Arruda, assevera-me que se alguma vez houve D. Sebastião era aquelle.
Muito instaram os nautas que se deixasse levar a Portugal; «mas
elle--acrescenta o mestre do patacho _Nossa Senhora da
Candelaria_--encarecidamente nos pediu com as lagrimas nos olhos, que o
não precisassemos a tal jornada, pois não chegára ainda o tempo de
passar a Portugal; que pelo amor que nos tinha, o lançassemos, terra
firme, em qualquer parte da Africa; e que debaixo da palavra que lhe
haviamos de dar como portuguezes partiria comnosco; o que lhe juramos.
Perguntamos-lhe se tinha alguma cousa na sua cova, que embarcasse; e
respondeu, que desde que n'ella entrára não cuidára mais que viver para
Deus; e que todos os annos lavrava por suas mãos uma tunica de folhas de
palma, para cobrir honestamente o corpo; na cova não tinha mais que uma
cruz, que por suas mãos fizera de madeira; e que essa deixassem, para
que n'aquella terra ficasse o signal da nossa redempção; e quando ella
se povoasse nos tempos futuros se acharia tambem a noticia do seu
habitador. Embarcou-se comnosco, beijando a terra, com muitas lagrimas;
e fazendo-nos á vela, esteve em nossa companhia dous dias e meio, em que
nos contava monstruosidades d'aquella ilha; e satisfazendo ao seu
pedimento o lançamos em terra duas leguas distante de Arguim,
expondo-lhe os perigos a que se expunha, sem que o podessemos persuadir
a suspender o desembarque em terra de barbaros; ao que respondia, que
Deus que o conservára até aquelle tempo, o livraria de todos os perigos.
«Despediu-se de nós com tantas lagrimas, e gosto, que bem mostrava as
saudades, que de nós levava, e o quanto se alegrava de passar áquella
terra. Abraçou-nos a todos, e saltando em terra, a beijou, e levantando
as mãos agradeceu a Deus as mercês que lhe fizera, e esperava receber da
sua piedosa mão; e penetrando aquella costa inculta, nos deixou sentidos
pela falta da sua companhia. Jámais podemos alcançar, o sabermos d'elle,
a sua patria, e nome; divertindo a resposta politicamente com tanta
gravidade, que nos não dava confiança, para instarmos; e sómente ao
despedir me disse, que a seu tempo o saberiam os nossos descendentes; e
dizendo-lhe eu nos consolasse ao menos declarando o tempo, nos disse:
que Deus o sabia.
«Varios discursos fizemos sobre este homem, conservado por tantos annos
n'aquella ilha, e agora caminhando por taes desertos; e nos persuadimos
ser cousa maior. Deus o leve, e traga a salvamento.»
«Confronte agora v. as datas das sentenças dos tres pontifices, e
deprehenda que D. Sebastião, tendo corrido a Palestina e _varias terras_
como elle disse aos marinheiros, muito é de crêr que estivesse em Roma
nas tres épocas assignaladas na sentença.
«Quanto á circumstancia de estar então o rei bastante avançado na
idade--pois tinha 137 annos--isso é controversia que pertence á alta
philosophia e não ao calendario decidir. São os _porquês_ de Deus, dos
quaes, sobre o mesmo assumpto, escreveu o doutissimo padre Antonio
Vieira:
«Demais que os porquês de Deus são incomprehensiveis, e das suas razões
não póde o entendimento humano dar razão; quanto mais, que Deus Nosso
Senhor sempre faz as suas cousas grandes, e com grandes milagres. Bem
podia Deus dar no tempo do Anti-Christo padres, que a este prégassem, e
com tudo guarda ha tantos annos a Enoch e Elias: outras paridades podéra
trazer se a brevidade as permittira.
«... Ou este rei morreu, ou não! Se morreu, aonde? Na batalha, ou fóra
d'ella? Se fóra d'ella, quem o testemunhou? Se morreu na batalha, como
não acharam os mouros o despojo, que tanto desejavam, e procuravam? Se
morreu no rio, como veio a sua espada? Como mandou o cardeal D. Henrique
aos que se fingiram reis inquirir e perguntar se eram o verdadeiro rei?
Se lhe a elle constára a sua morte, nunca fizera tal inquirição; e a
quem melhor podia constar, senão a elle? E bem se viu, que lhe não fez
exequias, nem officios, sendo um ministro da igreja, a quem
verdadeiramente tocava como rei, como tio, como prelado e por obrigação.
Mais: se morreu, como esteve depois em Veneza, e Napoles, preso e
desprezado, o que consta evidentissimamente, o qual successo refere
Lucio Floro nos seus _Annaes_, e D. João de Castro, que foi testemunha
de vista, o escreveu; e todas as circumstancias d'isso, e os prodigios,
que então succederam o confirmam, os quaes no quarto fundamento d'este
discurso mostraremos? Mais: que o snr. rei D. João IV o testificou e
contou, o que é uma mostra de evidencia certa, e outras muitas, que é
trabalhoso o referil-as por papel.»
«Responda-lhe, se póde.
«Muito venerador
«_Bibliophilo._»
Não tenho que responder. S. s.^a cuidará que eu sou menos sebastianista
que a sua pessoa?
Já lhe disse que escolha uma das obras citadas, e... sabe que mais?
mande-as buscar ambas, que as merece.
DESGRAÇADO BALZAC!
(Á _ACTUALIDADE_)
Tantas vezes o noticiarista repete que eu sou assignante do seu papel,
que parece estar-me convidando a declarar a razão por que assignei.
Eu lh'a digo ao noticiarista. Foi para me regalar com as inepcias do
folhetinista.
Quer-me parecer que os dous são um e mesmissimo tolo (com licença: não
diga que sou incivil).
Se os dous não são homogeneos, então tenho centauro pela frente. Em
cima, no noticiario, está a porção humana do aborto; em baixo, no
folhetim, está (com a devida cortezia) a porção bestial do mesmo
centauro.
Mas ha lanços em que o centauro se cabriola de feitio que a metade
debaixo esperneia em cima; e a gente, a meia volta, não sabe já onde
está o homem, nem onde está (com a divida venia) a bêsta.
O noticiarista, que me dizem chamar-se Silva Pinto, consinta que eu, por
conveniencias da composição e da variedade da fórma, lhe não chame
sempre centauro e tolo. Obriga-me a pedir-lhe licença todas as vezes em
obsequio á urbanidade. O melhor é chamar-lhe, como variante, Silva
Pinto.
O snr. Silva Pinto começou no n.º 16 da _Actualidade_ a traduzir
romances de Balzac.
Ai da nomeada do eminente explorador da alma, se Balzac podesse
espelhar-se na fusca photographia que lhe tirou este encarvoador de
paredes caiadas!
Eu não me despendo em considerações banaes acerca das difficuldades que
empecem trasladar a portuguez os livros de Balzac.
Quem entende as galas dos classicos francezes, e as encontra condensadas
no author dos _Contes drolatiques_, ainda que lhe sóbre igual saber da
linguagem portugueza, ha de vêr-se em apuros para moldurar em estylo
vernaculo as concisões, os idiotismos, a energia, o atticismo de Balzac.
Quem se afoutaria aos espinhos da empreitada? Um sujeito ignorantissimo
de ambos os idiomas: o snr. Silva Pinto.
E, sem mais delongas, vou provar-lh'o. O leitor faça-me o obsequio de se
prover do n.º 16 da _Actualidade_, e abrir isso onde começa o martyrio
de Balzac. Não me demoro a mostrar-lhe que tudo ahi tresanda bafio
francez, sem um torneio de phrase portugueza, sem um resalto que denote
primor, ou sequer um dizer que não venha gafado de construcção
gallicista. Isso é o menos. Vamos ás tolices mais lerdas:
Balzac, descrevendo um sujeito, a quem os seus amigos chamavam
_tempo-brusco_, dá a razão do epitheto n'estes termos:
_Il ne se rencontre en effet chez lui ni lumière trop vive, ni obscurité
complete._
E vai agora o snr. Silva Pinto, parvoejando, traduz:
_Effectivamente, estão banidas por elle de sua casa tanto a luz
demasiado viva como a escuridão completa._
Viram? _chez lui_--de sua casa. Incrivel!
Balzac, interpretado por um portuguez medianamente versado na sua
lingua, quiz dizer:
_Não ha que esperar d'este homem grandes luzes nem grandes trevas._
Mas... _a casa do homem_! Quando quiz Balzac saber se o sujeito tinha
luz ou estava ás escuras em casa? Quem estava em _escuridão completa_
sabemos nós.
Adiante.
Balzac descreve uma senhora rodeada de homens desvanecidos, gentis,
espirituosos, de notavel fama ou nome illustre, de baixa e alta
condição, e acrescenta:
_Auprès d'elle tout a blanchi._
O snr. Silva interpreta assim a phrase:
_Tudo isto via embranquecer á beira d'ella os proprios cabellos._
Quer dizer: _áquelles homens, quando conversavam com aquella senhora,
embranqueciam-se-lhes os proprios cabellos._
Esta sandice faz-me compaixão. Se vejo outra assim, emigro.
Balzac queria dizer: todos estes homens de prestigio, de galhardia, de
renome, aos olhos d'ella, _tout a blanchi_, «eram como se fossem
velhos». Não lhe inquietavam o coração, não lhe perturbavam a serena
indifferença, etc.
Adiante.
Referindo-se á insensibilidade d'esta dama, acrescenta Balzac:
_Certaines femmes coquettes sont capables de suivre ce plan la_. O
author quer dizer: _Certas mulheres galanteadoras tem artes de
dissimularem os mesmos geitos_; mas o snr. Pinto, subtrahindo o
_coquettes_ que dá o relevo ao confronto, diz espalmadamente:
_Ha mulheres capazes de seguir... aquelle plano._
Chatissimo!
Balzac diz que Eugène de Rastignac... _avait plus d'une fois regardé la
marquise de manière à l'embarrasser_.
Traducção do centauro:
_Olhava de quando em quando a marqueza de modo capaz de embaraçal-a._
Ha aqui um fartum de rapaz de escola, que faz engulho. Como é que os
olhos embaraçam a dama? Com os rudimentos da lingua, um traductor menos
soez diria:
_Fitou-a algumas vezes de modo que a inquietou, ou enleou, ou
perturbou._ Abstenho-me de extrahir dos diccionaristas as indecencias
subentendidas na phrase _embaraçal-a_.
Adiante.
Balzac diz que o personagem _etait commodément assis, et avait les pieds
plus souvent sur ses chenets que dans sa chancelière_.
O tal Pinto estraga d'esta arte:
_Estava commodamente sentado e aquecia mais frequentemente os pés no
brazeiro do que no traste forrado de pelles, destinado para tal fim._
No traste forrado de pelles!
_Chancelière_,--uma palavra diluida em nove!
Podia elle, avisinhando-se da indole da lingua, traduzir _capacho_, ou
_ceirão de félpo_, ou _guarda-pés_, ou _pelliça_, por analogia com os
mantos forrados de pelles; mas... _traste!_ Salvo seja!
E traduzir _chenets_ para brazeiro!
Este brazeiro deu-lhe provisão para tolejar á larga, e afogar no
tinteiro as palavras que não percebeu.
Logo em seguida, escreve Balzac:
_Oh! avoir les pieds sur la barre polie qui reunit les deux griffons
d'un garde-cendre_, etc.
Querem vêr o que é uma traducção sovina?
_Oh! conservar os pés junto ao brazeiro..._ E acabou-se.
Áquelles _griphos_ embucharam-no ao bom do Pinto! Passou por aquillo
como o leitor e eu pelas legendas arabes da sé velha de Coimbra. Com a
sua crystallina ignorancia, privou o leitor de entender o suave
sybaritismo do personagem que, refestellado na poltrona, recostava _os
pés no varandim lustroso que entre-une os dous griphos do cinzeiro_.
Percebeu elle que os fogões tem um receptaculo, que recebe a cinza, ao
través de uma grelha, e que os ha ladeados de figuras que formam entre
si o apoio dos pés? Não percebeu nada.
Senhores leitores do Balzac, segundo a _Actualidade_:
O homem que nos vai apresentar o author da _Comedia humana_, vestido de
farrapos bordalengos, é esse que ahi fica... _ás moscas_, até ao numero
seguinte.
* * * * *
Agora, duas palavras graves.
O snr. Theophilo Braga mandou acorrentar este _house-dog_ á porta da
_Actualidade_. Fez mal. Eu tinha-me recolhido mansamente ao silencioso
espanto das arrancadas que os cafres faziam no campo arroteado pelos
Castilhos, Garretts, Herculanos, e outros somenos lidadores d'essa ala
que ahi está exposta ás injurias de tanto biltre. Era meu proposito
deixal-os cavar a sepultura d'elles com o seu proprio escoucear
phrenetico.
Logo, porém, que o rafeiro mais refilado da matilha me latiu á sombra,
quando eu nem sequer o estremava dos anonymos que desprezo,
sacudil-o-hei á cara dos que o açulam, e fal-o-hei portador das minhas
caricias aos que o alimentam, em conformidade com o proverbio: _An
hungry dog will eat dirty pudding._
OS 2 JOAQUINS
Um é o arranjador dos _Musicos_ e de outras maravalhas.
Outro é Theophilo que tambem é _Joaquim_.
E tambem é _Fernandes_.
Expungiu o nome e o appellido, logo que se aforou em letras.
_Joaquim Fernandes_ era a parte chata do sujeito.
Desfez-se d'isto, poz-se ás cavalleiras do genio, e apregoou-se
_Theophilo Braga_[8].
Aviso á posteridade:
Elle era Joaquim!
A fatalidade dera 2 a Portugal, no mesmo seculo.
Gemeos, homogeneos, homonymicos, productos de gravidez longa, parto
feito a urros, ferozes no nascedouro, ringindo com dentes anavalhados,
ao tempo que a lisonja os lambia, para os ageitar, como a ursa faz aos
seus cachorros.
E que cachorros!
* * * * *
Nem os sepulcros respeitam.
Remetteram contra um, simultaneamente, os 2 Joaquins.
A sepultura era de gigante que o leitor, se não o viu, ainda o vê na
projecção da sua imagem pelas paginas do livro amado.
Chamára-se, n'esta vida, ALMEIDA-GARRETT;--e chama-se hoje a gloria
imperecedoura de Portugal.
O Joaquim, que se expurgou de Fernandes, para escoucear o cadaver de
Cesar, disse...
Mas, antes de reler-se o que elle disse, veja-se o que escreveu o editor
de _Helena_, romance posthumo e incompleto do author de _Fr. Luiz de
Sousa_:
«Acabava o anno de 1854; ás primeiras cerrações do outomno inclinára
mortalmente a fronte o snr. visconde de Almeida-Garrett, sentindo no
coração os aggravos da doença que, dentro em pouco e para sempre, havia
de apagar-lhe a luz dos olhos.
«Cresceu o mal. Imminente o perigo, durante os poucos mezes em que a
vida lhe fugia, quiz o nobre enfermo dizer o ultimo adeus ás queridas
producções do seu elegante espirito. Era então que a voz quasi infantil
da filha idolatrada lhe dizia os seus livros todos; foi então que,
revendo o archivo dos seus papeis, elle rasgava os que não deviam
sobreviver-lhe, guardando aquelles que, de mão propria, legava á
posteridade. Era um sol no occaso, revendo-se na luz immensa com que
alumiára a patria.
«Finda a leitura, prompto o legado, extinguiu-se aquella existencia
esplendida, abraçada á cruz de Christo, abençoando a herdeira do seu
nome, e embalada pelos cantos da sua propria harpa. Fim sublime! Sentiu
no ultimo suspiro,--o seu credo, o seu génio e todo o seu coração.»
Agora, Joaquim Theophilo, interpretando com gaiata solercia as palavras
de C. G., genro de Garrett e editor de _Helena_:
«Elle escreve alludindo á morte de Garrett: «Era um sol no occaso
_revendo-se na luz_ immensa com que alumiava a patria.» E em seguida:
«extinguiu-se aquella existencia esplendida _abraçada á cruz_ de
Christo...»
E ajunta o pellitrapo das letras com brutalidade manhosa:
«É de crêr que não haja aqui intenção maliciosa, mas desperta
insensivelmente o dito celebre de Rodrigo da Fonseca Magalhães.»
É impudor glosar essa sordicia que ahi fica. Ninguem se demora a
observar um cão resêcco, pilharengo, derreado, chagoso, que lambe
faminto a sangueira negra de um matadouro.
Até os ossos de Rodrigo da Fonseca lhe serviram á gargalhada!
Nunca o honrado estadista proferira o tal motejo que lhe assacaram,
estando Garrett na agonia da morte.
Garrett morreu entre dous amigos e duas irmãs da caridade.
Eu perguntei a um dos intimos de Fonseca Magalhães, ao desembargador
Northon, se o seu amigo proferira o gracejo tão celebrado.
--Não--respondeu elle--mal sabe a dôr que eu involuntariamente causei a
Rodrigo, quando lhe repeti a proterva zombaria que lhe attribuiam.
* * * * *
Agora, o outro Joaquim, o musicógrapho.
Escrevi em um livro estas linhas em fórma de carta a um amigo:
«Sabes tu o que eu queria roubar á gaveta de José Gomes Monteiro? As
cartas de Almeida-Garrett, as confidencias d'aquelle immenso genio, que
se expandiam na alma e intelligencia de José Gomes Monteiro. Estas
seriam as paginas de ouro da biographia de ambos. Uma sei eu que existe
em que Almeida-Garrett, em perigo de vida ou previsão de morte proxima,
encarrega o seu amigo de defender-lhe a honra e a fama assim que a pedra
sepulchral lhe vedar o direito da defeza. Que sublime legado! que
legitima e jubilosa vaidade para o coração honrado e generoso de José
Gomes Monteiro![9]»
E vai agora, o dos _Musicos_, péga de Garrett, adormecido, havia 19
annos, no sagrado somno dos mortos santificados por saudade, talento e
veneração, e enxovalha-o d'esta arte:
«Sim, senhor, basta isto para nos pintar o janota de 55 annos, que, para
brilhar como um _vieux vert_ aos olhos das _petites maítresses_ de ha 30
annos, não teve vergonha de pintar as suas barbas com elixires, dando
com a sua vida airada a confirmação de que o _genio immenso_ precisa da
_bohème_ para a sua inspiração, etc.[10]».
Alma e linguagem travam-se aqui de mão, e medem a sciencia e a educação
do sujeito. Este snr. Joaquim usa gravata, e não me consta que passasse
a infancia gandaiando nas escadas dos Congregados. Foi educado na
Allemanha, por não caber (diz elle) _nos focos de immundicie physica,
moral e intellectual de dous ou tres collegios do Porto onde o haviam
mettido_[11]. Já vêem que o homem é limpo. Depois, veio á patria para se
formar em Coimbra; e, como aquillo de Coimbra lhe cheirasse aos
collegios do Porto, foi-se embora, e abriu, por sua conta, universidade
de frandulagens no Porto, com succursaes em Allemanha, França, etc.
Não só é conhecido mas até soffregamente lido em Paris.
Elle mesmo nos conta esta cousa no livro onde estou esgaravatando:
«Voltamos serenamente aos nossos trabalhos sobre a _Archeologia
artistica para darmos_ a nova edição critica do _Catalogo da livraria
d'el-rei D. João IV_ que, _como sabemos_ pelo nosso sabio amigo Mr.
Ferdinand Denis, é esperada com impaciencia em Paris.»
Viram? _com impaciencia_.
Era em 1872, quando ainda o coração e o cerebro da França vibravam nas
angustias do opprobrio nacional, da luta fratricida, da devastação, do
petroleo, da ingente miseria das viuvas e dos orphãos. Pois, em meio de
tanto horror, a unica esperança que, a intervallos, dava palpitações de
gaudio a Paris era a impaciencia das turbas, com os olhos postos no
occidente, á espera do livro do nosso, tão nosso, Joaquim! Cada vez que
chegava á capital da França a mala de Portugal, as multidões
acotovelavam-se frementes á porta do Mr. Ferdinand Denis, amigo do
sobredito, e, ullulando insoffridas, pediam o _Catalogo_. O sabio
francez linimentava com promessas o phrenesi da academia e dos
institutos; as massas debandavam; e depois, recolhido ao seu gabinete,
Mr. Denis pedia novamente o _Catalogo_ ao lusitano Joaquim, pintando-lhe
com termos não encarecidos a impaciencia dos seus.
Aqui está quem é o homem lá fora, e cá dentro.
Elle embirra com a maioria do publico portuguez; e justifica a birra
n'estes termos:
«Porque lhe antepomos um ideal que elle não quer ter[12].»
Então? fazem favor de aceitar o ideal que lhe antepõe o snr. Joaquim?
Elle não sabe a significação do verbo _ante-pôr_; mas imagine-se que
quer dizer o que a palavra não diz; presuma-se que nos _offerece_ um
ideal, por um preço razoavel. Que duvida temos em haver ás mãos isso que
o rapaz nos trouxe de Hamburgo, em vez de nos trazer dous costaes de
queijos? Ha de haver muito quem antes quizesse, em vez do _ideal_
anteposto, uma _idéa_ de servir; mas, se Joaquim dá _ideaes_, peguem
n'elles, antes que o homem os exporte, como cá fazem aos bois gordos que
os nossos magarefes não aceitam pela taxa de Londres, posto que lh'os
anteponham.
É o diabo este homem! Má mez p'ra elle!
Lá que o rapazola verbere os escriptores vivos que lhe não aceitam o
ideal, é bem feito. De Mendes Leal, por exemplo, diz que é _uma
antigualha que só apparece nos leilões dos burguezes de ha 40 annos_. De
Castilho diz que lhe riscára o nome, depois que o outro Joaquim _lhe
applicou o processo_. (Ai d'aquelles a quem o outro applica processos!
_Eheu!_) De Herculano diz: «está decrepito». Todos estes e outros de
menos porte são os relapsos do ideal de Joaquim; mas Garrett e Rebello
da Silva? Um era já morto; o outro fallecia quando o enxovedo alvorejava
n'este novo dia da sciencia patria. É crueza injurial-os, posto que
Joaquim Theophilo Fernandes lhes haja _applicado o processo_.
Este Fernandes já processou o Herculano, e disse: «O snr. Alexandre
Herculano nunca teve vocação litteraria[13].» E o _Eurico_? E a
_Abobada_? E o _Monge de Cistér_? E o _Bobo_? e a _Historia de
Portugal_? e a da _Inquisição_! e a _Harpa do crente_? Cuida o leitor
que é mister vocação litteraria para escrever estas cousas? Não, senhor.
Estes livros só os escreve quem a não tem. O snr. Herculano, se tivesse
vocação litteraria, fazia umas botas.
Parte d'aquellas obras diz Fernandes que é glosa da _Notre Dame_ de
Victor Hugo.
_Eurico_ é a variante do typo de _Claudio Frollo_;
O _Monge de Cistér_ é variante da paixão de _Esmeralda e de Phebus_;
O _Bobo_ é o desenvolvimento de Pierre Gringoire;
A _Historia de Portugal_ é apenas a historia dos concelhos precedida da
biographia dos reis.
Depois, escalpella-lhe a linguagem, e diz que o seu estylo _só se
admitte nos rapazes de escóla_[14].
O leitor está em dizer que este Joaquim parvoeira tão fóra dos termos
concedidos aos sandeus que a policia não deve ser estranha ao escandalo.
Mas, n'este comenos, apparece um tal Adolpho Coelho, e diz:
É _Theophilo Braga evidentemente um dos homens mais notaveis que
Portugal tem produzido n'este seculo_[15].
--E quem é Adolpho Coelho?--pergunta o leitor.
Vem Theophilo, e responde:
É o _introductor da sciencia da philologia comparada em Portugal_[16].
Todos estes Joaquins é que sabem lá uns dos outros.
Juntam-se ás vezes e perguntam entre si:
_Theophilo a Coelho_: Quem és tu, ó aquelle?--Resposta: Eu sou o
introductor da philologia comparada em Portugal.
_Coelho a Theophilo_: E tu?--Resposta: Sou um dos homens mais notaveis
que Portugal tem produzido n'este seculo.
_Joaquim dos Musicos a Joaquim dos Mosárabes_: Quem sou eu?--Resposta:
És o musicógrapho, e o inventor dos imperativos _sejai_ e _estejai_.
_O 2.º ao 1.º Joaquim_: E eu?--Tu applicas processos, e eu risco os
nomes.
Ó pandegos, ó lombrigas que roeis o intestino recto da Minerva! Ó
Joaquins! Eu vos arrenego!
[8]No _Diccionario bibliographico_ do snr. I. Francisco da Silva, é
conhecido por _Joaquim Theophilo Fernandes Braga_. (Veja
Supplemento).
[9] _Esboços de apreciações litterarias._
[10] _O consummado germanista_, por Joaquim do Vasconcellos, pag.
50.
[11] _Obra cit._, pag. 2.
[12] _Obra cit._, pag. 9.
[13] _Bibliographia critica_, pag. 106.
[14] _Obra cit._, pag. 200 e 201.
[15] _Obra cit._, pag. 215.
[16] _Obra cit._, pag. 253.
FLORES PARA A SEPULTURA DE FERREIRA RANGEL
É o snr. Antonio Augusto Teixeira de Vasconcellos que m'as envia. Irei
levar-lh'as. Conheço a valia que principia a hervecer. As côres alegres
da esperança cobrem a podridão.
Estão como a dizer-nos que o viver é olhar para diante e para os vivos;
e nada de mortos nem de saudades. Iremos levar-lhe as flôres do seu
amigo da mocidade.
Antonio Augusto escreveu, a respeito de Ferreira Rangel, no seu _Jornal
da Noite_, uma pagina assignaladamente formosa e triste. Alli ha
coração, ha lagrimas, ha o que quer que seja que resgata o delicto da
imprensa, silenciosa, na morte de um valoroso obreiro da liberdade, e
modesto cultor das letras. E, ao proposito de letras, acrescentarei que
Ferreira Rangel, nos derradeiros annos da vida, tinha uns cem volumes de
obras portuguezas mais de sua feição; e, quando expirou, esses cem
volumes estavam empenhados para o custeio dos ultimos caldos.
Indemnise-se a indigencia d'este homem de bem com a riqueza do alto
louvor que lhe apregôa um brilhante espirito a quem não se escondem as
desventuras alheias, nem esmorece o brado a favor dos desvalidos.
Estas são as palavras pungitivas e eloquentes do grande escriptor:
..........................................................................
«Não succedeu porém outro tanto com o artigo intitulado FERREIRA RANGEL.
Ahi assaltou-nos a saudade do homem, a recordação de obsequios
recebidos, a magoa da sua desventura, e não podémos, nem quizemos conter
as lagrimas. Se é vergonha chorar, diga-se que é a mais viciosa vergonha
inventada por homens.
«Conhecemos aquelle Francisco Ferreira Ribeiro Pinto Rangel em 1834.
Ainda morava a Santo Antonio do Penedo em uma especie de ilha sem mar
entre o convento de Santa Clara e o palacio dos Vieiras de Mello, então
habitado pelo visconde de S. Gil de Perre, depois marquez de Terena, e
agora pelo snr. visconde de Azevedo. A supposta ilha era formada, se a
memoria nos não engana, pela capella de Santo Antonio e pela casa do
chamado _escrivão fidalgo_ cujo brazão recentemente collocado alvejava
na frontaria.