Já no leito, onde agonisou com divina resignação dois longos mezes, e
onde parece que o seu espirito de poeta assumiu uma forma ainda mais
idealmente melancolica, Gonçalves Crespo escreveu com a mão tremula de
doente um soneto consagrado aos annos d'uma gentil senhora, nossa
querida amiga, por quem elle tinha o mais respeitoso dos affectos, em
cuja casa hospitaleira elle encontrou sempre um acolhimento fraternal.
Essa senhora é a Condessa de Sabugosa, mulher do amigo, talvez mais
ternamente amado por Gonçalves Crespo.
Seria lastima conservar para sempre inedito este soneto que tem para mim
um triplo encanto. O perfume _camoeano_ que o impregna deliciosamente, a
tristeza dulcissima, que elle respira, e a melancolica circumstancia de
ser o ultimo que cahio, como uma perola solta, da lyra quasi partida do
poeta moribundo.
Eis o soneto:
Na quadra azul da mocidade, a gente
Parte rindo e cantando, estrada fóra,
Gorgeia a cotovia em cada aurora,
Suspira á noite o rouxinol dolente.
Ai! Ditoso o que parte alegremente,
O que não vio aproximar-se a hora
Em que é força volver atraz... embora
Nos arfe o seio de illusões fremente.
Para ti ainda existe o sonho alado,
A fé robusta, e a candida alegria
Que nos chovem do céu claro e estrellado.
Nunca sejas forçada, flôr, um dia
A erguer, chorando, o braço fatigado
Em busca da ventura fugidia...
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A morte não consentiu que elle subisse aonde podia subir, que elle se
affirmasse como se poderia ter affirmado. No emtanto, todos os que teem
este sexto sentido divino, pelo qual, mesmo apezar dos desenganos que a
vida encerra, vale a pena em todo o caso ter vivido, hão-de ler com
intimo prazer os dois volumes do encantador poeta de _Alguem_.
É verdade que elle não respondeu a todas as interrogações que o nosso
espirito se achou no direito de fazer-lhe, mas não respondeu porque o
tempo lhe não deixou cumprir as mil promessas que a sua mocidade nos
fizera.
E hoje que elle partiu para o paiz mysterioso d'onde ninguem voltou, e
para onde, na tristeza ou na alegria, convergem os nossos olhares
anciosamente prescrutadores, voam as nossas saudades n'um impeto de
lagrimas, eu releio aquella soberba e indecifravel _Sara_, e pergunto a
mim mesma se debaixo da forma esculpturalmente pagã dos versos, se não
abriga um sentido occulto, um mysterioso symbolo...
Que ardente espiritualismo, tenaz e apaixonado, na carnalidade apparente
d'esse poema!
Quanta dôr n'aquella aspiração, sempre trahida, de encontrar uma alma,
no bello corpo insensivel que elle, como Pygmalião, quereria animar d'um
divino sopro!
Na sua violenta sêde de perfeição, dolorosa e alanceadôra como poucas,
nunca o poeta das _Miniaturas_ e dos _Nocturnos_ teve o contentamento da
sua obra! Nunca achou que a Musa, que elle beijava, tivesse a vida, o
fogo sagrado, que n'esse beijo fecundador a sua alma anceava
communicar-lhe!
Era um insaciavel!
Nunca a Arte nem a vida o contentaram, a elle que teve todas as caricias
luminosas da Arte, e todos os affectos sãos que a Vida póde dar e que a
Vida só dá a rarissimos dos seus escolhidos...
Mas não estará n'esse eterno descontentamento, n'essa aspiração
incansavel ao desconhecido, o signal mais caracteristico da sua
grandeza?... Eu creio que sim.
_RAMALHO E EÇA_
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