(Marqueza de Pomares)
_Minha querida Manoela_.
Para que um livro merecesse o teu nome inscripto na sua primeira pagina,
seria indispensavel que esse livro fosse bello na fórma e sincero na
intenção.
O modesto volume, que venho offerecer-te, só o segundo requisito póde
ter a aspiração de realisar.
Na nossa estreita e leal amisade de alguns annos, amizade em que tens
posto os carinhos de uma adorada irmã, eu aprendi a respeitar-te e a
amar-te como a um d'esses raros typos femininos de sincera virtude
despretenciosa, de alto pensar e de sensibilidade vibrante, que alliam
n'uma harmonia felicissima as qualidades d'um grande coração com as
faculdades d'um levantado espirito.
Pensas e sentes; comprehendes com singular subtileza e com ampla e
ineffavel bondade, tens a curiosidade intelligente, e a sympathia larga
e fecunda, que é de todos os predicados d'um entendimento o mais
precioso e o mais raro...
Nunca estive perto de ti que me não sentisse _melhor_; nunca ouvi a tua
voz, que não conhecesse de que fundo de sinceridade e de força moral
ella provinha...
Perdoa-me se, pensando a teu respeito isto e mais do que isto, te faço
uma offerta de tão pouca valia.
Muitos dos _estudos_ incompletissimos, que compõem este livro, foram
escriptos á sombra chilreada e fresca das arvores da tua senhorial
Portella--na companhia grata, carinhosa, dos dois hospitaleiros donos
d'essa vivenda pittoresca e lindissima.
Quantas vezes ahi tenho chegado empallidecida, extenuada, doente e
triste, e quantas vezes de lá tenho voltado mais vigorosa na alma e no
corpo, trazendo no coração, como um balsamo e como um viatico, a imagem
d'essa nobre vida de caridade e de abnegação, que partilhas com o
companheiro do teu destino, e em que ambos são um suggestivo exemplo e
uma excepção inspiradora...
Se outro valor não tivesse para ti este pobre livro, que tu amas porque
é meu, bem o sei,--teria o valor de ter sido quasi todo escripto ao pé
das grandes arvores que deram sombra aos jogos da tua infancia, e que tu
decerto desejarias que emballassem, com a musica harmoniosa e calmante
das suas ramagens murmuras, com o gorgeio alegre dos seus ninhos
primaverís, o supremo somno que dormirás mais tarde, na serena beatitude
das consciencias boas!...
Lisboa. Dezembro 1888.
Maria Amalia Vaz de Carvalho.
_GONÇALVES CRESPO_
As _Miniaturas_ e os _Nocturnos_ são incontestavelmente, e no dizer de
auctorisados criticos, dois livros, que pódem classificar-se entre as
perolas mais doces, mais preciosas, mais irisadas, da moderna
litteratura portugueza. Leva-me hoje um pendor irresistivel a fallar
d'esses dois livros, conhecendo que o assumpto, para mim, é a um tempo
muito attrahente e muito difficil.
Dir-se-ha, que não póde fallar com justiça do poeta, aquella, que á sua
memoria querida está ligada por tão estreitos laços; mas por que elle
foi o companheiro da minha vida, o mestre e educador do meu espirito, o
amigo inolvidavel cuja morte deixou orphãos os meus filhos, não terei eu
direito de ajuntar a minha voz humilde ás vozes, que no paiz em que eu
nasci, e no imperio em que elle nasceu, o proclamam um dos mais
delicados poetas modernos, um dos cinzeladores mais primorosos da poesia
portugueza, um _parnasiano_ no bom sentido da palavra, quer dizer,
juntando como Coppée, mas em muito mais alto gráu do que este, a
suavidade, a melodia, a correcção do metro, ao sentimento profundo, á
comprehensão clara, nitida e perfeita de todos os segredos complexos da
alma contemporanea?
Parece-me que seriam rigorosos de mais os que tentassem coarctar-me esse
direito, e que seria demasiada docilidade da minha parte o sujeitar-me a
censores tão intransigentes e tão duros.
De mais, não escrevo eu exclusivamente para ser lida por mulheres? E
onde está a mulher que me condemne n'este ponto? Não ha nenhuma, tenho a
certeza d'isso.
Gonçalves Crespo não escreveu senão as _Miniaturas_ e os _Nocturnos_.
Foram os versos da sua mocidade, colligidos debaixo d'aquelle titulo,
que m'o fizeram conhecer e admirar; os _Nocturnos_ póde bem dizer-se que
foram escriptos ao meu lado.
A obra do poeta tem pois para mim duas faces distinctas, mas para julgar
as _Miniaturas_ sinto-me por assim dizer mais independente e mais livre.
Esse livro foi a revellação primeira, a revellação subita que eu tive
d'aquelle, que treze annos depois, quasi que dia por dia, me expirava
nos braços, pronunciando o meu nome, que a sua alma angelica, tão
depurada pelo soffrimento, tão sanctificada pela resignação, enchia de
bençãos.
Foi em 1870 que as _Miniaturas_ viram a luz pela primeira vez,
revellando a Portugal todo e a todo Brazil, que um poeta original,
delicadissimo, correcto até á perfeição, que um artista de primeira
plana, um verdadeiro artista de raça, acabava de nascer para a
litteratura portugueza.
Foi esse um bello periodo da curta vida do poeta, hontem desconhecido
ainda, hoje acclamado por todos os que tinham no espirito uma scentelha
de gosto, e no coração um vislumbre de sensibilidade.
Sobre a banca de trabalho de todas as mulheres distinctas, entre o
cestinho de bordado e a jarra de violetas ou de rosas, achava-se então o
gracioso volume das _Miniaturas_, e muita voz feminina tremula de
commoção, e muita voz de artista, ebrio da belleza da fórma, repetia com
enlevo essa doce elegia adoravelmente sentida, que se chama _Alguem_,
esse poema de inconsavel e vaga tristeza, que se intitula:
_Arrependida_, e a _Noiva_, e o ramo de saudades e de lyrios entretecido
sobre o tumulo de _Modesta_ e a esplendida _Nera_, e a esculptural e
voluptuosa _Sara_, e a ineffavel e consoladora _Transfiguração_.
Quantos aspectos do mesmo talento! quantas fórmas da mesma phantasia
seductora! quantas expansões da mesma sensibilidade fina, subtil, quasi
doentia, de requintada que era!
Muito longe do poeta, em um palacio meio arruinado, affastada de todo o
convivio social, entre as verduras, as sombras, as caricias inspiradoras
da Natureza inculta, vivia então uma creança de alma ardente, de
sonhadora phantasia, de indomito imaginar, vizionaria juvenil, de que
hoje--taes são as modificações que o tempo faz!--existe apenas, alterado
ainda assim pelos annos e pelas agonias, o corpo envelhecido cuja mão
escreve estas linhas.
Muitos teem contado essa historia a que a Morte veiu dar o seu tragico
remate. Para que alludir a ella aqui? E que importam ao mundo as
alegrias e as lagrimas que elle não sentiu nem chorou?
A verdade é que hei de lembrar-me sempre, tão viva se me conserva no
espirito essa impressão dominadora, do que eu senti ao folhear pela
primeira vez as _Miniaturas_, livro de um poeta para mim inteiramente
desconhecido havia algumas horas apenas.
Pareceu-me que era um poeta como aquelle, que eu positivamente tinha
esperado havia muito, e que elle chegára; que a minha aspiração
indefenida e vaga se tinha realisado. Mais contentamento do que
surpreza. A doçura dos que alcançam a praia que tinham desejado em
longos dias de navegação monotona.
_Porque tardaste tanto, ó poeta? Eu te esperava
Na minha solidão!_
faz elle dizer mais tarde á creança, que eu já fui, exprimindo assim, na
sua simplicidade tão artistica, o sentimento de confiante alegria que a
minha alma experimentára ao conhecel-o.
Pois bem; esse agudo prazer da intelligencia, completamente,
absolutamente satisfeita no goso d'uma determinada obra d'arte, sinto-o
eu hoje como no primeiro dia, ao ler as _Miniaturas_.
O talento de Gonçalves Crespo soffreu com a idade, com as mudanças que
se deram no seu destino, com a acção tão complexa e tão profunda que a
Vida exerce em todos nós, transformações importantes e progressivas; no
emtanto para mim, e para muitos dos amigos dilectos do poeta, a mais
encantadora, a mais perfumada efflorescencia do seu espirito raro, será
sempre aquelle livro juvenil.
Muito mais pessoal que os _Nocturnos_, o volume das _Miniaturas_ lança
uma luz mysteriosa e dulcissima sobre a figura singular, um pouco
extranha, que foi Gonçalves Crespo.
Muito ao contrario do que geralmente succede, este artista, tão nervoso
e vibratil, teve a primavera da vida nublada por todas as sombras, e o
estio, de que a morte desfolhou as ultimas rosas, illuminado por todas
as suaves e tranquillas alegrias, que a vida póde conceder áquelles que
mais ama e a quem mais cedo tenciona abandonar.
É por isso que os _Nocturnos_ de uma belleza de fórma incomparavel,
tocados ás vezes por um largo sôpro de epopeia, não teem senão a
espaços, a musica dolente, tão enternecida e languida, tão acariciadora
das almas tristes, que se prolonga e vibra em longos echos melancolicos
nas paginas das _Miniaturas_.
Veja-se por exemplo _Alguem_, uma das peças que mais sympathias
conquistaram ao nome do poeta:
Para alguem sou o lyrio entre os abrolhos,
E tenho as formas ideaes do Christo;
Para alguem sou a vida e a luz dos olhos,
E se na terra existe é porque existo!
Esse alguem que prefere ao namorado
Cantar das aves minha rude voz,
Não és tu anjo meu, idolatrado!
Nem, meus amigos, é nenhum de vós!
Quando alta noite me reclino e deito
Melancolico triste e fatigado,
Esse alguem abre as azas no meu leito,
E o meu somno deslisa perfumado.
Chovam bençãos de Deus, sobre a que chora
Por mim, além dos mares! Esse alguem
É de meus dias a esplendente aurora,
És tu, dôce velhinha, ó minha mãe!...
N'estas quatro estrophes está retratada uma alma, estão contadas as
tristezas d'um destino, que mercê de Deus se desannuviou mais tarde, mas
no qual então se condensavam todas as melancolias intimas, todas as
duvidas sombrias, todas as amargas e silenciosas agonias da isolação.
Nem a mulher que elle ama, nos passageiros caprichos da mocidade, nem os
amigos que o cercam, lhe matam a sêde de afféctos que o devora e
tortura; a mãe, a _dôce velhinha_, essa está longe, essa chora além dos
mares, essa nem o vê, nem o acaricia, nem dissolve ao fogo dos seus
beijos os gêlos da duvida, que tão cêdo crestaram todas as flôres da
mocidade na alma de Gonçalves Crespo.
Nunca houve ninguem mais modesto, mais inconsciente do proprio valor,
mais desconfiado de si mesmo, mais dolorosamente torturado pela ideia
das suas imperfeições reaes ou imaginarias.
Os requintados suplicios de que esta desconfiança foi origem,
manifestam-se bem mais nas _Miniaturas_ do que no ultimo volume do
poeta; por isso n'ellas a nota pessoal é mais vibrante, a commoção, por
ser mais sincera, é mais directa e mais contagiosa.
Como documento psychologico para auxiliar a critica do poeta e do
artista, as _Miniaturas_ são de um valor incomparavel.