellas e radiantes paysagens, em que os aspectos ruraes, as
_marinhas_, as scenas campestres, os quadros de aldeia se succedem,
alegrando-nos a vista como um kaleidoscopo deslumbrador.
E eu não quero com isto dizer que Ramalho Ortigão, não seja um critico.
Mas a sua critica, quando é superior, quando é frisante e verdadeira, é
quando elle a executa pelo mesmo processo magistral de que usa nos seus
livros descriptivos.
Então sim, porque a licção ressalta naturalmente do aspecto exterior das
cousas.
A _toilette_ d'uma lisboeta aperaltada; a mobilia aprumada e symetrica
d'uma casa burgueza; a sessão d'uma assembléa constitucional; o interior
d'uma botica sertaneja; a apparencia d'uma egreja de cidade em dia de
festa, etc., etc., etc., dão-nos a impressão directa e viva dos
sentimentos, que todas estas cousas traduzem ou com os quaes todas estas
cousas se relacionam.
Pelos _puffs_ exaggerados, pelos altos tacões dos sapatos
esticadissimos, pelo chapeu inesthetico, pelo espartilho ridiculamente
apertado, por todos estes deploraveis symptomas d'uma imbecilidade que
já vem de muito longe, comprehende-se tudo que o escriptor nos quer
demonstrar: falta de educação, falta de gosto, falta de modelos
artisticos, pressão secular de influencias deleterias e funestas.
Pela regularidade fria e systematica d'um _interior_ de burguez, que
nenhuma scentelha de arte espiritualisa ou illumina, percebe-se
naturalmente a comprehensão acanhada e restricta que elle tem da vida e
do encanto profundo e moralisador da intimidade domestica; vê-se a
inaptidão artistica que o afflige, a impossibilidade absoluta e
fundamental em que elle está de crear uma existencia, praticamente
agradavel e espiritualmente feliz, em que se fundam, n'um accordo
sympathico, as exigencias requintadas da civilisação e as satisfações
mais puras da vida moral.
E por aqui diante, o mesmo processo de arte dá para a intelligencia os
mesmos resultados.
É este o segredo que individualisa Ramalho Ortigão e que faz com que
sendo elle um artista plastico, por assim me expressar, seja igualmente
um notavel moralista.
É indispensavel porém que o leitor tire dos quadros a moralidade que
d'elles deriva!
* * * * *
N'uma _advertencia_ muito bem feita que precede o livro, Ramalho Ortigão
diz que as _Farpas_, são escriptas n'um espirito de _dilettantismo_
emancipador e desinteressado e pelo que vi n'um artigo lido hoje mesmo,
a palavra dilettantismo não foi tomada pelo critico na accepção que o
escriptor lhe dera; não é pois fora de proposito, que eu aqui explique
um pouco ao leitor, qual o _dilettantismo_ de que Ramalho Ortigão se diz
inspirado ao traçar os capitulos bellissimos das suas novas _Farpas_.
No conflicto enorme, desordenado e confuso de theorias, de systemas, de
doutrinas e de hypotheses, em que o seculo XIX tem baralhado os seus
desgraçados filhos, cada questão tem tantas faces, cada phenomeno é
contemplado sob uma tal multiplicidade de pontos de vista, cada verdade
é tão ondeante, elastica e malleavel, cada doutrina tem tantos aspectos,
cada theoria apresenta tal somma de _nuances_, que se vae pouco a pouco
perdendo, nas altas regiões do pensamento, aquella especie de homens de
uma peça só, systematicos até á teima, fanaticos até á heroicidade,
obstinados até ao pyrrhonismo, que de cada ideia só viam um angulo, que
julgavam que a verdade era só uma, e não podia ser encarada por diversos
modos!
Esses homens, fanaticos, no sentido mais amplo da palavra, tinham uma fé
ardente n'aquillo em que tinham fé! uma paixão profunda pela ideia que
serviam, e por isso, arcando com obstaculos terriveis, que nós já não
conhecemos, obraram grandes feitos de que nós já somos incapazes!
Em philosophia, em religião, em moral, ou em politica, estes homens iam
para diante, altivos, intemeratos, um pouco obcecados pela sua crença no
absoluto, mas por isto mesmo inacessiveis ás mil influencias que
neutralisam a vontade moderna, e sem perigo de cederem ás correntes
contrarias que hoje sollicitam, de tão diversos pontos, o pensamento que
quer ser imparcial, o desejo de verdade que quer ser sincero!
Em contraposição a estes homens capazes d'um só amor e d'um só odio,
surdos ás vozes todas que contradissessem o _á priori_ do seu sonho,
existe hoje uma raça mais doente e mais fraca talvez, mas sympathica na
sua indecisão, e perfeitamente moderna no capricho ondeante da sua
sensibilidade!
E é a esses que inspira e dirige o espirito de dilettantismo de que
falla Ramalho Ortigão.
Diz pouco mais ou menos Bourget, o systematisador moderno do
dilettantismo, fallando de Renan o mais genuino _dilletante_ de quantos
se conhecem modernamente, que é mais facil perceber esta palavra do que
definil-a com precisão.
E accrescenta: «é menos uma doutrina que uma disposição de espirito a um
tempo muito intelligente e muito voluptuosa, que nos inclina
simultaneamente para as diversas formas da vida e nos leva a
emprestarmo-nos, ora a uma ora a outra d'estas fórmas, sem nos darmos
inteiramente a nenhuma d'ellas.»
Dilettantismo e doutrinarismo--eis os dois polos do pensamento do homem!
O espirito de systema tende a desapparecer da elaboração mental d'este
seculo, e á proporção que elle affrouxa desenvolve-se e cresce essa
extranha faculdade--que faz uma especie de Proteo de cada entendimento,
e que tomando a vida como uma illusão universal que ora se faz ora se
desfaz, ora se tece a oiro e perolas, ora se destrama, phantasticamente,
substituindo a nudez mais completa á opulencia mais asiatica, acha a
verdade d'um momento em cada fórma passageira que encontra debaixo dos
olhos.
Comprehendendo d'esta fórma o _dilettantismo_ acha-se uma faculdade
superior, um dom que póde multiplicar os gosos intellectuaes pela
multiplicidade de pontos de vista que nos revella. Não encontro, porém,
no volume das Farpas que tenho presente, a applicação d'essa faculdade,
eminentemente subjectiva.
O que eu encontro e saudo n'elle é a obra d'um artista para quem a
lingua portugueza é o instrumento mais docil e o teclado mais vasto e
mais sonoro, e em quem a _visão das cousas_ é tão violenta e tão intensa
que possue o milagre de communicar aos outros a sua privilegiada
lucidez.
_ANTHERO DE QUENTAL_
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