«Ferreira Rangel tinha servido em um dos batalhões do Porto durante o

cerco, e era liberal enthusiasta. Ainda trajava o uniforme militar, e

apparecia nos theatros, nos passeios e em todas as reuniões. Não lhe

chamavam _janota_ porque a palavra estava por cunhar na casa da moeda da

vernaculidade. Os seus principaes companheiros eram Nicolau Coquet Pinto

de Queiroz que foi depois empregado da camara municipal, e talvez já não

viva, e Antonio Joaquim Carneiro Homem que foi acabar a vida em

Moçambique, provido no mais reles emprego da provincia em recompensa de

varias feridas recebidas no cerco e de ter gasto na defeza da liberdade

toda a sua fazenda. O ministro que o despachou, envergonhava-se de

empregar tão mesquinhamente homem de taes serviços. Era o snr. Mendes

Leal. Mas não havia outro emprego, e o pobre voluntario liberal não

podia esperar. Tinha mulher e filhos, e já não tinha pão nem calçado.

«D'esses tres homens o que tinha imaginação mais viva, enthusiasmo

vigoroso, e propensões litterarias era Ferreira Rangel. O seu amor á

liberdade não tinha limites, e como era amor sincero, muitas vezes o

impelliu a expôr a vida para salvar da furia brutal dos exaltados os

proprios adversarios contra quem lutára havia pouco nas linhas do Porto.

Alguns cavalheiros das provincias do norte lhe deveram n'esse tempo

assignalados serviços. A generosidade do coração era n'elle igual á

coragem e valentia.

«Uma noite desciamos a rua do Bomjardim onde moravamos, e ao dobrar a

esquina da rua do Bolhão vimo-nos cercados por quatro scelerados que

tomando-nos, apesar de imberbe, por algum temeroso capitão das hostes

realistas, iam demonstrar-nos com argumentos de carvalho-cerquinho a

excellencia do governo liberal, e induzir-nos a crêr que os caceteiros

azues e brancos não ficavam a dever nada aos seus predecessores azues e

encarnados.

«Subia a rua Ferreira Rangel e chegava ao sitio do combate; quando o

rapaz de 18 annos principiava a rebater, como podia, a crua dureza

d'aquelles argumentos. O mesmo foi advertir no caso que saltar ao meio

do grupo, deitar por terra um dos aggressores, ferido de tremenda

bofetada, e obrigar os outros a fugirem, envergonhados mas resmungando.

«Conservamos sempre relações com este excellente homem. Depois de 1839

nas ferias da universidade, iamos sempre visital-o quando passavamos no

Porto. Desde 1850 nunca mais tivemos noticias d'elle. Quando agora lêmos

no livro do snr. Camillo Castello Branco a commemoração da morte de

Ferreira Rangel, desvalido, ignorado, e conduzido na tumba dos pobres

entre quatro tochas desde a rua Chã até ao Prado, sentimos não ter

estado no Porto n'esse dia para acompanhar á derradeira morada aquelle

homem desditoso.

Está explicada a sensação que nos causou o artigo FERREIRA RANGEL.

Permitta o snr. Camillo Castello Branco que entre o ruido surdo da

enxada do coveiro alizando o comoro de terra sobre as taboas chuviscadas

do caixão, e o silencio eterno do mundo, se levante a nossa voz a

prestar á memoria do morto a homenagem da gratidão que lhe deviamos.

«D'esta vez a _alçada da imprensa chegará até ao esquife do defunto_, e

derramará sobre elle sinceras lagrimas de saudade e de reconhecimento.»

O MYSTERIO DA CASTANHA

No estimavel livro das _Cartas familiares_ de D. Francisco Manoel de

Mello, ha uma que estimulava fortemente a minha curiosidade, sempre que

a lia. É a LXXIV da _centuria segunda_, escripta _a um amigo que passava

á provincia da Beira_. A carta é breve, e diz assim:

«Que vos hei de dizer? senão que vos vades embora, que estejaes pouco,

que vos lembreis de mim. Não sei certo se se diz mais nas partidas: que

eu, de puro estar, já não sei se como a gente se despede[17]. Só vos

peço que, pois ides para terra de muitos castanheiros, me não caseis lá

com alguma Maria Castanha; _cujo tempo parece que tornou agora, porque

aqui entre nós o fez assim.... Mas que muito, se traz o diabo aos pés,

que o fizesse resvalar e cahir? salvo na conta_. Ide com Deus, senhor

meu, e tende em tudo tão bom successo, que vos pareça a Beira mal, e

volteis logo. Nosso Senhor, etc. Torre em 15 de maio 1646.»

As palavras grifadas eram o meu enleio. Toda a minha scisma laborava em

saber o nome rebuçado n'aquellas reticencias, a razão por que o sujeito

trazia o diabo aos pés, e que casta de pessoa era aquella Castanha

casada com o anonymo, forçosamente individuo de alta prosapia.

As pessoas de siso, que leram esta carta enigmatica, de certo não moêram

sua paciencia a farejar-lhe o escandalo; eu, porém, que não posso

dormir, e acordo os mortos para conversarem commigo á hora em que os

vivos dormem, necessito saber por inteiro o viver das pessoas com quem

estou relacionado.

E, por tanto, á custa de muito averiguar, e bisbilhotar com os

contemporaneos do illustre encarcerado da Torre Velha, logrei

decifrar-lhe a carta.

As reticencias encobrem o nome de Francisco Botelho, primeiro conde de

S. Miguel. Por ser de _S. Miguel_, é que D. Francisco lhe põe o diabo

aos pés.

Temos o nome do mysterioso personagem.

Saibamos agora quem era a _Castanha_.

Era Ignez de Almeida, filha de Manoel Castanha, escrivão em Lisboa.

Ignez era formosa e honesta.

O conde de S. Miguel, já viuvo de D. Isabel de Mendonça, filha do

segundo conde de Penaguião, apaixonou-se por Ignez. Frustrados na

esquivança da moça todos os artificios do ouro com o prestigio da

pessoa, o conde accedeu á condição que ella estipulou: o casamento.

Divulgou-se em Lisboa o disparatado consorcio, que toda a fidalguia

censurou, e D. Francisco Manoel metteu a riso, dando o noivo como

resvalado e cahido por cambapé que lhe fez o diabo.

No entanto, o escrivão Castanha rejubilava por se vêr tão egregiamente

aparentado.

Volvidos dous annos, apaixona-se o conde por D. Isabel Cecilia de

Tavora, filha herdeira de Alvaro Pires de Tavora.

Este fidalgo com os da sua parentella, e com os estranhos,

escandalisam-se do proceder deshonrado do marido da Castanha, o qual

ousa requestar uma donzella de primeira linhagem.

O conde defende-se, publicando que não é legitimamente casado com Ignez

Castanha.

E, feita a infame declaração, separa-se d'ella e do filhinho, que se

chamava Nuno.

Ignez, ferida no coração e na honra, protesta que é legitima esposa do

conde de S. Miguel.

Instaura-se demanda.

O conde confessa então que, na verdade, fizera um simulacro de

casamento, mediante um padre fingido, que era seu criado, com corôa

rapada, e vestido sacerdotalmente.

A justiça aceitou a confissão do conde, confirmada pelo parocho fingido

e pelas testemunhas da tromoia.

Sentenciada a nullidade do casamento, cuida o leitor que o conde foi

obrigado a revalidal-o, ou a seguir o seu criado e as testemunhas para o

degredo?

Não, leitor pio.

A fidalguia restituiu ao seu parente a dignidade abalada pelo supposto

consorcio com a Castanha.

A lei desquitou-o da pobre senhora, cujo delicto estava santificado por

ignorar que no mundo havia tamanho infame.

Porém, como ella tivesse um filho, a sentença mandou que esse menino, D.

Nuno Alvares Botelho, fosse considerado legitimo filho do conde de S.

Miguel.

Ignez lá se foi amparar nos braços de seu pai, o plebeu, a quem Deus

inspiraria ternuras que despontassem os espinhos da sua corôa de

condessa ridiculisada pela sociedade.

Desembaraçado e readmittido á estima dos Tavoras, o conde casou com a

tal Isabel Cecilia, de quem houve um filho que foi segundo conde de S.

Miguel.

Quanto ao filho de Ignez, sabemos que viveu com pouco luzimento e

escassos haveres. Casou com D. Luiza de Moura, filha de Antonio

Castanheira de Moura. Teve dous filhos e cinco filhas. Um dos rapazes

chegou a general na India. O outro casou com uma filha do capitão-mór de

Goes, Antonio Barreto Perdigão. Uma filha casou, e das outras quatro

ignoro o destino.

Esta linha, derivada da fraude e do vicio mascarado com a batina e

sobrepeliz, desappareceu: era justo. Na outra, que é a legitima e

consagrada pelo padre authentico, é que está o setimo conde de S.

Miguel, que--ainda bem!--não tem que vêr com a Castanha, zombeteada por

D. Francisco Manoel.

Ora eu presumo que este fidalgo, que escreveu tão piedosas cousas a

respeito de Santo Agostinho, quando soubesse que a supposta condessa de

S. Miguel fôra apenas uma inconsciente concubina do seu torpe seductor,

espantar-se-hia de se vêr a si entre ferros, e ao outro nos braços de D.

Isabel de Tavora!

[17] Ia no seu 4.º anno de prisão D. Francisco Manoel.

BEM VINDO!

Brindo o leitor com o capitulo primeiro d'um livro que ha de chamar-se

OS SALÕES.

Firma-o--escuso apresental-o--um nome que, ha vinte annos, alvoreceu por

entre duas formosissimas auroras: a das letras amenas, e a dos triumphos

forenses.

O visconde de Ouguella esteve já a meio caminho da montanha fragosa por

onde se trepa a outra ordem de mais estrondosa celebridade. Por um triz

que o não enxertam na estirpe tyrannicida dos Harmodios e Catões.

O governo, o delegado, a côrte e o Moraes do _Mosquito_ principiavam a

desbastar-lhe o marmore para o nicho no templo da Memoria, quando vem o

jury, e nos diz que o visconde de Ouguella nem queria matar el-rei nosso

senhor, nem vender-nos a Castella, nem frigir em petroleo as nossas

carnes, mais ou menos pingues.

Esta decisão abriu um sorriso de socegado contentamento desde o poço do

Borratem até á rua da Betêsga, não ha duvida; mas o visconde achou-se de

repente reduzido sómente á celebridade que tinha: a do talento.

Um d'estes dias fui vêl-o a Lisboa. Achei-o na sua livraria, entre dous

bustos de bronze que projectavam sobre elle umas sombras verde-negras,

que lhe davam toques de luz sinistra. Os bustos figuraram-se-me de

Ravaillac e Fieschi--os regicidas.

Passados alguns minutos, afiz-me áquella meia luz crepuscular descórada

pelos bronzes, e o meu coração e o meu figado aquietaram-se. Os bustos

representavam a primor os dous estadistas mais philodynastas que deu

Portugal: o duque de Palmella e Rodrigo da Fonseca Magalhães. O

visconde, que, ao principio, me pareceu, nos tufos hirtos e espessos do

seu cabello, o que quer que fosse de Mirabeau, já me transluzia no

semblante o sorriso amoravel com que alumia o caminho de sua alma aos

que lá sabem ir pela lealdade do coração.

Relancei os olhos, ainda suspeitosos, á sua banca, e vi papeis escriptos

recentemente. Com a liberdade de condiscipulo desde a escóla,

inclinei-me sobre o manuscripto, e li no alto de uma folha de almasso:

OS SALÕES. Depois li o capitulo, que era o primeiro; dobrei-o, metti-o

na algibeira, resolvido a estampal-o entre as minhas insomnias, como um

despertar alegre, lucido e côr de rosa, entre dous pesadelos.

OS SALÕES

CAPITULO I

FATUM

Pour connaitre les hommes, pratiquer les femmes; pour connaitre les

femmes, pratiquer encore les femmes: c'est la sagesse des nations

folles.

* * * * *

La femme est le dernier mot du Créateur. Le grand maitre avait

d'abord sculpté les mondes, puis le mastodonte, puis l'aigle, puis

l'homme; il termina par la femme. Ce fut alors qu'il se reposa pour

se contempler dans son oeuvre.

ARSÈNE HOUSSAYE.

O esboço é tudo.

A esculptura, a sciencia, a pintura, a litteratura e a propria vida

começam pelo embryão.

Deus mesmo não cria de repente uma obra prima:--como todos os artistas,

principia pelo esboço.

A propria luz tem os seus arreboes, annuncia o seu alvorecer, tem as

suas auroras, prepara-nos as suas alvoradas, insinua-se pelos cambiantes

anacarados dos tons pallidos e transparentes da madrugada, formula o

_fiat lux_ biblico, antes de se espargirem os seus opulentos e

brilhantissimos raios por sobre as magnificencias do universo.

Começar pelo esboço--no presente livro--era consultar as sibyllas da

cidade antiga, as pythonissas que enunciavam a palavra divina, escutar

os oraculos dos templos de Delphos e de Epheso, ouvir as Egerias do

porvir, antes de dar a lume o manuscripto de João Aleixo de Castro

Pimentel e Figueiredo.

Assim fiz.

Conta-se d'um povo d'Asia, que promettera o diadema de rei ao primeiro

que, em determinado dia, visse nascer o sol. Correram á praça publica os

ambiciosos da purpura real, e em quanto todos filavam o oriente, houve

um, dos mais avisados, que, voltando costas ao berço do luzeiro

esplendido da terra, pregou os olhos nas arrendadas cupulas d'um

elegante e sumptuoso edificio, que demorava ao occidente.

Foi este que alcançou a corôa. As primeiras frechas de ouro,

arremessadas pelo astro supremo do dia, vieram cravar-se no topo das

elevadas torres d'aquelle templo pagão.

O passado vencera, aqui, o futuro.

Sirva a lenda, n'este estylo e perfume oriental, para explicar o meu

singelo proceder.

Quiz ouvir os murmurios das épocas, que passaram, e que vão perdidas na

escura noite dos tempos. Desejei escutar o trabalho ruidoso dos seculos

que vem, as promessas do futuro, os periodos que se desdobram, e

desenrolam nos horisontes rasgados da nossa idade, pela voz authorisada

e prophetica dos que riram, e dos que soffreram.

Foi por isso, que consultei a marqueza de ***, e a condessa de ***.

Uma é a religião austera do passado, cheia de nobilissimas tradições,

personificação viva da côrte antiga, reflexo ainda esplendoroso da

fidalga portugueza, na altivez das fórmas, na elegancia do dizer, na

familiaridade estudada do trato, na urbanidade singela das maneiras, e

no preito pago constantemente a tudo quanto é grande, nobre e generoso.

A outra, a condessa, senhora da mesma época, nascida, e educada no

centro da mesma sociedade--permittam-me este desalinho de phrase--é,

como a estatua da liberdade, erguida sobre um pedestal de marmore de

Carrara ou de Paros, esquecendo a proposito os pulverulentos pergaminhos

d'outras eras, e os emblemas heraldicos da sua nobillissima familia,

para se lembrar sómente que é ella, esta excellente senhora, uma das

mais illustres victimas das tremendas e formidaveis lutas de

emancipação, por que combatemos e batalhamos ha um seculo.

Sentei-me a seu lado, e escutei-as alternadamente.

Uma fazia-me curvar de joelhos, respeitoso, e reverente, ao rememorar o

passado. A outra robustecia, em mim, este preito, que eu presto

diariamente á imagem sacrosanta da liberdade.

A distincção, a grandeza do porte, a inimitavel polidez, a admiravel

cortezia, a elegancia incomparavel, e as fórmas obsequiosamente

aristocraticas são as mesmas.

Mas a marqueza soffreu, e soffreu muito pelo antigo regimen.

A condessa habitou, em tristezas amargas, e com dôres excruciantes, as

cadêas da côrte pela liberdade.

Uma é a vestal antiga, espiando, sentinella irreprehensivel, junto do

fogo sagrado, se a scentelha divina vai apagar-se, e prompta a

acudir-lhe, solicita, para que o facho se conserve acceso, e immaculado,

na urna etrusca em que brilha e resplandece.

A outra é a musa da democracia--risonha, serena, e impassivel, quer no

carcere, gemendo pela ousadia das suas crenças liberaes, quer a cavallo,

com os cabellos desprendidos ao vento das batalhas, sofrega do ruido, e

do pó e fumo dos combates, ao lado do homem, que o seu coração elegeu

para esposo, e que foi, Achilles d'esta Iliada, um dos heroes nas

epopêas da nossa liberdade.

E com o mesmo respeito, com a mesma attenção, e com a mesma homenagem li

a estas duas illustres senhoras o manuscripto achado na gaveta do meu

contador.

Eu respeito todas as crenças.

Onde ha uma alma, que se eleve nas aspirações grandiosas do futuro, onde

ha um coração, que saiba palpitar, com enthusiasmo, na vasta arena de

todas as religiões do sentimento--ha, ahi, de certo, uma individualidade

marcada com o sello divino.

O Senhor, na omnipotencia dos seus impenetraveis designios, curvando-se,

em toda a sua magestade, no centro do universo, escuta o ruido surdo, e

imperceptivel para ouvidos humanos, da herva ignorada, e rasteira, que

rasga a custo os seios da terra, e ouve a prece fervorosa, e ardente da

alma, que, em effluvios d'amor, se desprende das vaidades do mundo, e

sobe até ao seu throno de gloria.

Só a hypocrisia, e o scepticismo são vis.

Não condemnemos crenças, nem aspirações.

Tenho medo que o credo de hontem seja o anathema de ámanhã.

Apavora-me o receio de que o axioma de hoje, da actualidade, seja a

mentira, e a blasphemia do futuro.

Depois de Platão, d'Aristoteles, de Socrates e de Christo, que sabemos

nós mais do mundo moral?

Newton, Galileu, Harvey, Cuvier, Laplace, Spinosa, Kant, Proudhon e

tantos outros, n'essa pleiade immensa de illustrações, que vão

atravessando os seculos, e renegando symbolos e credos, que passaram,

são, para mim, a demonstração irrespondivel d'este clamor da

consciencia.

Basta.

Volto ao manuscripto.

No pendor d'uma das montanhas sobre que está edificada Lisboa, no ponto

mais suave da encosta, levanta-se um palacio, cuja apparencia é modesta.

Ahi vive a marqueza.

Sobe-se uma escada de marmore á esquerda d'um pateo, que conserva todas

as tradições arabes. No patamar superior rasga-se am corredor sombrio, e

pouco alumiado, que conduz a uma saleta onde as elegancias modernas nada

teem que vêr.

Este aposento não o adornou Gardet, nem o forraram os estofadores mais

afamados dos nossos tempos. Foram os seculos, que o vestiram, que o

alindaram, que lhe cobriram as paredes, e que lhe deram aquella

austeridade de ornamentação, disposta alli por varias gerações.

Ligam-se, e ajustam-se uns aos outros, em severas molduras d'ebano, os

retratos dos avós d'esta illustre familia. Ao lado d'um camarista de

Carlos III, de Hespanha, sorri, em vestuario de côrte, um cavalleiro de

S. Thiago, filho segundo d'esta nobre estirpe. Em convivencia com um

mimoso pagem do Escurial apruma-se, vigoroso e forte, um rico-homem de

Castella, envolto no arrogante e opulento manto de grande de Hespanha. E

as senhoras, oriundas de tão distinctos appellidos, adornadas com as

telas e estofos preciosos de épocas, que já acabaram, parecem estremecer

de jubilo, e anciarem pelo futuro d'aquelles tempos, que são hoje, para

nós, o passado, e a cinza d'aquelles cadaveres.

Foi ahi, n'essa saleta, respirando aquelles perfumes do seculo

preterito, que li á marqueza o manuscripto de que sou legatario por

direito de conquista.

A marqueza, se eu não quizera chamar-lhe a tradição viva, a imagem da

luz diffusa, que se vai immergindo no oceano das nossas tradições

heraldicas, e dos brasões esculpidos nas abobadas dos paços de Cintra,

seria, ainda assim, um reflexo da bondade divina.

Encostada a uma bengala, cujo castão era uma maravilha artistica de

Benvenuto Cellini, envolta em vestes negras, que a acompanham desde a

sua viuvez, sem lhe occultarem a altivez das fórmas, e a superioridade

da mais elevada distincção, ouviu a marqueza, attenta, a leitura dos

trabalhos do desembargador. Sorriu-se ao chegarmos á conclusão, e soltou

apenas estas palavras, fitando os seus avós:

--Visconde, ouça, e aconselhe-se com as illustrações do seculo. Eu sou o

passado. Bata á porta da actualidade.

Beijei-lhe a mão, que a marqueza me estendeu com a elegancia da sua

primorosa educação, e sahi, curvando-me perante a grandeza d'aquelles

nobres instinctos, e suavidade de fórmas, que vão perdidas no nosso

seculo.

Ao levantar o reposteiro, onde o brasão de familia, bordado em lãs

finissimas, brilha no centro dos panos, que rastejam, em vastas pregas

franjadas, n'aquelle recinto, que é um salão de antepassados, um

verdadeiro solar, vedado a olhos profanos--ouvi a voz branda, e

cadenciada da marqueza, que me dizia de pé, em face do retrato de seu

marido:

--Visconde, conte do marquez as historias que lhe narrei.

--Os desejos de v. exc.^a são ordens para mim, minha senhora.

E sahi.

No fundo do passeio publico desdobram-se dous largos. Em um d'elles, por

meio de casas mais ou menos mesquinhas, levanta-se um palacete no estylo

moderno. Ha ahi uma sala, rica de adornos e de todo o conchego, que faz

o confortavel da vida intima.

Vive ahi a condessa.

Pendem das paredes e cobrem as _étagères_ varios retratos de familia.

Ha trabalhos de costura, e de _crochet_ estendidos por sobre as mesas;

ha, finalmente, todos estes pequenos nadas, que explicam os sentimentos

intimos da existencia, e que se traduzem em recordações do lar

domestico.

Não era o vestibulo, entre os romanos, a primeira adoração a Vesta?

A condessa envolta, tambem, nos seus crepes negros, viuva do homem, que

ajudou a cravar, com o vigor, e robustez do seu pulso, o pendão da

liberdade em Portugal--recebeu-me com a semceremonia aristocratica do

seu elegantissimo trato.

Apesar dos annos decorridos, a despeito dos desgostos profundos, das

lagrimas choradas no lugubre captiveiro, dos trabalhos inenarraveis

soffridos em lutas titanicas--conserva a condessa os perfis e contornos

da sua antiga formosura, tão puros, e tão correctos, que, se não é a

Venus irrompendo do seio das ondas espumosas e crystallinas dos mares da

Grecia, na deslumbrante belleza do Olympo pagão, tem, ainda assim, os

vagos e recordaveis traços da austera Juno, quando presidia aos festins

dos deuses.

Ouviu impassivel a leitura do manuscripto.

--Que me diz v. exc.^a a este livro?

Havia um sorriso ironico e espirituoso brincando nos labios da condessa.

--Digo-lhe, que o publique. Mas escute: faltam-lhe ahi os lampejos de fé

viva, a crença robusta na liberdade, que animava e esforçava os heroes

do Porto. Venha, aqui, por vezes, ouvir, como lh'as tenho contado, as

lendas d'essas lutas de gigantes. Perdôe muito, como eu tenho perdoado,

aos homens que se esqueceram ou que erraram. Analíse e estude as

variadas transicções, que nos trouxeram a estas sinistras épocas de

descrença. Consulte o passado.

Abri, para sahir, a porta d'este magico e encantador gabinete na mesma

perplexidade d'espirito com que entrára.

--Ouça, visconde--disse-me ainda esta illustre senhora, na phrase breve,

e perceptivelmente imperiosa com que parece ordenar.--Não esqueça as

historias que lhe tenho narrado. Dê-as como suas ou como escriptas pelo

doutor João Aleixo--nem por isso lhe tomará elle contas na eternidade.

Curvei-me respeitoso, e sahi.

A condessa e a marqueza insistiam pela narração das anecdotas do seu

tempo. Quanto ao mais, quanto á historia vasta, severa, incisiva,

analytica, e verdadeira, como é ou deve ser, mandavam-me estudal-a nos

livros, porque não podiam, não queriam ou não desejavam esclarecer-me.

Creio que o seculo XIX envolveu no sudario da agonia as idolatrias da

idade media, assim como as lendas do Golgotha amortalharam, para todo o

sempre, a mythologia pagã.

Não se repetem agora os clamores sinistros, que reboavam nas florestas

da Thessalia, e se ouviam nas clareiras dos bosques sagrados da Grecia e

de Roma: «Morreu o Deus Pan!»

Mas vai acabando a democracia com os preitos, que as cruzadas, as côrtes

d'amor, os torneios, e as cavallarias feudaes prestavam á mulher,

divinisando-a. Quer-me parecer que a ultima Egeria, _Madame_ Rolland,

expirou no cadafalso em face da estatua da liberdade. É mais uma realeza

que se extingue com tantas outras.

Onde acabava o oraculo começava a crença. Escutei o futuro.

E conservei intacto, sem rasuras, nem entrelinhas, o manuscripto do

desembargador.

VISCONDE DE OUGUELLA.

SUBSIDIOS PARA A HISTORIA

DA

SERENISSIMA CASA DE BRAGANÇA

I

PEDRO DE ALPOEM

Sempre que encontrei este nome ligado á vida aventureira de D. Antonio,

prior do Crato, me detive a scismar no honrado homem que se chamou

assim.

Pedro de Alpoem era portuguez de rija tempera. Seguira o pequeno bando

de D. Antonio, quando o duque de Bragança, D. João, primeiro de nome,

transigiu com Philippe II, por preço que adiante se dirá. Acclamou-o em

Santarem; fêl-o bemquisto da mocidade academica de Coimbra; seguiu-o na

fuga, depois da derrota de Alcantara, até Vianna do Minho; e, d'ahi,

como o infante se agasalhasse em seguro abrigo, voltou a Lisboa a

negociar-lhe a emigração em navio estrangeiro. Colhido de sobresalto

n'esta diligencia, foi posto a tormento. Confessou que viera a Lisboa a

fim de arranjar a passagem do principe; não lhe arrancaram, porém, as

torturas o segredo do escondrijo de D. Antonio. Ameaçaram-no com a

decapitação. Pedro de Alpoem sob-poz o pescoço ao cutello do verdugo, e

pereceu com o segredo do asylo do seu rei. Estremada probidade, que só

por si nobilita o nome portuguez, aviltado pelo maximo da fidalguia

bandeada com o usurpador!

Entristecia-me a mingoada noticia que os historiadores nos transmittiram

de tão memoravel sujeito. E esse pouco foi dadiva de Herrera (_Cinco

libros de la historia de Portugal_, liv. III), de Faria e Sousa (_Europa

portugueza_, tom. III, part. 1, cap. IV), e do opusculo francez

intitulado_ Briefve et sommaire description de la vie et mort de D.

Antoine, premier du nom et dix-huitième roy de Portugal_, impressa em

Paris, no anno 1629.

Uma vez, folheando a _Bibliotheca lusitana_, vi o nome e appellido do

leal amigo de D. Antonio.

Senti uma d'essas raras alegrias que só entendem os que andam a joeirar

o lixo dos seculos por vêr se acham um certo diamante que a maior parte

da gente não trocaria por missangas.

Noites de insomnia, offerecidas a quem não póde dormir. Nº 03 (de 12) · 第 3 / 4 段